A cotação das almas.
O mundo tenta me convencer que é hipócrita por natureza. Todos os que hoje se levantam pela defesa dos direitos humanos, se calaram para o que relato abaixo. E isto é só um capítulo. Tenho muito mais a contar.
O genocídio em Rwanda
No início dos anos noventa, Rwanda vivia uma guerra civil aberta. Expulsos em episódios anteriores, a população Tutsi retornava ao país e uma disputa com a etnia Hutu pelo poder começava. Entre vários grupos rivais, estavam entre eles o RPF (Rwandan Patriotic Front), da etnia Tutsi, e o CDR (Coalition for the Defence of the Republic) dos Hutus extremistas, que detinham o poder. Em 1993 um acordo de paz é assinado, criando as bases para um governo compartilhado do país, mantendo o CDR no comando do governo. No entanto a ideologia “Hutu Power” já tinha sido difundida pelos Hutus extremistas, em resposta ao desejo Tutsi de formar uma nação – tinha sido incluida nos programas escolares e evidenciada na criação de um exército exclusivamente Hutu. Rádios e jornais começam a pregar o extermínio dos Tutsi, incluindo o estupro e morte das mulheres e crianças.
Em Abril de 1994, Hutus extremistas começam colocar em prática o plano da solução final, em uma operação meticulosamente preparada. Imediatamente após o início do genocídio, as forças da RPF entram em ação e a guerra civil recomeça, em paralelo ao massacre. Depois de 100 dias a RPF, liderada por Paul Kagame (futuro presidente do país), toma o poder e controla a situação, mas aproximadamente 800 mil pessoas já tinham sido assassinadas. Os genocidas então se misturam aos dois milhões de Hutus civis que estavam fugindo do país, como resultado da guerra. No primeiro mês de caminhada em direção ao Zaire, a cólera e a desinteria matam pelo menos 50 mil refugiados. A ONU entra com ajuda humanitária e ajuda a manter campos no Zaire e na Tanzânia (perto da fronteira com Rwanda), ao custo de 1 milhão de dólares por dia, custeado pelos governos ocidentais.
Os genocidas logo começam a comandar os campos de refugiados e de lá, orquestrar ataques ao território de Rwanda e aos Tutsis. Os grupos de ajuda humanitária não tem como controlar a situação. Apenas Bangladesh aceita enviar uma força de capacetes azuis, de um total de 39 países requisitados. Sem saída, a UNHCR (UN High Commissioner for Refugees) paga ao governo do Zaire pelos serviços de seu exército para prover segurança nos acampamentos de refugiados.
A situação permanece instável até Agosto de 1996, quando o exército de Kagame invade o Zaire para fechar os campos e eliminar os Hutus de uma vez por todas. Eles se unem ao movimento rebelde do Zaire, comandado por Laurent-Désiré Kabila, um “warlord” marxista de 56 anos, desejoso de tomar o poder no Zaire, derrubando o presidente Mobutu. 250 mil pessoas fogem dos acampamentos atacados em direção aos ainda preservados. Mas estava claro que nenhum acampamento seria preservado. A UNHCR tenta de todas as formas preservar a integridade dos acampamentos remanescentes. De um lado lutam as tropas de Mobutu e os genocidas Hutus, e do outro perfilam-se o exército de Kagame e o movimento de Kabila.
Neste interim, mais de 500 mil refugiados que fugiram para a Tanzania, começam a ser obrigados a voltar para Rwanda da noite para o dia, sem saber o que lhes iria acontecer, numa operação conduzida com muita violência pelo governo daquele país.
Em Maio de 1997 Kabila assume o poder no Zaire e funda a Republica Democratica do Congo.
Acredita-se que mais de 213 mil refugiados devem ter morrido desde que fugiram de Rwanda, totalizando mais de um milhão de mortos no conflito.
Fontes:
The Economist Magazine
Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Rwandan_Genocide),
Chasing the Flame, Samantha Power, 2008.
É isso aí. Nos anos noventa um milhão de africanos foram mortos e você nem ficou sabendo. Entre 2003 e 2004, mais 250 mil deles foram assassinados. Hoje, mais de 2 milhões são refugiados, em conflitos que ainda vou contar por aqui.
Enquanto escolhermos os seres humanos que queremos defender, como civilização estamos fadados ao fracasso.
