O povo que enxerga mas não vê.

April 30, 2009

Adianta a demagogia das cotas? Adianta proclamar a “Democratização da Universidade” quando, o resultado do ENEM nos mostra:

  • das mil escolas com as piores notas, 965 são públicas;

  • entre as mil melhores, apenas 36 são públicas.

E 85% dos estudantes matriculados no ensino de nível médio estão em estabelecimentos públicos.

Caminho sem volta.

April 27, 2009

Continuando sobre o tema abaixo, penso que quem aprova a separação de cotas acha que negro precisa de esmola. E passa a ter a consciência tranquila da mesma forma daquele que dá a esmola, achando que ajudou. Desconhece que a cota, assim como a esmola, não ajuda, não resolve o problema, e até o agrava.
O brasileiro precisa ter seus direitos respeitados e o Estado não faz distinção neste ponto: ignora a maioria dos cidadãos independente de cor.

Inventou-se até o termo “afro-brasileiro” ou “afro-descendente”. E eu que pensava que éramos brasileiros… Talvez eu devesse me intitular luso-descendente. Outros ainda seriam germano-descendentes. É questão de tempo, se seguirmos por este caminho, para um grupo se achar superior ao outro. E aí teremos retrocedido 500 anos.

Nunca antes neste país…

Estado racista.

Quando o assunto “Cotas para negros em Universidades Públicas” entrou em pauta, tive discussões acaloradas sobre o tema. Acontece que eu estava certo e que se faz hoje é um espetáculo de racismo oficial, patrocinado pelo Estado e pelas ONGs racialistas que inventaram a solução para um problema inexistente. Não que o racismo seja uma miragem. Mas não é ele o responsável pela miséria brasileira. Para o racismo já existia lei, inafiançável.
A razão é muito óbvia: uma pessoa mulata, filha de um pai negro e uma mãe branca, por exemplo, pode ter várias tonalidades de pele. QUEM É QUE ACHA JUSTO QUE UM IRMÃO TENHA ACESSO ÀS COTAS E OUTRO NÃO? QUEM?

Segue editorial da Folha sobre o tema.

Tribunais da raça
Folha de S. Paulo – 27/04/2009

Critérios raciais para ampliar acesso a escolas públicas produzem situações absurdas e devem ser abandonados

MULTIPLICAM-SE os exemplos de distorções geradas pela adoção de critérios raciais para o ingresso nas universidades públicas.
Na sexta-feira, esta Folha noticiou que 25% das matrículas de alunos que passaram no vestibular da Universidade Federal de São Carlos por meio dessa política foram canceladas, após questionamentos. O critério adotado para concorrer às vagas na instituição utilizando cotas raciais é a autodeclaração -o candidato precisa se declarar negro, pardo ou descendente direto de negros (pai ou mãe). Aprovado, o aluno faz a matrícula automaticamente. Se surgir contestação, porém, precisa “provar” o que declarou.
Foi o que aconteceu com uma caloura do curso de imagem e som da UFSCar. A universidade não aceitou documentos apresentados pela aluna, que deveriam ter indicação de cor e ser reconhecidos pela Justiça. Não bastou registro em cartório com uma autodeclaração de que é parda. Mesmo com a apresentação de documentos e fotos de parentes, a estudante não conseguiu reverter a decisão, que, segundo a universidade, será discutida judicialmente.
Já na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, uma aluna disse que foi vítima de preconceito. A instituição, que destina parte de suas vagas para alunos cotistas, não considerou a estudante parda e retirou-lhe a vaga. A UFSM adotou um modelo de checagem para a reserva racial. O controle se baseia em entrevista feita por uma comissão que inclui professores, técnicos da universidade, estudantes e ativistas de organizações pró-direito dos negros: um autêntico e estapafúrdio tribunal racial.
Nas entrevistas, são feitas perguntas, como se a pessoa já se declarou negra ou parda em ocasiões anteriores ou se já foi vítima de preconceito. Segundo a caloura, como afirmou que nunca havia sofrido discriminação, foi excluída. Então a discriminamos nós, foi o sentido da resposta da banca racialista.
Outro vexame semelhante, talvez mais emblemático, ocorreu em 2007, na Universidade de Brasília (UnB). Dois gêmeos univitelinos tentaram ingressar na faculdade pelo sistema de cotas raciais. O comitê racial da instituição considerou um deles negro. O outro, não.
Todos esses casos são exemplos cristalinos da impossibilidade de categorizar pessoas segundo o parâmetro de raças -diferenciação que não encontra fundamento científico. Mais que isso: revelam a assombrosa banalização, em instituições de ensino superior, de tribunais raciais, uma prática segregacionista, ofensiva à democracia e estranha à história brasileira desde o fim da escravidão.
É possível ampliar o acesso de estratos tradicionalmente excluídos ao ensino superior de qualidade sem atropelar direitos fundamentais -e sem alimentar o monstro racialista. Para tanto, é preciso adotar, como único critério nacionalmente válido nas políticas de ação afirmativa, o fato, objetivo, de o vestibulando ser egresso de escola pública.

April 26, 2009

Dói, mas dói demais…

E eu sei que posso fazer algo. Eu posso.

De que somos feitos?

Estou vendo o filme “Shake hands with the Devil”, canadense, de 2007. Relata o massacre de Ruanda sob a ótica de um general canadense da ONU.

É muito, mas muito doloroso, triste e revoltante. Mas é obrigatório olhar o mundo de frente, nos olhos, como ele é, para não ter ilusões.

Estou chocado. Mesmo já sabendo o roteiro, vê-lo é expor a miséria humana em sua menor face.

A ditadura do pensamento engajado.

April 25, 2009

Tenho dois blogs. Esse e um outro, pra manter a família e os amigos por dentro dos últimos acontecimentos. O último tem seu endereço colocado em muitas páginas de amigos, mas este aqui não… O Fermento Cínico tem sim é alguns links vindos de blogs desconhecidos, de gente que está acostumada a nadar contra a maré.

O que dizer?

Todo mundo acha maneiro dizer que quer um mundo mais justo. Quer comer salada e salvar o planeta.
Todo mundo acha Obama “O cara”. Mas todo mundo finge que não acha…
Pra galera, Lula era o povo no poder. Agora, todo mundo se diz desapontado, mas detestam FHC.
Todo mundo acha que Daniel Dantas é o dragão e que Protógenes é São Jorge.
Todo mundo acha que o mensalão foi coisa normal, de sempre.
Todo blogueiro adora a Palestina, e no íntimo quer ver Israel na fogueira.
Todo mundo tem pena da África, mas não sabe onde fica Ruanda.
Todo mundo acha que o mundo é ruim porque o Capitalismo estimula a cobiça.
O bom agora é respeitar as diferenças culturais.
Todo mundo acha que a polícia tá sempre errada. Todo mundo acha que em nome do povo tudo se justifica.
Esquerda é boa e a Direita é malvada. O rico é o inimigo.

E assim vai, nesta época de ativismo embalado à vácuo.

To fora!
Pelejei muito pra entender que a realidade é uma teia infinita de relações, de causas e consequencias. Pelejei pra entender que valores não são artigos de circunstância, de aplicabilidade variada e variável. Pelejei também pra entender que a vida é curta pra abdicar de pensar.

Quando Lula levou uma vaia no Maracanã, escutei de gente inteligente a justificativa de que a vaia vinha de gente rica. Foi quando entendi a profundidade do poço. Se continuarmos neste caminho, terminamos na guilhotina. Mas a sutileza é por demais leve para os dias atuais…

O assunto Cuba dominou o encontro da Cúpula das Américas. Então, comento aqui…

April 21, 2009

Cuba é um pequeno país no Caribe como tantos outros que não costumam ocupar as páginas dos jornais, a não ser as de Turismo. No entanto, desde que Fidel Castro conseguiu reunir um pequeno exército e derrubou a ditadura de Fulgêncio Baptista, o país passou a receber uma atenção só explicável pelo entendimento do que um país socialista na América representava, em plena Guerra Fria.

A vitória foi comemorada pelo povo no princípio, mas, como a história não cansa de ensinar, o apego ao poder faz com que todo governo revolucionário se torne tirano. Os agentes revolucionários passaram logo a procurar os “inimigos da revolução” e, num passo lógico, encontraram no Socialismo uma teoria política para justificar o horror. A revolução cubana não foi socialista como muitos acreditam. Foi se tornando socialista tão logo a Liberdade foi considerada artigo reacionário.

E Cuba virou notícia, cumprindo seu papel de componente ativo da guerra fria. Da irrelevância, passou a modelo de socialismo das Américas, farol para grupos armados e para a esquerda retrógrada. Fidel matou seus opositores, transformou a ilha em uma prisão, e, criou uma rede de proteção social que mantém os habitantes vivos. Seus defensores afirmam que a educação é de qualidade e que pelo menos ninguém morre de fome. Educação de qualidade é piada de mau gosto, num ambiente onde não existe debate, diferenças de opinião, acesso livre a livros nem internet. Isso não é educação, é treino. Quanto à ninguém morrer de fome, bem, tenho a dizer que, para uma prisão, nenhuma surpresa. Zoológicos também conseguem este feito e lá os animais também não morrem de fome. Todos os dias esperam sua ração, como zumbis despidos de dignidade. Não desejo isso nem ao sapinho azul da amazônia, muito menos aos cubanos.

Alguns diriam que é culpa do embargo americano. Por mais que o embargo há muito tempo não impeça Cuba de negociar com qualquer outro país do mundo, e que graças a ele Cuba tenha recebido uma generosa mesada da então URSS, pode-se supor que prejudique em certa extensão. Ora, se este embargo maléfico mantém o povo na miséria, bastaria ao Regime Castrista soltar seus prisioneiros e realizar eleições. O embargo cessaria no mês seguinte. Isso se fosse vontade sincera de Fidel deixar a população decidir o seu destino. Mas porque abandonar este emprego vitalício, cheio de privilégios, e correr o risco de descobrir que a população não pensa como o resto dos militantes latino-americanos? Édem socialista no país dos outros é refresco… Ou bastava ainda deixar sair quem assim quisesse. Ficaria alguém?

Teóricos socialistas pensam que é preciso proteger o “povo” de si mesmo. Não sei se Fidel é um teórico socialista. Pode ser que seja apenas um ditador comum.

Seguem dois blogs de jovens cubanos, tentando mostrar o que é viver em Cuba. Mas já aviso que o acesso é difícil, como se poderia imaginar…

Generacion Y

Desde aqui

Termino colocando aqui um texto extraído do portal Desde Cuba, sobre os 50 anos da Revolução:

“Las conmemoraciones obligan al balance, al inventario de lo alcanzado, al cómputo de lo que falta. Si buscáramos una expresión que sintetice un arqueo del 50 aniversario del triunfo de la revolución cubana diríamos, si somos optimistas, una sola palabra: insatisfacción.

Los medios oficiales han puesto su énfasis en la historia, en el relato heroico del calvario transitado por los mártires, el sacrificio de todo un pueblo que resiste, las agresiones sufridas, el acoso del imperio. En segundo plano, escenas de niños que nacen, escolares de uniforme saludando la bandera, jóvenes médicos salvando vidas en los sitios más apartados del mundo.

Los críticos hacen su fiesta mostrando la cara fea de la realidad: las ciudades destruidas, las industrias obsoletas, las cárceles multiplicadas, los campos sin cultivar, la gente haciendo largas colas o colgada de un ómnibus repleto, jóvenes persiguiendo turistas, policías persiguiendo jóvenes y el mar salpicado de balsas atestadas de cubanos que escapan.

Si no somos optimistas tenemos que usar otra palabra: frustración.

¿Dónde están los extensos pastizales ocupados por las vacas más productivas del mundo? ¿Dónde, la nueva arquitectura resistente al clima; el vergel de frutas, viandas y vegetales; el eficiente y puntual transporte público, los sitios donde el obrero lleva a su familia a recrearse.
¿Dónde está el hombre nuevo, libre y pleno, dueño de su destino?

Un balance serio estaría obligado a responder con claridad la pregunta de si hay una relación favorable entre el costo y la gratificación, si ha valido la pena recorrer el largo y tortuoso camino elegido para arribar al sitio donde estamos. Cincuenta años después deberíamos estar en la posibilidad de, evocando a Camilo Cienfuegos, preguntarnos si hemos llegado ya al día en que podamos decirle a los caídos: “Hermanos, la revolución está hecha, vuestra sangre no se derramó en vano”.

La historia deja cicatrices en los pueblos, pero deja también enseñanzas. Por suerte, estos no serán los últimos cincuenta años de la existencia de Cuba como nación, por suerte no somos pesimistas y no tenemos que elegir, para expresar la síntesis de nuestro balance, la peor de las palabras: naufragio.”

Não me considero vítima… Será que não sou latino-americano?!?

Tinha que vir de Hugo Chavez! Não esperava outro livro de cabeceira para um louco de pedra como nosso Chapolin venezuelano. Esse livro pega o complexo de inferioridade latino e lhe dá base teórica. Ou seja, joga cimento na areia movediça onde está empacado este povo.
Reinaldo Azevedo, parece que pensa como eu. Veja trecho:

As “véias” abertas da América Latina

“(...)

Pois bem: mesmo quando eu era menino, esquerdista, esse livro de Galeano, que era leitura obrigatória para todo perfeito idiota latino-americano, não me convencia. E a razão era (e é) simples: trata-se de uma coleção de lamúrias evidenciando como a América Latina foi vítima de sucessivos vilões, desde os espanhóis e portugueses (estes merecem menos atenção) até o imperialismo americano. Uma suposta vontade legítima do povo latino-americano (que estrovenga será essa?) teria sido continuamente fraudada.

Acho até que foi Galeano o primeiro a plantar em mim a semente da desconfiança — pelo que eu lhe deveria ser grato. “Ora diabos” — pensava nos meus 15, 16 anos, ainda menino, ainda esquerdista e ainda idiota — “mas por que a gente (os latino-americanos…) é assim tão banana, então? O que é que fez com que os opressores se tornassem opressores, e os oprimido, oprimidos? E por que a gente é sempre o oprimido?”

Vim a entender um pouco mais tarde, já na transição para a vida adulta, que esse vitimismo era uma fraude intelectual, que abria as portas para todo tipo de vigarista e demagogo. Olhem quem exibe o livro agora… Fazia pilhéria com o troço: chamava-o “As véias abertas da América Latina”.

Que esse livro tenha sido ressuscitado — e pelas mãos de Hugo Chávez, num presente a Obama —, eis uma prova da miséria intelectual que toma conta do nosso tempo e que não vai passar assim tão rapidamente. Sem contar que Galeano, que nem é historiador, tem ambições literárias, e isso o faz abusar de todas as metáforas e antíteses vagabundas de quem viaja nas “veias” da luta do “opressor” de manual contra o “oprimido” de manual. E o homem escreve pra chuchu. É uma espécie de Paulo Coelho da autocomiseração. Seus heróis da resistência costumam dizer frases de efeito para humilhar a prepotência do colonizador mesmo à beira da morte. Trata-se de uma daquelas fantasias que enchem de alegria e de espírito de vingança os impotentes.

Não duvido: Chávez deve sentir-se uma espécie de novo Túpac Amaru… Torço para que a escritura se cumpra até o fim.”

Reinaldo Azevedo

Quer algo do Brasil? Diga que Lula é o cara!

April 20, 2009

Abaixo vai um exemplo prático de como a Diplomacia Brasileira, despida de pragmatismo, alegra os salões mundo afora sem, no entanto, render nenhum fruto ao país. Essa gente é muito aborrecida. Previsível demais.

Afagos diplomáticos e oba-obamismos
Autor(es): Marcelo de Paiva Abreu
O Estado de S. Paulo – 20/04/2009

O que revela a autópsia da reunião do G-20 em Londres? Numa ótica global, dadas as expectativas modestas, houve avanço em alguns temas cruciais. Em torno deste núcleo duro de compromissos, ainda que meio nebulosos e envolvendo superposição com promessas anteriores, foram arrolados outros temas cuja menção é politicamente de rigueur em reuniões similares: comércio, clima e tratamento justo das economias menos desenvolvidas. Mais uma vez, foi reafirmado que são temas importantes e merecedores de grande atenção dos governos do G-20…

As duas questões mais importantes abordadas a sério na cúpula foram o aporte adicional de recursos a instituições multilaterais e o esforço coordenado para aprimorar o marco regulatório do sistema financeiro, incluindo disciplinas de abrangência global.

O sucesso quanto à mobilização de recursos adicionais para enfrentar a crise parece indiscutível: aportes adicionais ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mobilização de Direitos Especiais de Saque, aportes a bancos multilaterais de desenvolvimento e agências de financiamento de comércio exterior somam US$ 1,1 trilhão. É claro que a operacionalização de tais compromissos envolverá dificuldades substanciais, mas o balizamento para ações de sustentação da demanda está delineado.

Em relação à construção de um marco regulatório multilateral, os circunlóquios no texto de declaração foram insuficientes para ocultar as grandes diferenças entre big players, como Estados Unidos, China e França, tanto em relação à conciliação de interesses nacionais e globais no novo marco regulatório quanto à aceitação de critérios de aplicação não controvertida para caracterizar “jurisdições não cooperativas”, ou seja, paraísos fiscais.

Para o Brasil os resultados da reunião de 2 de abril foram desapontadores, não obstante o oba-obamismo que caracterizou boa parte das avaliações que tenderam a confundir espuma com resultados concretos. Na fotografia oficial dos chefes de Estado que compareceram ao jantar oferecido pela rainha, o presidente Lula foi colocado pelo protocolo imediatamente à esquerda de Elisabeth II, com Gordon Brown à direita. Barack Obama efetivamente disse: “Este é o cara…, é o político mais popular do planeta.” Depois continuou: “É por ser boa pinta.” O vídeo da BBC mostra que Lula, espertamente, não responde e parece suspeitar de que “esse cara está de brincadeira…”

A posição protocolar nas fotografias oficiais e os comentários simpáticos e brincalhões de Obama deram margem a comentários não muito ponderados sobre a importância crescente do Brasil no cenário mundial. Mesmo em arraiais de esquerda radical as referências de Obama, presidente da potência imperial, foram de algum modo interpretadas positivamente. Elogio, até do diabo vale. Desde a reunião, incontáveis matérias e caricaturas especularam sobre quão enciumado estaria Fernando Henrique Cardoso com a proeminência de Lula.

O vezo nacional por plumas e espumas – um travo de vaidade misturada com ingenuidade – é algo percebido pelos nossos parceiros que tentam explorá-lo em seu benefício. Tal fraqueza era percebida até mesmo no caso de estadistas mais circunspectos. Em 1941, por exemplo, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill instruiu o Foreign Office a adotar como pilar da política britânica para o Brasil: “Acariciar Vargas”, “petting Vargas” (minuta de 27/10/41, Arquivos do Foreign Office, FO 371, General Correspondence: Political, A8705/190/6). Barack Obama é certamente mais simpático e habilidoso, mas a tecla parece familiar.

Há abordagens analíticas menos dependentes de, literalmente, “ficar bem na foto”, para avaliar o Brasil no G-20. Não cabe qualquer dúvida quanto à posição de Lula como representante destacado das economias emergentes no foro do G-20. É fruto da combinação do sucesso de sua carreira política – misturando pertinácia, argúcia e capacidade de negociação – com, ironicamente, boa gestão da herança de políticas macroeconômicas prudentes que lhe foi legada pelo governo anterior.

Mas o que mais interessa não é simplesmente constatar o crescente peso de Lula no cenário internacional. É avaliar em que medida essa influência está sendo utilizada para alcançar os objetivos da política externa brasileira.

Antes de Londres, o discurso presidencial recente concentrou-se na denúncia do protecionismo. O G-20, na declaração após a reunião de Washington, em novembro de 2008, havia explicitado que faria os melhores esforços para viabilizar a Rodada Doha até o final de 2008. Compromisso renegado. Em Londres, a ênfase brasileira centrou-se, de novo, em assegurar a conclusão da Rodada Doha. Mas a declaração final não foi além da repetição de que haverá esforço para não aumentar a proteção e que concluir a rodada “em bases ambiciosas e equilibradas” permanece um objetivo central. Não é convincente a justificativa de que o avanço foi possível porque a administração Obama não preencheu cargos cruciais para viabilizar a negociação. A demora em preencher cargos pode ser interpretada como explicitação da baixa prioridade do tema na agenda atual dos Estados Unidos.

A ótica substantiva que poderia levar a uma avaliação otimista da reunião de Londres estaria relacionada às pretensões do Brasil em relação ao Conselho de Segurança da ONU - teimosa reivindicação do Itamaraty, cuja racionalidade continua discutível. No mais, espuma e afagos. No ego do presidente e no País.

As the time goes by…

April 19, 2009

A vida de estudante secundarista pode parecer bastante vulgar para quem tem mais de 30 anos. E realmente, a não ser para os próprios adolescentes, não há muito do que se orgulhar nesta fase da vida, onde estamos mais preocupados em entender todas as mudanças pelas quais passamos, em decifrar o que as garotas pensam, e, enfim, nos divertir com qualquer coisa.

Ter participado do Grêmio Estudantil do meu colégio foi minha tentativa de fazer algo realmente memorável. Claro que outras motivações (a saber: autorizações especiais para deixar a classe) também tinham peso, mas nossa chapa caracterizava-se justamente por sermos os mais intelectuais, nerds mesmo. Eramos progressistas realistas, numa salada ideológica que fazíamos, sem resultado prático nenhum. Tinha de Paulo Freire, passando por Marx e chegando em MDB. Até um fã do Brizola tínhamos. Nesta época, em meu colégio, o simples fato de se ter ALGUMA opinião sobre política significava ser realmente “cabeça”. Passando longe de títulos, como socialistas ou liberais, nos orgulhávamos antes de tudo, secretamente, de nossa inteligência. Sim, éramos rápidos no gatilho. Não à toa, “vencemos” os debates patrocinados pelo colégio. Concorremos com uma chapa de alunos em grande parte repetentes e populares, chamada de “Restos do Nada” (que hoje, ironicamente, acho um nome sensacional). E confesso, não me lembro mais de muita coisa. Acho que por fim não fiz nada digno de memória, a não ser um jornalzinho politizado que não teve mais do que duas edições.

Me lembro bem, no entanto, que como órgão representante dos alunos do meu colégio, fomos convidados para a Assembléia dos Estudantes Secundaristas de Florianópolis. Nunca ninguém do riquinho e alienado Colégio Catarinense tinha dado as caras por lá. O convite era mera formalidade. Não havia a menor expectativa de comparecimento dos “filhinhos de papai”. Pois qual não foi a surpresa da tal assembléia quando entramos no salão com uma delegação muito numerosa pois, pela proporcionalidade, tínhamos de longe o maior número de representantes – éramos o maior colégio da cidade. E me lembro bem de ver as caras espantadas, de alunos “profissionais”, que tinham mais de 20 anos com certeza, vendo ali um risco iminente aos seus planos políticos. Na época, não existia PSTU e o PT era a sigla radical, acolhendo inclusive a UJS (União da Juventude Socialista), espécie de Al Qaeda jovem, querendo destruir a civilização judáico-cristã ocidental.

O que aconteceu depois foi um despertar da minha consciência, vislumbrando um mundo onde a razão pode predominar sobre a ignorância. A cada item em votação da pauta de posicionamentos da entidade, nós nos comunicávamos por sinais, chegávamos em segundos a um denominador comum e votávamos em bloco, impondo uma das raras derrotas aos manipuladores ideológicos de plantão. “Pelo não pagamento da Dívida Externa”- CONTRA!. “Pela expulsão do FMI” – CONTRA! “Impedir a internacionalização da Amazônia” – CONTRA! O riso me volta ainda hoje…

Não éramos necessariamente contra todas estas posições políticas, pelo menos não unanimemente. Mas tínhamos bom senso para saber que uma entidade daquelas tinha que ocupar seu tempo em exigir qualidade de ensino ao invés de servir de massa de manobra para grupelhos de esquerda. Por fim, elegemos uma diretoria que parecia ser mais sensata e fomos embora, rindo espetáculo de manipulação que tínhamos presenciado e em grande parte conseguido evitar.

E assim consegui finalmente meu feito memorável, aquele do qual não esqueço. É claro que hoje vejo que muitas outras coisas foram tão ou mais importantes naquela época para minha vida. Mas olhar o inimigo na face e vencer não tem preço.

Prelúdio

A África do Sul segue o caminho do “político bom é aquele ignorante como a gente”, em moda na América Latina. Já descrevi esse risco há alguns dias. Quando troca-se Churchill e Lincoln pelo rei Shaka Zulu, já declara-se de que lado da civilização se está. Creio que aproxima-se do fim a existência de um país de primeiro mundo na África. Leia abaixo:

O guerreiro zulu que conduzirá a África do Sul
Zuma nunca foi à escola, é defensor da poligamia e tem 22 filhos de 6 mulheres diferentes
por Cristiano Dias

A ascensão de Jacob Zuma é uma ruptura na política sul-africana. Até então, o Congresso Nacional Africano (CNA), partido governista, pinçava seus líderes de uma elite ocidentalizada e piamente cristã. Zuma passa longe desse perfil. O senhor de 67 anos, cabeça raspada e careca cuidadosamente lustrada, nunca frequentou a escola e foi criado para ser um guerreiro zulu. Quando criança, corria descalço, caçava passarinho, nadava em rio e brincava com pedaços de pau.

Seus heróis não são Winston Churchill nem Abraham Lincoln. Recentemente, ele disse que admira o rei Shaka Zulu, cruento patriarca da nação zulu que esmagava o crânio de seus inimigos e aterrorizou os colonizadores britânicos no século 19. Como sumo representante da raça, ele defende a poligamia: os relatos mais puritanos dizem que ele tem 22 filhos de 6 mulheres diferentes – atualmente é casado com 2.

Zuma é carismático e popular, ao contrário de seu predecessor, Thabo Mbeki, um intelectual frio e orador sonolento. Enquanto Mbeki se esforçava para bancar o negro educado em universidade britânica, Zuma tem orgulho de sua origem modesta. Apesar de tropeçar às vezes no inglês, ele se tornou um líder capaz de falar aos miseráveis dos bairros pobres de Soweto e agradar a classe média branca. Carreirista do partido, Zuma é um populista de esquerda do tipo chavista.

Seu governo terá duas bases de sustentação, o Partido Comunista sul-africano e os sindicatos, as duas mãos que enxotaram Mbeki do palácio presidencial. Muitos analistas temem que Zuma siga à risca a cartilha tribal e se apoie em um conselho formado apenas por companheiros de luta.

Sindicalistas e comunistas sonham com o fim do liberalismo da era Mbeki e uma gigantesca política de inclusão social que passa pelo aumento inevitável do Estado. O economista Moeletsi Mbeki, irmão do ex-presidente, alerta para o risco que corre o país. Segundo ele, o governo é uma mãe: são 13 milhões de funcionários públicos – 30% da população. “Em um momento de crise, isso é uma bomba-relógio”, disse.

Diplomacia e Postura

April 14, 2009

A Diplomacia, e toda sua complexidade, não é muito diferente do esforço que cada um fez, em sua infância, durante os anos de estudos secundaristas. Os países, assim como alunos em uma sala de aula, procuram proteção, amizades, se unem com colegas com os quais nutrem afinidades. As vezes se aproximam com o único intuito de obter alguma vantagem específica – um convite para uma festa, ou a participação em algum fórum, dependendo do exemplo. Outras vezes, a aproximação é definida pelos interesses comuns, o que chamamos normalmente de amizade.

De qualquer forma, tanto na escola quanto na política internacional, mesmo que na maioria das vezes isso aconteça de forma difusa, as relações são sempre baseadas em benefícios angariados. Mesmo nas amizades que consideramos as mais puras, procuramos sempre um ganho, seja ele segurança, divertimento, aceitação.

Seria fácil se fosse só isso. Entretanto, cada um tem sua prioridade, seu entendimento do que seja este ganho, do que seja capaz de lhe proporcionar satisfação. As diferentes escalas de valores, trazidas de casa, turvam e complicam os relacionamentos, estabelecendo que não basta um esforço de conquista de aliados simplesmente, mas que é preciso também a identificação de valores alheios, compatíveis com os nossos. Esta necessidade faz com que a união de esforços seja sempre um processo complexo e pontual. E faz também que a amizade seja uma construção, um processo de estabelecimento de confiança. A diferença entre a escala de valores de cada “aluno” torna difícil a compatibilidade total entre dois entes, fazendo a sobrevivência depender de uma infinidade de pequenas e constantes negociações. Por isso é importante que, no caso ampliado, a chancelaria de um país não siga os ventos das marés políticas internas, mas que tente estabelecer uma personalidade coerente que se mantenha com o tempo. Tanto para permitir que outros nos identifiquem como parceiros, tanto para permitir que conquistemos aqueles que nos interessam. Coerência é um dos componentes principais da amizade, seja na ONU, seja na escolinha.

O Governo Lula tem pervertido este princípio. Ao estabelecer a nova ênfase de nossa política externa, não se limitou apenas à trocar de estratégia. Agiu como se houvesse conquistado o poder e estabeleceu uma mudança na própria personalidade diplomática nacional. No colégio, quem se comportava assim, erraticamente, era considerado “traíra”. Quando estabelecemos a confiança, sedimentamos os fundamentos da amizade. Amigos que não respeitam estes fundamentos são tratados sem perdão. É por esse paralelo singelo que é possível entender a fabulosa coleção de derrotas da diplomacia atual. Mesmo quando logramos alguma vitória, não fica muito claro o que se ganhou, pois não sendo mais confiáveis, não podemos mais oferecer confiança, restando-nos ceder para manter relacionamentos. Estes por sua vez são cada vez mais atraídos unicamente pela perspectiva de ganho.

Como um bom fingido, que procura vantagens sem o ônus da coerência, falamos sem parar. Nunca se ouviu tanto a voz de nosso Chanceler. Fala muito, canta suas próprias glórias, mas sempre há uma falta de conteúdo, uma falta de verdade, que foi jogada fora junto a um século de história.
Muito tempo passará até que reconquistemos a confiança da turma, restando-nos o papel de presença peculiar, de animadores de festa. Somos “os caras”, afinal. Ainda bem que somos bonitos…

Sobre opiniões e princípios.

April 13, 2009

A Mariana e eu temos trocado algumas idéias ultimamente, no espaço reservado aos comentários do post “Ainda o tema do momento.”. Seu último comentário, sobre princípios e exemplos, despertou-me vários pensamentos e achei que ele merecia um post novo, só sobre o assunto.

Apesar de alguns dicionários o definirem como opinião, entendo que um princípio deva ser uma lei pessoal, uma espécie de Carta Magna de escala de valores. Alguns livros o definem: “regras fundamentais admitidas como base de uma ciência, de uma arte etc.” Outros ainda: “norma, preceito moral”. Se não for assim, não é princípio. Pode ser uma idéia, uma preferência. Mas princípio não é.

Assim definido, uma opinião, uma tese, só se torna princípio quando testada pela realidade, ou formulada a partir dela. Afinal, é para a própria vida a que são destinados tais preceitos, caso contrário tornando-se estéril exercício de intelectualidade. Não existe moral teórica. Se em determinada situação específica, única em suas particularidades – que redundância! os específicos são sempre únicos – não somos capazes de agir de acordo com nossos princípios, temos então uma prova que nosso pensar precisa de uma nova constituição. E é maravilhoso que seja assim, em um processo de lapidação contínua, próprio de quem é capaz de ir construindo sua personalidade.

Alguém diria: – ah Luciano, mas um princípio é apenas um ponto de partida teórico, que deve ser adaptado para cada caso. Sim, é verdade. Só que, no momento seguinte o ponto de partida já será outro, uma vez acumulada a mais nova experiência. Não deixou de existir uma mudança de conceitos e um reconhecimento de que o ponto de partida não era adequado.

No meu caso particular, ser contra ou a favor do aborto não é um princípio, é apenas uma opinião. No entanto penso que toda a vida vale a pena. Isto é para mim um valor fundante de minha intelectualidade, um verdadeiro princípio! Nem sempre foi assim, é só é assim porque, em todos os casos particulares que encontrei pelo caminho, ele aplicou-se inteiramente.

Raízes da Decadência

April 8, 2009

Um dos grandes males do populismo é referendar como verdade algumas visões simplórias e comumente erradas da realidade de um país. O populista quer sempre simplificar, quer reduzir o raciocínio a uma ou duas escolhas para que, invariavelmente, seja ele o santo redentor. Este foi o caminho percorrido por muitos países em diferentes épocas, e por nós mesmos, antes e agora.
Uma visão que se encaixa neste cenário é aquela que atribui às elites a culpa por todos os males do Brasil. Expediente adotado ao extremo pelo Presidente da República, esta mentira é também fermento da degradação moral da nação e “tampa de caixão” que impede qualquer lampejo de reação.
Culpar a elite por todos os males nacionais é tão falso como uma nota de três reais. Este pensamento, profundamente enraizado na pseudo-ideologia socialista universitária, santifica o povo, de onde apenas viria o bem e a justiça, e demoniza a elite, de onde só se espera exploração e dominação. É uma idéia compreensível aos alunos do pré-primário e seus equivalentes mais adultos, mas reduz a complexidade da teia social à meia dúzia de leis simplórias que nem de longe fazem justiça à história brasileira e de sua sociedade. Efetivamente, a elite brasileira foi protagonista de muitos lances maléficos ao desenvolvimento nacional. No entanto, foi também de seu meio que surgiram a quase totalidade das iniciativas engrandecedoras da nação. É dela que devemos esperar a defesa dos ideais mais altos, da justiça mais digna. Veja o que dizia Rui Barbosa:

    “[...] creio no governo do povo pelo povo; creio, porém, que o governo do povo pelo povo tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional pelo desenvolvimento nacional do ensino, para o qual as maiores liberalidades do Tesouro constituirão sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza pública; creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições, porque creio no poder da razão e da verdade; creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.”

    Escritos e discursos seletos – Página 227, de Ruy Barbosa, Virginia Cortes de Lacerda – Publicado por Companhia Aguilar Editôra, 1966 – 1095 páginas

E assim Rui Barbosa ajuda a mostrar, como incontáveis outros, o valor de nossos melhores homens.
É mandatório notar porém que o Brasil não estimula e, na verdade, dificulta, a formação desta classe de pessoas capazes de pensar. A educação que permite que nos EUA surjam grandes intelectuais em todas as classes, em nosso quintal só está acessível a quem pode pagar. Mais do que isso, vivemos mesmo uma desmoralização do saber, relegado à condição de luxo supérfluo. Neste ambiente o futuro do país é depositado nas mãos daqueles que não tem nada mais do que ambições imediatas, sem nenhum senso superior de civismo e sem a menor capacidade de abstração. Vivemos do circo, do show, da política tosca, dos conchavos, dos favores. E isso tudo porque deixamos a elite de fora e fomos buscar “gente como a gente”. Os ideais democráticos e humanistas, o pensamento superior enfim, no entanto, só conseguem se desenvolver em quem teve treino, em quem se acostumou ao desafio intelectual, ao lapidar diário da mente e da consciência. É de nosso meio que devem vir os governantes, os juízes, os parlamentares. Eu entendo que ao ler estas linhas, vozes se avolumem acusando o nosso suposto distanciamento dos problemas sociais que insistem em acompanhar o Brasil. Pois a resposta que dou, firme, é que a vida na miséria não é capaz de despertar, por si, esta consciência, restando ao decidido desejo daquele que tem as ferramentas intelectuais executar a tarefa de sintonia entre as duas realidades que são, ao fim e ao cabo, a mesma.
Nós, da elite, que estudamos em universidades, que temos oportunidades de leitura, de formação, de viagens, somos sim quem tem a obrigação de conduzir o país. É nosso dever também criar as condições para que o saber não seja exclusividade de uma classe social, assim como conduzir o país para um futuro melhor, o que só é capaz quem consegue ver além do amanhã. É importante que criemos um país onde o intelecto encontre incentivo em todas as classes. Sabemos que a associação mandatória do saber com o dinheiro não produz sociedades livres. Mas não dá pra botar a carroça na frente dos bois e esperar que “gente como a gente” dê conta do recado.