Lula e o diabo.

August 4, 2009

Fico muito triste e revoltado quando amigos esclarecidos caem na esparrela deste Governo. Caíam na esparrela do PT ser um partido ético, caem na esparrela do Lula bonzinho que foi dominado pela máquina, e acreditam que tudo antes era pior, contra todas as evidências. É aquele pessoal que quer um mundo melhor, que acredita que Chavez quer propor mesmo uma nova lógica mundial, que Cuba é pobre por causa do embargo americano e que as grandes corporações são o mal do mundo.

Uma das coisas que mais me impressionou quando criança foi quando me disseram que o diabo, se viesse ao mundo, não viria com cara de diabo. Provavelmente viria com cara de criança. A partir daí comecei a desconfiar do que vejo, do óbvio, do consenso. O diabo não falaria o que voce precisa ouvir, mas o que voce QUER ouvir. Voce quer ouvir que o homem é bom? Nem Jesus disse isso, mas o diabo diz se voce quiser. Voce quer ouvir que o Capitalismo é o mal do mundo? Tem muita gente pra lhe dizer isso. Pouca gente no entanto vai enfrentar o risco da impopularidade pra lhe dizer a verdade.

Vou escrever um livro pregando uma nova ordem mundial, pregando a fraternidade e a solidariedade humana. Direi que o Capitalismo corrompe o cidadão e que devemos estabelecer uma nova lógica nas trocas comerciais (eu conheço bem a terminologia a ser empregada). Meu livro será um sucesso, espalhando que a pobreza é fruto da ganancia dos países ricos, do Consenso de Washington, do liberalismo economico. Tem muita gente querendo ler isso, entende? Se eu fosse o diabo, era um livro assim que eu escreveria.

Difícil seria dizer a verdade. Difícil seria explicar que a história humana é complexa e que todo o homem é capaz tanto do bem quanto do mal. Difícil seria convencer que o capital permitiu o homem sair da idade da pedra, e que resolver os problemas deste milênio nada tem a ver com ditaduras e totalitarismos. Enfim, dizer a verdade implicaria em uma longa jornada pela história dos países, pela natureza de seus governantes, pelas decisões tomadas no passado que refletem no hoje. Mas a sedução diabólica sabe que horas de estudo não são uma boa estratégia. Os slogans curtos e fáceis são melhores para angariar os inocentes.

Veja abaixo o texto do Sardenberg, que mostra o método dessa gente. Gente que quer o atraso, para faturar com ele. Gente que não toma UMA medida impopular, pois não quer parar de seduzir. Isso não é governar, isso é diabólico.

Agit-prop
Carlos Alberto Sardenberg

Alguns dizem que é só a intuição do presidente Lula. Mas, além disso, certamente há uma ciência da propaganda nas ações do governo. Tome-se o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2, a ser lançado em 2010, em pleno período eleitoral. Críticos já dizem: Como lançar o 2 se o PAC 1 está enrolado em burocracias, projetos duvidosos, contas erradas e problemas com a legislação ambiental? (Sim, sabemos que, de tempos em tempos, a ministra Dilma faz um balanço para mostrar que as obras vão bem. Mas só anda o que andaria de qualquer modo e frequentemente fora de prazo. Não parece, porque o governo espicha os cronogramas quando não consegue cumpri-los.) Ainda assim, o PAC 1 é de longuíssimo prazo. Para que, então, uma segunda versão?

Por isso mesmo. É uma estratégia de propaganda política ou do que antigamente se chamava agitação e propaganda. A base é a seguinte: muita atividade vale mais que a realização. São coisas bem diferentes. Atividade é o que fazem Lula e Dilma. Viajam muito para tudo quanto é lado, inauguram várias vezes a mesma coisa (o lançamento do projeto, a pedra fundamental, o primeiro trator da terraplenagem, o canteiro de obras nos dois lados da ponte ou dos trilhos ou da estrada, não importa o estágio em que estejam). A refinaria de petróleo de Pernambuco, por exemplo, está enrolada com problemas de superfaturamento e dificuldades na associação entre a Petrobrás e a venezuelana PDVSA, mas já deu uns dez eventos para o presidente, a ministra, mais o Chávez.

Também integra esse ativismo o lançamento de muitos planos, um atrás do outro. O projeto do trem-bala, por exemplo. Era Rio-São Paulo, mas estava enrolado? Pois agora é Rio-São Paulo-Campinas. Custava uns R$ 15 bilhões, já deve ter dobrado.

E aí entra o PAC 2. Nesse ritmo, nem se checou o passado e já há novos anúncios na praça.

Eis o ponto: muita atividade, não importa a eficácia. Tome-se o petróleo. O presidente Lula já se banhou no óleo em dois grandes eventos, para celebrar a autonomia brasileira na produção e o pré-sal. O Brasil ainda importa mais óleo e combustíveis do que exporta e o pré-sal, com modelo atrasado em mais de ano, está longe da exploração comercial em escala razoável. E daí?

Outro ponto é a maciça propaganda, que depende, na partida, da escolha de bons nomes e slogans. O PAC não é um programa propriamente dito, mas a reunião, sob um nome comum, de projetos que estavam ou estariam ocorrendo de qualquer modo. Hidrelétricas que estão planejadas há anos, estradas, etc., são empacotadas no PAC, mas não ganham com isso um procedimento diferente. Analistas já sugeriram, por exemplo, que obras do PAC tivessem um regime especial de licenciamento ambiental, mais rápido, numa única instância, ou um sistema de financiamento especial. Mas não, é só o pacote. E até o pessoal descobrir que a maior parte é jogo de cena, a popularidade de Lula já foi lá em cima e a eleição já passou.

Claro que o Bolsa-Família não é enganação. Aliás, é o programa de maior eficácia do presidente Lula, nos dois sentidos: distribui renda aos mais pobres e votos para o presidente e, espera ele, seus aliados. Mas mesmo o Bolsa-Família está no esquema do ativismo. Tem sempre uma novidade, troca de cartões, ampliação do universo de beneficiados, reajuste forte. O tema interessa ao governo porque atordoa uma oposição já desnorteada. Qualquer restrição que a oposição venha a fazer já serve para carimbá-la como elites ricas que não ligam para os pobres.

E assim vai: bons slogans, um plano atrás do outro, muitas viagens, eventos e discursos martelando as mensagens. E escondendo tudo o que não interessa. Outro dia o Plano Real completou 15 anos e o governo não deu um pio, embora tenha sido o grande beneficiário dele. Mas Lula ainda não conseguiu se apropriar do real. Está quase. Já é o dono da inflação controlada.

Estado assistencial – O Bolsa-Família deve chegar ao final do ano atendendo 12,5 milhões de famílias. Considerando quatro pessoas por família, serão 50 milhões de pessoas dependendo direta e exclusivamente, na maioria dos casos, do dinheiro do governo. Trata-se de 30% da população nacional.

Esse tipo de programa, em tese, teria prazo limitado. A assistência seria concedida enquanto os membros da família não encontram empregos que lhes permitam uma vida digna. Ora, a geração de empregos depende do crescimento econômico.

Ocorre que a economia nacional, nas atuais circunstâncias, dificilmente será dinâmica. Há uma opção pelo Estado assistencial, não pelo Estado investidor.

Considerados os programas sociais, aqueles pelos quais o governo faz pagamento direto a pessoas, incluindo aí as aposentadorias rurais e a política de reajuste real do salário mínimo, chegaremos perto de 50% da população dependendo do dinheiro do Estado. Mesmo sendo justiça social, não sai de graça. O governo precisa recolher muitos impostos para pagar tudo isso. Sobra pouco para investimentos.

Pode-se dizer que a renda distribuída cria um mercado interno, que vai estimular a produção de bens. Com o setor privado investindo para produzir tais bens, a coisa se fecharia.

Fecharia? Começa que pesada carga tributária incide sobre os investimentos e retira competitividade das empresas. E não há um ambiente de negócios favorável. A carga tributária não há como resolver. Na medida em que os programas sociais se ampliam e se tornam perenes – isso junto com a expansão de todos os demais gastos públicos -, não há como o governo deixar de recolher impostos. Mas uma grande reforma para melhorar a vida de quem quer fazer negócios e empreender já ajudaria muito.

De todo modo, com esse modelo, o Brasil não cresce mais 5% nos anos bons. Sobra pouco dinheiro para investimentos. É o contrário da China, que tem quase nada de assistência social e tudo de investimentos. A situação dos chineses hoje é pior, mas eles ganham renda mais rapidamente todos os anos.

(O Estado de S. Paulo – 03/08/2009)

Velho Ditado

June 5, 2009

“É fácil montar num tigre. Difícil é desmontar dele.”

Li este ditado hoje e me peguei pensando como é importante validar os pensamentos, as idéias, no longo prazo. Tal coisa vale agora? Mas e depois? Faz-se uma revolucão socialista e a vida melhora – fica provado que o Socialismo funciona. Depois, quando toda a estrutura produzida pelo Capitalismo vai inexoravelmente pras cucuias (por fenômenos que não dá pra descrever rapidamente), não entende-se como é que tudo chegou onde chegou. Houve quem pensou: no Socialismo, a vida melhora! Houve quem disse: – Pelo menos ninguém morre de fome! Depois da melhora momentânea, vem o inexorável fracasso de quem não tem intimidade com análises de causa e efeito.
Um dos aspectos de longo prazo neste caso é que a fome, apesar de ser sim uma das necessidades mais imediatas do ser humano, está longe de ser a única. Os milhares de estudantes que protestavam em Tiananmen e que deram suas vidas por algo mais do que alimento são a prova que quem vive pra comer são as vacas. A ausência de famintos querendo embarcar para Cuba também grita que há algo errado com o argumento. Mas Luciano, se todo mundo come, está dada a condição para a felicidade. Sim, verdade. Desde que se consiga continuamente manter a população saciada e que se esteja preparado para suprir as outras necessidades básicas do ser humano (a liberdade entre elas). Mas vamos adiante.
Sou engenheiro e como tal não costumo refutar dados científicos. Camisinhas realmente evitam a transmissão do vírus da AIDS. Se quiser ficar 99% protegido (acho que não chega a 100%), use a dita cuja sempre. Recomendo! Mas como política estatal de combate à epidemia de HIV simplesmente não funciona. Como assim? Não acabei de dizer que é 99% eficaz? É... mas evitemos montar no tigre sem pensar no amanhã...
Ora, a distribuição de camisinha em escolas e ambientes públicos tem aumentado a sensação de segurança das pessoas e reduzido a idade de iniciação sexual de muitos jovens. E especialistas (não eu) apontam para o comportamento do jovem que, sentindo-se seguro, usa a camisinha QUASE sempre. Aí é que o caldo desanda.
Pra quem duvida, olhem a tuberculose, para ficar em só um exemplo. Remédios existem em qualquer farmácia, mas a sensação de melhora faz com que pacientes abandonem o tratamento. Até hoje ninguém conseguiu combater este fato. Se me perguntarem se o remédio para tuberculose funciona, eu respondo que sim. Já salvou muita gente? E como! Se me perguntarem então se devemos distribuir nas esquinas o remédio, respondo que é inócuo. Não é a falta do remédio o problema.
O paralelo com o HIV é óbvio. No Brasil tem professor levando pênis de borracha para ensinar às crianças como usar o preservativo. Um show de horror e o vírus agradece!
Olhar adiante. Pensar nos efeitos colaterais. Entender a cadeia de relações que cada atitude encerra. Enfim, entender que, mesmo fácil, talvez seja melhor não montar no tigre.

Af-Paq

May 29, 2009

Está em curso uma tragédia humanitária de grandes proporções. No Paquistão, o conflito entre o Exército e o grupos radicais islâmicos (Talibãs, Al Qaeda, etc) já deixa 2 milhões e meio de refugiados e mil mortos.
Aos que gostam de posar de humanistas, progressistas e coisas “fashion” da mesma espécie, lembro que esses grupos estavam já a cem quilômetros da capital do país. País este que tem armas nucleares.
Mais um exemplo de como os milhares de dilemas que uma guerra – qualquer guerra – apresenta não aceitam maniqueísmos.

Eu acho inadimissível que radicais controlem armamento atômico. Assim como acho inadimissível que forcem pessoas a seguir esta ou aquela religião, usar véus pretos, e toda essa parafernália opressora. Mas também não dá pra ficar insensível a dois milhões e meio de refugiados. Numa época onde o mais parvo dos homens pratica a Realpolitik em nome de valores morais – numa contradição esmagadora – é preciso ser claro quanto a que mundo se quer.

As revoluções e grupos ideológicos se perpetuam porque seu objetivo de mundo é etéreo como uma névoa grossa. Todos acreditam que lá dentro da nuvem existe algo melhor. Quando são bem sucedidos, chegando ao poder e tendo que colocar no papel o que querem, começam a ver que cada um tem uma idéia diferente do que o mundo deve ser. Aï começa o fracasso inerente a qualquer revolução.

Então aconselho menos revolução, menos progressismo, menos “luta por um mundo melhor” e um pouco mais de realismo. No caso do Af-Paq (Afeganistão e Paquistão), que é como o assunto tem sido chamado, quem não sabe muito bem que mundo quer acaba ficando perdido. Por mais que eu considere a causa Palestina, o problema do Af-Paq tem dimensões maiores. Assim como teve Ruanda, mas já falei disso aqui. Um conselho: fujam das questões onde as torcidas se posicionam muito facilmente. Normalmente os dois lados estão errados.

Raramente as verdadeiras questões são de fácil compreensão das torcidas…

O povo que enxerga mas não vê.

April 30, 2009

Adianta a demagogia das cotas? Adianta proclamar a “Democratização da Universidade” quando, o resultado do ENEM nos mostra:

  • das mil escolas com as piores notas, 965 são públicas;

  • entre as mil melhores, apenas 36 são públicas.

E 85% dos estudantes matriculados no ensino de nível médio estão em estabelecimentos públicos.

A ditadura do pensamento engajado.

April 25, 2009

Tenho dois blogs. Esse e um outro, pra manter a família e os amigos por dentro dos últimos acontecimentos. O último tem seu endereço colocado em muitas páginas de amigos, mas este aqui não… O Fermento Cínico tem sim é alguns links vindos de blogs desconhecidos, de gente que está acostumada a nadar contra a maré.

O que dizer?

Todo mundo acha maneiro dizer que quer um mundo mais justo. Quer comer salada e salvar o planeta.
Todo mundo acha Obama “O cara”. Mas todo mundo finge que não acha…
Pra galera, Lula era o povo no poder. Agora, todo mundo se diz desapontado, mas detestam FHC.
Todo mundo acha que Daniel Dantas é o dragão e que Protógenes é São Jorge.
Todo mundo acha que o mensalão foi coisa normal, de sempre.
Todo blogueiro adora a Palestina, e no íntimo quer ver Israel na fogueira.
Todo mundo tem pena da África, mas não sabe onde fica Ruanda.
Todo mundo acha que o mundo é ruim porque o Capitalismo estimula a cobiça.
O bom agora é respeitar as diferenças culturais.
Todo mundo acha que a polícia tá sempre errada. Todo mundo acha que em nome do povo tudo se justifica.
Esquerda é boa e a Direita é malvada. O rico é o inimigo.

E assim vai, nesta época de ativismo embalado à vácuo.

To fora!
Pelejei muito pra entender que a realidade é uma teia infinita de relações, de causas e consequencias. Pelejei pra entender que valores não são artigos de circunstância, de aplicabilidade variada e variável. Pelejei também pra entender que a vida é curta pra abdicar de pensar.

Quando Lula levou uma vaia no Maracanã, escutei de gente inteligente a justificativa de que a vaia vinha de gente rica. Foi quando entendi a profundidade do poço. Se continuarmos neste caminho, terminamos na guilhotina. Mas a sutileza é por demais leve para os dias atuais…

O assunto Cuba dominou o encontro da Cúpula das Américas. Então, comento aqui…

April 21, 2009

Cuba é um pequeno país no Caribe como tantos outros que não costumam ocupar as páginas dos jornais, a não ser as de Turismo. No entanto, desde que Fidel Castro conseguiu reunir um pequeno exército e derrubou a ditadura de Fulgêncio Baptista, o país passou a receber uma atenção só explicável pelo entendimento do que um país socialista na América representava, em plena Guerra Fria.

A vitória foi comemorada pelo povo no princípio, mas, como a história não cansa de ensinar, o apego ao poder faz com que todo governo revolucionário se torne tirano. Os agentes revolucionários passaram logo a procurar os “inimigos da revolução” e, num passo lógico, encontraram no Socialismo uma teoria política para justificar o horror. A revolução cubana não foi socialista como muitos acreditam. Foi se tornando socialista tão logo a Liberdade foi considerada artigo reacionário.

E Cuba virou notícia, cumprindo seu papel de componente ativo da guerra fria. Da irrelevância, passou a modelo de socialismo das Américas, farol para grupos armados e para a esquerda retrógrada. Fidel matou seus opositores, transformou a ilha em uma prisão, e, criou uma rede de proteção social que mantém os habitantes vivos. Seus defensores afirmam que a educação é de qualidade e que pelo menos ninguém morre de fome. Educação de qualidade é piada de mau gosto, num ambiente onde não existe debate, diferenças de opinião, acesso livre a livros nem internet. Isso não é educação, é treino. Quanto à ninguém morrer de fome, bem, tenho a dizer que, para uma prisão, nenhuma surpresa. Zoológicos também conseguem este feito e lá os animais também não morrem de fome. Todos os dias esperam sua ração, como zumbis despidos de dignidade. Não desejo isso nem ao sapinho azul da amazônia, muito menos aos cubanos.

Alguns diriam que é culpa do embargo americano. Por mais que o embargo há muito tempo não impeça Cuba de negociar com qualquer outro país do mundo, e que graças a ele Cuba tenha recebido uma generosa mesada da então URSS, pode-se supor que prejudique em certa extensão. Ora, se este embargo maléfico mantém o povo na miséria, bastaria ao Regime Castrista soltar seus prisioneiros e realizar eleições. O embargo cessaria no mês seguinte. Isso se fosse vontade sincera de Fidel deixar a população decidir o seu destino. Mas porque abandonar este emprego vitalício, cheio de privilégios, e correr o risco de descobrir que a população não pensa como o resto dos militantes latino-americanos? Édem socialista no país dos outros é refresco… Ou bastava ainda deixar sair quem assim quisesse. Ficaria alguém?

Teóricos socialistas pensam que é preciso proteger o “povo” de si mesmo. Não sei se Fidel é um teórico socialista. Pode ser que seja apenas um ditador comum.

Seguem dois blogs de jovens cubanos, tentando mostrar o que é viver em Cuba. Mas já aviso que o acesso é difícil, como se poderia imaginar…

Generacion Y

Desde aqui

Termino colocando aqui um texto extraído do portal Desde Cuba, sobre os 50 anos da Revolução:

“Las conmemoraciones obligan al balance, al inventario de lo alcanzado, al cómputo de lo que falta. Si buscáramos una expresión que sintetice un arqueo del 50 aniversario del triunfo de la revolución cubana diríamos, si somos optimistas, una sola palabra: insatisfacción.

Los medios oficiales han puesto su énfasis en la historia, en el relato heroico del calvario transitado por los mártires, el sacrificio de todo un pueblo que resiste, las agresiones sufridas, el acoso del imperio. En segundo plano, escenas de niños que nacen, escolares de uniforme saludando la bandera, jóvenes médicos salvando vidas en los sitios más apartados del mundo.

Los críticos hacen su fiesta mostrando la cara fea de la realidad: las ciudades destruidas, las industrias obsoletas, las cárceles multiplicadas, los campos sin cultivar, la gente haciendo largas colas o colgada de un ómnibus repleto, jóvenes persiguiendo turistas, policías persiguiendo jóvenes y el mar salpicado de balsas atestadas de cubanos que escapan.

Si no somos optimistas tenemos que usar otra palabra: frustración.

¿Dónde están los extensos pastizales ocupados por las vacas más productivas del mundo? ¿Dónde, la nueva arquitectura resistente al clima; el vergel de frutas, viandas y vegetales; el eficiente y puntual transporte público, los sitios donde el obrero lleva a su familia a recrearse.
¿Dónde está el hombre nuevo, libre y pleno, dueño de su destino?

Un balance serio estaría obligado a responder con claridad la pregunta de si hay una relación favorable entre el costo y la gratificación, si ha valido la pena recorrer el largo y tortuoso camino elegido para arribar al sitio donde estamos. Cincuenta años después deberíamos estar en la posibilidad de, evocando a Camilo Cienfuegos, preguntarnos si hemos llegado ya al día en que podamos decirle a los caídos: “Hermanos, la revolución está hecha, vuestra sangre no se derramó en vano”.

La historia deja cicatrices en los pueblos, pero deja también enseñanzas. Por suerte, estos no serán los últimos cincuenta años de la existencia de Cuba como nación, por suerte no somos pesimistas y no tenemos que elegir, para expresar la síntesis de nuestro balance, la peor de las palabras: naufragio.”

Quer algo do Brasil? Diga que Lula é o cara!

April 20, 2009

Abaixo vai um exemplo prático de como a Diplomacia Brasileira, despida de pragmatismo, alegra os salões mundo afora sem, no entanto, render nenhum fruto ao país. Essa gente é muito aborrecida. Previsível demais.

Afagos diplomáticos e oba-obamismos
Autor(es): Marcelo de Paiva Abreu
O Estado de S. Paulo – 20/04/2009

O que revela a autópsia da reunião do G-20 em Londres? Numa ótica global, dadas as expectativas modestas, houve avanço em alguns temas cruciais. Em torno deste núcleo duro de compromissos, ainda que meio nebulosos e envolvendo superposição com promessas anteriores, foram arrolados outros temas cuja menção é politicamente de rigueur em reuniões similares: comércio, clima e tratamento justo das economias menos desenvolvidas. Mais uma vez, foi reafirmado que são temas importantes e merecedores de grande atenção dos governos do G-20…

As duas questões mais importantes abordadas a sério na cúpula foram o aporte adicional de recursos a instituições multilaterais e o esforço coordenado para aprimorar o marco regulatório do sistema financeiro, incluindo disciplinas de abrangência global.

O sucesso quanto à mobilização de recursos adicionais para enfrentar a crise parece indiscutível: aportes adicionais ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mobilização de Direitos Especiais de Saque, aportes a bancos multilaterais de desenvolvimento e agências de financiamento de comércio exterior somam US$ 1,1 trilhão. É claro que a operacionalização de tais compromissos envolverá dificuldades substanciais, mas o balizamento para ações de sustentação da demanda está delineado.

Em relação à construção de um marco regulatório multilateral, os circunlóquios no texto de declaração foram insuficientes para ocultar as grandes diferenças entre big players, como Estados Unidos, China e França, tanto em relação à conciliação de interesses nacionais e globais no novo marco regulatório quanto à aceitação de critérios de aplicação não controvertida para caracterizar “jurisdições não cooperativas”, ou seja, paraísos fiscais.

Para o Brasil os resultados da reunião de 2 de abril foram desapontadores, não obstante o oba-obamismo que caracterizou boa parte das avaliações que tenderam a confundir espuma com resultados concretos. Na fotografia oficial dos chefes de Estado que compareceram ao jantar oferecido pela rainha, o presidente Lula foi colocado pelo protocolo imediatamente à esquerda de Elisabeth II, com Gordon Brown à direita. Barack Obama efetivamente disse: “Este é o cara…, é o político mais popular do planeta.” Depois continuou: “É por ser boa pinta.” O vídeo da BBC mostra que Lula, espertamente, não responde e parece suspeitar de que “esse cara está de brincadeira…”

A posição protocolar nas fotografias oficiais e os comentários simpáticos e brincalhões de Obama deram margem a comentários não muito ponderados sobre a importância crescente do Brasil no cenário mundial. Mesmo em arraiais de esquerda radical as referências de Obama, presidente da potência imperial, foram de algum modo interpretadas positivamente. Elogio, até do diabo vale. Desde a reunião, incontáveis matérias e caricaturas especularam sobre quão enciumado estaria Fernando Henrique Cardoso com a proeminência de Lula.

O vezo nacional por plumas e espumas – um travo de vaidade misturada com ingenuidade – é algo percebido pelos nossos parceiros que tentam explorá-lo em seu benefício. Tal fraqueza era percebida até mesmo no caso de estadistas mais circunspectos. Em 1941, por exemplo, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill instruiu o Foreign Office a adotar como pilar da política britânica para o Brasil: “Acariciar Vargas”, “petting Vargas” (minuta de 27/10/41, Arquivos do Foreign Office, FO 371, General Correspondence: Political, A8705/190/6). Barack Obama é certamente mais simpático e habilidoso, mas a tecla parece familiar.

Há abordagens analíticas menos dependentes de, literalmente, “ficar bem na foto”, para avaliar o Brasil no G-20. Não cabe qualquer dúvida quanto à posição de Lula como representante destacado das economias emergentes no foro do G-20. É fruto da combinação do sucesso de sua carreira política – misturando pertinácia, argúcia e capacidade de negociação – com, ironicamente, boa gestão da herança de políticas macroeconômicas prudentes que lhe foi legada pelo governo anterior.

Mas o que mais interessa não é simplesmente constatar o crescente peso de Lula no cenário internacional. É avaliar em que medida essa influência está sendo utilizada para alcançar os objetivos da política externa brasileira.

Antes de Londres, o discurso presidencial recente concentrou-se na denúncia do protecionismo. O G-20, na declaração após a reunião de Washington, em novembro de 2008, havia explicitado que faria os melhores esforços para viabilizar a Rodada Doha até o final de 2008. Compromisso renegado. Em Londres, a ênfase brasileira centrou-se, de novo, em assegurar a conclusão da Rodada Doha. Mas a declaração final não foi além da repetição de que haverá esforço para não aumentar a proteção e que concluir a rodada “em bases ambiciosas e equilibradas” permanece um objetivo central. Não é convincente a justificativa de que o avanço foi possível porque a administração Obama não preencheu cargos cruciais para viabilizar a negociação. A demora em preencher cargos pode ser interpretada como explicitação da baixa prioridade do tema na agenda atual dos Estados Unidos.

A ótica substantiva que poderia levar a uma avaliação otimista da reunião de Londres estaria relacionada às pretensões do Brasil em relação ao Conselho de Segurança da ONU - teimosa reivindicação do Itamaraty, cuja racionalidade continua discutível. No mais, espuma e afagos. No ego do presidente e no País.

As the time goes by…

April 19, 2009

A vida de estudante secundarista pode parecer bastante vulgar para quem tem mais de 30 anos. E realmente, a não ser para os próprios adolescentes, não há muito do que se orgulhar nesta fase da vida, onde estamos mais preocupados em entender todas as mudanças pelas quais passamos, em decifrar o que as garotas pensam, e, enfim, nos divertir com qualquer coisa.

Ter participado do Grêmio Estudantil do meu colégio foi minha tentativa de fazer algo realmente memorável. Claro que outras motivações (a saber: autorizações especiais para deixar a classe) também tinham peso, mas nossa chapa caracterizava-se justamente por sermos os mais intelectuais, nerds mesmo. Eramos progressistas realistas, numa salada ideológica que fazíamos, sem resultado prático nenhum. Tinha de Paulo Freire, passando por Marx e chegando em MDB. Até um fã do Brizola tínhamos. Nesta época, em meu colégio, o simples fato de se ter ALGUMA opinião sobre política significava ser realmente “cabeça”. Passando longe de títulos, como socialistas ou liberais, nos orgulhávamos antes de tudo, secretamente, de nossa inteligência. Sim, éramos rápidos no gatilho. Não à toa, “vencemos” os debates patrocinados pelo colégio. Concorremos com uma chapa de alunos em grande parte repetentes e populares, chamada de “Restos do Nada” (que hoje, ironicamente, acho um nome sensacional). E confesso, não me lembro mais de muita coisa. Acho que por fim não fiz nada digno de memória, a não ser um jornalzinho politizado que não teve mais do que duas edições.

Me lembro bem, no entanto, que como órgão representante dos alunos do meu colégio, fomos convidados para a Assembléia dos Estudantes Secundaristas de Florianópolis. Nunca ninguém do riquinho e alienado Colégio Catarinense tinha dado as caras por lá. O convite era mera formalidade. Não havia a menor expectativa de comparecimento dos “filhinhos de papai”. Pois qual não foi a surpresa da tal assembléia quando entramos no salão com uma delegação muito numerosa pois, pela proporcionalidade, tínhamos de longe o maior número de representantes – éramos o maior colégio da cidade. E me lembro bem de ver as caras espantadas, de alunos “profissionais”, que tinham mais de 20 anos com certeza, vendo ali um risco iminente aos seus planos políticos. Na época, não existia PSTU e o PT era a sigla radical, acolhendo inclusive a UJS (União da Juventude Socialista), espécie de Al Qaeda jovem, querendo destruir a civilização judáico-cristã ocidental.

O que aconteceu depois foi um despertar da minha consciência, vislumbrando um mundo onde a razão pode predominar sobre a ignorância. A cada item em votação da pauta de posicionamentos da entidade, nós nos comunicávamos por sinais, chegávamos em segundos a um denominador comum e votávamos em bloco, impondo uma das raras derrotas aos manipuladores ideológicos de plantão. “Pelo não pagamento da Dívida Externa”- CONTRA!. “Pela expulsão do FMI” – CONTRA! “Impedir a internacionalização da Amazônia” – CONTRA! O riso me volta ainda hoje…

Não éramos necessariamente contra todas estas posições políticas, pelo menos não unanimemente. Mas tínhamos bom senso para saber que uma entidade daquelas tinha que ocupar seu tempo em exigir qualidade de ensino ao invés de servir de massa de manobra para grupelhos de esquerda. Por fim, elegemos uma diretoria que parecia ser mais sensata e fomos embora, rindo espetáculo de manipulação que tínhamos presenciado e em grande parte conseguido evitar.

E assim consegui finalmente meu feito memorável, aquele do qual não esqueço. É claro que hoje vejo que muitas outras coisas foram tão ou mais importantes naquela época para minha vida. Mas olhar o inimigo na face e vencer não tem preço.

Diplomacia e Postura

April 14, 2009

A Diplomacia, e toda sua complexidade, não é muito diferente do esforço que cada um fez, em sua infância, durante os anos de estudos secundaristas. Os países, assim como alunos em uma sala de aula, procuram proteção, amizades, se unem com colegas com os quais nutrem afinidades. As vezes se aproximam com o único intuito de obter alguma vantagem específica – um convite para uma festa, ou a participação em algum fórum, dependendo do exemplo. Outras vezes, a aproximação é definida pelos interesses comuns, o que chamamos normalmente de amizade.

De qualquer forma, tanto na escola quanto na política internacional, mesmo que na maioria das vezes isso aconteça de forma difusa, as relações são sempre baseadas em benefícios angariados. Mesmo nas amizades que consideramos as mais puras, procuramos sempre um ganho, seja ele segurança, divertimento, aceitação.

Seria fácil se fosse só isso. Entretanto, cada um tem sua prioridade, seu entendimento do que seja este ganho, do que seja capaz de lhe proporcionar satisfação. As diferentes escalas de valores, trazidas de casa, turvam e complicam os relacionamentos, estabelecendo que não basta um esforço de conquista de aliados simplesmente, mas que é preciso também a identificação de valores alheios, compatíveis com os nossos. Esta necessidade faz com que a união de esforços seja sempre um processo complexo e pontual. E faz também que a amizade seja uma construção, um processo de estabelecimento de confiança. A diferença entre a escala de valores de cada “aluno” torna difícil a compatibilidade total entre dois entes, fazendo a sobrevivência depender de uma infinidade de pequenas e constantes negociações. Por isso é importante que, no caso ampliado, a chancelaria de um país não siga os ventos das marés políticas internas, mas que tente estabelecer uma personalidade coerente que se mantenha com o tempo. Tanto para permitir que outros nos identifiquem como parceiros, tanto para permitir que conquistemos aqueles que nos interessam. Coerência é um dos componentes principais da amizade, seja na ONU, seja na escolinha.

O Governo Lula tem pervertido este princípio. Ao estabelecer a nova ênfase de nossa política externa, não se limitou apenas à trocar de estratégia. Agiu como se houvesse conquistado o poder e estabeleceu uma mudança na própria personalidade diplomática nacional. No colégio, quem se comportava assim, erraticamente, era considerado “traíra”. Quando estabelecemos a confiança, sedimentamos os fundamentos da amizade. Amigos que não respeitam estes fundamentos são tratados sem perdão. É por esse paralelo singelo que é possível entender a fabulosa coleção de derrotas da diplomacia atual. Mesmo quando logramos alguma vitória, não fica muito claro o que se ganhou, pois não sendo mais confiáveis, não podemos mais oferecer confiança, restando-nos ceder para manter relacionamentos. Estes por sua vez são cada vez mais atraídos unicamente pela perspectiva de ganho.

Como um bom fingido, que procura vantagens sem o ônus da coerência, falamos sem parar. Nunca se ouviu tanto a voz de nosso Chanceler. Fala muito, canta suas próprias glórias, mas sempre há uma falta de conteúdo, uma falta de verdade, que foi jogada fora junto a um século de história.
Muito tempo passará até que reconquistemos a confiança da turma, restando-nos o papel de presença peculiar, de animadores de festa. Somos “os caras”, afinal. Ainda bem que somos bonitos…

Sobre opiniões e princípios.

April 13, 2009

A Mariana e eu temos trocado algumas idéias ultimamente, no espaço reservado aos comentários do post “Ainda o tema do momento.”. Seu último comentário, sobre princípios e exemplos, despertou-me vários pensamentos e achei que ele merecia um post novo, só sobre o assunto.

Apesar de alguns dicionários o definirem como opinião, entendo que um princípio deva ser uma lei pessoal, uma espécie de Carta Magna de escala de valores. Alguns livros o definem: “regras fundamentais admitidas como base de uma ciência, de uma arte etc.” Outros ainda: “norma, preceito moral”. Se não for assim, não é princípio. Pode ser uma idéia, uma preferência. Mas princípio não é.

Assim definido, uma opinião, uma tese, só se torna princípio quando testada pela realidade, ou formulada a partir dela. Afinal, é para a própria vida a que são destinados tais preceitos, caso contrário tornando-se estéril exercício de intelectualidade. Não existe moral teórica. Se em determinada situação específica, única em suas particularidades – que redundância! os específicos são sempre únicos – não somos capazes de agir de acordo com nossos princípios, temos então uma prova que nosso pensar precisa de uma nova constituição. E é maravilhoso que seja assim, em um processo de lapidação contínua, próprio de quem é capaz de ir construindo sua personalidade.

Alguém diria: – ah Luciano, mas um princípio é apenas um ponto de partida teórico, que deve ser adaptado para cada caso. Sim, é verdade. Só que, no momento seguinte o ponto de partida já será outro, uma vez acumulada a mais nova experiência. Não deixou de existir uma mudança de conceitos e um reconhecimento de que o ponto de partida não era adequado.

No meu caso particular, ser contra ou a favor do aborto não é um princípio, é apenas uma opinião. No entanto penso que toda a vida vale a pena. Isto é para mim um valor fundante de minha intelectualidade, um verdadeiro princípio! Nem sempre foi assim, é só é assim porque, em todos os casos particulares que encontrei pelo caminho, ele aplicou-se inteiramente.

Raízes da Decadência

April 8, 2009

Um dos grandes males do populismo é referendar como verdade algumas visões simplórias e comumente erradas da realidade de um país. O populista quer sempre simplificar, quer reduzir o raciocínio a uma ou duas escolhas para que, invariavelmente, seja ele o santo redentor. Este foi o caminho percorrido por muitos países em diferentes épocas, e por nós mesmos, antes e agora.
Uma visão que se encaixa neste cenário é aquela que atribui às elites a culpa por todos os males do Brasil. Expediente adotado ao extremo pelo Presidente da República, esta mentira é também fermento da degradação moral da nação e “tampa de caixão” que impede qualquer lampejo de reação.
Culpar a elite por todos os males nacionais é tão falso como uma nota de três reais. Este pensamento, profundamente enraizado na pseudo-ideologia socialista universitária, santifica o povo, de onde apenas viria o bem e a justiça, e demoniza a elite, de onde só se espera exploração e dominação. É uma idéia compreensível aos alunos do pré-primário e seus equivalentes mais adultos, mas reduz a complexidade da teia social à meia dúzia de leis simplórias que nem de longe fazem justiça à história brasileira e de sua sociedade. Efetivamente, a elite brasileira foi protagonista de muitos lances maléficos ao desenvolvimento nacional. No entanto, foi também de seu meio que surgiram a quase totalidade das iniciativas engrandecedoras da nação. É dela que devemos esperar a defesa dos ideais mais altos, da justiça mais digna. Veja o que dizia Rui Barbosa:

    “[...] creio no governo do povo pelo povo; creio, porém, que o governo do povo pelo povo tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional pelo desenvolvimento nacional do ensino, para o qual as maiores liberalidades do Tesouro constituirão sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza pública; creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições, porque creio no poder da razão e da verdade; creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.”

    Escritos e discursos seletos – Página 227, de Ruy Barbosa, Virginia Cortes de Lacerda – Publicado por Companhia Aguilar Editôra, 1966 – 1095 páginas

E assim Rui Barbosa ajuda a mostrar, como incontáveis outros, o valor de nossos melhores homens.
É mandatório notar porém que o Brasil não estimula e, na verdade, dificulta, a formação desta classe de pessoas capazes de pensar. A educação que permite que nos EUA surjam grandes intelectuais em todas as classes, em nosso quintal só está acessível a quem pode pagar. Mais do que isso, vivemos mesmo uma desmoralização do saber, relegado à condição de luxo supérfluo. Neste ambiente o futuro do país é depositado nas mãos daqueles que não tem nada mais do que ambições imediatas, sem nenhum senso superior de civismo e sem a menor capacidade de abstração. Vivemos do circo, do show, da política tosca, dos conchavos, dos favores. E isso tudo porque deixamos a elite de fora e fomos buscar “gente como a gente”. Os ideais democráticos e humanistas, o pensamento superior enfim, no entanto, só conseguem se desenvolver em quem teve treino, em quem se acostumou ao desafio intelectual, ao lapidar diário da mente e da consciência. É de nosso meio que devem vir os governantes, os juízes, os parlamentares. Eu entendo que ao ler estas linhas, vozes se avolumem acusando o nosso suposto distanciamento dos problemas sociais que insistem em acompanhar o Brasil. Pois a resposta que dou, firme, é que a vida na miséria não é capaz de despertar, por si, esta consciência, restando ao decidido desejo daquele que tem as ferramentas intelectuais executar a tarefa de sintonia entre as duas realidades que são, ao fim e ao cabo, a mesma.
Nós, da elite, que estudamos em universidades, que temos oportunidades de leitura, de formação, de viagens, somos sim quem tem a obrigação de conduzir o país. É nosso dever também criar as condições para que o saber não seja exclusividade de uma classe social, assim como conduzir o país para um futuro melhor, o que só é capaz quem consegue ver além do amanhã. É importante que criemos um país onde o intelecto encontre incentivo em todas as classes. Sabemos que a associação mandatória do saber com o dinheiro não produz sociedades livres. Mas não dá pra botar a carroça na frente dos bois e esperar que “gente como a gente” dê conta do recado.

Ainda o tema do momento.

March 11, 2009

Queria deixar algo claro: o que defendo é que se entenda o que é o aborto. As pessoas só são livres para decidir, como querem as feministas, se conhecem todas as implicações de seus atos. O que gostaria é que os indivíduos, quando se deparassem com essas situações em suas vidas, pudessem entender a extensão de cada possibilidade em seu futuro.

Ninguém sabe como vai reagir ao se deparar com estas circunstâncias. Por isso rezamos para que em todas as situações possamos tomar as melhores atitudes. O que não muda, no entanto, são os instrumentos morais que construímos durante a vida e que vão ajudar nestes momentos. E aqui falo de moral, não de religião. A postura a favor ou contra o aborto é antes de mais nada uma postura moral e reduzi-la a um dilema religioso é uma simplificação inaceitável. Significaria dizer que todos os não-religiosos não possuem posições quanto ao assassinato, ou quanto o roubo, ou outros assuntos aos quais a moral religiosa também se manifesta. Portanto, ser contra ou a favor do aborto PODE ser uma postura religiosa, mas é antes de mais nada resultado da postura moral de cada um.

A minha moral, que no meu caso é também resultado de algumas escolhas religiosas, está preparada para aceitar o aborto como um procedimento normal. MAS, para tanto, alguém deve me provar em qual momento o feto deixa de ser feto e passa a ser criança. Como até agora ninguém foi capaz desta proeza, de me explicar que “até tantos meses é feto e de um dia pro outro vira criança”, eu continuo pensando que abortar é matar uma criança.

E a liberdade de escolha? Ora, todo mundo é livre pra fazer o que quiser na vida. Desde que disposto a enfrentar as consequencias de seus atos. Quem defende esta liberdade deve estar preparado para explicar as consequencias dos atos praticados. E no caso do aborto elas são muitas. Os grupos de defesa da “Liberdade de Escolha” da mulher, me parecem mais grupos que querem um mundo onde possamos eliminar os indesejáveis sem enfrentar as consequencias deste ato. Como se isto fosse possível fora da esfera legal. E que mundo terrível seria esse onde estas consequencias não existissem, não é mesmo?

O Estado teria muitas opções para acolher a mulher, sem o dilema tão falsamente expresso pelo nosso presidente (como Cristão sou contra mas como Presidente sou a favor). O Estado poderia assumir a guarda das crianças nascidas de estupros e, num programa de proteção de identidade, conseguir novos lares para estes inocentes. Me parece viável, não?

Se o assassinato for uma questão de escolha, onde é a próxima fronteira? Vamos em breve lutar pelo direito de abortar crianças que não atendam ao nosso padrão de beleza? Ou que, por não terem sido planejadas, atrapalhem um mestrado, ou uma viagem?

A vida humana vale tão pouco assim?

Quando defender a vida é mais doloroso…

March 9, 2009

Escrever sobre temas muito complexos e para uma platéia genérica exige habilidade. É preciso evitar que frases mal colocadas levem a conclusões prematuras e a uma condenação do pensamento antes mesmo de concluído. Afinal não é isso que as pessoas procuram: dividir tudo entre o bem e o mal? Se você se dispõe a argumentar que o universo não é tão maniqueísta assim, tem que ser hábil para não ser de pronto catalogado como mais um do lado negro.

Pois mesmo ciente que corro esse risco, hoje decidi tirar a poeira do teclado e escrever. E o assunto que me motiva é desses que insufla as torcidas. Aliás torcidas não, torcida – quando a Igreja Católica proclama sua doutrina, só se ouve um coro uníssono que cobra da Instituição a acomodação com os novos valores de nosso tempo. Quando o Arcebispo de Olinda e Recife comunicou, que no caso da menina de 9 anos estuprada, os envolvidos no aborto estavam excomungados, levantou-se o furor dos que entendem que a Igreja deve calar-se ou abandonar seus valores e modernizar-se.

Nessas horas, certo jornalismo apressado mais atrapalha do que ajuda. O Bispo não excomunhou ninguém, já que a excomunhão nesses casos é automática. Outra bobagem é gritar que a Igreja acha o aborto mais grave do que o estupro sem entender que a “escala de pecados” sim já foi abolida há muito tempo e que a avaliação da gravidade de um pecado é tarefa para os confessionários, onde duas almas se encontram com Deus e conversam.

É claro que o assunto é delicado e talvez o Bispo devesse ter medido mais as palavras, ou mesmo ter silenciado, como poderia. Teria sido provavelmente mais sensível para poupar a menina, inclusive. Mas a razão da histeria é uma só, não mais do que uma: nossa sociedade acha que uma vida de alguns meses vale menos do que uma vida que tem anos de duração. Matar dois de 4 meses para salvar uma de nove anos é uma opção que nem gera um momento de dúvida na maioria das pessoas. Fico chocado ao ver que pessoas defendem o aborto, mesmo em casos legais, sem um segundo de dúvida. Pois a Igreja não tem como negar sua doutrina onde todo o ser humano tem igual valor. E isso é base do Cristianismo. É a essência mesma da mensagem do Cristo. Nessa ótica a manchete seria: Igreja acha assassinato mais grave do que estupro. Como já disse, não existe tabela mas já fica mais aceitável, não? Pois se existem pessoas que não entendem o aborto como assassinato, a Igreja não pode parar de fazer sua defesa da vida para se adaptar aos novos tempos. Quando Jesus veio, o aborto era uma prática comum e mesmo o assassinato de meninas jovens. Um dos motivos do sucesso do Cristianismo entre as mulheres da época foi justamente essa defesa de quem era indefeso, foi a mensagem de que toda a vida vale.

Dito isto, entendamos que a Igreja fala para seus fiéis. Ela aponta a direção. Podemos dizer aos católicos que sejam menos católicos, ou aos muçulmanos, ou aos judeus, cada um na sua fé? Claro que não. Se a Igreja condena o divórcio, seremos menos amados se nos divorciarmos? Pra quem entendeu algo do que Cristo fez a resposta é clara. E a Igreja lembra a quem acredita que existe uma direção para caminhar. Existe um norte. Existe um modelo. O modelo se fez homem. Não ser perfeito é algo inerente ao homem e, logo, ao cristão. Tentar ser melhor é que devemos. Jesus ressuscitou Lázaro porque ele era bom? Não. O fez porque gostava dele… Todos somos pecadores, mas Jesus nos amou assim. Todos os pecados podem ser perdoados, até mesmo o aborto, até mesmo o estupro.

Aborto é assassinato e talvez essa chaga vá agravar ainda mais o sofrimento desta menina. Talvez ela estivesse correndo risco, mas suspeito que os fetos foram moeda barata, tratados como procedimento médico e não como pessoas. Passadas as manchetes, os dilemas permanecerão, mas ninguém vai mais estar lá para entender. Talvez só a Igreja…

A cotação das almas.

January 7, 2009

O mundo tenta me convencer que é hipócrita por natureza. Todos os que hoje se levantam pela defesa dos direitos humanos, se calaram para o que relato abaixo. E isto é só um capítulo. Tenho muito mais a contar.

O genocídio em Rwanda

No início dos anos noventa, Rwanda vivia uma guerra civil aberta. Expulsos em episódios anteriores, a população Tutsi retornava ao país e uma disputa com a etnia Hutu pelo poder começava. Entre vários grupos rivais, estavam entre eles o RPF (Rwandan Patriotic Front), da etnia Tutsi, e o CDR (Coalition for the Defence of the Republic) dos Hutus extremistas, que detinham o poder. Em 1993 um acordo de paz é assinado, criando as bases para um governo compartilhado do país, mantendo o CDR no comando do governo. No entanto a ideologia “Hutu Power” já tinha sido difundida pelos Hutus extremistas, em resposta ao desejo Tutsi de formar uma nação – tinha sido incluida nos programas escolares e evidenciada na criação de um exército exclusivamente Hutu. Rádios e jornais começam a pregar o extermínio dos Tutsi, incluindo o estupro e morte das mulheres e crianças.

Em Abril de 1994, Hutus extremistas começam colocar em prática o plano da solução final, em uma operação meticulosamente preparada. Imediatamente após o início do genocídio, as forças da RPF entram em ação e a guerra civil recomeça, em paralelo ao massacre. Depois de 100 dias a RPF, liderada por Paul Kagame (futuro presidente do país), toma o poder e controla a situação, mas aproximadamente 800 mil pessoas já tinham sido assassinadas. Os genocidas então se misturam aos dois milhões de Hutus civis que estavam fugindo do país, como resultado da guerra. No primeiro mês de caminhada em direção ao Zaire, a cólera e a desinteria matam pelo menos 50 mil refugiados. A ONU entra com ajuda humanitária e ajuda a manter campos no Zaire e na Tanzânia (perto da fronteira com Rwanda), ao custo de 1 milhão de dólares por dia, custeado pelos governos ocidentais.

Os genocidas logo começam a comandar os campos de refugiados e de lá, orquestrar ataques ao território de Rwanda e aos Tutsis. Os grupos de ajuda humanitária não tem como controlar a situação. Apenas Bangladesh aceita enviar uma força de capacetes azuis, de um total de 39 países requisitados. Sem saída, a UNHCR (UN High Commissioner for Refugees) paga ao governo do Zaire pelos serviços de seu exército para prover segurança nos acampamentos de refugiados.

A situação permanece instável até Agosto de 1996, quando o exército de Kagame invade o Zaire para fechar os campos e eliminar os Hutus de uma vez por todas. Eles se unem ao movimento rebelde do Zaire, comandado por Laurent-Désiré Kabila, um “warlord” marxista de 56 anos, desejoso de tomar o poder no Zaire, derrubando o presidente Mobutu. 250 mil pessoas fogem dos acampamentos atacados em direção aos ainda preservados. Mas estava claro que nenhum acampamento seria preservado. A UNHCR tenta de todas as formas preservar a integridade dos acampamentos remanescentes. De um lado lutam as tropas de Mobutu e os genocidas Hutus, e do outro perfilam-se o exército de Kagame e o movimento de Kabila.

Neste interim, mais de 500 mil refugiados que fugiram para a Tanzania, começam a ser obrigados a voltar para Rwanda da noite para o dia, sem saber o que lhes iria acontecer, numa operação conduzida com muita violência pelo governo daquele país.

Em Maio de 1997 Kabila assume o poder no Zaire e funda a Republica Democratica do Congo.

Acredita-se que mais de 213 mil refugiados devem ter morrido desde que fugiram de Rwanda, totalizando mais de um milhão de mortos no conflito.

Fontes:
The Economist Magazine
Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Rwandan_Genocide),
Chasing the Flame, Samantha Power, 2008.

É isso aí. Nos anos noventa um milhão de africanos foram mortos e você nem ficou sabendo. Entre 2003 e 2004, mais 250 mil deles foram assassinados. Hoje, mais de 2 milhões são refugiados, em conflitos que ainda vou contar por aqui.

Enquanto escolhermos os seres humanos que queremos defender, como civilização estamos fadados ao fracasso.

Duas ou três coisas que sei sobre o Natal.

December 28, 2008

Eu acredito que o ser humano não existe desvinculado da história, tanto sua e de sua família, quanto da sociedade em que vive. É através do entendimento histórico que podemos entender por que motivo agimos desta ou daquela maneira. Talvez por isso as tradições de povos outros nos pareçam tão carentes de sentido. É que nos falta a linha do tempo pela qual estes povos são moldados, como água em pedra, durante séculos e séculos. Por conta deste mecanismo de identidade é que as respostas que queremos para o comportamento de nosso tempo devem ser buscadas no passado. E falo isso para explicar como entendo o Natal.

Houve um tempo no qual as tradições eram necessárias para unir as pessoas de uma mesma comunidade. Era a forma como identificávamos nosso grupo. Não é preciso ir muito longe: no Brasil existe a capoeira e seu ritual, o boi-de-mamão ou boi-bumbá, o reizado e muitas outras. Todas essas manifestações serviam de cola para determinados grupos. Um símbolo, antes de mais nada, de unidade. Hoje nossa identidade é determinada por uma infinidade de símbolos que vem e vão em grande velocidade, mas que não permanecem por tempo suficiente para merecer mais atenção das gerações futuras. As músicas e suas danças não duram muito, a tecnologia muda hábitos e necessidades, a Natureza nos impõe limites. Mesmo assim muita coisa ainda permanece. Todo o brasileiro tem orgulho do seu carnaval, pra ficar só em um exemplo. O carnaval ajuda a identificar o brasileiro. É nossa tradição. Mesmo o brasileiro que não gosta da festa, sabe que ela faz parte de sua identidade.

E as antigas tradições que recebemos de nossos avós? Muitas delas não parecem fazer sentido pois o tempo no século XX foi o primeiro talvez a não respeitar uma regra de ouro de tudo o que é relacionado à identidade: mudar lentamente. E aqui estamos nós com fragmentos de rituais de um mundo que não existe mais. Aí é que entra o Natal, uma festa um tanto estranha para muitos de nós. Mas a primeira coisa talvez a ser feita antes de etiquetarmos o Natal como festa esquizofrênica e consumista, pervertida pelo mundo moderno, é olhar de onde vem essa festa e porque a celebramos.

O primeiro passo é entender que o Natal existia antes de Cristo. Numa tentativa de fortalecer o Sol, aparentemente debilitado durante o inverno, diferentes culturas (Gregos, Mesopotâmios, Persas, Romanos…) celebravam uma festa para o Deus Sol na época do solstício. Foi só algum tempo após a morte de Cristo que os cristãos passaram a usar a festa do solstício para celebrar o “Natal”, ou festa da natividade, e adaptaram vários de seus símbolos que, afinal, tanto se encaixavam para celebrar o Deus que vem dar a vida. É daí que vem o hábito das luzes nas janelas (para “ajudar” o Sol) ou mesmo o hábito da troca de presentes. Dar presentes, em praticamente todas as culturas, significa generosidade e esta é frequentemente associada ao Sol (o ser generoso mor). Os paralelos com o astro celeste são inúmeros. E para a infelicidade dos povos do hemisfério sul, é por essa razão que as principais festas Cristãs são quando são: o Natal no solstício e a Páscoa no início da primavera no Norte.

Aqui insiro minha primeira reflexão: cristãos, o Natal não é, para todas as pessoas, a celebração do nascimento de Cristo. Não devemos ficar tristes pelo mundo ter desvirtuado o sentido da festa. Nós é que marcamos a nossa festa na mesma data de uma festa mais antiga. Segunda reflexão: símbolos tem um significado vago e elástico e estritamente pessoal. A cruz significava vergonha mas para os cristãos passou a ser caminho de salvação. Nós herdamos esses símbolos da história. História feita também por mãos cristãs. O que eles significam para os cristãos não deve ser afetado se o resto da humanidade resolver lhes dar outra tradução. Mais ainda quando fomos nós a mudar o significado. Natal é celebração de alegria pelo nascimento de Jesus, mas pode ter outra definição para o seu vizinho. Qualquer tentativa de condená-lo por não entender a festa como nós entendemos é a negação mesma do que é ser cristão.

E somos por isso obrigados a engolir esse velhinho encasacado? Claro que não. Podemos viver nossa vida como desejarmos. Mas entender que somos parte de um legado nos poupará bastante sofrimento. O Natal como ele é hoje, com troca de presentes, mesa farta, luzes, não é fruto do consumismo. Ele é resultado de nossa própria história, veio para o Brasil quando nossos antepassados vieram, resistiram a miscigenação que nos fez brasileiros, foi mudado por ela, e está aqui para ser vivido. Para algumas pessoas, a árvore de Natal, o Papai-Noel, as luzinhas, não significam nada, o que é perfeitamente normal. Mas para outras têm a ver com a sua identidade, assim como o carnaval para a maioria dos brasileiros. Para estas pessoas dar presentes no Natal, enfeitar a casa e ter uma bonita ceia é a sua definição mesma como indivíduos pertencentes a um grupo. Nesse ponto, sem pretender ser maior do que o nascimento de Cristo, o Natal tem outros significados até mesmo para nós cristãos. E não há nada de mal nisso.

Divagaçoes com pressa de sair…

November 28, 2008

Preciso escrever sobre isso: o mundo é complexo! Tenho escrito isso aqui tantas e tantas vezes. Me desespera tanto que as pessoas tentem encaixar um planeta gigante em tão poucos e pobres conceitos.

E porque esse desabafo? Ora porque acabei de escutar no rádio que os EUA vão doar dinheiro para Santa Catarina. É, vão doar dinheiro para o meu querido Estado. Vão ajudar o pedaço de terra que eu amo tanto. Eles apagam assim os seus erros? Não. Mas não precisavam fazer isso, e fizeram. E quem bota telha na casa de Catarinense, merece que eu pense pelo menos duas vezes antes de falar.

Mas tem mais. A Alemanha também vai doar. Até mais do que os EUA. Bonito demais. Quase chorei quando ouvi isso. E pra completar a loucura do mundo, o Sudão, onde mais de 300 mil pessoas já morreram desde o começo do atual conflito, estão com medo de Obama. Sim pois o começo do conflito por lá se deu após ataques norte-americanos comandados por Bill Clinton em resposta à atentados terroristas (tá, to escrevendo com pressa, sem precisar os dados, perdão). Prometo um post com mais conteúdo sobre esse assunto. E foi George Bush quem comandou um acordo de paz, e enfiou dez mil capacetes azuis por lá. Tá certo que a paz tá desmoronando, se é que chegou a existir. Mas os sudaneses têm medo dos Democratas. E de novo, minha intenção é exclamar: que mundo louco, meu Deus!!

E pra falar do Sudão, lá o número dos refugiados passa da casa dos 5 milhões, se contarmos o total de pessoas que se deslocaram de suas casas por causa da guerra. O país inteiro tem 6 milhões de habitantes. Existem 17 mil voluntários trabalhando lá naquele país, e se tem algum brasileiro deve ser um ou dois. Quem se importa com isso? Ninguém que eu conheço jamais chegou pra mim e disse: “Nossa hein? E o Sudão rapaz! Que absurdo!” – por isso é que botemos todos a mão na consciência e antes de dizermos que o mundo não se importa com a África, pensemos se nós nos importamos. Ultimamente, tenho começado a me importar – e tem sido mais e mais difícil viver em paz.

As escolhas morais reais que temos que fazer na vida nunca são fáceis. Sempre temos que comprometer algo, sempre temos que escolher o mal menor.
Sérgio Vieira de Melo teve que decidir se autorizava a OTAN a bombardear o Kosovo para impedir que os Sérvios massacrassem os kosovares. Preferiu apostar no compromisso de pessoas sem compromisso. O resultado conhecemos. O próprio Sérgio em sua vida foi aprendendo que certas neutralidades não existem, e que nossos ideais tem que conhecer novos limites, quando somos responsáveis por decidir.

O mundo é complexo, difícil. Eu não falo isso porque entendo o mundo. Falo porque aprendi que não entendo nada. E tenho medo de quem diz que entende…

O Japão que mora em mim

November 24, 2008

Acabei de ver um programa sobre Ikebana, em Kyoto, e mergulhei em memórias que fazem minha alma aquietar-se. E senti uma necessidade de escrever sobre isso.

O Japão que mora em mim… é um Japão difícil de colocar em palavras. Porque palavras são pouco comuns a este Japão. É o lugar das coisas não ditas, da arte e da beleza da expressão, sem o atalho fácil da fala. Lugar onde a harmonia é valor fundamental e fundante. Onde o corte da espada e o podar de uma flor, obedecem aos mesmos preceitos. A casa do silêncio, das águas que correm, dos sabores sutis. Nada se impõe. A música, os sabores, o teatro, os olhares… são convites a expressão de nossos valores, da beleza que todo ser humano carrega consigo.
Japão frágil, que desperta e convida para um novo olhar. Um olhar de convívio, de paz, de entendimento. Onde as pessoas não sabem dizer não, pois perguntas que nos obrigam a dizer não, não deveriam ser feitas. Onde as pessoas sabem que, mesmo nas coisas mais simples, existe um Deus a ser reverenciado. Onde o mais singelo dos papéis é dobrado como se fosse uma jóia. Nada sendo feito com desleixo, nada sendo feito sem uma alma e um coração dedicados. Onde cada pessoa é insubstituível, como são insubstituíveis todos aqueles que me mostraram essa ilha escondida, e que se despediram de mim com lágrimas nos olhos. Japão meu, que olha seu Fuji ao longe, nos olhos enrrugados, pela janela de um trem. Japão sem fim, no sorriso curioso da criança que acaba de ganhar algodão doce, e corre ajeitando seu pequeno yukata, e leva meu coraçao embora pra nunca mais devolver. Ela ainda o tem. Ele ainda mora em algum lugar nos arredores de Tóquio.

Pessoinha

November 6, 2008

Durante minha vida inteira eu tenho certeza que idealizei muito todas as coisas. Idealizava minha profissão e por isso nunca consigo atingir todas as expectativas que depositei sobre ela. Idealizava os relacionamentos, que para mim não podiam ser um milímetro menos do que o ideal. Então, vivia conquistando, pois na conquista todo mundo é perfeito. De longe, todos os defeitos são lindos. E achava que isso era ser maduro, era "saber o que se quer". Eu muitas vezes preferia ficar sozinho porque eu "sabia o que queria". Ora, mas uma pessoinha chegou e me mostrou todos os seus defeitos. E entrei em pane, porque o que antes era tão fácil – dizer adeus – com ela não funcionava assim. Nunca consegui ir embora. Eu comparava minhas idealizações com a realidade e ficava indeciso. Mas não queria dizer adeus. Sofremos com isso, estamos sofrendo. Mas eu estou entendendo que existe uma força que me impede de fazer o que sempre fiz: dizer adeus. E esta mesma força pela primeira vez me mostrou como eu era e sou imaturo. Como não tinha idéia do que um relacionamento era. Eu, que achava que sabia tudo, que podia tudo, agora vejo que não sei nada. Mas entrei tanto em pane, que não conseguir mostrar pra pessoinha que eu estava em crise, e que na verdade não era falta de amor, mas como uma ostra que entra dentro da concha, não consegui entender o que estava acontecendo. Ela tentou se adaptar, mas nunca coseguiria competir com um devaneio, e por isso sofreu. Mas por isso conseguiu me mostrar o que ninguém mais conseguiu. E foi difícil. E é difícil. Tentar viver junto quando ambos são tão geniosos é difícil. Mas cada vitória é mais gostosa do que qualquer outra que já tive. Assim como foi gostoso todas as vezes que nos reaproximamos. Claro que existe muito a ser apreendido. Como errar e consertar os erros juntos. Como respeitar, como abrir mão, como ceder. Que ser humano maravilhoso esse que sabe fazer tudo isso. Eu quero chegar lá, mas pra ficar com a pessoinha. Não adianta nada conseguir isso tudo e não encontrar quem preencha o espaço cedido com cores, com vida, com amor.

Eu hoje entendo que preciso lhe dar espaço, que preciso diminuir para que ela cresça. Mas que posso fazer se nada faz sentido sem ela? Sei que ela sabe que a amo, e sei que ela me ama. E eu sei que não a perderia de novo. Ela tem motivos pra não acreditar, eu sei. Mas vou continuar tentando. Talvez seja difícil pra ela ver que eu também sou real, também não sou aquele que conseguiria resolver tudo. Mas quem sabe ela goste do que eu sou de verdade. Porque ela é minha parceirinha, nas horas boas e nas ruins. É isso…

Dernière

Tinha me proposto não escrever mais sobre política por aqui. Perdi muito do gosto de acompanhar e comentar os eventos, e também porque acabava escrevendo aqui de forma diferente do que me expressaria em uma conversa. E se antes eu escrevia muito mal, agora acho que é o diálogo que precisa ser treinado.

Mas esse post é a pedidos…rs

Vamos lá: Obama ganhou!

De certa forma aconteceu o que eu já tinha dito aqui que gostaria que acontecesse. Acho que McCain perdeu seu momento, já não tinha energias para conduzir o país. E além do mais, Sara Palin foi um erro. Eu não a queria nem como vice-presidente. É isso que tenho a dizer sobre a vitória de Obama. Sucesso pra ele, que consiga pacificar o Iraque, o Afeganistão, que resolva a crise, e que lidere o mundo para uma fase de mais diálogo. Tomara.

Mas (tem sempre um "mas") eu sempre acreditei que o racismo tem duas vias. Uma óbvia, outra escondida, mas uma fruto e causa da outra. Vou exemplificar: hoje, no rádio, uma mulher gritava e dizia que Obama era a vitória dos negros. Outra, da comunidade negra, dizia que os EUA tinham provado ao mundo isso e aquilo. Tudo muito compreensível, não é mesmo? Mas eu, nessa implicância que tenho com o mundo, acho que esse comportamento perpetua a diferença. Digamos que não é exatamento um discurso em prol da igualdade. É muito parecido com um, mas é segregador em sua essência. 

Sou radical neste assunto: cores não me dizem nada. Não é assim que deve ser? Então a razão pela qual as pessoas comemoram a vitória de Obama me incomoda. Quer dizer que ele ser negro significa algo? Então ele é diferente? Ele é um Democrata diferente de Bill Clinton em quê? Na cor da pele? Porque existe uma "comunidade negra"? Me incomoda uma "comunidade negra" do mesmo jeito que me incomoda uma "comunidade branca". Não gosto de guetos, não gosto de sociedades onde os grupos tem mais voz do que os indivíduos. Nesses casos geralmente o mais fraco é massacrado e a democracia é a vítima. Além do mais, eleições são democráticas porque pressupõem que ambos os resultados são possíveis. Nesta de agora, a impressão que tive foi que só um resultado seria considerado a vitória da Democracia. Quem não viu, que procure ver o discurso de McCain reconhecendo a derrota. É uma aula de civismo. 

E mais, não acho que os EUA precisassem provar nada. Ora, Obama eleito ou não, a sociedade norte-americana não é mais ou menos preconceituosa por causa disso. Eleger um presidente negro não deveria ser como uma prova de formatura.

Quando comparei os dois candidatos para fazer minha escolha, Obama não foi a escolha óbvia. Ele tem falhas bem evidentes de caráter, além de não ter experiência nenhuma. Ora, se ele não foi uma escolha óbvia, eu poderia ter escolhido McCain. Mas tenho certeza que seria chamado de racista, ou de retrógrado. E isso é injusto além de ser um golpe na própria eleição. Até porque, antes desse processo todo começar, McCain era o cara considerado "independente" pela mídia. 

Por fim, toda idealização traz consigo sua carga inerente de decepção. Portanto pela frente vejo muito mais decepções do que realizações. O que é uma pena, mas talvez um mal necessário.  

É isso. Mas nem estou vendo as reportagens e noticiários. Gostei das eleições e só. To de saco cheio de simbolismos e tietagem. O que já vi de camiseta do Obama não tá no gibi. Se ele for assassinado então, vira santo…

Como se chama isso?

September 23, 2008

O que é que posso fazer? O que há pra ser feito? Se sinto que sou escravo daquilo que consigo ser? Como ser outra coisa, que seja decidida e cuidadosa? Como ser flor e espinho, leão e esquilo? Como abraçar e falar da calma, e trazer a paz e a segurança? Como quando a vida se mostra sempre tão incerta, tirando sempre de mim minhas certezas? Como não cometer erros?

Alguém me explique, pois tenho pressa…

Como ainda aproveitar a felicidade sem descuidar, e matar a muda ainda pequena, sem condições de suportar o frio? Como? Como pular da ponte, quando a própria ponte é a única certeza? Alguém me explique pois o rio não pára pra esperar…

Quero o mundo e não sei onde ele está. Quero o colo e não sei onde ele está. Só sei que existe uma energia infinita que me percorre, que me faz mover mundos, que me faz amar sem direção, mas que ao mesmo tempo se ressente quando confrontada. E agora é a hora. A hora de sentar no banco e escutar o que a “tia” Vida quer dizer. A hora de ficar em silêncio, a hora de gritar. Hora de dizer que ama, hora de não pesar coerências, hora de não pesar prejuízos. Hora de pedir perdão. Hora de ser o que se pode ser, até que se consiga ser outra coisa. Mas que esse pouco seja suficiente para derrubar as defesas. Que seja como flor roubada, meio desgastada, mas que significa um mundo. Que seja possível sorrir, e com isso domar o que há de incontrolável dentro de mim, e que a paz seja nossa casa contra o que de ruim vier.

Amizade secreta

September 10, 2008

Eu tenho uma amiga secreta. É, tenho. Uma daquelas amizades que ninguém sabe que você fez, a qual eu encontrava sempre discretamente para tomar um café e conversar sobre a vida. Nunca falo dela pra ninguém, mas de vez em quando trocamos um email ou outro. Depois passamos mais meses sem conversar. Moramos em lugares distantes sem a menor probabilidade de nos encontrarmos de novo algum dia. Mas trocamos algumas confidências, enquanto filosofamos sobre aquelas coisas que vêm a mente das pessoas quando andam distraídas por algum parque desses por aí. Ou ainda quando fitam o mar em alguma praia deserta…
Pois bem, ela gosta de me chamar de “movedor de mundos”. Como se fosse uma voz interior, ela vem e me sopra:

- É isto meu querido “movedor de mundo”. Espero que você mova ‘seu mundo’ para um ‘mundo melhor’.

Obrigado pela brisa leve que me mandas…

Hoje, é hora e é tempo…

September 8, 2008

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já tem a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e, se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”
Fernando Pessoa

Eu já havia usado este pensamento do Pessoa aqui em outra circunstância. Foi quando estava de partida para o Japão e me fez muito bem pensar desta forma naquele momento. Mas preciso reconhecer que as vezes é a vida que muda o clima, tornando obsoletas as roupas a que estávamos habituados. Às vezes há uma placa de “rua sem saída” que não esperávamos encontrar e que não aparecia em nosso mapa de vida.

Aprender novos caminhos dá medo. Haverá alguém pra nos dar a mão? haverá alguém para compartilhar as dores? Existirão sorrisos?

Sei que a única coisa a qual não sobrevivemos é à nossa própria desistência. E eu farei frente, “bravamente”, ao que Deus me oferecer…

O condomínio chamado Doha

July 30, 2008

Ok, a Rodada Doha falhou. Grandes novidades. Lembre você de alguma reunião que já participou, entre amigos, no condomínio, em algum momento no trabalho, qualquer uma: você consegue lembrar de alguma em que fosse fácil chegar a um consenso? Duvido. Agora imagine uma reunião com mais ou menos 150 participantes, todos com direito a veto, com culturas e idiomas diferentes, tentando chegar a um acordo. Some-se a isso as pressões políticas internas, vaidades e inabilidades pessoais, crise energética e de alimentos, e pronto: a receita do fracasso óbvio. Com Doha, morre mais um pouco a diplomacia idealista, aquela dos acordos mundiais multilaterais, a mesma do fracasso da Liga das Nações.
O caminho possível, na minha análise, é o crescimento dos blocos comerciais. Seguindo inclusive as leis da Física, a solução para acordos globais está no crescimento paulatino dos blocos regionais, até que não reste nenhum país avulso no cenário. Quando a água congela, ela não o faz instantaneamente, mas a partir de núcleos que vão crescendo e se fundindo até que o todo se solidifique. Quando sentarem na mesa 4 blocos – Américas, Europa, África e Ásia –, as possibilidades de um acordo aumentarão significativamente. Por enquanto, não há porque pensar que será diferente.
Nos próximos anos, veremos a proliferação dos acordos bilaterais, como alternativa imediata ao fracasso da Rodada. O problema é que os países mais pobres pouco têm a oferecer nesses casos e as injustiças que se procurava corrigir no fórum multilateral, serão cada vez mais aprofundadas. O Governo Lula, que optou por não fazer destes acordos um seguro para este momento, deve agora correr para conseguir um lugar ao sol.
O Brasil, que errou quando optou por depositar todas as fichas em Doha, coerentemente com o alinhamento ideológico dos diplomatas da vez, erra de novo ao não atuar no Mercosul como líder, ou pelo menos ao não definir claramente uma autoridade que seja aceita por todos os países-membros. Com isso, o Mercosul afunda nos mesmos problemas da Rodada Doha, sendo sabotado pelos interesses individuais – legítimos, ninguém duvida – e carecendo de uma força que arbitre as disputas internas. Fracassará, inexoravelmente, e será tragado por uma futura ALCA, que virá de um jeito ou de outro.

Sir Paul McCartney

July 24, 2008

Tenho evitado escrever aqui textos mais pessoais, como fazia antes, pois acho que é melhor, no momento, aproveitar a audiência para tentar abrir os olhos de meus compatriotas. Mas abro hoje uma exceção: preciso contar para vocês que fui a um show do Paul McCartney. Quem me conhece sabe que eu sempre fui seu fã, mas era como se ele fosse um personagem da história, ou talvez de um filme. Nunca imaginei vê-lo pessoalmente. E foi incrível.
Fiquei ali, cantando músicas que amo, junto com 199.999 pessoas. É como se, por um momento, pudesse estar dentro dos documentários que vi, dos clipes, dos shows em preto e branco. E teve tudo: Eleanor Rigby, Lady Madona, Hey Jude, Yesterday, Black Bird… Enquanto olhava vidrado, pensava nos muitos anos escutando aquelas músicas em discos de vinil, fitas K7. Lembrei dos meus amigos que durante a adolescência compartilharam esse gosto comigo, e que eu queria estivessem ali. Pensei na minha irmã menor, uma fã ainda mais tardia que eu. Pensei enfim em como a vida é surpreendente, para quem tem os olhos abertos.

Pra completar, o show foi de graça, num parque em Quebec para celebrar os 400 anos da cidade.

Xiiiii….

June 20, 2008

Ouvi no rádio hoje que o Canadá planeja investir 500 bilhões de dólares reequipando suas forças armadas nos próximos 12 anos. E aí me pergunto: onde isso vai parar. Já sabemos que o Brasil aumentou seu orçamento militar e que outros países fizeram o mesmo. Venezuela, Chile, Japão… Li em algum lugar que os gastos mundiais com forças armadas cresceu perto de 25% no último ano.
Acredito que, com exceção das armas nucleares, armamento comprado mais dia menos dia é utilizado. Misture-se a isso escassez de energia, de alimentos, de água, e tempere com o crescente populismo dos governantes, aproximando a esquerda da extrema direita e… vai dar m…

P.S.: Se não estiver convencido do risco, pode juntar na fervura algum fanatismo religioso também, pra ficar mais “calmo” o cenário.

Agradecimento

April 16, 2008

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Alguém uma vez disse que escrever é um ato de resistência. Resistir às tiranias, resistir às mediocridades, à própria acomodação. E eu, que escrevo tão pouco envolvido que estou em minha vida profissional, as vezes me surpreendo com a maravilha daqueles que perfazem ombro a ombro comigo nesta trincheira. O Blog da Santa, pelo qual tenho uma admiração profunda e uma inveja indisfarçável pela qualidade que possui, divulga o prêmio 11 de Abril, para aqueles blogs que se dedicam à luta pela democracia. Ela, a Santa, que recebeu o prêmio mais que merecidamente, indicou este meu “armazém” de pequenas notas para a mesma láurea.
Eu não conhecia este prêmio, e confesso que não tenho a menor pretensão de conquistá-lo. Mas ter a sensação súbita de que, de alguma forma, eu ajudo a defender a Democracia, me fez ganhar o dia, o mês, o ano! Escrevo por convicção às minhas crenças e pela esperança de fazer alguma diferença. Hoje, três anos de blog fizeram sentido. Obrigado Santa, agora ninguém me aguenta!

P.S.: Pelo que entendi, eu deveria indicar outros blogs que também têm prestado um bom serviço à causa democrática. Mas, tenho zapeado pouco por aí, e os blogs que leio já foram indicados. Pra tentar não quebrar o meme, vou pesquisar e depois coloco por aqui.

Yoga- Guia do Praticante Cético

January 30, 2008

Hoje saí do trabalho, como sempre meio cansado do corre-corre rotineiro e fui experimentar um aula de Yoga. Nunca tinha feito uma aula dessas na vida e relato aqui a primeira impressão.

Eu estava esperando um negócio meio alternativo, cheio de incensos e símbolos indianos e acertei em cheio. A diferença é que, como tudo o que é alternativo hoje em dia, existe um “business” por trás. Nitidamente os alternativos dos anos 70 não teriam grana pra frequentar esses espaços. Mas é o que chamo de Movimento New Hippie Chic: usa-se uma saia hiponga, com aparência de feita em casa, que custa 400 reais. Alternativo hoje é pra quem pode – melhor ir de calça jeans e camiseta.

Dito isso, posso dizer que gostei do lugar, bem decorado, com uma atendente calma e eficiente e tudo bem limpo. Cheguei meia hora antes do horário e fiquei esperando. Chegou uma mulher, depois uma garota, depois outra, depois outras. Fiquei com vontade de perguntar quando era a aula masculina, mas melhor não chamar a atenção para a situação. Senti uns olhares que se cruzavam e perguntavam: – Será que o barrigudo de óculos aí vai fazer a aula? Sim era eu, e fiz uma cara de “eu sou corajoso e venho aqui, o que eu quero saber é se voces enfrentariam aulas de engenharia”. Senti-me vingado, na minha esquizofrenia.

Finalmente as pessoas foram em direção à sala e a professora me cumprimentou e se apresentou, assim, no corredor, informalmente. Foi muito simpática e me deixou bem a vontade para começar a aula sem muito medo. Aliás, depois de muita saia justa nesta vida estou ficando mais descolado nesses momentos. Basta não ter nenhuma iniciativa genial e se resumir a fazer o que todo mundo faz. Se alguma gafe acontecer (quase inevitável) o negócio é a tirrar sarro de si mesmo. As pessoas estão mais propensas a compreender quem não se leva muito a sério.

Notei um pequeno altar com figuras de Deuses Hindus e aquilo me incomodou. Eu não gosto de entrar no templo de nenhuma religião como quem entra em uma academia. É a parte do homem ocidental que me incomoda: pega-se as coisas pela metade, e vende-se o que for vendável. Se o homem moderno precisa se desestressar, vende-se uma dose de hinduísmo duas vezes por semana. Me soa estranho, mas um dia ainda falo mais com a professora pra ver se não estou tendo a impressão errada. Não esqueçam que é meu primeiro dia. Eu não esqueço. De qualquer forma, o Hinduísmo é mais do que Yoga e me parece uma certa falta de respeito. Bem, deixo para os Hindus a tarefa de reclamar se for o caso. Já tenho muitos problemas e não vou começar uma cruzada (ipsis literis) para moralizar as academias de Yoga.

E lá vou eu para a prática, com a habitual flexibilidade de um jabuti da terceira idade. E confesso que gostei bastante da mistura de ultra-hiper-mega alongamento com respiração e concentração. Dói, claro. Aliás, dói não: tortura. É como usar um macacão muitos tamanhos menor do que o seu. Voce quer esticar a perna mas seus músculos tem vários centímetros a menos. Aí, em vez de um ginasta, você fica parecendo uma perereca num colchonete. Mas é bastante renovador e saí da aula bem disposto e relaxado. Gostei do clima, sem muita conversa, sem muitas vaidades. Colocando em perspectiva, fazer musculação pra mim é pior que injeção na testa. Portanto a Yoga caiu como um doce de jaca (já provou? se provou porque não me convidou lazarento!!)

O que não gostei muito é o negócio dos mantras. Não gosto de falar o que não entendo. Mesmo a professora explicando que queria dizer paz, etc, eu prefiro saber palavra por palavra. E mesmo assim: não dá pra ficar em silêncio?!?

Amanhã vou na “prática” (já peguei o jeito!) de um outro estilo. Se tiver paciência, escrevo aqui.

Abraços.

Lucia Malla

February 16, 2007

Do site da Lúcia Malla:

“Poste as 3 atitudes ecoconscientes que você praticou/pratica/pretende praticar na sua vida (ou na sua casa, no seu trabalho, no boteco, etc.) para melhorar a situação ambiental do planeta Terra.”

Pois bem:

1º atitude: Eu decidi abdicar de quaisquer sacolas plásticas que me dão por aí. Acho desnecessário que usemos sacolas plásticas para qualquer coisinha que compramos, da farmácia à padaria.

2º atitude: Recuso copos plásticos. Tomo na lata mesmo, ou no gargalo.

3º atitude: Mantenho plantas em qualquer espaço que me seja disponível.

Li esses dias que escolher alimentos da estação seria uma poderosa maneira de economizar energia. Estou pensando em adotar essa atitude também. O problema é fazer uma lista confiável do que pertence à cada estação…

E aí Lili? Valeu?

Luciano Queiroz

Meu manguezal

February 15, 2007

Era um dia de novas resoluções, e por isso mesmo, sentia-se diferente naquela tarde. Havia chegado da aula e decidido que iria usar seu caiaque depois do almoço. Não era de hábito fazer isso, descer até a praia, a não ser durante as férias, quando seu tio ou seu avô o visitavam. Mas era como se precisasse conferir algo. Como se houvesse uma conversa particular a ser feita. Tinha um encontro marcado, não sabia bem com quem, ou o quê.
E assim fez. Após trocar de roupa foi até a praia e pôs-se a remar.
O caiaque deslizava fácil e fazia quase nenhum barulho. Assim, as gaivotas e os biguás pousados pelas pedras permitiam-lhe aproximar sem que voassem assustados. Peixes pulavam surpreendentemente perto, alarmados por aquela presença inesperada e sorrateira. Enquanto a casa ficava para trás, esses pequenos acontecimentos revelavam ao menino um segredo reservado a poucos humanos: a Natureza é amiga do silêncio. Entendeu essa lição instantaneamente, e imprimiu com força na alma para jamais esquecer.
Enquanto remava cautelosamente, sentia-se pela primeira vez acolhido naquele ambiente. Pela primeira vez, depois de tantas e tantas vezes passar de barco por ali, não parecia ser uma presença agressora. E foi envolto nesses pensamentos que virou a ponta da praia, abrindo à seus olhos a visão total do manguezal, quieto, imenso, solitário. Remou decidido por uns vinte minutos, até atingir a entrada de um dos canais que desaguavam na enseada e que irrigavam toda aquela floresta de lama, galhos e caranguejos. Chegou na boca do rio… e entrou. E viu sua vida mudar para sempre. Entrou sozinho, em silêncio, e no silêncio observou calmamente os cardumes numerosos de peixes filhotes. Contemplou os caranguejos em seu vai e vem, às vezes lento, às vezes frenético. As raízes imponentes, a floresta escura. Teve medo. Sentiu-se sozinho, e como tal, embaixador de sua raça. Viu muitas aves, viu colhereiros, que nunca havia visto, no topo dos mangues mais altos. E eles não se importaram com sua presença. Nenhum deles se importou.
E o menino pela primeira vez se sentiu insignificante. E na sua insignificância, viu que era menor do que aquilo tudo que via. Foi quando aquele monte de lama ganhou divindade, ganhou-lhe a alma e virou sangue de seu sangue. Até então, não havia entendido os sussurros, as mudanças sutis, a delicadeza das coisas vivas. Mas lhe foi permitido olhar por uma pequena fresta.
Jamais pode voltar ali sem que seu coração ajoelhasse em profunda reverência, por ter aprendido a lição de mil livros. O menino jamais foi o mesmo, e ele divide agora, com vocês, sua gratidão ao seu querido manguezal.
Luciano Queiroz

Caos previsível

November 21, 2006

Esse mês está sendo de pouca escrita. Reformular minha vida tem dado um certo trabalho.
A única coisa que tem me estimulado a continuar escrevendo e refletindo sobre o comportamento humano é essa crise no tráfego aéreo brasileiro. De um lado, a necessidade de encontrar culpados, de simplificar para acalmar a turba ansiosa entre gritos de “-crucifica!”. De outro um poder público que não quer assumir suas próprias incompetências. E ainda um terceiro lado (sim, existem mais que dois…) dos passageiros que querem embarcar e acham que os controladores de vôo, estes “frouxos”, estão fazendo corpo mole.

Como trabalhei com aviação, conheço controladores de vôo, conheço investigadores de acidentes aeronáuticos, conheço os fabricantes e as operadoras, e analisei o projeto na ANAC antes de entrar em vigor, sei que:
1. O governo brasileiro ignorou o problema do trafego aéreo crescente e a carência de equipamentos e profissionais adequados. Os diversos incidentes anteriores ao acidente da GOL apontavam o problema e estes dados estão disponíveis ao público, a despeito de Valdir Pires declarar que nada sabia.

  1. A ANAC nasceu sob o lobby da Infraero que retirou parte da sua importância. O Governo Lula acabou de matá-la quando fez nomeações políticas para a agência.


  2. Os países sérios usam os incidentes para prevenir acidentes. O Brasil não tem comissões parlamentares para analisar incidentes e fiscalizar a autoridade aeronáutica.


  3. Acidentes aéreos nunca tem uma causa apenas. São sempre uma cadeia de eventos que pode ou não conter falha humana. O fato de alguém ter cometido erro, não significa culpa. É necessário entender porque os erros aconteceram.
    No entanto, nesse caso a falta de equipamentos adequados para o controle de vôo pode fazer recair responsabilidade civil sobre a ANAC, por negligência.


  4. Os controladores de vôo no Brasil vinham há muito tempo trabalhando sob pressão e compensando as carências no sistema trabalhando acima dos limites internacionais. É importante que a partir de agora eles se recusem à colocar vidas em risco. Eles não são culpados pela situação, e sim este governo.


  5. O processo de desmilitarização do controle aéreo e da aviação civil em geral, é importante. Não que os militares não sejam competentes, mas eles são submetidos à rotinas militares que prejudicam o exercício da função. Empresas como a Embraer sofrem com isso, apesar de todo o reconhecido esforço dos militares em cooperar e contornar os problemas.


Por último é importante saber que, se a situação melhorar do dia pra noite, é porque trocamos filas nos aeroportos por risco nos ares. E a situação não vai mudar tão cedo porque a ANAC é um diretório do PT, incompetente e evasivo.
Já aviso: antes de melhorar, vai piorar…


Luciano Queiroz

A espiral da sabedoria

September 2, 2006


Acredito que a verdadeira sabedoria da vida vem invariavelmente quando percorremos uma espiral imaginária, que nos faz progredir ao mesmo tempo que dá novos sentidos à pensamentos antigos. Começamos com nossos entendimentos infantis e vamos ganhando complexidade, acumulando experiências, exigindo explicações complicadas para tudo e assumindo camadas de verdades sobrepostas. Depois, vamos derrubando toda essa teorização da existência à medida que a vida se impõem sobre nossos ombros. E acabamos por ver que nos resta nas mãos as idéias que lá já estavam, nos tempos de menino.

É claro que não voltamos ao ponto de partida impunes, pois seria tolice. A criança não sabe porque pensa o que pensa. Já a sabedoria sabe bem o que faz, e ela precisa percorrer um caminho para evoluir. Fazer o homem compreender que os sentimentos infantis de ausência de rancor, da fraternidade, de autenticidade, de sinceridade, se nas crianças é ingenuidade, pode para os adultos no entanto ser a resposta que procuramos.

E eu, como em uma parada para olhar o mapa, sempre tento me situar neste espaço espiral imaginário e resgatar como é que cheguei até aqui. Porque me tornei este alguém, que acredita que a solução para a humanidade vem de dentro dos seres humanos pra fora?
Fui vasculhar e encontrei várias lembranças.

No colégio, eu percebia que os garotos populares anulavam os mais tímidos sob sua asa para satisfazerem seus egos inchados fruto de pais super-protetores. Na faculdade, vi a ditadura dos diretórios de estudantes, com seus líderes mal disfarçando sua necessidade de auto-promoção. Todos invariavelmente escolhendo dentre suas habilidades qual lhes renderia mais para seus próprios egos. Muitas amizades terminaram, namoros se romperam, e emprestei meu ombro para muitas dessas pessoas.
Vi algumas guerras, vi algumas brigas.
No trabalho como engenheiro, vi sindicalistas, com a mesma ambição dos garotos de colégio, apenas aumentada e instrumentalizada, se agarrarem à mentiras como escada rolante para a promoção pessoal. Passei por um plano Cruzado 1, Cruzado 2, Cruzado novo, Plano Collor… os eternos salvadores da pátria, até que a vida se impusesse novamente, cada vez, e de novo.

Sempre os mesmos sentimentos pobres por trás de tudo.

Por outro lado, todos os idealistas autênticos que conheci, os genuinamente abnegados, possuem características comuns: não tentam convencer ninguém além deles mesmos, respeitam idéias opostas com a tranquilidade e a segurança de quem tem profundidade em seu caminho, sua vida é seu discurso. Tentam lutar contra a vaidade, a ambição sem freios, a inveja, a indisciplina, como verdadeiro inimigo à ser derrotado.

Foi com estes últimos que aprendi que a luta por um mundo melhor, pelo Reino de Deus, é uma luta travada dentro do homem, e não fora. Este mundo mais justo, este Reino, não é uma obra que um dia se verá completa por e para todos, mas que completa pode ser, na alma de quem O busca. Essa é a vanguarda da transformação. É nessas pessoas que deposito minhas esperanças de um mundo mais justo. Jamais naqueles que querem se impor, imaginado-se donos de uma percepção superior de realidade, que ao fazerem alimentam a batalha humana. Batalha a qual apenas difere da guerra pelo uso de armamentos, e que naturalmente conduz à esta última. A guerra não começa no primeiro tiro, mas no primeiro pensamento agressivo. O tiro real e o tiro verbal, pertencem à mesma natureza, e são efeito e causa da desgraça humana.

Dentro da espiral da evolução da sabedoria, é no começo e no fim, onde as diferenças são resolvidas num chá com biscoitos. Por isso, se olhamos a espiral de lado, esses dois pontos são tão distantes, e de cima, de onde Deus olha, eles são iguais. Ambos donos do Reino dos Céus.

Luciano Queiroz

Homenagem aos colegas da praia

August 24, 2006

Nas faxinas periódicas da memória, ainda não se apagaram muitas cenas de minha infância. São pessoas, locais, sabores… fotografias de um tempo que já vai longe levando com ele a lembrança dos detalhes. Os nomes me falham, alguns rostos importantes, datas, tudo pra sempre desconectado nas sinapses desfeitas de meus neurônios.

Mas ainda mantenho guardado aqueles momentos que, por terem sido mais marcantes, meu cérebro se recusa a abandonar-lhes de todo, mantendo pelo menos alguma imagem para que as lições não se percam. E é assim que ainda lembro dos meus pequenos amigos de brincadeira na praia. Perdão, eu disse amigos? Bem, talvez tenham sido apenas colegas. E é justamente a história desse coleguismo que nunca virou amizade que resisto em esquecer, pela importante marca que deixou em meu peito.

Quando ainda era um molequinho de 4 anos de idade, minha família se mudou para um bairro afastado do centro da cidade, que mantinha um ar ainda bem rural, com famílias de pescadores vivendo ao longo da rua. Meu pai vinha com boas condições, e se esmerou em construir uma casa que fosse à altura de seus sonhos. Foi assim que me tornei uma criança privilegiada, tendo uma infância cercada de conforto.

Mas, algumas vezes por ano eu ia até a praia que ficava nos fundos do terreno e encontrava as crianças de uma pequena viela de casas paupérrimas que ficavam à 50 metros de distância do nosso portão. Eram sempre mal vestidas, e constantemente sujos ou de cabelos raspados como solução para os piolhos. Suas casas, bem próximas à água, jogavam o esgoto direto na praia exalando um cheiro bem desagradável. E todos esses detalhes não me passavam despercebidos. Éramos crianças e eu tinha um desejo enorme de brincar com eles, chamá-los para tomar um suco, comer uns biscoitos. Eram uns quatro ou cinco garotos, alguns irmãos, que viviam de pé na areia, brincando pela praia quando não estavam pescando pra valer para ajudar os pais. E eu queria fazer parte daquilo, mas minhas roupas eram muito novas, eu não entendia o que eles falavam, e tinha medo de que ficassem envergonhados de entrar na minha casa, medo que minha mãe não gostasse, medo que eles quisessem se aproveitar de minha amizade. E no entanto, quando eu cedia e os convidava para jogar bola no gramado lá do canto do terreno, longe da casa, eram tardes de diversão sem preço.
Hoje vejo que não fui capaz de transpor o muro social que se colocou entre nós. A crueldade da realidade se apresentou com toda a sua força na minha frente, quando ainda era uma criança, de maneira silenciosa, me dando boas vindas ao mundo do lado de lá da cerca.

Ter perdido amigos assim de maneira tão cruel, numa fase da vida onde eles eram tão importantes, me deixou marcas permanentes.

Luciano Serra de Queiroz

Minha praia vista de casa, de onde ficava imaginando onde estariam eles…

Cingapura, parte 3

August 17, 2006

Cingapura é realmente um lugar para quebrar paradigmas. Hoje foi um dia que fiz perguntas sobre o sistema de governo. Descobri que o país tem eleições diretas mas não tem propriamente uma oposição livre. Me parece que tudo é bem controlado e existem algumas restrições, apesar de me garantirem que qualquer um pode se candidatar a presidente.
Todos em Cingapura têm um teto. O Governo constrói apartamentos para todo mundo mas as pessoas têm que pagar por eles. Nada é de graça e se você não tem emprego o governo arranja um pra você poder pagar pelo teto que eles lhe dão. O Imposto é sobre o consumo, mesmo modelo que o EUA, e 20% do salário das pessoas vai para uma conta aposentadoria que a pessoa pode fazer aplicações, mas não pode sacar. A única exceção é para a compra do apartamento próprio (esses do governo) quando a pessoa casa. Os muito ricos podem comprar uma casa sem ser do governo, mas num país minúsculo o preço é exorbitante.
Cingapura é uma meritocracia, onde todos têm trabalho, mas quem trabalha mais, ganha mais.
Um dos meus amigos daqui disse que é mais ou menos como no filme Matrix. O Sistema mantém todos bem, nada falta, e os dois lados podem tocar os negócios numa boa. Funciona. Mas esses meus amigos dizem que sentem falta do Japão, pois tinham mais liberdade.
Resumindo, é um país onde todos têm uma vida digna, mas falta liberdade. Comunismo? Não, Comunismo é crime em Cingapura e dá cadeia.

Então? É ou não é de quebrar paradigmas?

Luciano Queiroz

Cingapura, parte 2

August 16, 2006

Porque Florianópolis não pode ter um museu decente? Um que mostre a história da ilha, seus índios, colonizadores, lendas, costumes, e faça tudo isso com alto padrão de detalhes e tenha uma lojinha de souvenires no final? Algo como copos de cachaça de Floripa, camisetas, cartões, baleias de pelúcia, fantoches, bonecos do boi de mamão, etc… Porque Florianópolis não pode ter um aquário municipal, um teleférico, um chafariz, bonde, uma torre com restaurante panorâmico? Pessoalmente eu preferia a pequena e pacata cidadezinha de 25 anos atrás, mas como nem o tempo nem os que vieram de fora voltam, seria bom aproveitarmos o turismo para com ele melhorarmos a vida da população, proteger os mangues, as praias, a cultura local. Enfim, tudo o que Cingapura faz.
Aliás, todo mundo respeita a lei por aqui. Sabem o motivo? Só por comer no trem a multa é US$ 500. Se apertar o botão de emergência sem uma boa razão, a multa é de US$3500. Tráfico de drogas a pena é de morte.
Enfim: a rapaziada não vacila por aqui.

Luciano Queiroz

Cingapura, parte 1

August 15, 2006

Depois de um dia bem cansativo aqui em Cingapura já estou cheio de opiniões sobre esse pequeno, minúsculo país.

Alguns dados: Cingapura tem 42km por 23 km de área, e quase três milhões de habitantes. Desse reduzido território, 30% é resultado de aterro avançando mar ou rio adentro. A terra pra fazer novos aterros acabou e eles estão importando da Malásia. Praticamente não existem casas, pois não há espaço para elas, e fala-se quatro idiomas no país: inglês, tamil, mandarin e malay.
Sendo um país extremamente populoso, não esperava encontrar o que encontrei: um país verde, que divide com o Rio de Janeiro o privilégio de ter uma floresta tropical urbana. Isso além de muitas outras reservas. Tem uma estrutura incrível, com incontáveis shoppings, metrô, largas avenidas, viadutos, teatros, monumentos bem conservados, arranha-céus em bando. Uma organização invejável para receber bem o turista, com vários pontos de informação espalhados e mil folhetos indicativos que estão disponíveis gratuitamente em qualquer birosca. Para um país que acabou de fazer 41 anos, é impressionante. Agora tenho a dimensão real do que quer dizer o termo “tigres asiáticos”.
No entanto, é bem visível para o forasteiro que existe uma disritmia, uma falta de harmonia entre o país físico e sua população. Talvez a velocidade das mudanças tenha atropelado o povo local. Pelo menos é fácil perceber que eles não se sentem à vontade nesse novo país. Têm orgulho obviamente, mas ainda não parecem relaxados nesta superestrutura capitalista criada. O metrô é um bom exemplo: nas escadas rolantes eles não se colocam à esquerda para deixar os mais apressados passarem. Uns ficam, outros não. As pessoas se atrapalham nas máquinas de comprar os bilhetes e os vários painéis digitais dizendo quantos minutos faltam para o trem chegar sempre erram. Na hora que o trem chega, mesmo vazio, é uma correria para entrar.
Enfim, eles parecem ainda admirados com o que aconteceu, com o progresso que é realmente assustador. São como um retirante nordestino ao contrário, sendo São Paulo que veio para o sertão do dia para a noite.

Luciano Queiroz

Cingapura, de férias…

August 13, 2006

Passarei uma semana em Cingapura e provavelmente não vou escrever neste tempo.
Deixo algumas reflexões que me atormentam:

Eu e minha namorada temos muitas visões distintas sobre a situação política brasileira e porque não dizer, do mundo. Com ela, e por ela, sinto mais responsabilidade no que escrevo. Tudo, absolutamente tudo na vida tem vários aspectos e emitir opiniões pressupõe se estar disposto a escutar os dois lados. Escutá-la me faz um ser humano melhor. Exemplos?

Cuba é complexa. Eu condeno as ditaduras, qualquer uma, mas sou capaz de tentar entender as razões envolvidas, a complexidade de um povo, a sua história, para entender o que há por trás desta ditadura.

Israel tem direito à uma terra. Mas os Palestinos também. Israelenses e palestinos para mim dividem o mesmo DNA, a despeito do que eles possam acreditar sobre este tema.

O PCC é um grupo terrorista e deve ser preso e condenado. Políticos ligados à eles devem ser igualmente presos. Mas não posso deixar de entender que o sistema carcerário é falido e torturador.

E por aí vai, reforçando que a adoção de bandeiras impede o senso crítico, impede que vejamos uma sombra da verdade. E impede que sejamos melhores que qualquer um dos lados, empacando o mundo nesta situação que se encontra.

Luciano Queiroz

À todos que a vida me deu..

July 15, 2006



Só sei que o tempo passa rápido.
E deixa em mim um gosto estranho no fundo da boca.
E se tivesse aproveitado mais? Se tivesse me entregado mais?
Se pudesse ter todos os sorrisos de volta, todas as chances de amar de novo.
Se ao menos fosse mais fácil perceber o que realmente iria me fazer falta.
Se fosse mais fácil não esquecer, não ser esquecido.
Se eu pudesse, não voltar no tempo, mas ter mais uma chance de abraçá-los. Passar um tempo, agora sabendo que eles são o que sou. Eles, aqueles momentos que a felicidade sorri ao nosso lado, concedendo ironia à vida. Aqueles simples, do passeio, do jantar, do carinho, do filme. Que não voltam mais. Que passaram sem que eu me desse conta. E que continuam passando. E me sinto condenado à sempre olhar pra trás e ver que tudo ficou incompleto. Que havia mais a ser feito. Havia mais de mim a ser dado. E eu não vi.
Sei que a vida não será nem boa nem ruim. Será apenas vida, que vivo com força.
Mas aprendi que haverá para sempre esse gosto, estranho, no fundo da alma…

Luciano Queiroz

Acho que é assim que funciona.

July 13, 2006

Só uma reflexão sobre esses atentados. Acho que o fluxograma é bem maior, mas quem quiser que continue. A PF, por exemplo…

Luciano Queiroz

Errei!

Corrigindo o post anterior: Nariz Gelado me passou um pito e me explicou que o que costuma ser cortado fora em caso de atraso no conteúdo do ano letivo é a Revolução Americana e não a Francesa.

Da Rev. Francesa os professores não abrem mão.

Bem, menos mal! Obrigado Nariz!

Luciano Queiroz

Revolução Mexicana

July 12, 2006

Hoje foi um dia desses de trabalho sem muito o que fazer. Não é normal, mas às vezes acontece. Entrei no Blog do Noblat pra dar uma olhada rápida e peguei uma discussão sobre Rev. Francesa. Nariz Gelado afirmava que as escolas ensinam muito mal sobre a Rev. Francesa e pior ainda sobre a Rev. Americana. Quando se atrasam no currículo, estes dois temas são alguns dos primeiros a serem guilhotinados (sacou o trocadilho, hein, hein??). NG defende que aprendamos prioritariamente sobre história das Américas, o que faz sentido. Concordo com ela. Se não soubermos nossa história, quem vai? Os japoneses?

Pois não é que NG me contou que as crianças de hoje aprendem sobre Rev. Russa e nada sobre Rev. Mexicana? Fiquei chocado! Revolução no México? Que revolução? Zorro?

Depois de muito queimar fostato me lembrei de Zapata. Emiliano Zapata! É, ele está metido neste angú aí....


Zapata

É bem embaraçoso admitir que não se sabe alguma coisa. E correndo o risco do meu blog ficar parecendo site de curso de História, achei um link bem interessante sobre o assunto que coloco aí em baixo. Por sinal, há muito mais a se aprender sobre nós mesmos na Revolução Mexicana do que eu poderia supor. Vale a leitura. É claro que a história dos países, não pode ser entendida em alguns parágrafos. É preciso reflexão, contexto, relações. Não quero contribuir aqui com aquele tipo de pessoa que repete frases feitas, que eu tanto condeno, mas espero despertar o interesse pelo assunto, se não nos outros, em mim mesmo.

História por Voltaire Schilling – Revolução Mexicana

Diretas Show

July 7, 2006

Morreu Dante de Oliveira. Autor da emenda das Diretas, Dante faleceu de infecção generalizada. Ironicamente foi da mesma forma que Tancredo morreu.

O movimento das Diretas, talvez o mais bonito que o país já teve, dá bem a dimensão do caráter das revoltas populares no Brasil. Apesar de todo o clamor das ruas, as passeatas renderam mais em termos de imagens e programas sentimentalóides para a rede Globo e outras, do que efeitos práticos para o país.

Luciano Queiroz

Contradições Humanas

July 6, 2006

Definitivamente amadurecer é abandonar idéias pré-concebidas, que compramos por aí e que nos transformam em seres humanos definhados. Chego à essa conclusão depois de muito refletir sobre o papel que o ser humano deve ter num mundo cada vez mais sufocado, agoniado, fruto de nossa luta pela sobrevivência. Nada é definitivo, nada é 100% aquilo que você acredita ser.

Japoneses são educados, e matam baleias. ONGs são importantes, mas perpetuam estruturas e podem manipular sociedades. Queremos os norte-americanos sempre vilões, mas isso é tão irreal quanto imaginar europeus sempre cultos ou africanos sempre sorridentes e pobres (ou vice e versa, tudo ao contrário). As sociedades estão em mutação. A Europa hoje anda a passos rápidos em direção a se tornar o verdadeiro continente negro, devido à imigração massiça de africanos. A América Latina parece afundando, mas a complexidade dos movimentos, dos atores do continente, faz com que o horizonte seja pouco visível. Pobres não são bons e ricos não são maus. O ser humano carrega em si muitas contradições à respeito do poder, da liberdade, da vida em sociedade.

As razões do sofrimento são infinitas dentro da alma humana eternamente desorientada. E esta afirmação parece esconder uma situação transitória, mas no entanto, para mim ela define o próprio ser. Faz parte do que somos, de sermos humanos, sermos arrebatados por contradições. Seres humanos se classificam. Seres humanos delegam o controle de sua liberdade à terceiros. Seres humanos conseguem se inferiorizar espontaneamente!

Então como fazer pra não ser vela que puxa contra o vento da História? Como não ser mero passageiro desse barco?

Creio que o único espaço é tentar abrir os olhos da humanidade para o que é verdadeiro e importante. Egoísmo, pequenez, ódio, raiva, rancor, inveja, são sentimentos humanos que independem dos cobres da criatura, falam todos os idiomas e estão presentes em nossa essência. É esse o mal que precisa ser combatido. Este mal, que paira acima do mundo caótico que vemos, é visto por poucos, e é a razão da dor humana. Tanto nossa desgraça como civilização, como nossa desgraça pessoal que chora dentro de cada um, em todos os cantos do mundo.

Luciano Queiroz

Resolvi pedalar por aí.

June 20, 2006


Resolvi pedalar por aí. Decidi que não tinha tempo para os sentimentos menores, ciúmes, inveja, medo. Queria o sol no rosto e o sorriso aberto. Abdiquei da pequenez, pra assisti-la apenas de passagem. Fugi das tolas disputas, do egoísmo incrustrado. Apenas pedalo por aí, vendo a paisagem.
E passei a enxergar melhor. Meu bom humor ficou em forma. Pacifiquei meu mar e navego tranquilo. Minhas angústias passaram a ser menores que minhas certezas. A vida deixou de ser só chegada, pra se tornar caminho. Tive tempo de repassar os erros cometidos e me senti feliz pagando o preço por cada um deles. Preços justos. Fazem lembrar-me que vivi, e que pra cada erro tive minha cota de acertos. Ao lembrar de tudo, vi que tudo me foi bom e me trouxe até aqui. Vi dignidade na miséria, vi miséria na riqueza, e vice e versa. Mergulhei, voei, escalei. Fui sozinho com muitos e tive o mundo estando só. Tive que me reinventar, enquanto desmoronavam minhas certezas. Fui péssimo músico, velejador medíocre, mau fotógrafo. Mas conhecer minhas limitações não tirou o prazer de minhas músicas, do vento no rosto e das imagens que me tocam. Os que magoei, que me perdoem. Os que me magoaram, bem, já nem lembro. Mágoa pesa muito e peso extra atrasa a viagem.
Tenho muito o que fazer, ainda há muito o que pedalar. E é bom saber que ainda posso ser surpreendido pelos presentes que a vida dá.
Sinto que vou ter que aprender tudo do começo. De novo.

Luciano Queiroz

O Pior dos Enganos

June 15, 2006

Qual é o elemento que caracteriza uma sociedade como tal? Que característica deve estar presente à um grupo de indivíduos para que o chamemos de comunidade?

Entendo que um sistema que valha para todos deve ser a resposta e a própria natureza dos sistemas sociais. Mesmo aqueles espontâneos, em comunidades sem leis escritas, os indivíduos se reconhecem como grupo por obedecerem ao mesmo código de convivência. É assim em tribos indígenas, foi assim na Antiguidade. Esse é o princípio das civilizações, sejam elas de que credo ou cor forem. Assim também é a Democracia. O que vale pra um, tem que valer pra todos.

Olhando mais de perto, encontramos os movimentos sociais inseridos em qualquer sociedade, e são e devem ser partes de uma Democracia sólida. Estão previstos no conceito democrático e são necessários por amplificarem demandas urgentes que são consenso dentro de um determinado grupo.

Em paises não democráticos, pega-se em armas. Quem pode mais, faz valer sua vontade. (vide as FARC, ou o massacre do Congo, pra ficar só nesses). Em países democráticos, esses grupos obedecem leis comuns à todos, pois não é prevista distinção de aplicabilidade da lei de acordo com a demanda ou motivação de cada um. Atenuações talvez, mas a lei continua valendo pra todos. Daí deduz-se que a Democracia tem como uma de suas mais nobres vantagens, a proteção do indivíduo mais fraco.


Rocinha. Não é culpa da Democracia mas, ao contrário, da falta da mesma.

Posto isso, temos que decidir o que o Brasil é, ou quer ser. Uma vez que se escolha a democracia, e essa não é uma escolha obrigatória, um conjunto de princípios básicos amplamente aceito deve ser estabelecido.

Essa premissa básica, fundamento tão caro à igualdade dos seres humanos, passou por um processo de desmoralização intenso no último ano no Brasil, com a impunidade sendo defendida abertamente, sem rodeios pelo governo federal, e aceita cinicamente pela oposição. O Brasil flertou com a não democracia sem escrúpulos nos últimos meses. E pior, flertou sem um rumo alternativo à seguir.

O interessante é que nem um, nem ao menos um movimento organizado da sociedade civil veio a público condenar o que se passou. Nenhum dos movimentos em defesa de minorias, ou que defendem justiça social, se posicionou inequivocamente na defesa da igualdade de direitos e deveres. Muito pelo contrário, observamos uma compactuação com essa ameaça ao país, beirando o oportunismo, levando alguns grupos organizados a usar o mesmo expediente, seguindo o exemplo de seus líderes políticos. “A lei que não vale pra eles, tambem não vale pra nós.” Muito justo. No entanto, igualmente perigoso. Perigoso porque é o caminho pavimentado para o retrocesso.

A Democracia foi o sistema que melhor organizou os homens em sociedade inventado até hoje. Criado pelos gregos e aperfeicoado pelos americanos, ainda nao surgiu nada que lhe fosse superior. Em nome de alternativas, já se assassinaram mais de 10 milhões de pessoas só no século passado. Não tiveram sucesso. Se queremos então abolir nosso sistema através da sabotagem para que algo novo melhor surja, temos que ter a consciência de que voltaremos sem demora à um período pré-helenístico: o dos bárbaros. Exagero? Pois acredite que é exatamente a mesma forma que vivem inúmeras sociedades no mundo atual. Os massacres que tanto condenamos mundo afora são geralmente fruto dessa injusta forma de organização baseada na força. Se a Democracia vacila, o mais fraco é a primeira vítima.

Neste contexto, o movimento social brasileiro foi e é, em geral, mal sucedido. Não conseguem as suas lideranças perceber, ou percebem mas usam seus postos como trampolim ao status-quo, que está na Democracia a resposta para seus anseios. Buscam, antes disso, combatê-la como se esta fosse a causa de seu mal. E o discurso inatacável identificado com o rótulo de correto, arrasta multidões de vítimas da falta de democracia que nos atinge, para o lado errado. Propõem ao doente, mais da doença como cura. Essas vítimas são os sem estudo, sem qualificação, sem saúde, enfim, menos iguais que outros. E é essa dinâmica que faz a justiça social brasileira caminhar para o lado errado. São líderes travestidos de defensores do povo, mas são uma das principais causas do atraso de nossa evolução para uma sociedade mais igual. E como cruzam o limite da lei ao sabor de sua estratégia, se juntam e se confundem com outros grupos que habitam esse mesmo espaço. Isso explica em grande parte a profusão de criminosos que infestaram as instâncias do governo federal desde que o PT chegou ao poder.

Curiosa ainda é essa última constatação. O PT chegou ao poder, e ao poder democrático. Mas como a Democracia lhe cobra o preço da negociação, da não imposição unilateral de sua vontade, o partido nao abre mão de ser também o anti-stablishment. Numa situação surreal, o PT é oposição de si mesmo, financiado pelo dinheiro público. Enquanto uma parte da sociedade se cala com medo de ser taxada de preconceituosa e insensível, a outra segue acreditando que a cura está logo ali na frente, enquanto bebe os venenos dos curandeiros.

É a hora do aperfeiçoamento da Democracia. Precisamos de mais poder de controle sobre os políticos, leis ágeis, menos níveis de apelação, leis anti-corrupção severas, isonomia de penas, fidelidade partidária, voto distrital. Um governo que não cobre impostos como a Alemanha e que ofereça serviços como o Haiti. Precisamos investir em tecnologia, em ciência. Foi o caminho Chileno, que hoje reduziu drasticamente sua miséria. Singapura deixou o Brasil pra trás e erradicou a pobreza. A Coréia do Sul também.

Podemos optar pelo outro caminho, o tal do pré-helenistico que citei. Não estaremos sozinhos. Mas é bom começarmos a praticar tiro ao alvo….

Luciano Queiroz

Houdini

May 26, 2006

Enquanto procurava a foto para o post mais abaixo (da mulher segurando uma caneta) achei esta do mágico Houdini. Sua história para mim é fascinante. Desde os truques até sua morte tragicamente tola.

Mas o que mais me chama a atenção foi tentativa de Houdini de desmascarar o Espiritismo. Descobri isso num programa muito interessante do Discovery Channel. O programa era todo voltado para desvendar as origens da crença.

(Nota importante: credo não se discute. Não tenho essa pretensão. Cada um acredita no que quer. Apenas acho muito interessante as nuances da natureza humana.)

Neste site você encontra a história do mágico, do qual destaco o seguinte trecho:

Nos seus últimos anos de vida gastou parte de seu tempo desmascarando espiritualistas e mostrando como eram cometidas fraudes em espetáculos de parapsicologia e sessões espíritas. Seu interesse por destruir outros profissionais, teve início após a morte de sua mãe Cecilia Weisz. Por causa de seu passado como ilusionista, ele conhecia a maioria das técnicas utilizadas por médiuns para estabelecer contato com o mundo dos espíritos. Houdini criou uma espécie de cruzada contra os charlatães que tungavam o dinheiro de famílias inteiras que tentavam contactar seus mortos. Ele frequentemente comparecia disfarçado em sessões espíritas, para desmascarar os médiuns.
Houdini apregoava que se houvesse uma forma verdadeira de contactar os mortos, somente ele poderia conseguir tal proeza.
Houdini inclusive atacou o mito de Robert Houdin, de quem emprestou o nome com o qual alcançou a fama.

Neste outro site você encontra outros médiuns da história que foram desmascarados ou que revelaram seus segredos. Por ser um site Católico, alguém pode supor uma distorção dos fatos. Afirmo apenas que os dados são os mesmos que os usados pelo Discovery Channel.

Luciano Queiroz

Arma de guerra

Escrever é um ofício penoso. Nunca traduz a profusão de pensamentos que tenho e sempre simplifica demais a complexidade com que vejo o mundo. Quando escrevo, desenrolo um novelo mental, onde uma idéia leva à outra, à outra, e mais outra. Tenho dificuldades em oferecer partes limitadas, da reflexão maior que é a minha própria vida.

De tanto ler artigos, me faltam os clássicos da literatura. Sinto falta, para o livro, de densidade, nuances, ritmo e riqueza. Tragédia das tragédias eu penso será empobrecer o que é naturalmente complexo ou ao contrário, carregar nas tintas destruindo a simplicidade que tanto prezo.

Pra não perder o hábito, ao escrever os parágrafos acima, me vi descrevendo o que vai pela minha própria vida, em outras dimensões. Sempre lutei contra o universo binário, dos julgamentos simplórios e analises míopes. E quando eu mesmo corro o risco de sossegar no campo da auto unanimidade, me vejo lançado no desafio de investigar novamente, de compreender, de explicar. (o que é uma maravilha!)

Idéias não são bandeiras. O ser humano que as carrega como tatuagens, está fadado ao atraso. Atraso evolutivo.

Faço de minha pena minha arma. Arma de guerra. Guerra para afastar dos arredores os arrogantes, os que se querem donos das verdades universais. Fora de minha propriedade, fariseus! Aqui em minha seara, que os anos me deram, quero os que sabem mudar de idéia. E quero os que, de quebra, mudam um pouco das minhas.

Luciano Queiroz

O país que não deu certo

May 17, 2006

Para os que lêem o blog e não me conhecem, vou me expôr agora como pouco faço por aqui. Pelo menos não com os fatos, apesar de expôr minhas idéias de maneira digna de uma lobotomia.

E lhes partilho o fato de ter achado uma parceirinha pra dividir o álbum de fotografias. Ficamos estes dias todos das últimas semanas envoltos nas pequenas maravilhosas coisas que fazem da paixão este sentimento inebriante e intenso. Torcemos muito para que vire amor duradouro.

Ocupando todo meu coração em viver até a ultima gota este sentimento, bateu fundo a dor do contraste quando vi as imagens de um Brasil afundado em violência. Foi como se, quando criança, me derrubassem da jaboticabeira. Entendam, continuo apaixonado. Mas a vida se encarregou de me lembrar do que é feita.

É duro ver o Brasil, terra adorada, ser sangrado indefeso. Sim, filhos teus nós fugimos a luta. Da mãe gentil pouco restou. Gentileza dos apaixonados como eu, que não faz sentido numa realidade tão brutal quanto a que se encontra o florão da América.

Que pelo menos desta vez não fiquemos à margem do Ipiranga esperando o brado retumbante. Ele não virá. A vida não é dos que esperam pelo sol da liberdade com seus raios fúlgidos, mas daqueles que plantam e colhem, dia à dia.

É chegada a hora de lutarmos nós pela paz no futuro que cantamos desde crianças, porque ela está se esvaindo entre nossos dedos, banhando a terra que amamos com o sangue de nossos filhos, de meus filhos que ainda não nasceram.


Pense agora no seu país, na sua vida, no futuro que você sonhou pra quem você ama e clique no link abaixo. Fiz isso, e não pude evitar algumas lágrimas…

Brasil

Corujas

May 9, 2006

Pesquisando esses dias sobre lendas deste Brasil, descobri essa que achei interessante:

“aqueles que encontrarem uma coruja, nas primeiras horas da primeira sexta-feira do quinto mês do ano, perto de uma lagoa de água salgada, serão seguros como a coruja, serenos como a lagoa, e apaixonados como um pelo outro.”

Bacana, não? Eu acredito…

Sombras na Caverna

April 18, 2006

Esta semana tive uma oportunidade incrível. Visitei o mercado de peixes de Toquio. Se você é daqueles que pensa que já viu de tudo um pouco, recomendo essa visita para lhe devolver a humildade. É um lugar sensacional e há muito para escrever sobre ele. Prometo voltar ao tema mais pra frente.
A razão para este texto apareceu na volta para casa. Sentado no trem, bastante cansado, pensava eu na maravilha do lugar, e em tudo que poderia escrever sobre ele. A maneira como todos os sentidos são estimulados de forma intensa, a variedade que nunca havia visto, a provável tragédia ambiental… Foi quando meu senso crítico entrou em ação e me alertou para um fato que me intriga bastante: lugares maravilhos para uns, são bastante sem graça para outros.
Platão acreditava que a realidade é nada mais do que sombras projetadas na parede no fundo de uma caverna. Ele defendia que algumas pessoas mais iluminadas (os filósofos) são capazes de olhar o mundo real e voltar para tentar alertar aos demais que eles só enxergam um mundo distorcido.
O pensamento de Platão me conforta. Ele nao privilegia. A boca da caverna está ao alcance de todos, mas alguns se recusam à virar a cabeca. Quando fico sabendo de algum crime, quando vejo descasos, quando observo o comportamento de pessoas em zoológicos, enfim, a pequenez humana em todas as suas dimensões, entendo Platão. Infelizmente nao dá pra virar a cabeca de ninguém na marra. Muitos, senão a maioria, morrerão sem admirar a maravilha do mundo real.
Voltando ao mercado, tenho certeza que a maioria das pessoas nao aproveitará a chance para aprimorar sua alma, diante de tudo o que lhes é mostrado lá. E com isso resolvi ajustar minha empolgação para um padrao mais “fundo da caverna”.
Mas a realidade é sutil e inexorável. Mais cedo ou mais tarde o ser humano percebe que é o passageiro mais recente deste mundo e finalmente se cala. Às vezes, talvez, tarde demais.

Luciano Queiroz

Minha saudosa caixa de areia

April 3, 2006

Toda a criança tem um cantinho, um espaço, que ela elege como seu. Pode ser uma praça, um canto do colégio, seu próprio quarto, um brinquedo. Ali ela dá seus primeiros passos sociais, tentando dominar o seu mundo. Aprende neste espacinho a gerenciar sua vida: quem entra, quem é banido, as regras. Ali ela se sente segura pra criar suas fantasias, aprender a sonhar e imaginar o que está por vir, quando um dia for grande.
No meu caso e de um grupo de crianças que o tempo já levou pra longe, esse espaço era a caixa de areia do Colégio Menino Jesus.
Nosso dia era o recreio. As aulas eram apenas uma longa espera por aqueles parcos minutos de intervalo. Quando a “tia” liberava era todo mundo descendo correndo, para desespero das freiras que com medo que quebrássemos a cabeça, nos proibiam de descer daquele jeito. Um infinitésimo depois já estávamos lá, dominando nosso reino, delimitando espaços. Eu, um exímio arquiteto de pistas de corrida, começava a traçar o circuito com o pé de lado, puxando a areia. Deixava pro final os detalhes mais emocionantes como as pontes, túneis, fossos, “chinqueines”... Enquanto isso um abnegado ficava incumbido de esperar a “tia” abrir os refrigerantes para pegar as tampinhas que caiam no chão, nossos velozes “carros de corrida”.
Uma vez pronto o circuito e os devidos “carros” batizados com nomes de pilotos da época (eu sempre era o Chico Serra, pois também tenho este sobrenome. Piquet era disputado no grito) comecávamos a incrível corrida.
Quer saber as regras? Bem, conto assim mesmo…
Uma vez todos os “carros” alinhados na pista, cada um na sua vez dava um peteleco na sua tampinha. Pronto. Essas eram as regras. Quem chegasse primeiro ganhava. Na verdade tinha umas outras regrinhas sim que diziam que o carro que saísse da pista numa petelecada mais exagerada, voltava pro lugar de origem e o “piloto” perdia a vez. Se ficasse em cima da mureta o piloto gritava “-MURALHA!!” e tava valendo.
Ficávamos tão distraídos que o recreio passava piscando e às vezes interrompia corridas pelo meio. Enquanto dávamos nossos petelecos que deixavam os dedos doídos, conversávamos sobre muitas coisas, nossas visões do mundo dos adultos, nossos pais, o que iríamos fazer no futuro.
Aquele espacinho que compartilhou nossa infância era o que há de mais singelo no mundo: areia. Não tinha nenhum gigabite, nem HD, nem gráficos avançados. Mas era nossa e não a trocaria por computador nenhum do mundo.
Me lembro de todo dia chegar em casa, subir correndo as escadas e medir a quantidade de areia que tinha vindo em meus sapatos. Era sempre um punhado. Então guardava a tampinha do dia em uma caixa onde algumas outras centenas já repousavam e me jogava na cama, esperando o almoço e relembrando as coisas boas daquelas manhãs inesquecíveis.
Que saudades de passar alguns minutos com amigos, dando petelecos em simples tampinhas.
É preciso muito pouco pra se ser feliz.

Luciano Queiroz