O condomínio chamado Doha

July 30, 2008

Ok, a Rodada Doha falhou. Grandes novidades. Lembre você de alguma reunião que já participou, entre amigos, no condomínio, em algum momento no trabalho, qualquer uma: você consegue lembrar de alguma em que fosse fácil chegar a um consenso? Duvido. Agora imagine uma reunião com mais ou menos 150 participantes, todos com direito a veto, com culturas e idiomas diferentes, tentando chegar a um acordo. Some-se a isso as pressões políticas internas, vaidades e inabilidades pessoais, crise energética e de alimentos, e pronto: a receita do fracasso óbvio. Com Doha, morre mais um pouco a diplomacia idealista, aquela dos acordos mundiais multilaterais, a mesma do fracasso da Liga das Nações.
O caminho possível, na minha análise, é o crescimento dos blocos comerciais. Seguindo inclusive as leis da Física, a solução para acordos globais está no crescimento paulatino dos blocos regionais, até que não reste nenhum país avulso no cenário. Quando a água congela, ela não o faz instantaneamente, mas a partir de núcleos que vão crescendo e se fundindo até que o todo se solidifique. Quando sentarem na mesa 4 blocos – Américas, Europa, África e Ásia –, as possibilidades de um acordo aumentarão significativamente. Por enquanto, não há porque pensar que será diferente.
Nos próximos anos, veremos a proliferação dos acordos bilaterais, como alternativa imediata ao fracasso da Rodada. O problema é que os países mais pobres pouco têm a oferecer nesses casos e as injustiças que se procurava corrigir no fórum multilateral, serão cada vez mais aprofundadas. O Governo Lula, que optou por não fazer destes acordos um seguro para este momento, deve agora correr para conseguir um lugar ao sol.
O Brasil, que errou quando optou por depositar todas as fichas em Doha, coerentemente com o alinhamento ideológico dos diplomatas da vez, erra de novo ao não atuar no Mercosul como líder, ou pelo menos ao não definir claramente uma autoridade que seja aceita por todos os países-membros. Com isso, o Mercosul afunda nos mesmos problemas da Rodada Doha, sendo sabotado pelos interesses individuais – legítimos, ninguém duvida – e carecendo de uma força que arbitre as disputas internas. Fracassará, inexoravelmente, e será tragado por uma futura ALCA, que virá de um jeito ou de outro.

Sir Paul McCartney

July 24, 2008

Tenho evitado escrever aqui textos mais pessoais, como fazia antes, pois acho que é melhor, no momento, aproveitar a audiência para tentar abrir os olhos de meus compatriotas. Mas abro hoje uma exceção: preciso contar para vocês que fui a um show do Paul McCartney. Quem me conhece sabe que eu sempre fui seu fã, mas era como se ele fosse um personagem da história, ou talvez de um filme. Nunca imaginei vê-lo pessoalmente. E foi incrível.
Fiquei ali, cantando músicas que amo, junto com 199.999 pessoas. É como se, por um momento, pudesse estar dentro dos documentários que vi, dos clipes, dos shows em preto e branco. E teve tudo: Eleanor Rigby, Lady Madona, Hey Jude, Yesterday, Black Bird… Enquanto olhava vidrado, pensava nos muitos anos escutando aquelas músicas em discos de vinil, fitas K7. Lembrei dos meus amigos que durante a adolescência compartilharam esse gosto comigo, e que eu queria estivessem ali. Pensei na minha irmã menor, uma fã ainda mais tardia que eu. Pensei enfim em como a vida é surpreendente, para quem tem os olhos abertos.

Pra completar, o show foi de graça, num parque em Quebec para celebrar os 400 anos da cidade.