Raízes da Decadência
Um dos grandes males do populismo é referendar como verdade algumas visões simplórias e comumente erradas da realidade de um país. O populista quer sempre simplificar, quer reduzir o raciocínio a uma ou duas escolhas para que, invariavelmente, seja ele o santo redentor. Este foi o caminho percorrido por muitos países em diferentes épocas, e por nós mesmos, antes e agora.
Uma visão que se encaixa neste cenário é aquela que atribui às elites a culpa por todos os males do Brasil. Expediente adotado ao extremo pelo Presidente da República, esta mentira é também fermento da degradação moral da nação e “tampa de caixão” que impede qualquer lampejo de reação.
Culpar a elite por todos os males nacionais é tão falso como uma nota de três reais. Este pensamento, profundamente enraizado na pseudo-ideologia socialista universitária, santifica o povo, de onde apenas viria o bem e a justiça, e demoniza a elite, de onde só se espera exploração e dominação. É uma idéia compreensível aos alunos do pré-primário e seus equivalentes mais adultos, mas reduz a complexidade da teia social à meia dúzia de leis simplórias que nem de longe fazem justiça à história brasileira e de sua sociedade. Efetivamente, a elite brasileira foi protagonista de muitos lances maléficos ao desenvolvimento nacional. No entanto, foi também de seu meio que surgiram a quase totalidade das iniciativas engrandecedoras da nação. É dela que devemos esperar a defesa dos ideais mais altos, da justiça mais digna. Veja o que dizia Rui Barbosa:
- “[...] creio no governo do povo pelo povo; creio, porém, que o governo do povo pelo povo tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional pelo desenvolvimento nacional do ensino, para o qual as maiores liberalidades do Tesouro constituirão sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza pública; creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições, porque creio no poder da razão e da verdade; creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.”
- Escritos e discursos seletos – Página 227, de Ruy Barbosa, Virginia Cortes de Lacerda – Publicado por Companhia Aguilar Editôra, 1966 – 1095 páginas
E assim Rui Barbosa ajuda a mostrar, como incontáveis outros, o valor de nossos melhores homens.
É mandatório notar porém que o Brasil não estimula e, na verdade, dificulta, a formação desta classe de pessoas capazes de pensar. A educação que permite que nos EUA surjam grandes intelectuais em todas as classes, em nosso quintal só está acessível a quem pode pagar. Mais do que isso, vivemos mesmo uma desmoralização do saber, relegado à condição de luxo supérfluo. Neste ambiente o futuro do país é depositado nas mãos daqueles que não tem nada mais do que ambições imediatas, sem nenhum senso superior de civismo e sem a menor capacidade de abstração. Vivemos do circo, do show, da política tosca, dos conchavos, dos favores. E isso tudo porque deixamos a elite de fora e fomos buscar “gente como a gente”. Os ideais democráticos e humanistas, o pensamento superior enfim, no entanto, só conseguem se desenvolver em quem teve treino, em quem se acostumou ao desafio intelectual, ao lapidar diário da mente e da consciência. É de nosso meio que devem vir os governantes, os juízes, os parlamentares. Eu entendo que ao ler estas linhas, vozes se avolumem acusando o nosso suposto distanciamento dos problemas sociais que insistem em acompanhar o Brasil. Pois a resposta que dou, firme, é que a vida na miséria não é capaz de despertar, por si, esta consciência, restando ao decidido desejo daquele que tem as ferramentas intelectuais executar a tarefa de sintonia entre as duas realidades que são, ao fim e ao cabo, a mesma.
Nós, da elite, que estudamos em universidades, que temos oportunidades de leitura, de formação, de viagens, somos sim quem tem a obrigação de conduzir o país. É nosso dever também criar as condições para que o saber não seja exclusividade de uma classe social, assim como conduzir o país para um futuro melhor, o que só é capaz quem consegue ver além do amanhã. É importante que criemos um país onde o intelecto encontre incentivo em todas as classes. Sabemos que a associação mandatória do saber com o dinheiro não produz sociedades livres. Mas não dá pra botar a carroça na frente dos bois e esperar que “gente como a gente” dê conta do recado.
