O Irã que Lula não vê

July 11, 2009

Uma janela para a sociedade iraniana e para os eventos das últimas semanas. Quando encontro textos bons assim, não resisto e copio aqui.

O Irã que Lula não vê
Autor(es): Cyrus Irani
Valor Econômico – 10/07/2009

O reconhecimento imediato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de Mahmoud Ahmadinejad como presidente reeleito do Irã, a declaração de “não haver evidências de fraude” no processo eleitoral e os repetidos convites para o presidente iraniano visitar o Brasil vêm criando desconforto entre alguns iranianos. Será essa demonstração de apoio um caso de compreensão muito equivocada do que é o Irã e da política iraniana, uma exibição inflexível e mal-conduzida de solidariedade terceiro-mundista, ou um caso de interesse comercial que se opõe à justiça e à democracia? O presidente Lula surgiu como líder sindical sob uma ditadura militar, e deveria ter uma sensibilidade maior para as atuais realidades de um movimento democrático que está renascendo.

Antes de olhar para os resultados , é preciso decifrar o sistema político da República Islâmica. O regime foi caracterizado, após a revolução de 1979, de forma a criar uma república que concedeu poder absoluto ao aiatolá Khomeini. É seu fundamento o conceito de “velayat faqih”, líder religioso e político não eleito que tem a palavra final sobre a maioria dos aspectos da vida executiva, judiciária, militar e parlamentar, incluindo a nomeação e supervisão dos conselhos que examinam os candidatos quanto ao seu comprometimento com o regime. Também supervisiona as eleições e confirma os candidatos eleitos.

Khamenei, “velayat faqih” desde a morte de Khomeini: chefe religioso e político, não eleito, tem a palavra final na maioria das questões de governo, judiciais, militares e parlamentares. É como se o papa tivesse poderes políticos, religiosos, judiciários e militares, e nomeasse pessoas de sua confiança como sábios que iriam destruir as liberdades e os processos judiciários. Sob a cobertura do Islã, uma variedade de teocracia foi instalada para servir aos pequenos grupos de interesses pós-revolucionários. Mas por que se preocupar com eleições, se um homem toma a decisão final? O destruidor do reinado déspota de Reza Pahlavi reconheceu a necessidade de ganhar legitimidade popular regular através das eleições presidenciais e parlamentares.

Mas, mesmo na gênese do regime, os resultados das eleições nem sempre foram respeitados – o primeiro presidente, Bani-Sadr, foi deposto por Khomeini por ter uma mentalidade muito independente. O cenário político atual é composto de três facções. Há os radicais, representados por Khamenei, velayat faqih desde a morte de Khomeini em 1989, os guardas revolucionários, o judiciário, baseado nas leis islâmicas, toda a mídia governamental e o executivo desde a eleição de Ahmadinejad; os conservadores, que são os clérigos e facções socialmente conservadoras, comandadas por Hachemi Rafsanjani; e os reformistas, que têm como principal representante Mohammad Khatami.

Entre os radicais, predominam os guardas revolucionários, que participaram ativamente da guerra do Irã contra o Iraque entre 1980 e 1988. Representam uma geração mais nova, que frequentemente se opõe aos velhos guardas revolucionários. Seu líder é Ahmadinejad (ele próprio um ex-integrante das milícias “basiji”).

A história dos 30 anos da República Islâmica está cheia de períodos em que dissidentes e oposicionistas foram presos, torturados e assassinados, e a elite política está convencida de que sua sobrevivência justifica todos os meios repressivos. Essa mesma elite tem sido incompetente na gestão da economia. Durante os quatro anos do governo Ahmadinejad, US$ 250 bilhões em receitas obtidas com o petróleo transformaram-se em uma inflação de 30% e uma taxa de desemprego de 15% a 30% (não há estatísticas confiáveis disponíveis). Oitenta por cento da economia estão nas mãos do governo e 90% das exportações vêm do petróleo (60% do orçamento do governo).

E há o alto nivel de corrupção, outro motivo pelo qual a elite é tão apegada ao poder, o que lhe dá licença para tratar mal a riqueza nacional, alimentando monopólios camaradas. Enquanto isso, uma parcela das receitas do petróleo é distribuída via subsídios e salários para grande parcela da população, como forma de garantir sua lealdade. O problema do Irã é a maldição que recai sobre a maioria das economias dependentes do petróleo. A incompetência não está sendo punida por um colapso econômico, não há necessidade de criar legitimidade para se recolher impostos e administrar bem o país.

A análise do presidente Lula de que “não há evidências de fraude” deriva da grande porcentagem de votos supostamente a favor de Ahmadinejad (63%). Se tivesse havido fraude, teria que ser algo organizado em grande escala. Esse modo de ver não reconhece a incompetência de alguns elementos do regime ou o desrespeito à vontade das pessoas.

Para entender como tudo começou, é preciso voltar a 1997, com a eleição de Khatami, o primeiro presidente reformista. Ele é um clérigo de maneiras gentis, que surpreendeu a todos ao ser eleito com 70% dos votos em um pleito que teve a participação maciça da população. Os radicais foram pegos de surpresa.

Quatro anos depois, Khatami foi reeleito, com 78% dos votos, e continua sendo um político popular. Cada mudança proposta por seu governo ou pelo parlamento, dominado pelos reformistas, encontrou oposição nos radicais, com vetos sistemáticos pelos diferentes conselhos não eleitos, que impediram, por exemplo, a passagem de uma nova lei sobre liberdade de imprensa, ou através do judiciário, com o fechamento de jornais e prisão de reformistas.

Nesse jogo de gato e rato, os radicais, tendo sempre a última palavra, ficavam sempre em vantagem e passaram a ser vistos pelos iranianos como inúteis. Tendo aprendido as lições, o Conselho dos Guardiões, no comando das eleições, eliminou todos os candidatos parlamentares e presidenciais que representassem um risco, por temer o surgimento de representantes eleitos que não pudessem controlar.

Assim, o parlamento de 2004 foi eleito com baixa participação e apenas os conservadores e os radicais tiveram permissão para enfrentar o eleitorado. Nas eleições de 2005, com baixa participação dos eleitores, Ahmadinejad teve menos de 25% dos votos no primeiro turno, e um dos candidatos alegou que os militares fraudaram o pleito para levá-lo ao segundo turno. Ele então foi eleito na disputa contra Rafsanjani (duas vezes eleito), que é visto hoje como um velho revolucionário corrupto. A taxa de participação do povo nas eleições continuou baixa (54%), indicando que uma grande parcela do eleitorado perdeu as esperanças nas promessas de mudanças.

A geração do “baby-boom” pós-1979, aqueles que têm menos de 30 anos (que representam 60% da população, que passou de 38 milhões de habitantes em 1979 para 72 milhões em 2009) e a geração de seus pais, têm poucas exigências:

  • Melhores oportunidades econômicas e melhor administração do país: o desemprego e o subemprego são um problema muito grande, e sempre mais importante. O PIB do Irã caiu dez vezes nos últimos 30 anos, ao mesmo tempo em que a receita do petróleo tem sido enorme. A politização opressiva e o controle da economia pelo governo, a posição agressiva contra o conhecimento vindo de fora e os investimentos estrangeiros, e a falta de competência econômica são fatores desse fracasso contínuo.


  • Liberdade social, política e individual: os fanáticos radicais oprimem a juventude, especialmente as mulheres, que são obrigadas a usar o código de vestimenta islâmico, impedem o relacionamento entre homens e mulheres e eliminam a liberdade social e política.


  • Um Irã menos beligerante: as pessoas se ressentem do fato de que o dinheiro do país está sendo empregado no bem-estar e gastos militares com os xiitas libaneses, o Hamas na Faixa de Gaza e outras causas, enquanto a economia do país está em frangalhos. A retórica agressiva e até mesmo ofensiva de Ahmadinejad não é bem vista por grande parcela de iranianos.


Contra esse cenário, Khatami decidiu disputar as eleições de 2009. Os radicais e os conservadores fizeram um grande lobby de bastidores para tirá-lo da disputa, preferindo um reformista/conservador desconhecido, Mir-Hossein Moussavi, na esperança de vencer facilmente um oponente fraco. Alguns erros táticos, incluindo o primeiro debate entre candidatos transmitido pela televisão, eletrizaram o eleitorado nas duas últimas semanas antes das eleições, com comícios enormes do candidato reformista por todo o país. Houve uma convergência inegável por trás da “ideia de progresso e liberdade” nas semanas e dias que precederam as eleições, cuja existência não foi reconhecida pelo “establishment”.

A participação de 84% dos eleitores aponta para o fato de que todas as parcelas insatisfeitas da população apostaram nessa oportunidade para votar. A taxa de comparecimento às urnas, assim como o resultado provável, foi uma surpresa para o “establishment”, que precisava urgentemente de uma resposta irrevogável. Os 62,6% dos votos obtidos por Ahmadinejad foram analisados, sem o acesso direto de observadores independentes, e a provável troca de urnas. Mas é improvável que se encontrem elementos diretos que demonstrem ter havido fraude. É preciso, então, recorrer a análises estatísticas dos números dos dois turnos e também a comparações com o padrão de eleições anteriores, para ver se os números não são bons demais para ser verdadeiros.

O professor Ali Ansari, da St. Andrews University, fez uma análise estatística inicial, que indica a probabilidade muito grande de ter havido fraude, para impedir que Moussavi vencesse no primeiro turno, ou mesmo para que não conseguisse votos suficientes para disputar o segundo turno com Ahmadinejad. As mudanças brutas dos números em favor de Ahmadinejad certamente escondem o fato de que os radicais não esperavam o resultado e se engajaram para preparar o que está agora sendo chamado de “golpe brando” contra o campo reformista.

Mais do que nunca, outra interpretação das eleições é que os votos não foram unicamente a favor de um candidato contra outro, e sim um voto de protesto contra o atraso da economia, a política externa equivocada e a falta de liberdade social e política.

O levante popular após as eleições e a previsível repressão sangrenta pela Basiji (milícia) e a polícia correram o mundo. Esta fase é agora lembrada pelo rosto de uma jovem chamada Neda. Mas os números são ainda mais assustadores, de algumas centenas de mortos nos protestos de rua comparadas à contagem oficial de apenas 20 mortos. Além disso, milhares foram presos, estão sendo torturados e provavelmente alguns morrerão sob tortura ou executados.

Enquanto isso, os radicais invocam, como sempre fazem quando se sentem ameaçados, supostas tramas externas, para pintar o descontentamento público como sendo organizado pelo Reino Unido e os Estados Unidos. Ao invocar tal intervencionismo estrangeiro, eles querem apelar para a lógica da grandeza iraniana do passado e para o nacionalismo, e servem-se das queixas contra a interferência semicolonial não tão antiga no país. O que não veem é que é impossível acreditar nessas alegações fantasiosas.

O Irã não é o primeiro regime tirânico a oprimir seu próprio povo. A falta de partidos públicos, de uma oposição de credibilidade e de veículos para o povo se organizar garantem que o regime preserve seu poder. Portanto, as perspectivas de curto prazo parecem ruins. A esperança será enterrada, os que foram presos serão torturados e mortos e uma geração se tornará passiva e desiludida. O regime perderá legitimidade diante dos olhos de seu próprio povo. Ficará mais isolado no cenário internacional; com a abertura para a Europa e a tentativa de diálogo com o presidente Barack Obama adiados para um estágio posterior.

A incompetência e corrupção do regime também garantirão que a vida continuará tão miserável quanto antes. Mas o Irã possui algumas condições únicas, que poderão proporcionar esperanças no longo prazo: uma população jovem e relativamente educada, consciente do subdesenvolvimento de que tem sido vítima, uma grande diáspora que mantém seus laços com o país, uma classe média que é grande, e um apetite por acesso à informação que torna impossível mentir em grande escala para os iranianos (como acontece com os norte-coreanos). É também nossa responsabilidade moral mostrar a verdade.

Portanto, eu diria ao presidente Lula que, no auge da represssão do regime militar brasileiro, os brasileiros sentiram o mesmo desespero e ficariam consternados se outro país aplaudisse com tanto entusiasmo um regime tirânico e falido. Não somos diferentes em nossas aspirações e esperamos que o presidente Lula fique, afinal, do lado certo da história.

Este artigo é assinado sob pseudônimo, para preservar a identidade do autor, iraniano que vive em Londres, onde é CEO de uma empresa de software

Capitalismo + urna

July 9, 2009

Artigo muito bom, que eu gostaria de ter escrito, e que deveria ser distribuído nas escolas…

Capitalismo + urna
Folha de S. Paulo – 08/07/2009

FREQUENTEMENTE as pessoas tendem a juntar um ideal utópico generoso à ingenuidade de que poderiam facilmente realizá-lo, desde que houvesse “vontade política”. Não é raro se atribuir ao que confusamente se chama de “capitalismo” a essência dos males sociais e a corrupção do homem. Em lugar da competição desenfreada e do egoísmo exacerbado produzido pela forma de organização social que se chama de capitalismo, poderíamos apenas, com uma adequada, poderosa, inteligente e misteriosa “vontade política”, substituí-la.
Nesta, a convivência entre os homens seria harmônica e cada um poderia realizar livremente suas potencialidades. Na falta de um nome melhor e também confusamente, ela é chamada de “socialismo”. Constroem-se, assim, dois conceitos platônicos opostos, igualmente confusos: “capitalismo” e “socialismo”. Por construção, o primeiro é a essência do mal, e o segundo, a essência do bem…
O fundamento dessa crença é um axioma duvidoso: a cooperação e o altruísmo são as tendências naturais do homem quando não corrompido pelo capitalismo. O problema é que este não é uma coisa, mas um processo. É uma organização flexível (sempre provisória porque evolui), a que o homem chegou por uma seleção histórica “quase” natural para atender à sua eterna busca de uma forma de convivência compatível com a liberdade individual, mas que, ao mesmo tempo, tenha eficácia produtiva capaz de libertá-lo para gozá-la.
A história mostra que, cada vez que um fino cérebro peregrino “inventou” uma fórmula para apressar o processo, algum brutamontes empolgando a tal “vontade política” tentou implementá-la. As aventuras sempre terminaram na ineficácia produtiva e na subtração da liberdade, ou seja, no retrocesso histórico. O capitalismo, isto é, a forma de organização evolutiva do sistema produtivo vigente, só pode existir com um Estado constitucionalmente forte, que garanta a propriedade privada, a apropriação dos benefícios da atividade individual, o cumprimento dos contratos e o funcionamento dos mercados.
Quando ele é combinado com um regime político competitivo, que garante (realmente) a livre manifestação da vontade dos indivíduos com o sufrágio universal periódico, acelera-se a sua evolução na direção correta. O “capitalismo” e a “urna” são os polos de uma dialética que parece ser capaz de construir uma organização social que acompanhe, assintóticamente, as aspirações sempre crescentes do homem.

Adeus açaí!!!

July 3, 2009

PARABÉNS, DIPLOMATA RAFAEL!!

Estou muito feliz, brother. A perseverança foi recompensada!

Abraço!