Meu manguezal
Era um dia de novas resoluções, e por isso mesmo, sentia-se diferente naquela tarde. Havia chegado da aula e decidido que iria usar seu caiaque depois do almoço. Não era de hábito fazer isso, descer até a praia, a não ser durante as férias, quando seu tio ou seu avô o visitavam. Mas era como se precisasse conferir algo. Como se houvesse uma conversa particular a ser feita. Tinha um encontro marcado, não sabia bem com quem, ou o quê.
E assim fez. Após trocar de roupa foi até a praia e pôs-se a remar.
O caiaque deslizava fácil e fazia quase nenhum barulho. Assim, as gaivotas e os biguás pousados pelas pedras permitiam-lhe aproximar sem que voassem assustados. Peixes pulavam surpreendentemente perto, alarmados por aquela presença inesperada e sorrateira. Enquanto a casa ficava para trás, esses pequenos acontecimentos revelavam ao menino um segredo reservado a poucos humanos: a Natureza é amiga do silêncio. Entendeu essa lição instantaneamente, e imprimiu com força na alma para jamais esquecer.
Enquanto remava cautelosamente, sentia-se pela primeira vez acolhido naquele ambiente. Pela primeira vez, depois de tantas e tantas vezes passar de barco por ali, não parecia ser uma presença agressora. E foi envolto nesses pensamentos que virou a ponta da praia, abrindo à seus olhos a visão total do manguezal, quieto, imenso, solitário. Remou decidido por uns vinte minutos, até atingir a entrada de um dos canais que desaguavam na enseada e que irrigavam toda aquela floresta de lama, galhos e caranguejos. Chegou na boca do rio… e entrou. E viu sua vida mudar para sempre. Entrou sozinho, em silêncio, e no silêncio observou calmamente os cardumes numerosos de peixes filhotes. Contemplou os caranguejos em seu vai e vem, às vezes lento, às vezes frenético. As raízes imponentes, a floresta escura. Teve medo. Sentiu-se sozinho, e como tal, embaixador de sua raça. Viu muitas aves, viu colhereiros, que nunca havia visto, no topo dos mangues mais altos. E eles não se importaram com sua presença. Nenhum deles se importou.
E o menino pela primeira vez se sentiu insignificante. E na sua insignificância, viu que era menor do que aquilo tudo que via. Foi quando aquele monte de lama ganhou divindade, ganhou-lhe a alma e virou sangue de seu sangue. Até então, não havia entendido os sussurros, as mudanças sutis, a delicadeza das coisas vivas. Mas lhe foi permitido olhar por uma pequena fresta.
Jamais pode voltar ali sem que seu coração ajoelhasse em profunda reverência, por ter aprendido a lição de mil livros. O menino jamais foi o mesmo, e ele divide agora, com vocês, sua gratidão ao seu querido manguezal.
Luciano Queiroz

Oi Lulu
Massa! Adoro o mangue. Acho lindo. Daqui de casa a entrada do Rio forma uma paisagem incrível. Pena que esteja tão degradado…
Enfim, gostaria de convidá-lo para participar do meme das 3 atitudes ecoconscientes que a Lúcia Malla criou, mas não consigo deixar o link aqui por causa de spam. Coloquei lá no Blog. Bjs
Estou te convidando para participar do Meme das 3 atitudes ecoconscientes, criado pela Lúcia Malla: Concordo com tudo e diria mais para a sociedade do RJ: parem de cheirar cocaína e fumar maconha (ao menos enquanto não é legalizada)
Comment by Lili — February 15, 2007 @ 11:53 pm
Lindo, lindo, lindo, poeta Luciano
Comment by Giulia — February 17, 2007 @ 10:42 am
Aliás, falando em mundo sustentável e ecologia, seu texto me fez lembrar que na década de 1980 o lixão da capital estava localizado bem ao lado do mangue. Realmente inacreditável, não é mesmo?
Comment by Alex — February 18, 2007 @ 4:58 pm
Lulu,
Parabéns pelo texto. Envolvente!
Abraços
Comment by Celso — February 21, 2007 @ 3:07 pm
Gostei do texto, de onde tiraste? Saiste para dar uma volta de caiaque? Ainda há esperança para este ser neo-liberal, hehehe.
Comment by Rafael Della Giustina Leal — February 21, 2007 @ 9:18 pm
Lulu, que belíssimo texto
! No meio de tantas leis e artigos, não me dei conta do quanto estava sentindo falta de ler algo assim, suave e doce. Esse domingo tenho prova, semana que vem vou ligar para tomarmos um açaí
Beijos
!
Comment by Alice — March 2, 2007 @ 3:05 pm