A espiral da sabedoria

Acredito que a verdadeira sabedoria da vida vem invariavelmente quando percorremos uma espiral imaginária, que nos faz progredir ao mesmo tempo que dá novos sentidos à pensamentos antigos. Começamos com nossos entendimentos infantis e vamos ganhando complexidade, acumulando experiências, exigindo explicações complicadas para tudo e assumindo camadas de verdades sobrepostas. Depois, vamos derrubando toda essa teorização da existência à medida que a vida se impõem sobre nossos ombros. E acabamos por ver que nos resta nas mãos as idéias que lá já estavam, nos tempos de menino.
É claro que não voltamos ao ponto de partida impunes, pois seria tolice. A criança não sabe porque pensa o que pensa. Já a sabedoria sabe bem o que faz, e ela precisa percorrer um caminho para evoluir. Fazer o homem compreender que os sentimentos infantis de ausência de rancor, da fraternidade, de autenticidade, de sinceridade, se nas crianças é ingenuidade, pode para os adultos no entanto ser a resposta que procuramos.
E eu, como em uma parada para olhar o mapa, sempre tento me situar neste espaço espiral imaginário e resgatar como é que cheguei até aqui. Porque me tornei este alguém, que acredita que a solução para a humanidade vem de dentro dos seres humanos pra fora?
Fui vasculhar e encontrei várias lembranças.
No colégio, eu percebia que os garotos populares anulavam os mais tímidos sob sua asa para satisfazerem seus egos inchados fruto de pais super-protetores. Na faculdade, vi a ditadura dos diretórios de estudantes, com seus líderes mal disfarçando sua necessidade de auto-promoção. Todos invariavelmente escolhendo dentre suas habilidades qual lhes renderia mais para seus próprios egos. Muitas amizades terminaram, namoros se romperam, e emprestei meu ombro para muitas dessas pessoas.
Vi algumas guerras, vi algumas brigas.
No trabalho como engenheiro, vi sindicalistas, com a mesma ambição dos garotos de colégio, apenas aumentada e instrumentalizada, se agarrarem à mentiras como escada rolante para a promoção pessoal. Passei por um plano Cruzado 1, Cruzado 2, Cruzado novo, Plano Collor… os eternos salvadores da pátria, até que a vida se impusesse novamente, cada vez, e de novo.
Sempre os mesmos sentimentos pobres por trás de tudo.
Por outro lado, todos os idealistas autênticos que conheci, os genuinamente abnegados, possuem características comuns: não tentam convencer ninguém além deles mesmos, respeitam idéias opostas com a tranquilidade e a segurança de quem tem profundidade em seu caminho, sua vida é seu discurso. Tentam lutar contra a vaidade, a ambição sem freios, a inveja, a indisciplina, como verdadeiro inimigo à ser derrotado.
Foi com estes últimos que aprendi que a luta por um mundo melhor, pelo Reino de Deus, é uma luta travada dentro do homem, e não fora. Este mundo mais justo, este Reino, não é uma obra que um dia se verá completa por e para todos, mas que completa pode ser, na alma de quem O busca. Essa é a vanguarda da transformação. É nessas pessoas que deposito minhas esperanças de um mundo mais justo. Jamais naqueles que querem se impor, imaginado-se donos de uma percepção superior de realidade, que ao fazerem alimentam a batalha humana. Batalha a qual apenas difere da guerra pelo uso de armamentos, e que naturalmente conduz à esta última. A guerra não começa no primeiro tiro, mas no primeiro pensamento agressivo. O tiro real e o tiro verbal, pertencem à mesma natureza, e são efeito e causa da desgraça humana.
Dentro da espiral da evolução da sabedoria, é no começo e no fim, onde as diferenças são resolvidas num chá com biscoitos. Por isso, se olhamos a espiral de lado, esses dois pontos são tão distantes, e de cima, de onde Deus olha, eles são iguais. Ambos donos do Reino dos Céus.
Luciano Queiroz
