O condomínio chamado Doha
Ok, a Rodada Doha falhou. Grandes novidades. Lembre você de alguma reunião que já participou, entre amigos, no condomínio, em algum momento no trabalho, qualquer uma: você consegue lembrar de alguma em que fosse fácil chegar a um consenso? Duvido. Agora imagine uma reunião com mais ou menos 150 participantes, todos com direito a veto, com culturas e idiomas diferentes, tentando chegar a um acordo. Some-se a isso as pressões políticas internas, vaidades e inabilidades pessoais, crise energética e de alimentos, e pronto: a receita do fracasso óbvio. Com Doha, morre mais um pouco a diplomacia idealista, aquela dos acordos mundiais multilaterais, a mesma do fracasso da Liga das Nações.
O caminho possível, na minha análise, é o crescimento dos blocos comerciais. Seguindo inclusive as leis da Física, a solução para acordos globais está no crescimento paulatino dos blocos regionais, até que não reste nenhum país avulso no cenário. Quando a água congela, ela não o faz instantaneamente, mas a partir de núcleos que vão crescendo e se fundindo até que o todo se solidifique. Quando sentarem na mesa 4 blocos – Américas, Europa, África e Ásia –, as possibilidades de um acordo aumentarão significativamente. Por enquanto, não há porque pensar que será diferente.
Nos próximos anos, veremos a proliferação dos acordos bilaterais, como alternativa imediata ao fracasso da Rodada. O problema é que os países mais pobres pouco têm a oferecer nesses casos e as injustiças que se procurava corrigir no fórum multilateral, serão cada vez mais aprofundadas. O Governo Lula, que optou por não fazer destes acordos um seguro para este momento, deve agora correr para conseguir um lugar ao sol.
O Brasil, que errou quando optou por depositar todas as fichas em Doha, coerentemente com o alinhamento ideológico dos diplomatas da vez, erra de novo ao não atuar no Mercosul como líder, ou pelo menos ao não definir claramente uma autoridade que seja aceita por todos os países-membros. Com isso, o Mercosul afunda nos mesmos problemas da Rodada Doha, sendo sabotado pelos interesses individuais – legítimos, ninguém duvida – e carecendo de uma força que arbitre as disputas internas. Fracassará, inexoravelmente, e será tragado por uma futura ALCA, que virá de um jeito ou de outro.
