Homenagem aos colegas da praia
Nas faxinas periódicas da memória, ainda não se apagaram muitas cenas de minha infância. São pessoas, locais, sabores… fotografias de um tempo que já vai longe levando com ele a lembrança dos detalhes. Os nomes me falham, alguns rostos importantes, datas, tudo pra sempre desconectado nas sinapses desfeitas de meus neurônios.
Mas ainda mantenho guardado aqueles momentos que, por terem sido mais marcantes, meu cérebro se recusa a abandonar-lhes de todo, mantendo pelo menos alguma imagem para que as lições não se percam. E é assim que ainda lembro dos meus pequenos amigos de brincadeira na praia. Perdão, eu disse amigos? Bem, talvez tenham sido apenas colegas. E é justamente a história desse coleguismo que nunca virou amizade que resisto em esquecer, pela importante marca que deixou em meu peito.
Quando ainda era um molequinho de 4 anos de idade, minha família se mudou para um bairro afastado do centro da cidade, que mantinha um ar ainda bem rural, com famílias de pescadores vivendo ao longo da rua. Meu pai vinha com boas condições, e se esmerou em construir uma casa que fosse à altura de seus sonhos. Foi assim que me tornei uma criança privilegiada, tendo uma infância cercada de conforto.
Mas, algumas vezes por ano eu ia até a praia que ficava nos fundos do terreno e encontrava as crianças de uma pequena viela de casas paupérrimas que ficavam à 50 metros de distância do nosso portão. Eram sempre mal vestidas, e constantemente sujos ou de cabelos raspados como solução para os piolhos. Suas casas, bem próximas à água, jogavam o esgoto direto na praia exalando um cheiro bem desagradável. E todos esses detalhes não me passavam despercebidos. Éramos crianças e eu tinha um desejo enorme de brincar com eles, chamá-los para tomar um suco, comer uns biscoitos. Eram uns quatro ou cinco garotos, alguns irmãos, que viviam de pé na areia, brincando pela praia quando não estavam pescando pra valer para ajudar os pais. E eu queria fazer parte daquilo, mas minhas roupas eram muito novas, eu não entendia o que eles falavam, e tinha medo de que ficassem envergonhados de entrar na minha casa, medo que minha mãe não gostasse, medo que eles quisessem se aproveitar de minha amizade. E no entanto, quando eu cedia e os convidava para jogar bola no gramado lá do canto do terreno, longe da casa, eram tardes de diversão sem preço.
Hoje vejo que não fui capaz de transpor o muro social que se colocou entre nós. A crueldade da realidade se apresentou com toda a sua força na minha frente, quando ainda era uma criança, de maneira silenciosa, me dando boas vindas ao mundo do lado de lá da cerca.
Ter perdido amigos assim de maneira tão cruel, numa fase da vida onde eles eram tão importantes, me deixou marcas permanentes.
Luciano Serra de Queiroz

Minha praia vista de casa, de onde ficava imaginando onde estariam eles…

Legal o Post, mas mais legal ainda foi essa foto, foi de um cartão postal ? ou de um fotógrafo renomado que você conhece ? eheheheheheheehe … abração, Giraffa.
Comment by Giraffa — August 24, 2006 @ 4:27 pm
Visitar esse lugar da foto custa uma nota preta
Tive a enorme felicidade de visitá-lo, mas aviso: não é pra qualquer um não
A minha sorte é que tenho meus contatos…
Abração cumpádi
Comment by Nino — August 26, 2006 @ 2:25 pm
Nunca é tarde para tentar transpor a cerca. Eu vou estar aqui, do outro lado, te esperando…
VEM
Comment by Ila — August 28, 2006 @ 9:21 pm