Diplomacia e Postura
A Diplomacia, e toda sua complexidade, não é muito diferente do esforço que cada um fez, em sua infância, durante os anos de estudos secundaristas. Os países, assim como alunos em uma sala de aula, procuram proteção, amizades, se unem com colegas com os quais nutrem afinidades. As vezes se aproximam com o único intuito de obter alguma vantagem específica – um convite para uma festa, ou a participação em algum fórum, dependendo do exemplo. Outras vezes, a aproximação é definida pelos interesses comuns, o que chamamos normalmente de amizade.
De qualquer forma, tanto na escola quanto na política internacional, mesmo que na maioria das vezes isso aconteça de forma difusa, as relações são sempre baseadas em benefícios angariados. Mesmo nas amizades que consideramos as mais puras, procuramos sempre um ganho, seja ele segurança, divertimento, aceitação.
Seria fácil se fosse só isso. Entretanto, cada um tem sua prioridade, seu entendimento do que seja este ganho, do que seja capaz de lhe proporcionar satisfação. As diferentes escalas de valores, trazidas de casa, turvam e complicam os relacionamentos, estabelecendo que não basta um esforço de conquista de aliados simplesmente, mas que é preciso também a identificação de valores alheios, compatíveis com os nossos. Esta necessidade faz com que a união de esforços seja sempre um processo complexo e pontual. E faz também que a amizade seja uma construção, um processo de estabelecimento de confiança. A diferença entre a escala de valores de cada “aluno” torna difícil a compatibilidade total entre dois entes, fazendo a sobrevivência depender de uma infinidade de pequenas e constantes negociações. Por isso é importante que, no caso ampliado, a chancelaria de um país não siga os ventos das marés políticas internas, mas que tente estabelecer uma personalidade coerente que se mantenha com o tempo. Tanto para permitir que outros nos identifiquem como parceiros, tanto para permitir que conquistemos aqueles que nos interessam. Coerência é um dos componentes principais da amizade, seja na ONU, seja na escolinha.
O Governo Lula tem pervertido este princípio. Ao estabelecer a nova ênfase de nossa política externa, não se limitou apenas à trocar de estratégia. Agiu como se houvesse conquistado o poder e estabeleceu uma mudança na própria personalidade diplomática nacional. No colégio, quem se comportava assim, erraticamente, era considerado “traíra”. Quando estabelecemos a confiança, sedimentamos os fundamentos da amizade. Amigos que não respeitam estes fundamentos são tratados sem perdão. É por esse paralelo singelo que é possível entender a fabulosa coleção de derrotas da diplomacia atual. Mesmo quando logramos alguma vitória, não fica muito claro o que se ganhou, pois não sendo mais confiáveis, não podemos mais oferecer confiança, restando-nos ceder para manter relacionamentos. Estes por sua vez são cada vez mais atraídos unicamente pela perspectiva de ganho.
Como um bom fingido, que procura vantagens sem o ônus da coerência, falamos sem parar. Nunca se ouviu tanto a voz de nosso Chanceler. Fala muito, canta suas próprias glórias, mas sempre há uma falta de conteúdo, uma falta de verdade, que foi jogada fora junto a um século de história.
Muito tempo passará até que reconquistemos a confiança da turma, restando-nos o papel de presença peculiar, de animadores de festa. Somos “os caras”, afinal. Ainda bem que somos bonitos…
