Verdadeiros amigos…

October 5, 2008

“Quando você quer ajudar as pessoas, você diz a verdade a elas; quando você quer se ajudar, você diz a elas aquilo que elas querem escutar.”

Thomas Sowell

Como se chama isso?

September 23, 2008

O que é que posso fazer? O que há pra ser feito? Se sinto que sou escravo daquilo que consigo ser? Como ser outra coisa, que seja decidida e cuidadosa? Como ser flor e espinho, leão e esquilo? Como abraçar e falar da calma, e trazer a paz e a segurança? Como quando a vida se mostra sempre tão incerta, tirando sempre de mim minhas certezas? Como não cometer erros?

Alguém me explique, pois tenho pressa…

Como ainda aproveitar a felicidade sem descuidar, e matar a muda ainda pequena, sem condições de suportar o frio? Como? Como pular da ponte, quando a própria ponte é a única certeza? Alguém me explique pois o rio não pára pra esperar…

Quero o mundo e não sei onde ele está. Quero o colo e não sei onde ele está. Só sei que existe uma energia infinita que me percorre, que me faz mover mundos, que me faz amar sem direção, mas que ao mesmo tempo se ressente quando confrontada. E agora é a hora. A hora de sentar no banco e escutar o que a “tia” Vida quer dizer. A hora de ficar em silêncio, a hora de gritar. Hora de dizer que ama, hora de não pesar coerências, hora de não pesar prejuízos. Hora de pedir perdão. Hora de ser o que se pode ser, até que se consiga ser outra coisa. Mas que esse pouco seja suficiente para derrubar as defesas. Que seja como flor roubada, meio desgastada, mas que significa um mundo. Que seja possível sorrir, e com isso domar o que há de incontrolável dentro de mim, e que a paz seja nossa casa contra o que de ruim vier.

Amazônia por um Sulista

March 11, 2007

Tenho um amigo, antigo companheiro de viagem, que esteve na Amazônia recentemente e está começando uma série de relatos sobre o que ele viu. Carregando um gravador e um livro de notas, ele colecionou relatos e percepões sobre a realidade amazônica, que é tão falada e tão desconhecida por nós. O primeiro artigo está disponível no site Amazônia por um sulista. O texto é muito interessante e vale a leitura.

Um trecho:

“Na conversa com Jonilson perguntei se ele não achava perigoso isso, ele respondeu: “não tem perigo não, quando estás garimpando de repente tu sentes uma parada, uma calmaria, como se fosse um ar, uma brisa dentro d’água, aí tu mais ou menos sabes que o negócio vai desmoronar, aí é só sair”.”
Rafael Leal

Meu manguezal

February 15, 2007

Era um dia de novas resoluções, e por isso mesmo, sentia-se diferente naquela tarde. Havia chegado da aula e decidido que iria usar seu caiaque depois do almoço. Não era de hábito fazer isso, descer até a praia, a não ser durante as férias, quando seu tio ou seu avô o visitavam. Mas era como se precisasse conferir algo. Como se houvesse uma conversa particular a ser feita. Tinha um encontro marcado, não sabia bem com quem, ou o quê.
E assim fez. Após trocar de roupa foi até a praia e pôs-se a remar.
O caiaque deslizava fácil e fazia quase nenhum barulho. Assim, as gaivotas e os biguás pousados pelas pedras permitiam-lhe aproximar sem que voassem assustados. Peixes pulavam surpreendentemente perto, alarmados por aquela presença inesperada e sorrateira. Enquanto a casa ficava para trás, esses pequenos acontecimentos revelavam ao menino um segredo reservado a poucos humanos: a Natureza é amiga do silêncio. Entendeu essa lição instantaneamente, e imprimiu com força na alma para jamais esquecer.
Enquanto remava cautelosamente, sentia-se pela primeira vez acolhido naquele ambiente. Pela primeira vez, depois de tantas e tantas vezes passar de barco por ali, não parecia ser uma presença agressora. E foi envolto nesses pensamentos que virou a ponta da praia, abrindo à seus olhos a visão total do manguezal, quieto, imenso, solitário. Remou decidido por uns vinte minutos, até atingir a entrada de um dos canais que desaguavam na enseada e que irrigavam toda aquela floresta de lama, galhos e caranguejos. Chegou na boca do rio… e entrou. E viu sua vida mudar para sempre. Entrou sozinho, em silêncio, e no silêncio observou calmamente os cardumes numerosos de peixes filhotes. Contemplou os caranguejos em seu vai e vem, às vezes lento, às vezes frenético. As raízes imponentes, a floresta escura. Teve medo. Sentiu-se sozinho, e como tal, embaixador de sua raça. Viu muitas aves, viu colhereiros, que nunca havia visto, no topo dos mangues mais altos. E eles não se importaram com sua presença. Nenhum deles se importou.
E o menino pela primeira vez se sentiu insignificante. E na sua insignificância, viu que era menor do que aquilo tudo que via. Foi quando aquele monte de lama ganhou divindade, ganhou-lhe a alma e virou sangue de seu sangue. Até então, não havia entendido os sussurros, as mudanças sutis, a delicadeza das coisas vivas. Mas lhe foi permitido olhar por uma pequena fresta.
Jamais pode voltar ali sem que seu coração ajoelhasse em profunda reverência, por ter aprendido a lição de mil livros. O menino jamais foi o mesmo, e ele divide agora, com vocês, sua gratidão ao seu querido manguezal.
Luciano Queiroz

A espiral da sabedoria

September 2, 2006


Acredito que a verdadeira sabedoria da vida vem invariavelmente quando percorremos uma espiral imaginária, que nos faz progredir ao mesmo tempo que dá novos sentidos à pensamentos antigos. Começamos com nossos entendimentos infantis e vamos ganhando complexidade, acumulando experiências, exigindo explicações complicadas para tudo e assumindo camadas de verdades sobrepostas. Depois, vamos derrubando toda essa teorização da existência à medida que a vida se impõem sobre nossos ombros. E acabamos por ver que nos resta nas mãos as idéias que lá já estavam, nos tempos de menino.

É claro que não voltamos ao ponto de partida impunes, pois seria tolice. A criança não sabe porque pensa o que pensa. Já a sabedoria sabe bem o que faz, e ela precisa percorrer um caminho para evoluir. Fazer o homem compreender que os sentimentos infantis de ausência de rancor, da fraternidade, de autenticidade, de sinceridade, se nas crianças é ingenuidade, pode para os adultos no entanto ser a resposta que procuramos.

E eu, como em uma parada para olhar o mapa, sempre tento me situar neste espaço espiral imaginário e resgatar como é que cheguei até aqui. Porque me tornei este alguém, que acredita que a solução para a humanidade vem de dentro dos seres humanos pra fora?
Fui vasculhar e encontrei várias lembranças.

No colégio, eu percebia que os garotos populares anulavam os mais tímidos sob sua asa para satisfazerem seus egos inchados fruto de pais super-protetores. Na faculdade, vi a ditadura dos diretórios de estudantes, com seus líderes mal disfarçando sua necessidade de auto-promoção. Todos invariavelmente escolhendo dentre suas habilidades qual lhes renderia mais para seus próprios egos. Muitas amizades terminaram, namoros se romperam, e emprestei meu ombro para muitas dessas pessoas.
Vi algumas guerras, vi algumas brigas.
No trabalho como engenheiro, vi sindicalistas, com a mesma ambição dos garotos de colégio, apenas aumentada e instrumentalizada, se agarrarem à mentiras como escada rolante para a promoção pessoal. Passei por um plano Cruzado 1, Cruzado 2, Cruzado novo, Plano Collor… os eternos salvadores da pátria, até que a vida se impusesse novamente, cada vez, e de novo.

Sempre os mesmos sentimentos pobres por trás de tudo.

Por outro lado, todos os idealistas autênticos que conheci, os genuinamente abnegados, possuem características comuns: não tentam convencer ninguém além deles mesmos, respeitam idéias opostas com a tranquilidade e a segurança de quem tem profundidade em seu caminho, sua vida é seu discurso. Tentam lutar contra a vaidade, a ambição sem freios, a inveja, a indisciplina, como verdadeiro inimigo à ser derrotado.

Foi com estes últimos que aprendi que a luta por um mundo melhor, pelo Reino de Deus, é uma luta travada dentro do homem, e não fora. Este mundo mais justo, este Reino, não é uma obra que um dia se verá completa por e para todos, mas que completa pode ser, na alma de quem O busca. Essa é a vanguarda da transformação. É nessas pessoas que deposito minhas esperanças de um mundo mais justo. Jamais naqueles que querem se impor, imaginado-se donos de uma percepção superior de realidade, que ao fazerem alimentam a batalha humana. Batalha a qual apenas difere da guerra pelo uso de armamentos, e que naturalmente conduz à esta última. A guerra não começa no primeiro tiro, mas no primeiro pensamento agressivo. O tiro real e o tiro verbal, pertencem à mesma natureza, e são efeito e causa da desgraça humana.

Dentro da espiral da evolução da sabedoria, é no começo e no fim, onde as diferenças são resolvidas num chá com biscoitos. Por isso, se olhamos a espiral de lado, esses dois pontos são tão distantes, e de cima, de onde Deus olha, eles são iguais. Ambos donos do Reino dos Céus.

Luciano Queiroz

Homenagem aos colegas da praia

August 24, 2006

Nas faxinas periódicas da memória, ainda não se apagaram muitas cenas de minha infância. São pessoas, locais, sabores… fotografias de um tempo que já vai longe levando com ele a lembrança dos detalhes. Os nomes me falham, alguns rostos importantes, datas, tudo pra sempre desconectado nas sinapses desfeitas de meus neurônios.

Mas ainda mantenho guardado aqueles momentos que, por terem sido mais marcantes, meu cérebro se recusa a abandonar-lhes de todo, mantendo pelo menos alguma imagem para que as lições não se percam. E é assim que ainda lembro dos meus pequenos amigos de brincadeira na praia. Perdão, eu disse amigos? Bem, talvez tenham sido apenas colegas. E é justamente a história desse coleguismo que nunca virou amizade que resisto em esquecer, pela importante marca que deixou em meu peito.

Quando ainda era um molequinho de 4 anos de idade, minha família se mudou para um bairro afastado do centro da cidade, que mantinha um ar ainda bem rural, com famílias de pescadores vivendo ao longo da rua. Meu pai vinha com boas condições, e se esmerou em construir uma casa que fosse à altura de seus sonhos. Foi assim que me tornei uma criança privilegiada, tendo uma infância cercada de conforto.

Mas, algumas vezes por ano eu ia até a praia que ficava nos fundos do terreno e encontrava as crianças de uma pequena viela de casas paupérrimas que ficavam à 50 metros de distância do nosso portão. Eram sempre mal vestidas, e constantemente sujos ou de cabelos raspados como solução para os piolhos. Suas casas, bem próximas à água, jogavam o esgoto direto na praia exalando um cheiro bem desagradável. E todos esses detalhes não me passavam despercebidos. Éramos crianças e eu tinha um desejo enorme de brincar com eles, chamá-los para tomar um suco, comer uns biscoitos. Eram uns quatro ou cinco garotos, alguns irmãos, que viviam de pé na areia, brincando pela praia quando não estavam pescando pra valer para ajudar os pais. E eu queria fazer parte daquilo, mas minhas roupas eram muito novas, eu não entendia o que eles falavam, e tinha medo de que ficassem envergonhados de entrar na minha casa, medo que minha mãe não gostasse, medo que eles quisessem se aproveitar de minha amizade. E no entanto, quando eu cedia e os convidava para jogar bola no gramado lá do canto do terreno, longe da casa, eram tardes de diversão sem preço.
Hoje vejo que não fui capaz de transpor o muro social que se colocou entre nós. A crueldade da realidade se apresentou com toda a sua força na minha frente, quando ainda era uma criança, de maneira silenciosa, me dando boas vindas ao mundo do lado de lá da cerca.

Ter perdido amigos assim de maneira tão cruel, numa fase da vida onde eles eram tão importantes, me deixou marcas permanentes.

Luciano Serra de Queiroz

Minha praia vista de casa, de onde ficava imaginando onde estariam eles…

À todos que a vida me deu..

July 15, 2006



Só sei que o tempo passa rápido.
E deixa em mim um gosto estranho no fundo da boca.
E se tivesse aproveitado mais? Se tivesse me entregado mais?
Se pudesse ter todos os sorrisos de volta, todas as chances de amar de novo.
Se ao menos fosse mais fácil perceber o que realmente iria me fazer falta.
Se fosse mais fácil não esquecer, não ser esquecido.
Se eu pudesse, não voltar no tempo, mas ter mais uma chance de abraçá-los. Passar um tempo, agora sabendo que eles são o que sou. Eles, aqueles momentos que a felicidade sorri ao nosso lado, concedendo ironia à vida. Aqueles simples, do passeio, do jantar, do carinho, do filme. Que não voltam mais. Que passaram sem que eu me desse conta. E que continuam passando. E me sinto condenado à sempre olhar pra trás e ver que tudo ficou incompleto. Que havia mais a ser feito. Havia mais de mim a ser dado. E eu não vi.
Sei que a vida não será nem boa nem ruim. Será apenas vida, que vivo com força.
Mas aprendi que haverá para sempre esse gosto, estranho, no fundo da alma…

Luciano Queiroz

Contradições Humanas

July 6, 2006

Definitivamente amadurecer é abandonar idéias pré-concebidas, que compramos por aí e que nos transformam em seres humanos definhados. Chego à essa conclusão depois de muito refletir sobre o papel que o ser humano deve ter num mundo cada vez mais sufocado, agoniado, fruto de nossa luta pela sobrevivência. Nada é definitivo, nada é 100% aquilo que você acredita ser.

Japoneses são educados, e matam baleias. ONGs são importantes, mas perpetuam estruturas e podem manipular sociedades. Queremos os norte-americanos sempre vilões, mas isso é tão irreal quanto imaginar europeus sempre cultos ou africanos sempre sorridentes e pobres (ou vice e versa, tudo ao contrário). As sociedades estão em mutação. A Europa hoje anda a passos rápidos em direção a se tornar o verdadeiro continente negro, devido à imigração massiça de africanos. A América Latina parece afundando, mas a complexidade dos movimentos, dos atores do continente, faz com que o horizonte seja pouco visível. Pobres não são bons e ricos não são maus. O ser humano carrega em si muitas contradições à respeito do poder, da liberdade, da vida em sociedade.

As razões do sofrimento são infinitas dentro da alma humana eternamente desorientada. E esta afirmação parece esconder uma situação transitória, mas no entanto, para mim ela define o próprio ser. Faz parte do que somos, de sermos humanos, sermos arrebatados por contradições. Seres humanos se classificam. Seres humanos delegam o controle de sua liberdade à terceiros. Seres humanos conseguem se inferiorizar espontaneamente!

Então como fazer pra não ser vela que puxa contra o vento da História? Como não ser mero passageiro desse barco?

Creio que o único espaço é tentar abrir os olhos da humanidade para o que é verdadeiro e importante. Egoísmo, pequenez, ódio, raiva, rancor, inveja, são sentimentos humanos que independem dos cobres da criatura, falam todos os idiomas e estão presentes em nossa essência. É esse o mal que precisa ser combatido. Este mal, que paira acima do mundo caótico que vemos, é visto por poucos, e é a razão da dor humana. Tanto nossa desgraça como civilização, como nossa desgraça pessoal que chora dentro de cada um, em todos os cantos do mundo.

Luciano Queiroz

Resolvi pedalar por aí.

June 20, 2006


Resolvi pedalar por aí. Decidi que não tinha tempo para os sentimentos menores, ciúmes, inveja, medo. Queria o sol no rosto e o sorriso aberto. Abdiquei da pequenez, pra assisti-la apenas de passagem. Fugi das tolas disputas, do egoísmo incrustrado. Apenas pedalo por aí, vendo a paisagem.
E passei a enxergar melhor. Meu bom humor ficou em forma. Pacifiquei meu mar e navego tranquilo. Minhas angústias passaram a ser menores que minhas certezas. A vida deixou de ser só chegada, pra se tornar caminho. Tive tempo de repassar os erros cometidos e me senti feliz pagando o preço por cada um deles. Preços justos. Fazem lembrar-me que vivi, e que pra cada erro tive minha cota de acertos. Ao lembrar de tudo, vi que tudo me foi bom e me trouxe até aqui. Vi dignidade na miséria, vi miséria na riqueza, e vice e versa. Mergulhei, voei, escalei. Fui sozinho com muitos e tive o mundo estando só. Tive que me reinventar, enquanto desmoronavam minhas certezas. Fui péssimo músico, velejador medíocre, mau fotógrafo. Mas conhecer minhas limitações não tirou o prazer de minhas músicas, do vento no rosto e das imagens que me tocam. Os que magoei, que me perdoem. Os que me magoaram, bem, já nem lembro. Mágoa pesa muito e peso extra atrasa a viagem.
Tenho muito o que fazer, ainda há muito o que pedalar. E é bom saber que ainda posso ser surpreendido pelos presentes que a vida dá.
Sinto que vou ter que aprender tudo do começo. De novo.

Luciano Queiroz

Tirando a poeira

June 11, 2006

O lindo papel da Filosofia é tirar as teias de aranha dos depósitos mentais, onde colocamos nossas mais profundas verdades sem, de fato, termos nos realmente questionado à respeito delas.

Neste trecho do livro “A Rebelião das Massas”, Ortega y Gasset comenta a definição de linguagem, na qual ela é a maneira como o ser humano expressa seus pensamentos.

Veja que provocante:

“Não; o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la.
Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar, com suficiente justeza, todos os nossos pensamentos. Não se arrisca a tanto, mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes, estando condenado à radical solidão, esgota-se em esforços para chegar ao próximo. Desses esforços é a linguagem que
consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós.
Apenas. Mas, habitualmente, não usamos estas reservas. Ao contrário, quando o homem se põe a falar, isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa.
Pois bem, isso é o ilusório. A linguagem não dá para tanto. Diz, mais ou menos, uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas; já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses, mais humanos, mais “reais”, tanto mais aumenta sua imprecisão, sua inépcia e seu confusionismo. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos, dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos, muito mais do que se, mudos, procurássemos adivinhar-nos.”

E deixo aqui um puxão de orelha à alguns amigos avessos à leitura. Às vezes, outros já trilharam os caminhos que tentamos percorrer, e nos deixaram boas pistas. Não seremos maiores do que eles, se ficarmos sempre tentando reinventar a roda. Portanto, mãos à obra.

Luciano Queiroz

Arma de guerra

May 26, 2006

Escrever é um ofício penoso. Nunca traduz a profusão de pensamentos que tenho e sempre simplifica demais a complexidade com que vejo o mundo. Quando escrevo, desenrolo um novelo mental, onde uma idéia leva à outra, à outra, e mais outra. Tenho dificuldades em oferecer partes limitadas, da reflexão maior que é a minha própria vida.

De tanto ler artigos, me faltam os clássicos da literatura. Sinto falta, para o livro, de densidade, nuances, ritmo e riqueza. Tragédia das tragédias eu penso será empobrecer o que é naturalmente complexo ou ao contrário, carregar nas tintas destruindo a simplicidade que tanto prezo.

Pra não perder o hábito, ao escrever os parágrafos acima, me vi descrevendo o que vai pela minha própria vida, em outras dimensões. Sempre lutei contra o universo binário, dos julgamentos simplórios e analises míopes. E quando eu mesmo corro o risco de sossegar no campo da auto unanimidade, me vejo lançado no desafio de investigar novamente, de compreender, de explicar. (o que é uma maravilha!)

Idéias não são bandeiras. O ser humano que as carrega como tatuagens, está fadado ao atraso. Atraso evolutivo.

Faço de minha pena minha arma. Arma de guerra. Guerra para afastar dos arredores os arrogantes, os que se querem donos das verdades universais. Fora de minha propriedade, fariseus! Aqui em minha seara, que os anos me deram, quero os que sabem mudar de idéia. E quero os que, de quebra, mudam um pouco das minhas.

Luciano Queiroz

O seu olhar que levo comigo…

May 3, 2006


o seu olhar lá fora

o seu olhar no céu

o seu olhar demora

o seu olhar no meu

o seu olhar

seu olhar melhora

melhora o meu

onde a brasa mora

e devora o breu

onde a chuva molha

o que se escondeu

...

Arnaldo Antunes

Sombras na Caverna

April 18, 2006

Esta semana tive uma oportunidade incrível. Visitei o mercado de peixes de Toquio. Se você é daqueles que pensa que já viu de tudo um pouco, recomendo essa visita para lhe devolver a humildade. É um lugar sensacional e há muito para escrever sobre ele. Prometo voltar ao tema mais pra frente.
A razão para este texto apareceu na volta para casa. Sentado no trem, bastante cansado, pensava eu na maravilha do lugar, e em tudo que poderia escrever sobre ele. A maneira como todos os sentidos são estimulados de forma intensa, a variedade que nunca havia visto, a provável tragédia ambiental… Foi quando meu senso crítico entrou em ação e me alertou para um fato que me intriga bastante: lugares maravilhos para uns, são bastante sem graça para outros.
Platão acreditava que a realidade é nada mais do que sombras projetadas na parede no fundo de uma caverna. Ele defendia que algumas pessoas mais iluminadas (os filósofos) são capazes de olhar o mundo real e voltar para tentar alertar aos demais que eles só enxergam um mundo distorcido.
O pensamento de Platão me conforta. Ele nao privilegia. A boca da caverna está ao alcance de todos, mas alguns se recusam à virar a cabeca. Quando fico sabendo de algum crime, quando vejo descasos, quando observo o comportamento de pessoas em zoológicos, enfim, a pequenez humana em todas as suas dimensões, entendo Platão. Infelizmente nao dá pra virar a cabeca de ninguém na marra. Muitos, senão a maioria, morrerão sem admirar a maravilha do mundo real.
Voltando ao mercado, tenho certeza que a maioria das pessoas nao aproveitará a chance para aprimorar sua alma, diante de tudo o que lhes é mostrado lá. E com isso resolvi ajustar minha empolgação para um padrao mais “fundo da caverna”.
Mas a realidade é sutil e inexorável. Mais cedo ou mais tarde o ser humano percebe que é o passageiro mais recente deste mundo e finalmente se cala. Às vezes, talvez, tarde demais.

Luciano Queiroz

Minha saudosa caixa de areia

April 3, 2006

Toda a criança tem um cantinho, um espaço, que ela elege como seu. Pode ser uma praça, um canto do colégio, seu próprio quarto, um brinquedo. Ali ela dá seus primeiros passos sociais, tentando dominar o seu mundo. Aprende neste espacinho a gerenciar sua vida: quem entra, quem é banido, as regras. Ali ela se sente segura pra criar suas fantasias, aprender a sonhar e imaginar o que está por vir, quando um dia for grande.
No meu caso e de um grupo de crianças que o tempo já levou pra longe, esse espaço era a caixa de areia do Colégio Menino Jesus.
Nosso dia era o recreio. As aulas eram apenas uma longa espera por aqueles parcos minutos de intervalo. Quando a “tia” liberava era todo mundo descendo correndo, para desespero das freiras que com medo que quebrássemos a cabeça, nos proibiam de descer daquele jeito. Um infinitésimo depois já estávamos lá, dominando nosso reino, delimitando espaços. Eu, um exímio arquiteto de pistas de corrida, começava a traçar o circuito com o pé de lado, puxando a areia. Deixava pro final os detalhes mais emocionantes como as pontes, túneis, fossos, “chinqueines”... Enquanto isso um abnegado ficava incumbido de esperar a “tia” abrir os refrigerantes para pegar as tampinhas que caiam no chão, nossos velozes “carros de corrida”.
Uma vez pronto o circuito e os devidos “carros” batizados com nomes de pilotos da época (eu sempre era o Chico Serra, pois também tenho este sobrenome. Piquet era disputado no grito) comecávamos a incrível corrida.
Quer saber as regras? Bem, conto assim mesmo…
Uma vez todos os “carros” alinhados na pista, cada um na sua vez dava um peteleco na sua tampinha. Pronto. Essas eram as regras. Quem chegasse primeiro ganhava. Na verdade tinha umas outras regrinhas sim que diziam que o carro que saísse da pista numa petelecada mais exagerada, voltava pro lugar de origem e o “piloto” perdia a vez. Se ficasse em cima da mureta o piloto gritava “-MURALHA!!” e tava valendo.
Ficávamos tão distraídos que o recreio passava piscando e às vezes interrompia corridas pelo meio. Enquanto dávamos nossos petelecos que deixavam os dedos doídos, conversávamos sobre muitas coisas, nossas visões do mundo dos adultos, nossos pais, o que iríamos fazer no futuro.
Aquele espacinho que compartilhou nossa infância era o que há de mais singelo no mundo: areia. Não tinha nenhum gigabite, nem HD, nem gráficos avançados. Mas era nossa e não a trocaria por computador nenhum do mundo.
Me lembro de todo dia chegar em casa, subir correndo as escadas e medir a quantidade de areia que tinha vindo em meus sapatos. Era sempre um punhado. Então guardava a tampinha do dia em uma caixa onde algumas outras centenas já repousavam e me jogava na cama, esperando o almoço e relembrando as coisas boas daquelas manhãs inesquecíveis.
Que saudades de passar alguns minutos com amigos, dando petelecos em simples tampinhas.
É preciso muito pouco pra se ser feliz.

Luciano Queiroz

O Fim…

March 23, 2006

Pois eh, e nao eh que eu tinha razao? Eh muito triste…

H5N1 pode apresentar risco a espécies ameaçadas, diz ONU

Reuters

JOHANNESBURGO - O vírus mortal da gripe aviária pode representar uma nova ameaça a espécies de mamíferos em processo de extinção, incluindo grande felinos como tigres e leopardos, alertou nesta quarta-feira o Programa Ambiental das Nações Unidas. Segundo o braço ecológico da ONU, o risco é ainda maior em países como Vietnã, lar de uma grande variedade de espécies selvagens, que teve a sua indústria de aves duramente atingida por surtos de gripe aviária.

“A gama de espécies ameaçadas pelo altamente letal H5N1 é maior que supunhamos e inclui as espécies ameaçadas de extinção” informou relatório da UNEP divulgado durante a 8ª Conferência das Partes da Convenção de Diversidade Biológica (COP-8), realizada em Curitiba.

Segundo especialistas, há crescentes evidências de que o H5N1 pode infectar e ameaçar seriamente grandes felinos como leopardos e tigres, e pequenos mamíferos como fuinhas, castores e outros.

Desde 2003, o vírus H5N1 já matou mais de 100 pessoas em todo o mundo. Nas úlrimas semanas, a gripe aviária se alastrou com velocidade alarmante pela África, Europa e Ásia. A doença também causou a morte de mais de 200 milhões de aves, muitas por abate.

Pai punk, filho playboy?

March 20, 2006

Crescer e sentir os anos passando tem sido pra mim como estar em um elevador panorâmico. Talvez uma escada panorâmica, pois a gente vai subindo e vai batendo um certo cansaço. Mas da mesma forma a gente vai querendo aproveitar que está subindo pra tentar matar uma curiosidade que sempre teve de olhar pra baixo. Como é que tudo se parece lá embaixo? Como é que os daqui olham a juventude que ficou pra trás?
Então estou aqui, chegando no andar dos meus 31 e olhando a juventude que está ficando abaixo de mim. Olho os novos grupos de rock, os estudantes, os rebeldes, as turmas (que viraram tribos). E o que vejo ao olhar aqui desta altura intermediária, mas que já dá um certo frio na barriga, é que a juventude está estéril. Olho aqui pelo meu ponto de observação e vejo um deserto de idéias. Por certo uma coisa boa aqui outra ali, mas de forma geral se vê: nada.
Será que é um fenômeno do momento? Será que é assim que se parece a juventude olhando-se dos andares das idades mais avançadas? Woodstook, 68, rock nacional dos 80… Será que tudo é assim mesmo? Será que superdimensionei nossa própria importância? Eu esperava que a juventude que viesse na minha cola me incomodasse, me provocasse, me fizesse despertar para novas visões do mundo. Mas o que dá pra distinguir daqui, é muita diversão e só.
Me sinto um pouco desanimado, pois esperava mais de quem tem tudo aos seus pés. Tem tecnologia, independência, iniciativa, espaço. Mas as portas escancaradas das oportunidades estão esperando por mais dos que queiram atravessá-las. É por isso que nossos líderes intelectuais são vocalistas de bandas de rock dos anos oitenta. Qual é a concorrência que encontram?
E eu? que também cheguei aqui como um filósofo de quinta e em nada fui o jovem que eu hoje espero encontrar?
É notório que alienação, consumismo e coisas afins não são novidades desta geração. Apenas parece para mim que os jovens desistiram de resistir, ou fingir que resistiam, e se entregaram ao prazeres de seus Ipods, suas compras, roupas, computadores. Os punks envelheceram, e seus filhos querem ir à Disney…

Luciano Queiroz


The Clash

Homenagem ao Bar

March 19, 2006


Acrescentei mais um link na minha lista ao lado. É o do blog do Juarez Becosa e trata, exclusivamente de bares e afins. Como admirador, frequentador e simpatizante, acho muito justo o posicionamento do link na coluna ao lado. E o defendo da seguinte forma:
Muitos dos momentos mais felizes que me recordo em minha vida tiveram um bar como cenário.
O bar, das opções de divertimento extra-casa, é a que me sinto melhor. Veja só: vai no bar? Ótimo, já não precisa de tanta frescura pra se vestir. Não precisa convidar todo mundo, não precisa fazer reserva… Não precisa nem fazer uma boquinha antes, porque o que não falta lá é coisa boa (e gordurosa) pra se comer.
Não sou adepto deste esporte nacional que é encher a cara, beber até cair, glicose na veia… Mas uma cachaçinha e “dois pastel”, hummm… E uma cervejinha então, quando se acaba de voltar da praia? Não preciso nem falar.
O bar é democrático. Por mais que se tente encher de firula, ele não deixa de ser um espaço popular. Se o dono quiser enfeitar muito, cobrar caro, colocar pratos incrementados… perde o bar e cria um restaurante.
No bar não há estresse. Se o garçon não vem, é só gritar. Se atendem mal, beba em homenagem a isso. Se a cerveja estiver quente, peça uma cachaçinha. Se a cachaçinha for de segunda, a comida ruim e o ambiente sem personalidade, se dirija a próxima esquina. Tudo resolvido. O bar anterior vai fechar em algumas semanas.
No bar voce pode ir pra conversar, falar mal dos outros, elevar o colesterol. Não existe nenhuma obrigação social como dançar por exemplo. Se alguém quiser dançar, ótimo. Mas é seu direito ficar sentado, pois aquilo é um bar. Voce não precisa se preocupar em botar guardanapo no colo, pode pegar as coisas com a mão. Pode até, se bater um espírito “firma”, palitar os dentes. Eitcha prazerzão No final, a conta geralmente é acessível e todo mundo divide numa boa, sem aquela frescura de ficar perguntando quem comeu a lagosta de 300 reais.
Como complemento, o bar é o blog do pobre. Lá você descobre quem fica com quem na sua empresa, a última análise política, quem são as novas contratações do seu time, e por aí vai… Fora que as melhores paqueras são no bar. Lá ganha quem é bom de papo. Na danceteria ou na boate, os caras mais bem apessoados se dão melhor que caras como eu… Mas no bar… bem, lá temos a chance de tentar igualar o placar, sustentando uma conversa interessante por mais de meia hora, coisa que muitos “bonitões” não conseguem. O bar é a nossa revanche!
É por essas e outras que pra ir à um bar, conte comigo.

Luciano Queiroz

Nao sei, mas tento…

March 14, 2006

Shodo

March 11, 2006

  • Luciano, shodo são quatro elementos: o pincel, a folha, o carvao e a pedra. Não existe shodo sem algum deles.
    E foi assim que minha aula começou….
    Um chão de tatami de palha, e eu em seiza em frente a uma mesa baixa, desgastando o carvao na água. Enquanto o faço em movimentos repetidos, observo o ambiente.
    Uma profusão de pergaminhos se espalha por todo o quarto. Em uma parede atrás de mim, uma quantidade impressionante de pinceis pendurados, com aparência antiga. Muitas folhas penduradas para secar, com diferentes caligrafias. A vela acesa, o gato preguiçoso que dorme despreocupado, enquanto passo a desenhar os símbolos. Um biombo antigo separa o ambiente de mais uma estante cheia de papeis enrolados.
    O ambiente é o reflexo do que se faz ali, que é criar no papel, janelas para o que se vai na alma, misturando com carvão, o peso de centenas de anos de história. Parece que estou dormindo, tendo um sonho que jamais sonhei e que certamente deixará cicatrizes profundas.

Luciano Queiroz

Brumas invisíveis


Cada vez me convenço mais que existe uma força invisível que atravessa o mundo. Uma leve bruma, que enche os corações mais atentos. Não lhe vejo, mas a sinto no abraço da criança que me ama. Quando a criança se vai, fica esta sensação. Uma força sutil e tímida, que abre a janela da alma sem que uma palavra sequer seja pronunciada.
Me dizia uma escultora hoje que ao observar crianças perto de um rio, imaginou-as criadoras de arco-iris e se inspirou para mais uma obra. Estávamos a conversar sobre isso, quando um velhinho passou e comecaram uma dialogo animado. Depois ela me confidenciou que muitos idosos passavam por ali, sempre puxando papo, e que por causa de seu trabalho conversava com pessoas muito interessantes. Vi nitidamente a sutil força em ação, quando ambos abandonaram suas barreiras e se entregaram a uma conversa de mutua admiração.
Nao é tarefa fácil, encher a vida de significado em cada momento. Mas é possível se entregar com sede a cada descoberta. É possível buscar compreensões diferentes sempre, na maravilha que é cada ser humano, de seus esforços para buscar o mínimo de felicidade.
É preciso optar pela verdade, pela sinceridade. É preciso optar por viver como quem vê um belo por do sol, onde palavras são desnecessárias, e nenhum disfarce fica em pé.

Luciano Queiroz

Tempo

March 6, 2006

Sabedoria Zen:

“O tempo não pode ser desperdiçado.”

Post de No 300…

Presente

February 12, 2006

“A vida é suave” me traz a letra da música. E me lembro dela, que tanto me pediu um texto de aniversário. Mas escrever o que… se tudo sao apenas palavras, quando desprovido de inspiração. Brigo com as palavras, campanheiras renitentes, buscando descrever-lhe o coração. Mas como escrever sobre o que nunca se viu. Ou viu-se de maneira envergonhada, entre frestas, para logo depois fechar-se novamente. Assim ela é para mim. Companheira, de felicidade esfuziantemente melancolica, eu melancolicamente esfuziante. Que nunca diz não, a não ser a si mesma. Que nunca magoa, a não ser a si própria. Queria que meu carinho pudesse tocá-la, sem rodeios, sem risos estonteantes, sem disfarces. E que este carinho fosse aceito, sem vergonhas, sem modéstias. Ela é para mim um precioso passarinho, que se auto flagela, morando sempre em sua gaiola de portas abertas. Com medo de enfrentar o que lhe é desconhecido, apesar das belas asas que a vida lhe deu.
Serei sempre seu admirador silencioso, esperando que um dia voe, e tenha tudo o que é naturalmente seu.

Espero que ela entenda, que este é seu presente, que lhe devoto um carinho profundo, de quem passou dias felizes ao seu lado.

Luciano Queiroz

Porque fincar bandeira?

February 10, 2006

Quando eu era garoto, no colegio, me lembro bem de ter uma tentacao grande de me solidarizar com os menores, com os mais fracos, com os que usavam oculos (eu inclusive), com os que nao eram muito espertos mas que eram esforcados. Arrumei uma meia duzia de brigas por causa disso e depois tinha que tentar escapar delas. A minha propensao a me meter em rolos nunca foi diretamente proporcional a minha forca fisica, ou habilidades marciais, ou qualquer outra coisa que no colegio pudesse me fazer sobreviver as brigas as quais eu era convocado sumariamente.
Eu nao sei bem de onde vinha essa vontade de que as coisas fossem justas, na cabeca de um garoto, mas eu sei que elas permanecem hoje. Vou atras, firmo posicao. Se sao intolerantes com Dinamarqueses, os provoco. Se roubam o povo brasileiro, os quero derrotados. Se sao injustos no trabalho, arrumo briga com o chefe.
Eh claro que aprendi com o tempo que tudo tem dois lados. Isso diminui a quantidade de erros que eu cometeria. Ainda os cometo aos montes, mas estou mais tolerante, mais conciliador, e (ainda bem) mais habil nas minhas negociacoes. Mas tambem percebi com o tempo que alguns principios sao basicos e estes devem ser defendidos a unhas e dentes. E eu nao vim a esta vida a passeio. Quero quando ficar velho, ser feliz pela quantidade de lutas que lutei, mais do que pelas quais evitei. Se nao der pra ficar velho, paciencia…

Luciano Queiroz

Perspectiva Sombria

February 6, 2006

Os muculmanos estao mais intolerantes do que nunca. Mas eles tem razao, os ocidentais estao mais ateus e consumistas do que nunca.
O populismo atrasado sul-americano mostra a sua forca.
Os EUA, numa guerra do peloponeso as avessas, elegeu Esparta como modelo.
A Europa se agoniza em meio a uma crise de identidade, sem saber como assumir sua populacao imigrante, que hoje em dia, eh a propria Europa.
A Africa se mantem onde sempre esteve e isso eh uma chaga aberta sangrando no planeta.
As doencas se multiplicam, a histeria se multiplica, os virus se multiplicam. Ah, os Chineses e Indianos tambem se multiplicam e em breve serao dominadores neste mundo.
O clima esquenta, a natureza dah seu adeus, e a politica brasileira continua o seu El Nino amoral sem fim.
Palestina e Israel dao um passo a frente e dois atras. A bomba atomica contra a bomba populacional. E um murinho no meio.
A velocidade dos chips realmente dobra a cada dois anos. Mas o ser humano nao parece enxergar um palmo a mais a sua frente por causa disso. Retrocede, regride, se animaliza, se barbariza. O mundo estah menor, as pessoas estao mais proximas. E isto estranhamente estah fazendo com que a convivencia seja mais problematica.
Temo que estejamos diante de um quadro, onde todos os elementos apontam para um ponto de fuga, num futuro nao tao distante.

Luciano Queiroz

Domingo de sol

February 5, 2006

Dia de sol, um passeio maravilhoso. Aqui neste lugar onde o sonho de Adao se concretiza e tambem o lugar onde ele revela o seu fracasso. Onde confessamos nossa incompetencia no papel de seres racionais, e onde tentamos ter de volta o que nao eh mais possivel. Nos olhos dos animais, a tristeza funda, que fingimos nao ver enquanto envolvidos em pipocas e namoros. Ha do outro lado da jaula muito mais dignidade do que deste. Lugar, de confessar culpas, e de tentar o perdao. Pelo que nao ha retorno, pelo que nao fizemos, mas que somos cumplices silenciosos. Ha que se tirar o chapeu, ficar em silencio e tirar as licoes em quanto eh tempo.
Assim foi meu passeio ao zoologico. Assim eles sempre sao…

Luciano Queiroz

O que eh o Japao?

February 2, 2006

Morar no Japao eh definitivamente uma experiencia intensa. Nas grandes e nas pequenas proporcoes. No terremoto de ontem, enquanto eu comia sossegadamente um lanche em Tachikawa, e na minha empresa que nao paga pelos clips de papel que usamos. Eh uma sociedade de contrastes. Os jovens nao dao lugar para os mais velhos nos trens, mas em ruas onde nao ha sinal de pedestres, a preferencia EH do pedestre. Se a rua for movimentada, o motorista simplesmente fica horas lah, esperando uma brechinha pra entrar.
Jardins sao lindos, mas as cidades sao feias. Ninguem rouba sua bicicleta, mas nem sempre as filas sao respeitadas. Fogao de quatro bocas sao raros, pois quatro representa a morte, e a coneccao de internet tem 10Mbps. Lugar de biscoitos de peixe, doce de feijao e arroz sem gosto. Lugar de Starbucks e Mc Donalds em cada esquina. Templos budistas, xintoistas e de pachinko, um jogo muito comum por aqui.
Lugar de solidao e de acolhida. Quer subir o Fuji? Vah depois do tufao…
Eh dificil definir o Japao. Mas eh uma terra de contrastes em essencia. Se voce tiver capacidade e agilidade, eh um lugar maravilhoso.

Luciano Queiroz

Evolucao das especies

January 31, 2006

O homem busca a guerra
o homem gosta da guerra
Cria motivos, inventa desculpas
Por seu instinto primitivo de dominacao
Guerras nao sao inevitaveis, mas inevitavel ainda eh o caminho humano em direcao a elas
Enquanto isso, um novo ser humano mais evoluido, que conseguiu subjugar seus instintos primitivos
se ve perdido em meio a esta raca que nao eh sua, em meio a esta gente que ele nao reconhece.
Usurpadores de ideias, que transformam religiao em odio, idiomas em sentencas de morte.
Esta eh mais uma pagina da evolucao
No passado o homo-sapiens foi vitorioso.
Agora eh hora do Homo-Sapiens Pacificus mostrar seu valor ou sumir do mapa…

Luciano Queiroz

Quantas vezes?

January 25, 2006

How many roads must a man walk down before you call him a man?
How many seas must a white dove sail before she sleeps in the sand?

Yes and how many times must the cannon balls fly before they’re forever banned?

The answer my friend is blowing in the wind

How many years can a mountain exist before it is washed to the sea?
Yes and how many years can some people exist before they’re allowed to be free?

Yes and how many times can a man turn his head pretending that he just didn’t see?

The answer my friend is blowing in the wind

Yes and how many times must a man look up before he can see the sky?

Yes and how many ears must one man have before he can hear people cry?

Yes and how many deaths will it take till he knows that too many people have died?

The answer my friend is blowing in the wind
The answer is blowing in the wind

Bob Dylan

Obrigado Pessoa!

January 1, 2006

“Há um tempo em que é preciso abandonar as roupas usadas, que já têm a forma do nosso corpo, e esquecer os nossos caminhos, que nos levam sempre aos mesmos lugares. É o tempo da travessia: e se não ousarmos fazê-la, teremos ficado, para sempre, à margem de nós mesmos.”

Fernando Pessoa

Era esta verdade que sentia quando decidi vir para o Japao. Obrigado Pessoa! Estah tudo aih, sem tirar nem por.
Luciano Queiroz

Morro do Moleque

December 7, 2005


Desde pequeno guardo essa imagem de um momento vivido. Eu era garoto mas me lembro daquele dia bonito, um vento frio gelado, meu pai e minha irmã correndo também pra chegar ao topo do morrote. A relva dourada, queimada pelo sol e pelo frio, batendo na canela. Aquele campo aberto dos pampas até onde a vista alcançava e eu ali… respiração difícil, ofegante, tropegando para poder chegar ao topo. Queria olhar o outro lado, olhar tudo em volta, de cima.
Aquele ar gélido que queimava as narinas deve ter se impregnado em meu cérebro. Ainda quero chegar ao topo do mundo, pra poder tê-lo todo ao mesmo tempo sob meu olhar e para inundá-lo com meu carinho. Como fiz naquele dia. Não sou da planície, definitivamente. Sou das terras altas, do povo que não se contenta, de alma inquieta, das poucas palavras.

“Liberdade é um sonho que a alma humana alimenta, que não há ninguém que explique, e ninguém que não entenda”

Recomece

November 24, 2005


Peça demissão às vezes. Recomeçe! Faz bem mesmo. Nada como o prazer de sentar na frente de uma folha de papel em branco, com um jogo de lápis com 64 cores….
Eu que achava que era coisa de livro de auto-ajuda…. não é!

Luciano Queiroz

Dica de viagem

November 23, 2005

Leve um casaco guri, senão vai pegar solidão. Leve um mate pras horas frias e pra lembrar o que realmente é amargo na vida. Suba no telhado de vez quando pra ver as coisas do alto. Perspectiva é sempre bom. Dê uns sorrisos pra desenferrujar a boca. Leva o farnel com o gosto de casa, pra não perder a identidade… Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar.

hummm….

Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar…
Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar…
Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar…

Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar.

Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar!!

Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar!!

É isso

Só tenho duas malas na vida A vida é portátil

Há que se ser generoso

November 19, 2005


Há que se ser generoso. Não economizar jamais os ouvidos. Quando os olhos perceberem defeitos, o coração deve transformá-los em charme. A paciência deve ser o molho de todas as horas, acompanhando o prato principal que é o carinho. Carinho sim, pois paixão passa e o amor vacila. Só o carinho pode ser eterno e constante. Não sei se ainda consigo ser assim pois o tempo resseca a pele. A do coração inclusive. Entenda por favor: brigas e crises virão com insistente constância. Mas se não perdermos o essencial de vista elas passarão, não sem dor, mas passarão. Nosso sorriso de cumplicidade, aquele que tanto queremos alcançar, nascerá da superação destes momentos. Desistir não será uma opção. Desistir será a falta de opção. Desiste quem perdeu o carinho e o respeito. Caso não os encontre no seu par, verifique se não foi você que os perdeu primeiro. Carinho e respeito por você mesmo são igualmente importantes, e aquecerão o fogo de seu par. Viva em paz e seja feliz por dentro, mesmo quando o conflito e a tristeza forem moda.

Ninguém nos ajudará, nem meus conselhos. O fogo queima porque tem que queimar: ele vive o presente, com todas as forças de sua natureza. Mesmo quando se apaga…

Luciano Queiroz

Conselho…

November 10, 2005

É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.

(Epíteto)

Saio feliz do plebiscito

October 20, 2005

Este é um plebiscito que não tem jeito de terminar mal para mim. Vou votar no Sim. Não votarei em protesto ao Governo Lula. Não votarei à favor do Governo Lula. Não votarei interessado no resultado e nem sei se acredito que nossa sociedade amanhecerá diferente. Sei que para alguns o resultado será a diferença entre a vida e a morte e sei que meu sim é uma resposta solidária e solitária à esse fato. Eu voto por coerência. Voto por ética. Voto por compromisso.
Tenho um compromisso com a vida e uma posição pessoal contra tudo o que ameaçe esta vida. Por isso a Ecologia, por isso a Justiça Social, por isso a Saúde. Nós, os que sobramos votando no Sim, somos os mesmos que acreditamos que o direito à vida é uma noção comunitária e solidária. Porque direito não é mérito. No Brasil que vota no Não, pobre e bandido têm que morrer. Não merecem o mesmo tratamento que o resto. O senso de justiça que prevaleçe em nosso país, estabelece que a minoria privilegiada tem todos os direitos e nega cinicamente os mesmos direitos aos de baixo. A classe do Não, pensa que o pobre não tem desculpa pra não ser honesto. Julga com dureza até as crianças que moram na rua, cobrando delas o que não deveria ser cobrado e negando o que deveria ser dado. Reservam à si toda a compreensão com seus erros e julgam como tiranos os inimigos na guerra social. A classe do Não pensa que se virou bem até agora, então não deve nada pra ninguém e não quer que ninguém venha se meter nos seus negócios. Defende o que julga ser seu direito, pois do seu portão pra fora cada um se vira por si.
Eu sei que generalizo, mas vejo uma postura em jogo. A postura de nossa sociedade que há muito perdeu a sensibilidade. Uma sociedade de classes que querem apenas cobrar a sua parte, querem se defender uns dos outros, cegamente defendendo o direito de resolver por si mesmo e negando o caminho coletivo. É a reafirmação das Raízes do Brasil de Sérgio Buarque, nossa tese existencial individualista, que mata no ninho qualquer traço de comunidade que o horizonte possa nos trazer. – Não toque no indivíduo!, clama a massa, nem que pra isso se penalize a sociedade. “-Que se dane a sociedade!” Esta é a história de nosso povo. Este é o princípio que nos faz recusar o mutirão, a cooperativa, a comunidade, e que nos empurra para a idolatria dos bem-afortunados, dos heróis, dos políticos salvadores, das estrelas de sucesso. Negamos nossa luta como povo, para defendermos à nós mesmos em nossas trincheiras. Pobre povo sem ideais. Quando os nazistas ordenaram a todos os judeus da Dinamarca que usassem a estrela amarela de Davi no braço, o rei da Dinamarca andou de bicicleta por toda a cidade de Copenhagen usando uma estrela. Logo a maioria dos dinamarqueses usava uma estrela também, e os nazistas não conseguiam saber quem era judeu e quem cristão. Nós estamos provando que seríamos incapazes deste ato de nobreza. Ficaríamos lamentando a sorte dos Judeus e celebrando nossa sorte. Pode ser que eu esteja errado, mas não encontro na nossa história uma prova do contrário.
Por isso é que fico feliz por ver o tamanho dos que ainda acreditam num país comunitário. Acreditam num país que pode resolver seus problemas em conjunto, encarando suas verdadeiras mazelas, ao invés de acreditar que “alguém” deve fazer alguma coisa. Podemos não ser a maioria mas estamos presentes e faremos a diferença, hoje, amanhã, ou algum dia…

Luciano Queiroz

Carta para meu melhor amigo.

October 7, 2005


Acredite em mim. Você vai crescer e isso não vai demorar tanto quanto parece. Desta vida de adulto, tenho coisas boas e ruins pra te contar.
Saiba que você terá que tomar decisões importantes quase todos os dias. Você vai ter dinheiro pra comprar todo o chocolate que consegue comer, mas não vai querer fazer isso. Você conseguirá ir sozinho à loja de brinquedos e poderá escolher o que você quiser, mas não irá. Aliás, seus brinquedos serão para colecionar e não mais quebrarão e ficarão sujos com suas brincadeiras na lama. Você poderá escolher a sua roupa, abandonando de vez estas que sua mãe acha que ficam bem em você.
Será uma dificuldade se sentir feliz no trabalho como você se sente na escola. Nas horas vagas, preocupações invadirão a sua cabeça e atrapalharão suas brincadeiras. Meninas vão se interessar por você e você por elas, e isso sim será uma novidade boa que você vai ter que aprender a conviver. Por outro lado entendê-las será um desafio diário. E você vai querer se casar com a que você tem mais dificuldade de entender. Não se pergunte porquê. É assim que a vida funciona. Escovar os dentes, pentear o cabelo, limpar a casa: você vai querer fazer isso sem ninguém implorar. Banhos serão apenas para ficar limpo e você vai gostar deles, mas inundações no banheiro não serão mais perdoadas tão facilmente. Você vai ter que começar a maneirar sua vontade de imitar as pessoas em público, terá que comer comidas estranhas que te oferecem e aprenderá que nem tudo o que pensamos podemos falar. Os apelidos de seus amigos mudarão de banha, meleca e vareta para outros não tão bacanas como Ale, Fred, Japa. Voce não se orgulhará mais de trazer areia no tênis da escola, de ter um binóculo, de saber lutar judô. Estará preocupado com sua aparência e sua perna fina e seu óculos te deixarão um pouco infeliz. Dormirá quando quiser e a televisão estará sempre liberada: isso será bom. Mas passará a acordar cansado e não vão te deixar dormir no trabalho. Aliás, no trabalho você não poderá brincar nos intervalos, não vão fazer expedições pela fábrica, e joguinhos no computador (voce vai saber o que é isso) serão bloqueados. Guerrinhas de papel e competições de aviãozinho te trarão complicações. Você vai resolver problemas que outros inventaram. Terá um tempinho para inventar uns também, mas não vai poder fazer isso só pra divertir todo mundo: eles não ficarão tão felizes. As pessoas não estarão tão propensas a te ajudar como fazem agora, a te compreender. Por falar nisso, pregar peças nos seus amigos poderá magoar alguns, é melhor você maneirar.
Tenho que me despedir, desculpe. Não consegui falar tudo o que queria e muito mais você vai perceber que mudou. Não se desespere. Lembre-se sempre de manter sua alegria, sua criatividade, sua capacidade de sonhar e de admirar o que é simples. Tardes de sol poderão ser igualmente divertidas, basta que você não se esqueça de quem você é, neste coração que mal começou a explorar o mundo e que já é tão apaixonado pela vida. Boa sorte. Estaremos sempre juntos.

De: Luciano Queiroz, 2005
Para: Luciano Queiroz, 1985.

Sou bom em quê?

September 20, 2005

Quando pequeno, eu tinha boas notas mas não eram as melhores da sala. Era esforçado no futebol, mas francamente era uma negação com a bola nos pés. Tentei aulas de volei e, fracasso total. Na natação fui mais longe, disputando até competições. Mas quando não era algum desastre como um óculos de natação que parava no pescoço na hora do salto de largada, eu não conseguia chegar em primeiro. Fiz travessias à nado e gostava até. Mas não enxergo direito e acabava fazendo um passeio curvo em vez de uma linha reta, comprometendo completamente minhas chances. Na corrida eu era promissor. Até que na minha primeira competição o cara do carro que vem acompanhando o último lugar ficou atrás de mim o tempo todo. Desisti.
Resolvi apelar pras competições não físicas. Disputava torneio intelectual e xadrez nas olimpíadas do colégio. Acho que fui pior do que na natação. Depois veio a faculdade e não sabia colar direito, não conseguia estudar e acabei levando muito mais tempo pra me formar. Agora gosto de cozinhar, mas só algumas coisas ficam boas. Fotografia é uma paixão e por isso espero que um dia eu fique bom nisso. Toco violão e flauta mas esta última mais sofrivelmente do que o primeiro.
Pensei que talvez eu tivesse vocação pra ficar rico então e apliquei na bolsa. Se você quiser ganhar dinheiro faça o oposto de qualquer coisa que eu faça. Perdi um bocado.
Bem, mas se apesar disso tudo eu fui um exímio conquistador então compensaria uma coisa pela outra, não é mesmo? É, mas não fui. Não posso me queixar demais mas tive que gaguejar muito pra ter êxito em minhas paqueras.
Gosto de computador mas não entendo muito, gosto de mecânica mas não entendo muito, gosto de arte mas entendo pouco. Trabalhei com Logística, Qualidade, Aviação… o suficiente pra não conseguir ser muito bom em nenhuma delas. Treino Aikido à cinco anos… mas tô na terceira faixa ainda.
Bem, é isso. Não consigo lembrar algo em que seja bom. Tá difícil de deixar uma marca, um feito pra ser lembrado neste mundo.
Mas não sou infeliz, frustrado ou coisa que o valha. Por não ser bom em nada, fiz de tudo. Experimentei tudo. Nada foi muito fácil e nem insuportavelmente difícil. Descobri com o tempo que ser ótimo pode não ser tão importante. Sou bom sim em muitas coisas. Coisas que me são muito úteis hoje, mais do que seria ter ganhado todos os campeonatos de xadrez do colégio. Tenho ainda que aprender mais a rir das coisas em que não sou um fenômeno, e descobrir algo pra me dedicar um pouco mais. Tenho que me levar menos à sério e colocar mais paixão nos meus projetos. Tenho que tentar ser um ser humano melhor. E eu sou bom nisso.

Luciano Queiroz

Lá fora…

September 16, 2005

Este era eu… sempre inquieto, sempre olhando pela janela. Queria conversar, brincar, pisar na grama, pegar sol. Brincar no sofá, inventar brincadeiras na caixa de areia, perseguir o cachorro.
Hoje sou mais disciplinado, mas ainda guardo um pouco da mesma alegria quando saio do trabalho e vou pra casa. Pena que já não há tantos jogos e brincadeiras como haviam antes. Ficamos adultos e exigentes, e caixas de areia não nos satisfazem mais, o gramado não nos satisfaz mais… Eis aí um grande desafio!

Luciano Queiroz

Dias nublados (mas sem chuva!!)

September 14, 2005


Em dias assim como hoje, muito nublados e frios, sinto muita vontade de escrever. De escrever poesia, histórias melancólicas, reflexões vadias… Não sei muito bem porque. Me lembro bem de um dia no intervalo das aulas de meu cursinho pré-vestibular, quando estavam eu e mais alguns amigos a caminhar pelo centro de Florianópolis bastante sem rumo. Já naquela época, com 16 anos, sentenciei: – Gosto de dias assim, nublados e sem chuva… Até hoje tenho amigos que sorriem e me apontam o dia, dizendo que está como eu gosto!
Tenho pensado em qual o motivo para gostar assim de dias tão negativos para a maioria das pessoas. Já concluí que existem motivos práticos. Por exemplo, trabalhar ou estudar em dias assim é muito menos penoso do que com aquele sol escaldante fritando sua epiderme. Então, levando isso em conta, dias bem cinzas me agradam tanto quanto um bom ar-condicionado.
Só que não é só isso. Não tenho tanto envolvimento com aparelhos de ar-condicionado quanto como tenho com dias nublados (sem chuva, por favor!). É que talvez nestes dias, as pessoas estejam mais quietas, menos propensas à escutar pagodes, sertanejos e afins. Dias cinzas são embalados à chorinho e à jazz. E as roupas? Nada de batas, camisetas com estampas de surf, de “tomara-que-caia” com gosto duvidoso… Entram em cena as blusas de lã, os lenços, cachecóis, casacos. É o momento das pessoas interessantes. Ninguém preocupado em emagrecer, em cores ou reflexos capilares. Somem os odores desagradáveis, entram os perfumes. O cinza estabelece o império do olhar, subjugando o recurso fácil e sem graça da fala. As boas reflexões, lembranças do passado, uma cama aconchegante, têm o seu melhor cenário sob um céu cheio de nuvens. De preferência com um ventinho leve mas bem gelado. Um chimarrão então, nem se fala! Tudo a ver!!
Podia ser assim seis dias por semana. E um domingo bem ensolarado pra ir pra praia que ninguém é de ferro!

Luciano Queiroz

Fazer o que, né?

September 13, 2005

Palavras

Sinto saudade. Saudade do que nunca foi, saudade da promessa. Como num livro não lido, a qual a capa achamos linda, nós não acontecemos. A primeira vez que nos vimos, nem olhamos o preço. A ansiedade em aprender coisas novas nos fizeram levar para casa aquele presente. Mas os dias passaram e as palavras ficaram adormecidas, esperando para nos dar vida, enquanto fomos chamados para outros cantos. Fiquei esperando o melhor momento que, com certeza, passou sem que o visse. Pela janela do impossível vi fragmentos de felicidade, em duas vidas que queriam ser uma, mas que a vida não soube como ligar. E assim aquele livro não lido continua lá, sobre a mesa. A promessa, que volta e meia fitamos, sem saber se o momento de folheá-lo já chegou. Amo amar você.

Luciano Queiroz

Beijocas na balzaca

September 12, 2005

Beijocas na balzaca

“Antes de qualquer coisa vamos esclarecer: por “trinta” entenda-se aqui a longa faixa que se estende dos vinte-e-seis aos quarenta-e-poucos anos (com margens de erro à vontade), durante a qual a mulher atinge, em algum momento, a plenitude em beleza, sensualidade, inteligência, serenidade, tudo ao mesmo tempo agora, equidistância exata entre o verde e o maduro.


É como aquele momento da contemplação do céu (poente ou nascente) em que as cores e tonalidades equilibram-se num panorama irretocável que, alguns segundos antes, era ainda incompleto, e alguns segundos depois terá passado, por falta ou excesso de luz.


Nada contra as lurdinhas . São uns bijus. Fazem titio reviver seus vinte anos e até sua adolescência. Enchem de vigor titio temeroso da marcha do tempo. Sorte de titio quando conquista coração de lurdinha. E ai de titio se Lurdinha descobrir, lá adiante, que o velhuco careca era só uma projeção paterna.


Mas titio sabe também de outras coisas, e é bem possível que seja ele a abandonar o jovem pitéu em benefício da primeira trintona que lhe mire os olhos com aqueles outros olhos trintões derramados de sábia esperteza, de quem já viu e viveu coisa (quando não viveu ao menos viu, ouviu), com o corpo amaciado pelo tempero da vida, a cabeça muito cheia de tudo que é rock e shop e chope e joke , com um quê na expressão de alma companheira e amiga plena de gás, ao mesmo tempo capaz de apreciar o frescor da tarde sem pressa de partir para a próxima parada .


Vou contar uma coisa. Essa semana titio passava por uma banca de jornal quando viu uma revistinha feminina com a foto da Cléo Pires na capa e a manchete: “É das lolitas que eles gostam mais”. Podem dizer que envelheci (o que é verdade num certo aspecto), mas titio ficou meio incomodado. Ora, a Lurdinha de Glória Perez tem 18. A Cléo de Glória Pires tem uns vinte e poucos (não demora a balzaquiar ). Mas Lolita? Pô! A ninfa de Nabokov tinha 12 anos! Mó chave de cadeia! Dimenor !


As balzacas, creio, estão evoluindo. Em outras épocas, a personagem de Cléo provocaria ondas de protestos nas ruas e passeatas caseiras, mas não: vejo que os frutos da emancipação já perfumam casas e ruas. Verdade que à base de muito fitness , bike, shiatsu, Lacan e terapias alternativas como liberdade e alegria, injetadas pela.. errr. .. inteligência emocional, ó, pá!


Pensando bem… que condição abençoada essa do titio! Outro dia vi uma dessas pesquisas sobre a novela, em que juveníssimas brasileiras respondiam o que achavam da relação entre o Glauco e a Lurdinha. Uma dizia: “tenho pena dos tios”. Outra soprava: “adoro um tio”. Ou seja, fazendo o balanço, titio fica com metade das lurdinhas e com as balzacas todas (menos as que dão para cair de amores por garotões, se bem que essas acabam voltando para colo de titio). Sem falar nas pós-balzacas que, mais dia, menos dia, terminam por pintar no pedaço batendo um bolão. Tudo adicionado aos benefícios que, chez titio, a experiência e a maior tranqüilidade trazem ao motor semi-novo que faz girar corpo e alma de todo cowboy . E viva Clint Eastwood!”

Arnaldo Bloch

Leia a matéria em O Globo

Tempestades

September 2, 2005


A casa ficava em um bairro mais afastado, distante de Centro. Saindo da rodovia principal, que leva em direção as praias do norte, chegava-se à um bairro humilde de pescadores e manezinhos de muitas gerações. A rua ampla seguia tortuosa pela encosta dos morros do local que, se deixassem, terminariam n’água. As lajotas mal alinhadas, que chegaram no mês de nascimento de minha irmã mais nova, davam um ar de progresso, nesta comunidade tão pouco acostumada às modernidades. Pra cima da rua, na inclinação ainda muito verde, casas simples de quintais amplos com aparência rural, em pouco lembrando o mar ali tão perto. A exceção ficava na reta principal, onde casas mais apertadas ladeavam, emoldurando a padaria e o “mini-mercado”, além de servir de ponto de encontro para os habitantes nas noites quentes e sem vento. Completava-se a vila, a escola e a igreja, solitária no alto de um morrote, impondo uma ladeira curta aos fiéis da missa de domingo. No lado que descia para o mar, não era raro observar-se as redes, os barcos, e um ou outro transeunte carregando algum cesto com o fruto da pescaria do nascer do dia. Nossa casa se distinguia das demais, ficando já para o final do bairro, com seu muro de pedra imponente e um telhadinho sobre o portão sempre aberto, o que acabara tornado-o ponto de referência para alguns. Ficava logo ali, seguindo em frente após à singela igrejinha da Assembléia de Deus e da “tendinha”, que se tratava de um barzinho de madeira em que mal cabiam três pessoas dentro.
Aquele dia seguia lânguido, embalado pelo sol forte e a brisa nordeste que começava a soprar incômoda, trazendo o cheiro da chuva que se sabia não ia demorar a chegar. O dia, que mal passara do seu meio, eu já sentia comprido depois da manhã inteira na escola, e da espera infindável por meu pai, que nos buscava na pracinha quando conseguia sair do trabalho. Geralmente isso significava quase uma hora de espera, o que servia para transformar o momento da chegada em casa em sinônimo de liberdade. A porta do fusca se abrindo, nos mostrava sempre o rosto feliz de minha mãe, às vezes escondendo alguma preocupação cotidiana, e a mesa posta, num momento só interrompido pelas brigas insistentes entre eu e minha irmã. Ali, na mesa da copa, a luz do dia entrava trazendo consigo o brilho do mar; um convite às brincadeiras e provavelmente um desafio para meu pai, que tinha que retornar ao trabalho. Ali, os momentos de silêncio eram sempre preenchidos pelo morrer das pequenas marolas da baía, que raras vezes silenciavam e que, quando faziam, deixavam profunda impressão de mansidão em minha alma.
Minha tarde invariavelmente começava com uma “expedição” pelo terreno, facão na mão que minha mãe não sei porque me deixava portar, inspecionando cada canto ansioso por alguma descoberta. O quintal era enorme. Perto do portão que dava para a rua, ficava a caixa d’água. Era uma construção parecendo um tijolo em pé, lembrando uma pequeno forte. Perto dele, à uns quinze metros, se equilibrava em pé a “casa velha”, que era a casa original do terreno e onde eu tinha medo de entrar sozinho. Meu pai a transformou em oficina e em casa de caseiro, mas a sua idade avançada, o piso de tábuas que rangia e que revelava o espaço entre a casa e o solo, a poeira e as teias de aranha, a pouca luz, davam um ar bem assustador ao recinto. Mas até lá eu tinha que fiscalizar na volta inicial. Fora isso, o quintal era cheio de recantos: um pequeno laguinho com peixes e sapos, incontáveis bananeiras, jaboticabeiras bem generosas, árvores de inúmeras espécies, sem contar a horta de meu avô, que já ficava na parte de baixo do terreno, perto da praia, onde vez ou outra eu roubava uma cenoura sob o olhar de aprovação do “Seo” Manuel. Por fim, ia para o portão de baixo, que se abria para a areia a menos de dois metros da água em dia de maré cheia.
Mas aquele dia prometia ser mais um dos meus prediletos. A natureza sabe, assim como os pescadores, quando algo está para acontecer. O silêncio pouco usual revelando a calmaria que prenuncia a tormenta já se fazia sentir. Como eu gostava daquilo! Corri pela praia para chegar ao trapiche e fui até o seu final. De lá se podia ver além da ponta da praia, onde havia uma enseada enorme totalmente tomada pelo mangue numa visão difícil de se esquecer. Não pude ver se os meninos da praia, meus colegas, estavam por ali mas em dias assim, eles geralmente tinham outros afazeres que eu nunca soube quais eram.
E foi assim, no barulho silencioso do vento que já soprava forte, que o céu adquiriu uma cor metálica, profunda. As ondas se avolumaram e ao longe, bem longe, lá pelos morros de Biguaçu do outro lado da baía, já se podia ver o céu ainda mais escuro, escondendo aos poucos o sol e finalizando o dia mais cedo que o normal. Fiquei mais uns instantes ali, sozinho, observando algumas baleeiras que eram apressadamente fundeadas e o revoar dos biguás no mangue, como se preparando para aceitar mais uma provação.
Quando a primeira rajada de vento se desenhou na água, eu sabia que era hora de correr. Não por medo, até porque um banho de chuva era sempre uma diversão mesmo em caso de tempestade. Isso me rendera alguns olhares repreendedores de minha mãe em outras ocasiões, sem contar minha avó, que morria de medo de raios. Eu não. Achava que raios não caiam em gente, muito menos em crianças como eu. Naquela hora corri pois era hora de voar para meu posto de observação avançado. Como um foguete subi os mais de cem metros que separavam a praia da nossa casa e passei por minha mãe zelosa em fechar todas as portas, discutindo agoniada com o vento que insistia em jogar folhas e mais folhas para dentro. Subi as escadas pulando, como era de meu costume pois achava perda de tempo usar todos os degraus, e corri para a varanda de cima, de onde se via, do canto direito, todo o espetáculo. De camarote, observava atentamente as ondas pra fora de nossa enseada, que criavam espumas brancas como ovelhas, mostrando todo o poder daquele tempo. O cinza, que já tomara conta da paisagem, abria espaço para as nuvens gigantescas, com sua sombra negra. – Oba, hoje haverão muitos raios! Pensava eu, entretido com aquela transformação repentina do meu mundo morno de tardes compridas. Observava a marca das rajadas na água e ficava esperando que me atingissem, sem entender como gaivotas teimosas insistiam em voar com um tempo assim. E desta forma eu ficava, impressionado pela força daquela natureza que eu não compreendia. Cada raio, cada trovão, a chuva que se fechava como uma cortina celeste e envolvia meu reino, limpando as folhas, as plantas minhas companheiras de todos os dias. Tudo me ensinava a entender o ritmo das coisas, o ritmo inexorável da vida. Os pequenos córregos que se formavam eram uma novidade sem fim e um convite à imaginação. E assim ia eu, brincar lá fora de “represa” sob as asas da compreensão carinhosa de minha mãe.
Assim a vida veio e me levou, mas as lições ficaram, daqueles momentos de excitação com a simplicidade infinita.

Luciano Queiroz

Onde está a felicidade que você procura?

August 28, 2005

bruma
Onde está, onde dorme. Onde andam meus sonhos, que há muito não os vejo. Se em algum lugar do mundo, me diga. Irei onde for para encontrá-los. Só não me diga que dentro de mim eles estão, pois não se vendem passagens para este lugar. Não tenho seus mapas e nem a chave que abre suas portas. Que cruel ter a felicidade tão perto, que dorme comigo todos os dias, mas não poder senti-la, por não saber resgatá-la. Que humana ironia, buscar em todos os lugares o que não pode ser buscado, ter como alvo o que não pode ser atingido senão pelo tempo. Se me dão prego e martelo, faço uma casa? Mas me dizes: – o que precisas carregas consigo! – Como entender? Pois farei do mundo minha casa, não para encontrar a felicidade, mas a chave que me fará não mais correr o mundo em busca do que já tenho.

Luciano Queiroz

CÍNICO!!!

August 25, 2005

“Quanto a cínico, o mesmo dicionário diz, entre outras coisas, o seguinte: «1 (em filosofia) relativo a ou adepto da doutrina dos filósofos gregos Antístenes de Atenas (444-365 a. C) e Diógenes de Sinope (400-325 a. C.), que se caracteriza esp. pela oposição aos valores sociais e culturais em vigor, com base na convicção de que não é possível conciliar leis e convenções estabelecidas com a vida natural autêntica e virtuosa; 2 (derivação: por extensão de sentido) que ou aquele que afronta ostensivamente as convenções e conveniências morais e sociais.»”

João P. Farinha

Quem já não passou por isso?

August 22, 2005

Chego em casa, me arrumo correndo pois a carona não tarda a chegar. São muitas informações que precisam ser processadas em segundos. Que sapato colocar, a roupa que está pra lavar, não esquecer o CD pra escutar na viagem, ligar pra desmarcar a aula de Francês. Cada atividade sendo executada enquanto o cérebro já prepara a execução da próxima. Faltam só dez minutos Já, já o interfone vai tocar. Escova o dente, bota o sapato, escolhe um casaco pro caso de esfriar, molha as plantas que estão secas, bebe uma água, e …. ESQUECI DE DESMARCAR A AULA Pego o telefone correndo, digitando mais rápido do que a maquininha consegue captar e….

Voz: – Alô???
(tempo em câmera lenta: o cérebro começa a trabalhar na velocidade da luz. Como assim alô? Que voz é essa? Não é da professora de Francês e nem de ninguém da casa dela! Mas não é uma voz desconhecida… que sotaque diferente é esse….)
Tento ganhar tempo.

Eu: -Q…Quem está falando?
(cérebro: Boa, sensacional!! Vc é um gênio!! Ganhou tempo pra pensar…. pense, pense, PENSE!)

Voz: – Quer falar com quem?
(cérebro: PUTZ! Como assim? O que é que eu falo agora?? Definitivamente não é da casa da professora de Francês! Pra quem que eu disquei?!? Droga$(&)&¨_* Bom, insiste na pergunta aí! INSISTE)

Eu: – É da casa de quem, por favor?
(cérebro: última chance, se esse estrupício não disser de onde é vou bater o telefone! Saio ileso!! Boa!! Vou fazer isso… é UM, é DOIS, é...)

Voz: – Luciano?!?
(cérebro: NÃÃÃÃÃOOOO! Pego no flagra Cueca na mão Relaxa a voz, pareça calmo por favor! Não é hora pra desespero… Taca aí uma pergunta genérica!!)

Eu: é....
(QUE QUE É ISSO??? È o melhor que vc consegue fazer??? Que lixo!! Vai ser difícil disfarçar agora!! Seu mané Por favor, piedade Me dê uma pista)

Voz: Nossa Que surpresa Quanto tempo!
Eu: Pois é... então, tava aqui de bobeira e resolvi ligar, figura… fazia tempo mesmo né, brother…
Voz: É verdade. Bom mesmo…
(pausa sem assunto…)
Eu: Olha tá tocando o interfone aqui, tenho que ir. Te ligo em seguida hein? Segura aí beleza?
Voz: Tranqüilo, abração!
Eu: Outro!!
Tu… tu… tu….tu…tu….

E assim acontece, em diversos momentos. O cérebro até tenta nos ajudar, mas às vezes a gente não colabora mesmo…

Luciano Queiroz

Depoimentos

August 19, 2005

Alguns depoimentos deixados por frequentadores do site www.clicrbs.com.br, sobre o incêndio de hoje no Mercado Público da cidade de Florianópolis:

“Acretido que a população tenha sido ferida gravemente pois este era um espaço onde a diversidade dominava, éra muito bom ver e compartilhar de um espaço onde não havia preconceito, racismo, ou diferenças, ao sentar ali todos eramos manezinhos”
Adenilson Rodrigues

“Tenho muitas lembranças boas do mercado,costumo dizer que lá a gente encontra um povo ilhéu muito especial,querido e gente boa, sexta feira a tarde era de Lei passar por lá dar uma olhadinha na galera e sentir o alto astral.”
Ana Paula Silva

“A gente vê esta tragédia com muito sentimento, pois é um lugar Histórico, que sempre esteve a disposição do turismo. Um lugar que faz “Moldura” para a nossa Capital. Sentimos muito em Blumenau
Paulo Warmling

“O Mercado Público está na minha memória.Lembro-me de que quando criança vinha à Florianópolis e andava pelo Mercado Público,ficava encantada com a água do mar batendo em suas paredes. Hoje, embora a paisagem tenha mudado o seu entorno, sua arquitetura intacta me reporta as doces lembranças.”
Tânia Lemos

“Trabalhei por 2anos na Deodoro, e no intervalo do almoço, ficava sentada no Largo da Alfândega ou no vão do Mercado Público, fascinada com o vai e vem dos mais variados tipos de pessoas. Andava entre os corredores do mercado,só pelo prazer de andar dentro daquela edificação que respira história….”
Raquel de Medeiros Santana

“Ao ir trabalhar hoje em direcao ao Estreito ja havistei da via expressa uma fumaça estranha…pensava ser algo em Coqueiros e pra minha surpresa era na ilha! Depois dos olhares assustadores das pessoas na rua e de saber que era no mercado público, tristeza total de quem ama a ilha e sua historia…”
Aline Menezes

“Meu pai tinha loja de calçados a 30 anos ali dentro, todo o sustento da familia vinha dali, e hj, acabou tudo, nao fazemos a minima ideia doque vai ser, complicado d+, desde que nasci eu frequento o mercado, fiz amigos, e agora nao sei mais oque vai ser. e minha facul particular, jah era…”
Andre Damasco

“O mercado foi um lugar muito frequentado por mim…e numa dessas visitas ao mercado numa sexta feira a noite conheci um grande amor de minha vida…..fiquei muito triste com tudo q vi,trabalho no Saco Grande e pude ver daki a nuvem de fumaça..me senti muito triste!!”
Patricia Roesner

“É uma pena ver algumas histórias serem apagadas como vimos hoje; é muito fácil dizer que construiremos novamente, mas o que era não volta mais, fica apenas na lembrança. O pouco que temos, por favor vamos cuidar!”
Eduardo Canever

O Fogo no Mercado

Hoje o Mercado Público de Florianópolis pegou fogo. Eu aqui mesmo nesta lonjura me emocionei, com os olhos cheios d’água diante das imagens. Percebi como todo cidadão de Floripa tem uma ligação afetiva com o Mercado. É um símbolo da cidade talvez mais do que a ponte, porque enquanto esta é um monumento frio e esquelético, o outro é dinâmico, vivo, é o coração da cidade pulsando e mostrando o que é ser manezinho. Se nós ilhéus temos uma alma comum, que nasce do amor pela terra, a nossa terra, ela hoje está ferida.

Minha irmã, que é arquiteta da prefeitura há alguns meses, estava lá e me enviou este relato.

“Bom dia amigos,

Fui testemunha hoje de uma enorme desgraça na cidade de Florianópolis.
Por trabalhar no centro da cidade fui uma das primeiras pessoas a chegar no terrível incêndio do nosso Mercado.
A tristeza estampava o rosto de todas as pessoas que por ali passavam, ao constatar que não havia água nos hidrantes das proximidades.
A água dos caminhões acabava rápido demais e, enquanto isso, as labaredas atingiam 3 m de altura sobre a cobertura do Mercado.
O vento soprava na direção do centro comercial ARS levando uma assustadora fumaça preta de encontro a lojistas que dali tentavam desesperadamente despejar água sobre o fogo.
Ao olhar tudo aquilo fiquei desolada. Chorei. Eu e várias pessoas a minha volta.
Chorei ao ver o desespero dos bombeiros que não conseguiam apagar o fogo, ao ver os lojistas desesperados. Chorei ao ver meus colegas, arquitetos e engenheiros da Prefeitura de Florianópolis desolados vendo nosso objeto de trabalho, parte importante da história da cidade ser destruída aos poucos e sem cerimônia.
O fogo ainda era forte quando voltei ao trabalho com uma enorme sensação de impotência.
O quê sobrou?
O quê aprendemos depois disso tudo?
Já é o segundo incêndio no Mercado Público de Florianópolis. Existem vários laudos técnicos alertando quando ao risco de incêndios e outros acidentes no Mercado com data de cinco anos atrás. Os próprios lojistas do Mercado já foram notificados inúmeras vezes. Porque não foi tomada nenhuma providência quando ocorreu o primeiro incêndio?
O quê estamos esperando?
Quem já foi ao mercado já deve ter olhado para cima e visto aquele emaranhado de fios e cabos elétricos sob a estrutura do telhado em meio à infinidade de caixas e quinquilharias por lá depositadas.
E porque não havia água para apagar o fogo?
E se o incêndio fosse em outro prédio antigo do centro da cidade?
Quantas vítimas faria?
Se não temos estrutura na cidade para apagar o fogo de uma construção térrea, que dirá de uma com muitos andares.
E agora, de quem é a culpa?
Já que estamos sempre procurando culpados para as desgraças, de quem é a culpa desta vez?
Do coitado que deixou uma panela no fogo?
Do bombeiro que não tinha água para apagar?
Dos fiscais?
Da administração do Mercado?
Das autoridades?
De Deus?
Ou somos nós? Você e eu?
De quem é mesmo o Mercado? O Mercado Público?
É do público.
O que é ser do público?
Significa que é de Todos.
Ao contrário do que a maioria pensa, o patrimônio público não é o que não tem dono, mas sim o que é de uso comum. É seu, é meu é do cara que está aí do lado. É de nossa responsabilidade zelar por ele.
E se o incêndio fosse na minha casa ou na sua?
De quem seria a culpa?
Quanto tempo levará para tomarmos consciência das nossas responsabilidades sociais?
Quê desgraça ainda teremos de testemunhar até que alguém tome uma providência?
Espero que desta vez cada um assuma a sua responsabilidade e faça a sua parte para evitar esta ou outra desgraça anunciada.
Como os heróis anônimos nas janelas do ARS que assumiram as suas responsabilidades e com a pouca água que tinham, ajudaram a apagar o fogo no Mercado.
Abraço a todos,
Cíntia.”

fogo

O Lobo e o Cordeiro

Jean de La Fontaine

A razão do mais forte é a que vence no final
(nem sempre o Bem derrota o Mal).

Um cordeiro a sede matava
nas águas limpas de um regato.
Eis que se avista um lobo que por lá passava
em forçado jejum, aventureiro inato,
e lhe diz irritado: – “Que ousadia
a tua, de turvar, em pleno dia,
a água que bebo! Hei de castigar-te!” – “Majestade, permiti-me um aparte” – diz o cordeiro. – “Vede
que estou matando a sede
água a jusante,
bem uns vinte passos adiante
de onde vos encontrais. Assim, por conseguinte,
para mim seria impossível
cometer tão grosseiro acinte.” – “Mas turvas, e ainda mais horrível
foi que falaste mal de mim no ano passado. – “Mas como poderia” – pergunta assustado
o cordeiro -, “se eu não era nascido?” – “Ah, não? Então deve ter sido
teu irmão.” – “Peço-vos perdão
mais uma vez, mas deve ser engano,
pois eu não tenho mano.” – “Então, algum parente: teus tios, teus pais. . .
Cordeiros, cães, pastores, vós não me poupais;
por isso, hei de vingar-me” – e o leva até o recesso
da mata, onde o esquarteja e come sem processo.

(Comentário meu: estou cansado destas mensagens com final feliz que rodam por aí. Por isso me diverti com essa fábula. Ela é mais realista e, provavelmente mais útil do que as outras. Luciano Queiroz)

Olá, há quanto tempo!

August 17, 2005

Olá
Agora te escrevo. Precisava de um pretexto para tal e como já o fiz por motivos mais adolescentes, juntei lápis e papel e prossegui. Hoje está nublado. Os minutos passam preguiçosos e o CD parou de tocar. Acabo de passar por uma experiência intensa que resgatou meus sonhos e sorrisos de garoto. “Porque se chamavam sonhos, e sonhos não envelhecem…”. Assim disse a música, assim disse o livro que li. Esses mesmos sonhos me envolvem agora como bruma tênue e clara, com pinta de amanhecer no pasto. Aquele, que nos é tão familiar. Lembra? Pois não consigo segurar as lágrimas. Ríamos felizes, apaixonados pelo dom de viver. Será que ignorávamos a vida que já dobrava a esquina logo à nossa frente? Nosso universo de fitas K7, discos, barracas, violão, festas, celebrações de vida e comunhão com Deus, não pôde segurar uma realidade menos jovem e menos disposta à aceitar nossa maneira de simplesmente ser. Minha certeza de que juntos resolveríamos tudo, como sempre realmente fazíamos (com ajuda Divina é claro), já esmorece. Os adultos não parecem tão dispostos a se deixar seduzir pelo nosso “charme” de pessoas tão orgulhosamente sem charme. (risos)
Nossas trilhas sonoras só ecoam num violão solitário e as novas não parecem adequadas para substituir as antigas. Me lembro vivamente quando ainda adolescente me destes preciosas lições: -não reclames, foi alí que Ele te carregou no colo…
E assim vamos, dias bons seguidos de dias nem tanto. Sem entender exatamente o que fazer com esta saudade do tempo que não volta, da pessoa que um dia fomos, num mundo que não existe mais.
Hoje o dia está nublado. tudo bem. Vou tomar um chimarrão e tocar a viola…
Um abraço com saudades.

Luciano Queiroz