Af-Paq

May 29, 2009

Está em curso uma tragédia humanitária de grandes proporções. No Paquistão, o conflito entre o Exército e o grupos radicais islâmicos (Talibãs, Al Qaeda, etc) já deixa 2 milhões e meio de refugiados e mil mortos.
Aos que gostam de posar de humanistas, progressistas e coisas “fashion” da mesma espécie, lembro que esses grupos estavam já a cem quilômetros da capital do país. País este que tem armas nucleares.
Mais um exemplo de como os milhares de dilemas que uma guerra – qualquer guerra – apresenta não aceitam maniqueísmos.

Eu acho inadimissível que radicais controlem armamento atômico. Assim como acho inadimissível que forcem pessoas a seguir esta ou aquela religião, usar véus pretos, e toda essa parafernália opressora. Mas também não dá pra ficar insensível a dois milhões e meio de refugiados. Numa época onde o mais parvo dos homens pratica a Realpolitik em nome de valores morais – numa contradição esmagadora – é preciso ser claro quanto a que mundo se quer.

As revoluções e grupos ideológicos se perpetuam porque seu objetivo de mundo é etéreo como uma névoa grossa. Todos acreditam que lá dentro da nuvem existe algo melhor. Quando são bem sucedidos, chegando ao poder e tendo que colocar no papel o que querem, começam a ver que cada um tem uma idéia diferente do que o mundo deve ser. Aï começa o fracasso inerente a qualquer revolução.

Então aconselho menos revolução, menos progressismo, menos “luta por um mundo melhor” e um pouco mais de realismo. No caso do Af-Paq (Afeganistão e Paquistão), que é como o assunto tem sido chamado, quem não sabe muito bem que mundo quer acaba ficando perdido. Por mais que eu considere a causa Palestina, o problema do Af-Paq tem dimensões maiores. Assim como teve Ruanda, mas já falei disso aqui. Um conselho: fujam das questões onde as torcidas se posicionam muito facilmente. Normalmente os dois lados estão errados.

Raramente as verdadeiras questões são de fácil compreensão das torcidas…

A pedagogia do cinismo

May 5, 2009

A pedagogia do cinismo
O Estado de S. Paulo – 05/05/2009

Ao desdenhar do noticiário sobre a farra das passagens áreas na Câmara dos Deputados – apenas uma de uma sequência ainda inesgotada de denúncias envolvendo parlamentares e altos funcionários do Legislativo -, o presidente Lula fez mais do que atender a uma presumível cobrança recebida dos presidentes das duas Casas do Congresso, o deputado Michel Temer e o senador José Sarney. Os dois hierarcas do PMDB queixaram-se a Lula de não ter ele dito em três meses uma única palavra que se contrapusesse aos efeitos junto à população da sequência de escândalos levantados pela imprensa. O presidente passou a cortejar com afã renovado o apoio do partido à candidatura Dilma Rousseff em 2010 desde que se tornou conhecido o problema de saúde da ministra.

A cobrança, em si, era já uma enormidade: nenhuma das revelações se comprovou infundada até agora e em nenhum momento a imprensa aproveitou os vexames destampados para acusar indistintamente os membros do Congresso e muito menos investir contra a instituição legislativa. Não tivesse Lula sacrificado na pira do mensalão o senso ético de que fazia praça em tempos idos, teria moral para rejeitar a indigna demanda da dupla peemedebista com o argumento de que o Legislativo, até por missão constitucional, pode se pronunciar sobre assuntos do Executivo, mas a recíproca não é verdadeira. Ou, não tivesse ele de há muito passado a acreditar no que viria a dizer sobre a exposição dos malfeitos parlamentares, poderia aplacar os aliados afirmando, por exemplo, que o Congresso, como instituição e por sua história, é maior do que a soma de suas partes e estas são predominantemente boas.

Mas isso seria pedir demais a quem, mandando às favas escrúpulos passados, aprendeu a juntar no mesmo saco a primazia dos seus interesses políticos e conveniências pessoais com uma visão cínica do sistema pelo qual se elegeu – o mensalão descende das contas da campanha de 2002 – e com o qual governa. Assim, quando declara que as denúncias dos abusos com as passagens aéreas dos deputados tratam “como se fosse uma novidade uma coisa que é mais velha do que a história do Brasil” (sic) e quando acrescenta que “temos coisas mais importantes para discutir”, ele afaga aqueles que outrora incluiria no rol dos “300 picaretas” do Legislativo e deixa à mostra o imitigado pragmatismo com que espera ver realizadas as suas prioridades. É a velha teoria de que os fins justificam os meios.

Se o crescimento econômico, a geração de empregos e a redução da desigualdade social são metas justas, Lula parece raciocinar, justo também se torna tirar o proveito possível dos piores vícios da política brasileira. Foi com esse espírito que ele chegou ao Planalto, reelegeu-se e trabalha para eleger a sua candidata à sucessão. Claro que as metas são indissociáveis da sua presença no poder e da perpetuação do lulismo. Por isso também, quando conta que usava passagens de sua cota como deputado para “convocar dirigentes da CUT e outras centrais sindicais” e quando comenta que, se o mal do Brasil fosse essa clamorosa apropriação indevida de dinheiro público, “o Brasil não tinha mal”, Lula deixa clara a perversão a que submeteu os valores políticos com os quais se identificava e que fizeram do sindicalista renovador transformado em líder partidário uma figura ímpar na cena nacional.

No passado, ele apregoava que as mudanças sociais no País dependiam de “acabar com isso que está aí”. Presidente, ele recorre com a maior naturalidade ao que está aí para mudar o País – decerto sob o seu mando ou patrocínio. Dirigente sindical, Lula denunciava o peleguismo, a submissão dos sindicatos aos governos de turno. Presidente, comprou a adesão entusiástica das centrais sindicais ao seu governo com os milhões do Imposto Sindical livres de fiscalização e premiando o pelegato com pencas de cargos federais. Pouco se lhe dá que o seu manejo indecente do poder e a pedagogia do cinismo que transborda de seus pronunciamentos desmoralizem as instituições. A degradação dos costumes políticos na era Lula não é um acaso: é a face mais ostensiva desse achincalhe que será a sua herança maldita.

Adorei!

May 4, 2009

Cristofobia

O Novo Estado de Lula

Vez ou outra eu encontro um artigo que gostaria de ter escrito. Este é um deles. Principalmente porque, ao criticar sistematicamente este governo, já recebi o “carinhoso” apelido de neo-liberal pelos meus amigos mais irreverentes. Respondo-lhes sempre que contrapor Lula não é ser contra a esquerda. É ser contra a indecência.

O Novo Estado de Lula
Autor(es): Fernando De Barros e Silva
Folha de S. Paulo – 04/05/2009

Para um governo que se empenha em misturar pão e circo, as comemorações do 1º de Maio cumpriram a sua parte: entre shows e sorteios, sobraram palavras de elogio ao Estado nos eventos das centrais sindicais. Justo.
Em 2008, elas receberam só de imposto sindical quase R$ 150 milhões livres de qualquer fiscalização (10% do que foi descontado de forma compulsória do trabalhador) uma inovação do lulogetulismo.
Foi-se o tempo em que a CUT brigava para libertar o sindicalismo da tutela estatal e a Força pregava contra ideologização da pauta trabalhista pelo PT. Hoje estão unidas e satisfeitas sob o mesmo guarda-chuva, usufruindo o peleguismo de resultados. Reclamar do quê?
Quem aproveitou para reclamar no 1º de Maio foi Lula, mas da “hipocrisia” dos que se levantam contra o descalabro do Legislativo. E por que decidiu comprar essa briga, desqualificando a justa indignação do público? Defesa da democracia?
Antes fosse. Lula ouviu um apelo dos amigos José Sarney e Michel Temer, segundo quem a pressão popular por compostura está deixando muita gente insatisfeita no Congresso e isso cria riscos para o Planalto. Afinal, quem quer uma CPI da Petrobras, por exemplo?
Uma mão suja a outra, por assim dizer. Os eventos do 1º de Maio nos dão um retrato polaroid do lulismo.
Não se trata só de cooptação e aliciamento. Este é o governo do arrastão. De Sarney a Paulinho, do Congresso aos sindicatos, dos usineiros (“heróis nacionais”) ao MST, dos banqueiros à massa miserável do Bolsa Família, dos empreiteiros (que ressuscitaram) às ONGs que beliscam as bordas do Estado -todos parecem participar da nova comunhão nacional, uma espécie de “CarnaLula” que prescinde de regras claras e tripudia da moral.
Pai dos pobres, mãe dos ricos. Só por preguiça mental ou má-fé alguém ainda chama isso de esquerda. Reinvenção do patrimonialismo com ganhos sociais, esse arremedo do getulismo tem data de vencimento e alto custo institucional. Quem é que vai pagar a conta?

Bolsa Família atingirá 1 em cada 3 brasileiros em 2010

May 3, 2009

Deu em O Globo:

Bolsa Família atingirá 1 em cada 3 brasileiros em 2010

O Bolsa Família, maior programa social do governo Lula, atingirá em 2010, ano eleitoral, um em cada três brasileiros. Hoje o benefício já chega, direta ou indiretamente, a 29% da população – sendo que, em seis estados do Nordeste, mais da metade dos moradores vive do programa, segundo levantamento do GLOBO com base em dados oficiais. É o que mostra reportagem de Leila Suwwan, publicada na edição deste domingo de O GLOBO.

No Maranhão, no Piauí e em Alagoas, de 58% a 59% da população dependem do Bolsa Família. Na cidade de Junco do Maranhão, 95,7% das famílias vivem do programa. De acordo com o governador do Piauí, Wellington Dias, o alto número de beneficiários no estado reflete uma “situação dramática”.(...)

Meus caros, sem brincadeira, é uma palhaçada. Quer dizer que um terço da população brasileira vivia abaixo da linha da miséria? Por mais que sejamos preocupados com justiça social, não está na hora de desconfiar desses números não? E depois de 6 anos de um Governo que supostamente ia governar para os pobres, já não estava na hora deste número diminuir, ao invés de aumentar? Não é a própria declaração de incompetência?

Mas é óbvio que Lula não quer isso. Ele quer é dar mesada mesmo para o maior número possível de gente, pra mantê-los no cabresto. É um coronelzinho, daqueles a moda antiga. Alguém quer apostar que faltando dois meses para a eleição o PT vai espalhar aos quatro ventos que seu adversário vai acabar com o programa? Em 2006 foi o boato da privatização da Petrobras. O pior é que tem gente escolarizada que acredita nessa balela (escolarizada sim, inteligente?... talvez)

O Brasil virou uma grande fazenda, a do Nhô Lula, com os nhôzinhos e o resto da criadagem.

Fusquinha 68

May 1, 2009

Contei para um amigo que trabalha comigo, filho de cubano, que eu tive um fusca 69. Ele riu e disse que seu tio, em Cuba, comprou um fusca 68 ano passado. Sabe quanto ele pagou pelo carro? Dez mil dólares.
Perguntei como é que se compra carro em Cuba e ele me explicou que apenas pessoas autorizadas pelo Governo podem comprar um carro, e que geralmente quem é da alta hierarquia do exército ou do governo pode. Ele me explicou que seu tio pôde comprar pois seu avô era militar de alta patente. De posse da autorização, ele conseguiu comprar o tal fusca.
Eu adorava meu fusca, mas ele dava problemas a todo momento, pois era muito velho. Imagino como ama a revolução quem tem que usar influência para ter o direito pagar 10.000 pela fubica.
Pelo que um outro amigo me disse, Fidel quando anda de carro, passa em comboio, cheio de carrões de vidro fumê.