Os Sertões
Ando lendo "Os Sertões", de Euclides da Cunha. E ando embalado pela beleza, pelo ritmo, pelo encadeamento encantador das palavras, que me fazem viajar no que há de belo no ser humano. Somos isso, humanos, pois também somos capazes de capturar a poesia do mundo, mesmo em realidades duras e ressequidas. Um amostra, pra quem não leu, do trecho onde ele compara o gaúcho com o vaqueiro do norte:
"O vaqueiro do norte é sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos não há equipará-los. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta, tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do equador. Não tem, no meio das horas tranqüilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, disserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos, o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada.”Os Sertões, Euclides da Cunha

