Caos previsível
Esse mês está sendo de pouca escrita. Reformular minha vida tem dado um certo trabalho.
A única coisa que tem me estimulado a continuar escrevendo e refletindo sobre o comportamento humano é essa crise no tráfego aéreo brasileiro. De um lado, a necessidade de encontrar culpados, de simplificar para acalmar a turba ansiosa entre gritos de “-crucifica!”. De outro um poder público que não quer assumir suas próprias incompetências. E ainda um terceiro lado (sim, existem mais que dois…) dos passageiros que querem embarcar e acham que os controladores de vôo, estes “frouxos”, estão fazendo corpo mole.
Como trabalhei com aviação, conheço controladores de vôo, conheço investigadores de acidentes aeronáuticos, conheço os fabricantes e as operadoras, e analisei o projeto na ANAC antes de entrar em vigor, sei que:
1. O governo brasileiro ignorou o problema do trafego aéreo crescente e a carência de equipamentos e profissionais adequados. Os diversos incidentes anteriores ao acidente da GOL apontavam o problema e estes dados estão disponíveis ao público, a despeito de Valdir Pires declarar que nada sabia.
A ANAC nasceu sob o lobby da Infraero que retirou parte da sua importância. O Governo Lula acabou de matá-la quando fez nomeações políticas para a agência.
Os países sérios usam os incidentes para prevenir acidentes. O Brasil não tem comissões parlamentares para analisar incidentes e fiscalizar a autoridade aeronáutica.
Acidentes aéreos nunca tem uma causa apenas. São sempre uma cadeia de eventos que pode ou não conter falha humana. O fato de alguém ter cometido erro, não significa culpa. É necessário entender porque os erros aconteceram.
No entanto, nesse caso a falta de equipamentos adequados para o controle de vôo pode fazer recair responsabilidade civil sobre a ANAC, por negligência.Os controladores de vôo no Brasil vinham há muito tempo trabalhando sob pressão e compensando as carências no sistema trabalhando acima dos limites internacionais. É importante que a partir de agora eles se recusem à colocar vidas em risco. Eles não são culpados pela situação, e sim este governo.
O processo de desmilitarização do controle aéreo e da aviação civil em geral, é importante. Não que os militares não sejam competentes, mas eles são submetidos à rotinas militares que prejudicam o exercício da função. Empresas como a Embraer sofrem com isso, apesar de todo o reconhecido esforço dos militares em cooperar e contornar os problemas.
Por último é importante saber que, se a situação melhorar do dia pra noite, é porque trocamos filas nos aeroportos por risco nos ares. E a situação não vai mudar tão cedo porque a ANAC é um diretório do PT, incompetente e evasivo.
Já aviso: antes de melhorar, vai piorar…

Luciano Queiroz
