Tirando a poeira
O lindo papel da Filosofia é tirar as teias de aranha dos depósitos mentais, onde colocamos nossas mais profundas verdades sem, de fato, termos nos realmente questionado à respeito delas.
Neste trecho do livro “A Rebelião das Massas”, Ortega y Gasset comenta a definição de linguagem, na qual ela é a maneira como o ser humano expressa seus pensamentos.
Veja que provocante:
“Não; o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la.
Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar, com suficiente justeza, todos os nossos pensamentos. Não se arrisca a tanto, mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes, estando condenado à radical solidão, esgota-se em esforços para chegar ao próximo. Desses esforços é a linguagem que
consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós.
Apenas. Mas, habitualmente, não usamos estas reservas. Ao contrário, quando o homem se põe a falar, isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa.
Pois bem, isso é o ilusório. A linguagem não dá para tanto. Diz, mais ou menos, uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas; já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses, mais humanos, mais “reais”, tanto mais aumenta sua imprecisão, sua inépcia e seu confusionismo. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos, dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos, muito mais do que se, mudos, procurássemos adivinhar-nos.”
E deixo aqui um puxão de orelha à alguns amigos avessos à leitura. Às vezes, outros já trilharam os caminhos que tentamos percorrer, e nos deixaram boas pistas. Não seremos maiores do que eles, se ficarmos sempre tentando reinventar a roda. Portanto, mãos à obra.
Luciano Queiroz

Luciano,
Eu não tinha visto essa entrevista no Jô. Gostei muito!
E pensar que muitos artistas usaram sua popularidade para influenciar o povão no sentido de votar no Lula.
Todos politicamente corretos à época.
Não deixa de ser uma certa irresponsabilidade.
Sds/
Comment by Teotonio — June 11, 2006 @ 11:09 pm