Ainda o tema do momento.

March 11, 2009

Queria deixar algo claro: o que defendo é que se entenda o que é o aborto. As pessoas só são livres para decidir, como querem as feministas, se conhecem todas as implicações de seus atos. O que gostaria é que os indivíduos, quando se deparassem com essas situações em suas vidas, pudessem entender a extensão de cada possibilidade em seu futuro.

Ninguém sabe como vai reagir ao se deparar com estas circunstâncias. Por isso rezamos para que em todas as situações possamos tomar as melhores atitudes. O que não muda, no entanto, são os instrumentos morais que construímos durante a vida e que vão ajudar nestes momentos. E aqui falo de moral, não de religião. A postura a favor ou contra o aborto é antes de mais nada uma postura moral e reduzi-la a um dilema religioso é uma simplificação inaceitável. Significaria dizer que todos os não-religiosos não possuem posições quanto ao assassinato, ou quanto o roubo, ou outros assuntos aos quais a moral religiosa também se manifesta. Portanto, ser contra ou a favor do aborto PODE ser uma postura religiosa, mas é antes de mais nada resultado da postura moral de cada um.

A minha moral, que no meu caso é também resultado de algumas escolhas religiosas, está preparada para aceitar o aborto como um procedimento normal. MAS, para tanto, alguém deve me provar em qual momento o feto deixa de ser feto e passa a ser criança. Como até agora ninguém foi capaz desta proeza, de me explicar que “até tantos meses é feto e de um dia pro outro vira criança”, eu continuo pensando que abortar é matar uma criança.

E a liberdade de escolha? Ora, todo mundo é livre pra fazer o que quiser na vida. Desde que disposto a enfrentar as consequencias de seus atos. Quem defende esta liberdade deve estar preparado para explicar as consequencias dos atos praticados. E no caso do aborto elas são muitas. Os grupos de defesa da “Liberdade de Escolha” da mulher, me parecem mais grupos que querem um mundo onde possamos eliminar os indesejáveis sem enfrentar as consequencias deste ato. Como se isto fosse possível fora da esfera legal. E que mundo terrível seria esse onde estas consequencias não existissem, não é mesmo?

O Estado teria muitas opções para acolher a mulher, sem o dilema tão falsamente expresso pelo nosso presidente (como Cristão sou contra mas como Presidente sou a favor). O Estado poderia assumir a guarda das crianças nascidas de estupros e, num programa de proteção de identidade, conseguir novos lares para estes inocentes. Me parece viável, não?

Se o assassinato for uma questão de escolha, onde é a próxima fronteira? Vamos em breve lutar pelo direito de abortar crianças que não atendam ao nosso padrão de beleza? Ou que, por não terem sido planejadas, atrapalhem um mestrado, ou uma viagem?

A vida humana vale tão pouco assim?

6 Comments »

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  1. Aborto, assim como prostituição ou uso de drogas, sempre vai existir, sendo isso legal ou não. O problema é que num país como o Brasil, quem tem dinheiro vai poder pagar (caro) para uma clínica de aborto clandestina onde a mulher passará por um procedimento cirúrgico executada por profissionais. Já a mulher com menos condições financeiras acabará se submetendo a soluções caseiras que acabarão muitas vezes levando-a a sangrar até a morte.

    Desta forma, considero a decisão de ter ou não aborto algo a ser discutido caso a caso pela mãe e pais da potencial criança. Não sou a “favor do aborto” como uma solução para a falta de planejamento familiar (algo aliás que a igreja católica também se opõe). Mas sou a favor de uma política de redução de danos e eliminação de demagogia. A mulher vai fazer aborto de qualquer maneira, não? Então que todas tenham o direito de fazê-lo em um ambiente seguro e que se salvem vidas de milhares de mulheres vítimas de abortos caseiros mal-sucedidos.

    Comment by Valdemar — March 11, 2009 @ 8:12 pm

  2. Primeiro gostaria de dizer que gerar não é facil, lindo, poético e cheio de sentido. Portar um feto é, na maior parte do tempo, sacrificar seu proprio corpo, por outro. Parir, então, nem se fala… Mesmo quando a criança é desejada, planejada, amada, a experiência pode ser das mais traumatizantes, violentas e pode levar à morte: ou seja, os riscos para a parturiente não podem ser desconsiderados.
    Em segundo é preciso se levar em consideração o que acontecera depois do parto… como sera criada uma criança que não foi desejada de maneira alguma, que chega ao mundo como uma punição, uma cruz e não como fruto do amor e da vontade?? E que Estado vai criar esta criança? No caso, o Estado brasileiro não pode dar Educação de qualidade nem para aquelas que têm familia… ingênuidade (para não dizer forçação de barra) pensar que o Estado se responsabilizara por milhares de crianças “salvas” de abortos! Além do que ha a dimensão psicologica do ato da adoção também… Nem toda mulher se permete sequer pensar em gerar e depois dar uma criança para a adoção, para o acaso, para o destino incerto das instituições que acomodam crianças abandonadas pelos pais. E para considerar também o controle de natalidade, no Brasil, é preciso olhar o buraco mais embaixo… estupros aos milhares, falta de informação, miséria, falta de acesso à contracepção…não ha planejamento familiar que resista à essa falta completa e total de estrutura
    E quem tem que pagar o pato disso tudo? As mulheres, claro Receptaculos vivos de vidas sem sentido, que devem tudo abdicar em nome de processos biologicos que ultrapassam sua vontade Sim, sem sentido…pois quem primeiro atribui sentido à vida de uma criança é sua familia, biologica ou adotiva. Na falta deste processo de atribuição de sentido, algo que depende da vontade de gerar uma nova vida e de uma certa vocação para fazê-lo, a formação da psique humana entra em crise…e ae? Como ficam essas crianças não desjadas, que so foram geradas porque suas mães se viram encurraladas pela lei?? Serão todas adotadas? um Estado bonzinho e afetuoso se ocupara delas??? Por favor, não ha argumento que resista nesse discurso Esse é um ponto de vista sem duvida masculino da questão, e além disso nada realista!

    Comment by Mariana — April 9, 2009 @ 12:54 pm

  3. Ok Mariana, é verdade que a adoção, o parto, uma vida que começa indesejada, tudo isso é muito ruim. Contrapor tudo isso à uma palavrinha – aborto – sem alertar para o fato que esse também tem sua dose de trauma, de violência, física e mental, pra não dizer moral, é apostar que a eliminação do feto é a eliminação do problema. Será?
    E acho que uma vida tem sentido independente do que pensem os que a trouxeram ao mundo. Uma vida tem sempre sentido. Ou poderíamos criar um tribunal para eliminar as vidas sem sentido, de acordo com alguma escala criada por nós, os privilegiados cheios de sentido…

    Comment by fermentocinico — April 9, 2009 @ 1:10 pm

  4. Claro que o aborto provocado tem a sua dose de violência. Mas ele sempre, ou na maioria absoluta das vezes, parte de uma escolha. Ja a gravidez indesejada, e experiência do parto indesejado, não, graças à legislação retrograda e machista que o Brasil tem. Quanto ao moral envolvido na decisão, isso diz respeito à cada individuo, a cada mulher. Eu por exemplo, não acredito ser imoral o ato do aborto. acredito sim ser imoral a ausência do direito à liberdade de escolha acerca do proprio corpo e a irresponsabilidade do Estado diante do fato de que as mulheres vão continuar fazendo o aborto em condições precarias e à margem da lei. Você ja parou para pensar o que leva tantas mulheres a correr tamanho risco?
    A ciência nos permite dar a estas mulheres condições seguras para a realização do procedimento do aborto. Mas a lei lhes nega tal oportunidade… E mesmo assim, elas continuam tomando chas “milagrosos”, enfiando agulhas de tricô utero acima, ingerindo compimidos e misturas farmacologicas de procedência duvidosa. Por que sera? O que as leva a tomar tal decisão? Desconfio que como eu, elas pensam que em certos casos, é melhor não nascer. Se for para nascer na indignidade, na ausência total de amor e estrutura, para se viver uma longa ou curta vida de sofrimento e penitência, melhor não vir ao mundo. E é ae que o nosso debate chega ao ponto maximo de discordia: as crenças religiosas e o moral ditado por elas.
    Tenho noção que não ha concordância absoluta em relação à esta questão por parte dos grupos religiosos que se pronunciam sobre este ponto, mas é sempre neste limite que chega a discussão. Por isso que o meu argumento sobre a ausência de sentido foi o que mais foi replicado na tua contra-argumentação. Eu realmente não acho que toda vida humana tenha sentido…
    Acho que uma vida de sofrimento e de miséria é uma vida sem sentido. Prefiro evitar que uma vida dessa exista que fechar os olhos para ela depois. Porque depois, ae sim a situação se torna imoral!
    Entende? Enfim esse debate é infinito, vou parar por aqui…

    Comment by Mariana — April 9, 2009 @ 7:58 pm

  5. Tem razão Mari, o debate é infinito… Até porque se assenta em bases morais, como voce escreveu. Conheço razoavelmente as formas toscas com as quais o aborto é feito no Brasil. E sei também que voce se assustaria com o número de abortos praticados por motivos fúteis, como vergonha de contar ao pais uma gravidez não desejada, ou até mesmo fruto de uma infidelidade. No meu texto, recomendei ponderação aos dois lados, porque as situações reais envolvem mais variáveis do que supomos.
    Voce entende o aborto como uma amenização do sofrimento. Eu entendo como um componente a mais de dor. No fundo, nossas opiniões não importam muito quando é o filho de cada um em risco.
    Quanto ao valor da vida, é realmente pessoal. Não serei eu que direi para uma pessoa: – Voce não deveria ter nascido! Não, não serei eu. Até porque tenho alguns amigos que são adotados. Eles desconhecem sua origem, mas sei que todos merecem estar vivos.

    Anyway, só pra garantir, estamos só trocando idéias, não?

    Comment by fermentocinico — April 9, 2009 @ 8:30 pm

  6. Sim, estamos trocando idéias, mas eu gostaria de discutir principios e não exemplos… Quando eu falo de vida de miséria e sofrimento, é OBVIO que não estou me referindo às pouquissimas crianças que conseguem ser adotadas por familias responsaveis né, Lu? Esses são a minoria absoluta! Principalmente se a gente ultrapassa as fronteiras do Brasil e pensa em paises da Africa, por exemplo…
    Nem toda criança abandonada tem a sorte que teus amigos tiveram.. e mesmo com a legalização do aborto, sempre vai haver um certo numero de crianças dadas para a adoção, pois a legalização pressupõe a ESCOLHA e não a obrigação de realizar um aborto. Diferente da legislação que esta em vigor hoje no Brasil…

    Comment by Mariana — April 11, 2009 @ 12:17 pm

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