Dekassegui

September 17, 2006

Quando eu vim para o Japão, não tinha a menor idéia do que ia encontrar. A gente vem com aquela visão esterotipada, que é uma mistura de filmes japoneses, restaurantes de Sushi, do bairro da Liberdade, etc. e na chegada, já nas primeiras horas o choque é grande. Principalmente para um gaijin como eu. Depois, dia após dia, este choque vai sendo renovado em cada paradigma seu que cai por terra. As diferenças culturais são esmagadoras, e por isso creio que viver no Japão é uma experiência da qual ninguém sai impune.
Dos meus contatos com brasileiros aqui conheci alguns dekasseguis. Pra minha surpresa, por mais que eu tivesse um bom entendimento do que eles vem fazer, jamais cheguei a ter uma noção no Brasil que fosse pelo menos perto da realidade. São muitas histórias, de sofrimento, trabalho e pequenas alegrias. Fiz alguns amigos e eles têm toda a minha admiração.
Minha amiga Fátima, jornalista e minha assessora especial para assuntos nipônicos, me indicou este curta-metragem que compartilho com vocês. Ele dá uma boa idéia do que é ser dekassegui. A criação é de Roberto maxwell.

Luciano Queiroz

Frase do Dia

“Compreendo a função política na democracia como o instrumento mais eficaz para a transformação e aperfeiçoamento das estruturas sociais. Fui dela afastado, compulsoriamente, pela ditadura. A ela voltei pelo único caminho legítimo: o voto popular. Asseguro, sem vacilação, que é possível conciliar política e ética, política e honra, política e mudança.”

Mário Covas – 1989

Vamos celebrar a estupidez humana…

September 10, 2006

A espiral da sabedoria

September 2, 2006


Acredito que a verdadeira sabedoria da vida vem invariavelmente quando percorremos uma espiral imaginária, que nos faz progredir ao mesmo tempo que dá novos sentidos à pensamentos antigos. Começamos com nossos entendimentos infantis e vamos ganhando complexidade, acumulando experiências, exigindo explicações complicadas para tudo e assumindo camadas de verdades sobrepostas. Depois, vamos derrubando toda essa teorização da existência à medida que a vida se impõem sobre nossos ombros. E acabamos por ver que nos resta nas mãos as idéias que lá já estavam, nos tempos de menino.

É claro que não voltamos ao ponto de partida impunes, pois seria tolice. A criança não sabe porque pensa o que pensa. Já a sabedoria sabe bem o que faz, e ela precisa percorrer um caminho para evoluir. Fazer o homem compreender que os sentimentos infantis de ausência de rancor, da fraternidade, de autenticidade, de sinceridade, se nas crianças é ingenuidade, pode para os adultos no entanto ser a resposta que procuramos.

E eu, como em uma parada para olhar o mapa, sempre tento me situar neste espaço espiral imaginário e resgatar como é que cheguei até aqui. Porque me tornei este alguém, que acredita que a solução para a humanidade vem de dentro dos seres humanos pra fora?
Fui vasculhar e encontrei várias lembranças.

No colégio, eu percebia que os garotos populares anulavam os mais tímidos sob sua asa para satisfazerem seus egos inchados fruto de pais super-protetores. Na faculdade, vi a ditadura dos diretórios de estudantes, com seus líderes mal disfarçando sua necessidade de auto-promoção. Todos invariavelmente escolhendo dentre suas habilidades qual lhes renderia mais para seus próprios egos. Muitas amizades terminaram, namoros se romperam, e emprestei meu ombro para muitas dessas pessoas.
Vi algumas guerras, vi algumas brigas.
No trabalho como engenheiro, vi sindicalistas, com a mesma ambição dos garotos de colégio, apenas aumentada e instrumentalizada, se agarrarem à mentiras como escada rolante para a promoção pessoal. Passei por um plano Cruzado 1, Cruzado 2, Cruzado novo, Plano Collor… os eternos salvadores da pátria, até que a vida se impusesse novamente, cada vez, e de novo.

Sempre os mesmos sentimentos pobres por trás de tudo.

Por outro lado, todos os idealistas autênticos que conheci, os genuinamente abnegados, possuem características comuns: não tentam convencer ninguém além deles mesmos, respeitam idéias opostas com a tranquilidade e a segurança de quem tem profundidade em seu caminho, sua vida é seu discurso. Tentam lutar contra a vaidade, a ambição sem freios, a inveja, a indisciplina, como verdadeiro inimigo à ser derrotado.

Foi com estes últimos que aprendi que a luta por um mundo melhor, pelo Reino de Deus, é uma luta travada dentro do homem, e não fora. Este mundo mais justo, este Reino, não é uma obra que um dia se verá completa por e para todos, mas que completa pode ser, na alma de quem O busca. Essa é a vanguarda da transformação. É nessas pessoas que deposito minhas esperanças de um mundo mais justo. Jamais naqueles que querem se impor, imaginado-se donos de uma percepção superior de realidade, que ao fazerem alimentam a batalha humana. Batalha a qual apenas difere da guerra pelo uso de armamentos, e que naturalmente conduz à esta última. A guerra não começa no primeiro tiro, mas no primeiro pensamento agressivo. O tiro real e o tiro verbal, pertencem à mesma natureza, e são efeito e causa da desgraça humana.

Dentro da espiral da evolução da sabedoria, é no começo e no fim, onde as diferenças são resolvidas num chá com biscoitos. Por isso, se olhamos a espiral de lado, esses dois pontos são tão distantes, e de cima, de onde Deus olha, eles são iguais. Ambos donos do Reino dos Céus.

Luciano Queiroz