Resolvi pedalar por aí.

Resolvi pedalar por aí. Decidi que não tinha tempo para os sentimentos menores, ciúmes, inveja, medo. Queria o sol no rosto e o sorriso aberto. Abdiquei da pequenez, pra assisti-la apenas de passagem. Fugi das tolas disputas, do egoísmo incrustrado. Apenas pedalo por aí, vendo a paisagem.
E passei a enxergar melhor. Meu bom humor ficou em forma. Pacifiquei meu mar e navego tranquilo. Minhas angústias passaram a ser menores que minhas certezas. A vida deixou de ser só chegada, pra se tornar caminho. Tive tempo de repassar os erros cometidos e me senti feliz pagando o preço por cada um deles. Preços justos. Fazem lembrar-me que vivi, e que pra cada erro tive minha cota de acertos. Ao lembrar de tudo, vi que tudo me foi bom e me trouxe até aqui. Vi dignidade na miséria, vi miséria na riqueza, e vice e versa. Mergulhei, voei, escalei. Fui sozinho com muitos e tive o mundo estando só. Tive que me reinventar, enquanto desmoronavam minhas certezas. Fui péssimo músico, velejador medíocre, mau fotógrafo. Mas conhecer minhas limitações não tirou o prazer de minhas músicas, do vento no rosto e das imagens que me tocam. Os que magoei, que me perdoem. Os que me magoaram, bem, já nem lembro. Mágoa pesa muito e peso extra atrasa a viagem.
Tenho muito o que fazer, ainda há muito o que pedalar. E é bom saber que ainda posso ser surpreendido pelos presentes que a vida dá.
Sinto que vou ter que aprender tudo do começo. De novo.
Luciano Queiroz
