As the time goes by…

April 19, 2009

A vida de estudante secundarista pode parecer bastante vulgar para quem tem mais de 30 anos. E realmente, a não ser para os próprios adolescentes, não há muito do que se orgulhar nesta fase da vida, onde estamos mais preocupados em entender todas as mudanças pelas quais passamos, em decifrar o que as garotas pensam, e, enfim, nos divertir com qualquer coisa.

Ter participado do Grêmio Estudantil do meu colégio foi minha tentativa de fazer algo realmente memorável. Claro que outras motivações (a saber: autorizações especiais para deixar a classe) também tinham peso, mas nossa chapa caracterizava-se justamente por sermos os mais intelectuais, nerds mesmo. Eramos progressistas realistas, numa salada ideológica que fazíamos, sem resultado prático nenhum. Tinha de Paulo Freire, passando por Marx e chegando em MDB. Até um fã do Brizola tínhamos. Nesta época, em meu colégio, o simples fato de se ter ALGUMA opinião sobre política significava ser realmente “cabeça”. Passando longe de títulos, como socialistas ou liberais, nos orgulhávamos antes de tudo, secretamente, de nossa inteligência. Sim, éramos rápidos no gatilho. Não à toa, “vencemos” os debates patrocinados pelo colégio. Concorremos com uma chapa de alunos em grande parte repetentes e populares, chamada de “Restos do Nada” (que hoje, ironicamente, acho um nome sensacional). E confesso, não me lembro mais de muita coisa. Acho que por fim não fiz nada digno de memória, a não ser um jornalzinho politizado que não teve mais do que duas edições.

Me lembro bem, no entanto, que como órgão representante dos alunos do meu colégio, fomos convidados para a Assembléia dos Estudantes Secundaristas de Florianópolis. Nunca ninguém do riquinho e alienado Colégio Catarinense tinha dado as caras por lá. O convite era mera formalidade. Não havia a menor expectativa de comparecimento dos “filhinhos de papai”. Pois qual não foi a surpresa da tal assembléia quando entramos no salão com uma delegação muito numerosa pois, pela proporcionalidade, tínhamos de longe o maior número de representantes – éramos o maior colégio da cidade. E me lembro bem de ver as caras espantadas, de alunos “profissionais”, que tinham mais de 20 anos com certeza, vendo ali um risco iminente aos seus planos políticos. Na época, não existia PSTU e o PT era a sigla radical, acolhendo inclusive a UJS (União da Juventude Socialista), espécie de Al Qaeda jovem, querendo destruir a civilização judáico-cristã ocidental.

O que aconteceu depois foi um despertar da minha consciência, vislumbrando um mundo onde a razão pode predominar sobre a ignorância. A cada item em votação da pauta de posicionamentos da entidade, nós nos comunicávamos por sinais, chegávamos em segundos a um denominador comum e votávamos em bloco, impondo uma das raras derrotas aos manipuladores ideológicos de plantão. “Pelo não pagamento da Dívida Externa”- CONTRA!. “Pela expulsão do FMI” – CONTRA! “Impedir a internacionalização da Amazônia” – CONTRA! O riso me volta ainda hoje…

Não éramos necessariamente contra todas estas posições políticas, pelo menos não unanimemente. Mas tínhamos bom senso para saber que uma entidade daquelas tinha que ocupar seu tempo em exigir qualidade de ensino ao invés de servir de massa de manobra para grupelhos de esquerda. Por fim, elegemos uma diretoria que parecia ser mais sensata e fomos embora, rindo espetáculo de manipulação que tínhamos presenciado e em grande parte conseguido evitar.

E assim consegui finalmente meu feito memorável, aquele do qual não esqueço. É claro que hoje vejo que muitas outras coisas foram tão ou mais importantes naquela época para minha vida. Mas olhar o inimigo na face e vencer não tem preço.

Prelúdio

A África do Sul segue o caminho do “político bom é aquele ignorante como a gente”, em moda na América Latina. Já descrevi esse risco há alguns dias. Quando troca-se Churchill e Lincoln pelo rei Shaka Zulu, já declara-se de que lado da civilização se está. Creio que aproxima-se do fim a existência de um país de primeiro mundo na África. Leia abaixo:

O guerreiro zulu que conduzirá a África do Sul
Zuma nunca foi à escola, é defensor da poligamia e tem 22 filhos de 6 mulheres diferentes
por Cristiano Dias

A ascensão de Jacob Zuma é uma ruptura na política sul-africana. Até então, o Congresso Nacional Africano (CNA), partido governista, pinçava seus líderes de uma elite ocidentalizada e piamente cristã. Zuma passa longe desse perfil. O senhor de 67 anos, cabeça raspada e careca cuidadosamente lustrada, nunca frequentou a escola e foi criado para ser um guerreiro zulu. Quando criança, corria descalço, caçava passarinho, nadava em rio e brincava com pedaços de pau.

Seus heróis não são Winston Churchill nem Abraham Lincoln. Recentemente, ele disse que admira o rei Shaka Zulu, cruento patriarca da nação zulu que esmagava o crânio de seus inimigos e aterrorizou os colonizadores britânicos no século 19. Como sumo representante da raça, ele defende a poligamia: os relatos mais puritanos dizem que ele tem 22 filhos de 6 mulheres diferentes – atualmente é casado com 2.

Zuma é carismático e popular, ao contrário de seu predecessor, Thabo Mbeki, um intelectual frio e orador sonolento. Enquanto Mbeki se esforçava para bancar o negro educado em universidade britânica, Zuma tem orgulho de sua origem modesta. Apesar de tropeçar às vezes no inglês, ele se tornou um líder capaz de falar aos miseráveis dos bairros pobres de Soweto e agradar a classe média branca. Carreirista do partido, Zuma é um populista de esquerda do tipo chavista.

Seu governo terá duas bases de sustentação, o Partido Comunista sul-africano e os sindicatos, as duas mãos que enxotaram Mbeki do palácio presidencial. Muitos analistas temem que Zuma siga à risca a cartilha tribal e se apoie em um conselho formado apenas por companheiros de luta.

Sindicalistas e comunistas sonham com o fim do liberalismo da era Mbeki e uma gigantesca política de inclusão social que passa pelo aumento inevitável do Estado. O economista Moeletsi Mbeki, irmão do ex-presidente, alerta para o risco que corre o país. Segundo ele, o governo é uma mãe: são 13 milhões de funcionários públicos – 30% da população. “Em um momento de crise, isso é uma bomba-relógio”, disse.