Alhos com bugalhos

March 10, 2009

Do blog Cartas de Estocolmo.

“Volta e meia, ouço ou leio comentários críticos à Igreja Católica, principalmente no que se refere às suas posições frente à sexualidade humana e ao direito à vida.

Tenho dificuldades sérias em entender por que razão não seguidores da religião católica se preocupam tanto com o que a Igreja Católica tem a dizer. Afinal, só aqueles que “sofrem” tentando seguir a Igreja Católica deveriam gastar seu tempo e energia criticando-a.

Se a Igreja é totalmente contrária ao aborto e você não é católico, qual o problema, então?

Ou se a Igreja é contrária ao uso de camisinha, como proteção contra a Aids, e você não concorda, como querer obrigar a Igreja a autorizar o uso de anticonceptivos? Deixe-a para lá e use o seu método preferido!

Que a Igreja faça lobby junto ao governo, no Judiciário e no Parlamento? Mas quem não faz? Por que à Igreja deveria ser vedado o direito de lutar, palmo a palmo, por suas crenças?

Aqui na Suécia, alguns políticos cristãos ainda tentam influenciar decisões, como a permissão para abortar até as 22 semanas de gravidez, ou para o casamento civil de pessoas do mesmo sexo. Só que não conseguem. O grau de secularização da sociedade é tão alto, que a influência da Igreja Católica não se sente, pelo menos não pelos não católicos. E, aqui, as demais igrejas cristãs costumam adotar posições menos conservadoras ou mais pragmáticas.

Ainda assim, surpreendem-me a energia e a força com que se debatem e se criticam as posições adotadas pela hierarquia da Igreja, ou pelo Papa.

Eu só posso entender as críticas, quando ocorrem fatos como os recentes acontecimentos em Recife. Se for mesmo verdade que o bispo tentou, junto ao hospital, impedir o aborto terapêutico, na menina vítima de violência, fica difícil, principalmente para quem não é católico, não criticar o religioso.

Mas eu duvido de algo assim acontecendo aqui na Suécia. Porque, acima da Igreja Católica e de todas as suas regras, há o respeito pelo ser humano, por sua integridade, sua individualidade, seu livre arbítrio.

Não se concebe, aqui na Suécia, um bispo telefonar para um hospital e solicitar a interrupção de um procedimento, em nome do Direito Canônico. Ninguém lhe daria ouvidos, sequer! Os direitos do cidadão, em um Estado laico, estão acima de qualquer religião.

Caberia, sim, um artigo de jornal para debate, criticando a legislação que autoriza o aborto, ou, mesmo, os hospitais que realizam interrupções de gravidez. Ou sermões recomendando aos fiéis não fazerem nem autorizarem abortos.

Mas as pessoas, todas elas, católicas, budistas, protestantes, hinduistas, atéias ou não, têm o direito de escolher o caminho a seguir em suas vidas.

Todos nós, cristãos, somos pecadores e sabemos disso. É isso o que nos ensina nossa religião. Nosso caminho na Terra é o de buscar não pecar e arrepender-nos e pedir perdão a Deus quando, sucumbindo à nossa fraqueza, não conseguimos nos livrar da tentação.

Mas, nenhuma religião, no sentido de busca da conexão com Deus, pode ser professada sob autoritarismo e sem liberdade. Seguir, ou não, os designios da Igreja Católica deve ser uma escolha pessoal de cada um, uma convicção profunda; do contrário a religião praticada não vale.

Não vale misturar alhos com bugalhos, Direito Canônico com Direito Civil, os Dez Mandamentos com ditames sobre moral e ética.

Que cada um possa deixar a Igreja e a religião ocupar, em sua vida, o espaço que acredita a ela caber. Ou nenhum espaço. Não cabe a nenhum de nós julgar os demais.

Essa é uma das coisas de que mais gosto, aqui na Suécia. “

Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental.

1 Comment »

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  1. O problema é que a Igreja Católica ao professar suas opiniões arrasta consigo todo o seu rebanho, já que muita gente não tem a menor idéia do que está sendo discutido (pesquisa com células tronco, por exemplo), mas, como o Papa disse, tá dito. Desta forma, a sociedade sofre e tem idéias libertárias rechaçadas por pura ignorância, pois o Brasil é o maior país católico em número de fiéis e todos esses são votos que serão levados em consideração quando os parlamentares votarem uma lei. Aposto por exemplo que muitos deputados tem filhas ou netas que fizeram aborto, mas votariam contra por medo de serem mal vistos pelo seu eleitorado. Fica-se na demagogia, nas clandestinidade em vez de partir-se para um debate pragmático.

    Fora isso, me desculpe mas qualquer um sabe que Brasil é muuuuuito diferente da Suécia.

    Comment by Valdemar — March 10, 2009 @ 2:12 pm

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