Duas ou três coisas que sei sobre o Natal.
Eu acredito que o ser humano não existe desvinculado da história, tanto sua e de sua família, quanto da sociedade em que vive. É através do entendimento histórico que podemos entender por que motivo agimos desta ou daquela maneira. Talvez por isso as tradições de povos outros nos pareçam tão carentes de sentido. É que nos falta a linha do tempo pela qual estes povos são moldados, como água em pedra, durante séculos e séculos. Por conta deste mecanismo de identidade é que as respostas que queremos para o comportamento de nosso tempo devem ser buscadas no passado. E falo isso para explicar como entendo o Natal.
Houve um tempo no qual as tradições eram necessárias para unir as pessoas de uma mesma comunidade. Era a forma como identificávamos nosso grupo. Não é preciso ir muito longe: no Brasil existe a capoeira e seu ritual, o boi-de-mamão ou boi-bumbá, o reizado e muitas outras. Todas essas manifestações serviam de cola para determinados grupos. Um símbolo, antes de mais nada, de unidade. Hoje nossa identidade é determinada por uma infinidade de símbolos que vem e vão em grande velocidade, mas que não permanecem por tempo suficiente para merecer mais atenção das gerações futuras. As músicas e suas danças não duram muito, a tecnologia muda hábitos e necessidades, a Natureza nos impõe limites. Mesmo assim muita coisa ainda permanece. Todo o brasileiro tem orgulho do seu carnaval, pra ficar só em um exemplo. O carnaval ajuda a identificar o brasileiro. É nossa tradição. Mesmo o brasileiro que não gosta da festa, sabe que ela faz parte de sua identidade.
E as antigas tradições que recebemos de nossos avós? Muitas delas não parecem fazer sentido pois o tempo no século XX foi o primeiro talvez a não respeitar uma regra de ouro de tudo o que é relacionado à identidade: mudar lentamente. E aqui estamos nós com fragmentos de rituais de um mundo que não existe mais. Aí é que entra o Natal, uma festa um tanto estranha para muitos de nós. Mas a primeira coisa talvez a ser feita antes de etiquetarmos o Natal como festa esquizofrênica e consumista, pervertida pelo mundo moderno, é olhar de onde vem essa festa e porque a celebramos.
O primeiro passo é entender que o Natal existia antes de Cristo. Numa tentativa de fortalecer o Sol, aparentemente debilitado durante o inverno, diferentes culturas (Gregos, Mesopotâmios, Persas, Romanos…) celebravam uma festa para o Deus Sol na época do solstício. Foi só algum tempo após a morte de Cristo que os cristãos passaram a usar a festa do solstício para celebrar o “Natal”, ou festa da natividade, e adaptaram vários de seus símbolos que, afinal, tanto se encaixavam para celebrar o Deus que vem dar a vida. É daí que vem o hábito das luzes nas janelas (para “ajudar” o Sol) ou mesmo o hábito da troca de presentes. Dar presentes, em praticamente todas as culturas, significa generosidade e esta é frequentemente associada ao Sol (o ser generoso mor). Os paralelos com o astro celeste são inúmeros. E para a infelicidade dos povos do hemisfério sul, é por essa razão que as principais festas Cristãs são quando são: o Natal no solstício e a Páscoa no início da primavera no Norte.
Aqui insiro minha primeira reflexão: cristãos, o Natal não é, para todas as pessoas, a celebração do nascimento de Cristo. Não devemos ficar tristes pelo mundo ter desvirtuado o sentido da festa. Nós é que marcamos a nossa festa na mesma data de uma festa mais antiga. Segunda reflexão: símbolos tem um significado vago e elástico e estritamente pessoal. A cruz significava vergonha mas para os cristãos passou a ser caminho de salvação. Nós herdamos esses símbolos da história. História feita também por mãos cristãs. O que eles significam para os cristãos não deve ser afetado se o resto da humanidade resolver lhes dar outra tradução. Mais ainda quando fomos nós a mudar o significado. Natal é celebração de alegria pelo nascimento de Jesus, mas pode ter outra definição para o seu vizinho. Qualquer tentativa de condená-lo por não entender a festa como nós entendemos é a negação mesma do que é ser cristão.
E somos por isso obrigados a engolir esse velhinho encasacado? Claro que não. Podemos viver nossa vida como desejarmos. Mas entender que somos parte de um legado nos poupará bastante sofrimento. O Natal como ele é hoje, com troca de presentes, mesa farta, luzes, não é fruto do consumismo. Ele é resultado de nossa própria história, veio para o Brasil quando nossos antepassados vieram, resistiram a miscigenação que nos fez brasileiros, foi mudado por ela, e está aqui para ser vivido. Para algumas pessoas, a árvore de Natal, o Papai-Noel, as luzinhas, não significam nada, o que é perfeitamente normal. Mas para outras têm a ver com a sua identidade, assim como o carnaval para a maioria dos brasileiros. Para estas pessoas dar presentes no Natal, enfeitar a casa e ter uma bonita ceia é a sua definição mesma como indivíduos pertencentes a um grupo. Nesse ponto, sem pretender ser maior do que o nascimento de Cristo, o Natal tem outros significados até mesmo para nós cristãos. E não há nada de mal nisso.
