Divagaçoes com pressa de sair…

November 28, 2008

Preciso escrever sobre isso: o mundo é complexo! Tenho escrito isso aqui tantas e tantas vezes. Me desespera tanto que as pessoas tentem encaixar um planeta gigante em tão poucos e pobres conceitos.

E porque esse desabafo? Ora porque acabei de escutar no rádio que os EUA vão doar dinheiro para Santa Catarina. É, vão doar dinheiro para o meu querido Estado. Vão ajudar o pedaço de terra que eu amo tanto. Eles apagam assim os seus erros? Não. Mas não precisavam fazer isso, e fizeram. E quem bota telha na casa de Catarinense, merece que eu pense pelo menos duas vezes antes de falar.

Mas tem mais. A Alemanha também vai doar. Até mais do que os EUA. Bonito demais. Quase chorei quando ouvi isso. E pra completar a loucura do mundo, o Sudão, onde mais de 300 mil pessoas já morreram desde o começo do atual conflito, estão com medo de Obama. Sim pois o começo do conflito por lá se deu após ataques norte-americanos comandados por Bill Clinton em resposta à atentados terroristas (tá, to escrevendo com pressa, sem precisar os dados, perdão). Prometo um post com mais conteúdo sobre esse assunto. E foi George Bush quem comandou um acordo de paz, e enfiou dez mil capacetes azuis por lá. Tá certo que a paz tá desmoronando, se é que chegou a existir. Mas os sudaneses têm medo dos Democratas. E de novo, minha intenção é exclamar: que mundo louco, meu Deus!!

E pra falar do Sudão, lá o número dos refugiados passa da casa dos 5 milhões, se contarmos o total de pessoas que se deslocaram de suas casas por causa da guerra. O país inteiro tem 6 milhões de habitantes. Existem 17 mil voluntários trabalhando lá naquele país, e se tem algum brasileiro deve ser um ou dois. Quem se importa com isso? Ninguém que eu conheço jamais chegou pra mim e disse: “Nossa hein? E o Sudão rapaz! Que absurdo!” – por isso é que botemos todos a mão na consciência e antes de dizermos que o mundo não se importa com a África, pensemos se nós nos importamos. Ultimamente, tenho começado a me importar – e tem sido mais e mais difícil viver em paz.

As escolhas morais reais que temos que fazer na vida nunca são fáceis. Sempre temos que comprometer algo, sempre temos que escolher o mal menor.
Sérgio Vieira de Melo teve que decidir se autorizava a OTAN a bombardear o Kosovo para impedir que os Sérvios massacrassem os kosovares. Preferiu apostar no compromisso de pessoas sem compromisso. O resultado conhecemos. O próprio Sérgio em sua vida foi aprendendo que certas neutralidades não existem, e que nossos ideais tem que conhecer novos limites, quando somos responsáveis por decidir.

O mundo é complexo, difícil. Eu não falo isso porque entendo o mundo. Falo porque aprendi que não entendo nada. E tenho medo de quem diz que entende…

O Japão que mora em mim

November 24, 2008

Acabei de ver um programa sobre Ikebana, em Kyoto, e mergulhei em memórias que fazem minha alma aquietar-se. E senti uma necessidade de escrever sobre isso.

O Japão que mora em mim… é um Japão difícil de colocar em palavras. Porque palavras são pouco comuns a este Japão. É o lugar das coisas não ditas, da arte e da beleza da expressão, sem o atalho fácil da fala. Lugar onde a harmonia é valor fundamental e fundante. Onde o corte da espada e o podar de uma flor, obedecem aos mesmos preceitos. A casa do silêncio, das águas que correm, dos sabores sutis. Nada se impõe. A música, os sabores, o teatro, os olhares… são convites a expressão de nossos valores, da beleza que todo ser humano carrega consigo.
Japão frágil, que desperta e convida para um novo olhar. Um olhar de convívio, de paz, de entendimento. Onde as pessoas não sabem dizer não, pois perguntas que nos obrigam a dizer não, não deveriam ser feitas. Onde as pessoas sabem que, mesmo nas coisas mais simples, existe um Deus a ser reverenciado. Onde o mais singelo dos papéis é dobrado como se fosse uma jóia. Nada sendo feito com desleixo, nada sendo feito sem uma alma e um coração dedicados. Onde cada pessoa é insubstituível, como são insubstituíveis todos aqueles que me mostraram essa ilha escondida, e que se despediram de mim com lágrimas nos olhos. Japão meu, que olha seu Fuji ao longe, nos olhos enrrugados, pela janela de um trem. Japão sem fim, no sorriso curioso da criança que acaba de ganhar algodão doce, e corre ajeitando seu pequeno yukata, e leva meu coraçao embora pra nunca mais devolver. Ela ainda o tem. Ele ainda mora em algum lugar nos arredores de Tóquio.

Reflexões…

November 13, 2008

“Se Obama fracassar, a frustração será tão grande, que serão necessários muitos séculos para que um negro seja de novo eleito presidente dos Estados Unidos”.

Lula

Pois é. Eis aí o fruto de mistificações e equívocos. Obama deixou claro que é Presidente de todos os americanos, mas não faltarão aqueles adeptos do ‘” nós contra eles”. Todo fracasso de Obama seria uma vitória do racismo, e suas vitórias, um fracasso dos conservadores brancos. Ao elevar Obama a condição de vitória particular da “raça”, brancos e negros mundo afora colocaram o avanço da igualdade racial sob risco. Se Obama fizer o que presidentes normalmente fazem – desapontar seus governados – na ótica de Lula a sociedade americana iria demorar a apostar em um negro novamente. Lula mal disfarça seu próprio racismo. Só será assim se Obama fizer como querem alguns setores que o privatizaram: Obama seria a vitória de um país contra o outro. Um país negro contra outro branco. Se for porta-bandeira de uma raça, Obama fatalmente vai desapontar a muitos. Em vez de ser mais um presidente, talvez um bom presidente, será a pá que cavará um fosso de segregação a mais.

Obama deve ser a vitória dos Estados Unidos. Assim como McCain também seria. Pois a Democracia, que permitiu que Obama fosse eleito, deve ser sempre a vencedora. Caso contrário, Obama conquistou uma vitória de Piro, ferindo o próprio sistema que permitiu seu sucesso. Além do mais, os EUA não mudaram quando elegeram Obama. Mudaram antes. Obama é sintoma, não causa. E a beleza da mudança é poder eleger um negro. Triste é ter que eleger alguém por causa de sua cor de pele. McCain disse bem: “Ele era meu adversário, agora é meu Presidente.” Igualdade é imaginar que Obama poderia dizer a mesma coisa se fosse derrotado. Essa é a beleza do ideal americano. Nem sempre honrado, mas ainda assim bonito. E Obama não deixou dúvidas. Em seu discurso da vitória conclamou as tradições mais caras aos americanos:

E para todos aqueles que se perguntam se o farol dos EUA ainda brilha com a mesma intensidade, esta noite nós provamos uma vez mais que a verdadeira força de nossa nação não emana da capacidade de nossas armas ou do tamanho de nossa riqueza, mas do poder persistente de nossos ideais: democracia, liberdade, oportunidade e inflexível esperança.

Gosto de Obama porque ele sinaliza novos ventos. Sinaliza um país talvez mais aberto ao diálogo, mais sólido economicamente, mais atento às Nações Unidas. Mas por mim ele podia ser rosa choque com bolinhas…

E assim, é só uma opinião minha, de acordo com o mundo que vejo. Mas consigo entender que é muito legal ver que o mundo pode ser assim, tão plural. Fico feliz também. Só tento ver o lado ruim também, para estar preparado. Se alguém quiser uma opinião diferente, mas que respeito muito, pode olhar aqui: Blog da Ila

Pessoinha

November 6, 2008

Durante minha vida inteira eu tenho certeza que idealizei muito todas as coisas. Idealizava minha profissão e por isso nunca consigo atingir todas as expectativas que depositei sobre ela. Idealizava os relacionamentos, que para mim não podiam ser um milímetro menos do que o ideal. Então, vivia conquistando, pois na conquista todo mundo é perfeito. De longe, todos os defeitos são lindos. E achava que isso era ser maduro, era "saber o que se quer". Eu muitas vezes preferia ficar sozinho porque eu "sabia o que queria". Ora, mas uma pessoinha chegou e me mostrou todos os seus defeitos. E entrei em pane, porque o que antes era tão fácil – dizer adeus – com ela não funcionava assim. Nunca consegui ir embora. Eu comparava minhas idealizações com a realidade e ficava indeciso. Mas não queria dizer adeus. Sofremos com isso, estamos sofrendo. Mas eu estou entendendo que existe uma força que me impede de fazer o que sempre fiz: dizer adeus. E esta mesma força pela primeira vez me mostrou como eu era e sou imaturo. Como não tinha idéia do que um relacionamento era. Eu, que achava que sabia tudo, que podia tudo, agora vejo que não sei nada. Mas entrei tanto em pane, que não conseguir mostrar pra pessoinha que eu estava em crise, e que na verdade não era falta de amor, mas como uma ostra que entra dentro da concha, não consegui entender o que estava acontecendo. Ela tentou se adaptar, mas nunca coseguiria competir com um devaneio, e por isso sofreu. Mas por isso conseguiu me mostrar o que ninguém mais conseguiu. E foi difícil. E é difícil. Tentar viver junto quando ambos são tão geniosos é difícil. Mas cada vitória é mais gostosa do que qualquer outra que já tive. Assim como foi gostoso todas as vezes que nos reaproximamos. Claro que existe muito a ser apreendido. Como errar e consertar os erros juntos. Como respeitar, como abrir mão, como ceder. Que ser humano maravilhoso esse que sabe fazer tudo isso. Eu quero chegar lá, mas pra ficar com a pessoinha. Não adianta nada conseguir isso tudo e não encontrar quem preencha o espaço cedido com cores, com vida, com amor.

Eu hoje entendo que preciso lhe dar espaço, que preciso diminuir para que ela cresça. Mas que posso fazer se nada faz sentido sem ela? Sei que ela sabe que a amo, e sei que ela me ama. E eu sei que não a perderia de novo. Ela tem motivos pra não acreditar, eu sei. Mas vou continuar tentando. Talvez seja difícil pra ela ver que eu também sou real, também não sou aquele que conseguiria resolver tudo. Mas quem sabe ela goste do que eu sou de verdade. Porque ela é minha parceirinha, nas horas boas e nas ruins. É isso…

Dernière

Tinha me proposto não escrever mais sobre política por aqui. Perdi muito do gosto de acompanhar e comentar os eventos, e também porque acabava escrevendo aqui de forma diferente do que me expressaria em uma conversa. E se antes eu escrevia muito mal, agora acho que é o diálogo que precisa ser treinado.

Mas esse post é a pedidos…rs

Vamos lá: Obama ganhou!

De certa forma aconteceu o que eu já tinha dito aqui que gostaria que acontecesse. Acho que McCain perdeu seu momento, já não tinha energias para conduzir o país. E além do mais, Sara Palin foi um erro. Eu não a queria nem como vice-presidente. É isso que tenho a dizer sobre a vitória de Obama. Sucesso pra ele, que consiga pacificar o Iraque, o Afeganistão, que resolva a crise, e que lidere o mundo para uma fase de mais diálogo. Tomara.

Mas (tem sempre um "mas") eu sempre acreditei que o racismo tem duas vias. Uma óbvia, outra escondida, mas uma fruto e causa da outra. Vou exemplificar: hoje, no rádio, uma mulher gritava e dizia que Obama era a vitória dos negros. Outra, da comunidade negra, dizia que os EUA tinham provado ao mundo isso e aquilo. Tudo muito compreensível, não é mesmo? Mas eu, nessa implicância que tenho com o mundo, acho que esse comportamento perpetua a diferença. Digamos que não é exatamento um discurso em prol da igualdade. É muito parecido com um, mas é segregador em sua essência. 

Sou radical neste assunto: cores não me dizem nada. Não é assim que deve ser? Então a razão pela qual as pessoas comemoram a vitória de Obama me incomoda. Quer dizer que ele ser negro significa algo? Então ele é diferente? Ele é um Democrata diferente de Bill Clinton em quê? Na cor da pele? Porque existe uma "comunidade negra"? Me incomoda uma "comunidade negra" do mesmo jeito que me incomoda uma "comunidade branca". Não gosto de guetos, não gosto de sociedades onde os grupos tem mais voz do que os indivíduos. Nesses casos geralmente o mais fraco é massacrado e a democracia é a vítima. Além do mais, eleições são democráticas porque pressupõem que ambos os resultados são possíveis. Nesta de agora, a impressão que tive foi que só um resultado seria considerado a vitória da Democracia. Quem não viu, que procure ver o discurso de McCain reconhecendo a derrota. É uma aula de civismo. 

E mais, não acho que os EUA precisassem provar nada. Ora, Obama eleito ou não, a sociedade norte-americana não é mais ou menos preconceituosa por causa disso. Eleger um presidente negro não deveria ser como uma prova de formatura.

Quando comparei os dois candidatos para fazer minha escolha, Obama não foi a escolha óbvia. Ele tem falhas bem evidentes de caráter, além de não ter experiência nenhuma. Ora, se ele não foi uma escolha óbvia, eu poderia ter escolhido McCain. Mas tenho certeza que seria chamado de racista, ou de retrógrado. E isso é injusto além de ser um golpe na própria eleição. Até porque, antes desse processo todo começar, McCain era o cara considerado "independente" pela mídia. 

Por fim, toda idealização traz consigo sua carga inerente de decepção. Portanto pela frente vejo muito mais decepções do que realizações. O que é uma pena, mas talvez um mal necessário.  

É isso. Mas nem estou vendo as reportagens e noticiários. Gostei das eleições e só. To de saco cheio de simbolismos e tietagem. O que já vi de camiseta do Obama não tá no gibi. Se ele for assassinado então, vira santo…