Resolvi pedalar por aí.

June 20, 2006


Resolvi pedalar por aí. Decidi que não tinha tempo para os sentimentos menores, ciúmes, inveja, medo. Queria o sol no rosto e o sorriso aberto. Abdiquei da pequenez, pra assisti-la apenas de passagem. Fugi das tolas disputas, do egoísmo incrustrado. Apenas pedalo por aí, vendo a paisagem.
E passei a enxergar melhor. Meu bom humor ficou em forma. Pacifiquei meu mar e navego tranquilo. Minhas angústias passaram a ser menores que minhas certezas. A vida deixou de ser só chegada, pra se tornar caminho. Tive tempo de repassar os erros cometidos e me senti feliz pagando o preço por cada um deles. Preços justos. Fazem lembrar-me que vivi, e que pra cada erro tive minha cota de acertos. Ao lembrar de tudo, vi que tudo me foi bom e me trouxe até aqui. Vi dignidade na miséria, vi miséria na riqueza, e vice e versa. Mergulhei, voei, escalei. Fui sozinho com muitos e tive o mundo estando só. Tive que me reinventar, enquanto desmoronavam minhas certezas. Fui péssimo músico, velejador medíocre, mau fotógrafo. Mas conhecer minhas limitações não tirou o prazer de minhas músicas, do vento no rosto e das imagens que me tocam. Os que magoei, que me perdoem. Os que me magoaram, bem, já nem lembro. Mágoa pesa muito e peso extra atrasa a viagem.
Tenho muito o que fazer, ainda há muito o que pedalar. E é bom saber que ainda posso ser surpreendido pelos presentes que a vida dá.
Sinto que vou ter que aprender tudo do começo. De novo.

Luciano Queiroz

Mikhail Bakunin

June 19, 2006

O anarquista russo do século 19, Mikhail Bakunin (1814-1876):

“Assim, sob qualquer ângulo que se esteja situado para considerar esta questão, chega-se ao mesmo resultado execrável: o governo da imensa maioria das massas populares se faz por uma minoria privilegiada. Esta minoria, porém, dizem os marxistas, compor-se-á de operários. Sim, com certeza, de antigos operários, mas que, tão logo se tornem governantes ou representantes do povo, cessarão de ser operários e pôr-se-ão a observar o mundo proletário de cima do Estado; não mais representarão o povo, mas a si mesmos e suas pretensões de governá-lo.
Quem duvida disso não conhece a natureza humana.”

O Pior dos Enganos

June 15, 2006

Qual é o elemento que caracteriza uma sociedade como tal? Que característica deve estar presente à um grupo de indivíduos para que o chamemos de comunidade?

Entendo que um sistema que valha para todos deve ser a resposta e a própria natureza dos sistemas sociais. Mesmo aqueles espontâneos, em comunidades sem leis escritas, os indivíduos se reconhecem como grupo por obedecerem ao mesmo código de convivência. É assim em tribos indígenas, foi assim na Antiguidade. Esse é o princípio das civilizações, sejam elas de que credo ou cor forem. Assim também é a Democracia. O que vale pra um, tem que valer pra todos.

Olhando mais de perto, encontramos os movimentos sociais inseridos em qualquer sociedade, e são e devem ser partes de uma Democracia sólida. Estão previstos no conceito democrático e são necessários por amplificarem demandas urgentes que são consenso dentro de um determinado grupo.

Em paises não democráticos, pega-se em armas. Quem pode mais, faz valer sua vontade. (vide as FARC, ou o massacre do Congo, pra ficar só nesses). Em países democráticos, esses grupos obedecem leis comuns à todos, pois não é prevista distinção de aplicabilidade da lei de acordo com a demanda ou motivação de cada um. Atenuações talvez, mas a lei continua valendo pra todos. Daí deduz-se que a Democracia tem como uma de suas mais nobres vantagens, a proteção do indivíduo mais fraco.


Rocinha. Não é culpa da Democracia mas, ao contrário, da falta da mesma.

Posto isso, temos que decidir o que o Brasil é, ou quer ser. Uma vez que se escolha a democracia, e essa não é uma escolha obrigatória, um conjunto de princípios básicos amplamente aceito deve ser estabelecido.

Essa premissa básica, fundamento tão caro à igualdade dos seres humanos, passou por um processo de desmoralização intenso no último ano no Brasil, com a impunidade sendo defendida abertamente, sem rodeios pelo governo federal, e aceita cinicamente pela oposição. O Brasil flertou com a não democracia sem escrúpulos nos últimos meses. E pior, flertou sem um rumo alternativo à seguir.

O interessante é que nem um, nem ao menos um movimento organizado da sociedade civil veio a público condenar o que se passou. Nenhum dos movimentos em defesa de minorias, ou que defendem justiça social, se posicionou inequivocamente na defesa da igualdade de direitos e deveres. Muito pelo contrário, observamos uma compactuação com essa ameaça ao país, beirando o oportunismo, levando alguns grupos organizados a usar o mesmo expediente, seguindo o exemplo de seus líderes políticos. “A lei que não vale pra eles, tambem não vale pra nós.” Muito justo. No entanto, igualmente perigoso. Perigoso porque é o caminho pavimentado para o retrocesso.

A Democracia foi o sistema que melhor organizou os homens em sociedade inventado até hoje. Criado pelos gregos e aperfeicoado pelos americanos, ainda nao surgiu nada que lhe fosse superior. Em nome de alternativas, já se assassinaram mais de 10 milhões de pessoas só no século passado. Não tiveram sucesso. Se queremos então abolir nosso sistema através da sabotagem para que algo novo melhor surja, temos que ter a consciência de que voltaremos sem demora à um período pré-helenístico: o dos bárbaros. Exagero? Pois acredite que é exatamente a mesma forma que vivem inúmeras sociedades no mundo atual. Os massacres que tanto condenamos mundo afora são geralmente fruto dessa injusta forma de organização baseada na força. Se a Democracia vacila, o mais fraco é a primeira vítima.

Neste contexto, o movimento social brasileiro foi e é, em geral, mal sucedido. Não conseguem as suas lideranças perceber, ou percebem mas usam seus postos como trampolim ao status-quo, que está na Democracia a resposta para seus anseios. Buscam, antes disso, combatê-la como se esta fosse a causa de seu mal. E o discurso inatacável identificado com o rótulo de correto, arrasta multidões de vítimas da falta de democracia que nos atinge, para o lado errado. Propõem ao doente, mais da doença como cura. Essas vítimas são os sem estudo, sem qualificação, sem saúde, enfim, menos iguais que outros. E é essa dinâmica que faz a justiça social brasileira caminhar para o lado errado. São líderes travestidos de defensores do povo, mas são uma das principais causas do atraso de nossa evolução para uma sociedade mais igual. E como cruzam o limite da lei ao sabor de sua estratégia, se juntam e se confundem com outros grupos que habitam esse mesmo espaço. Isso explica em grande parte a profusão de criminosos que infestaram as instâncias do governo federal desde que o PT chegou ao poder.

Curiosa ainda é essa última constatação. O PT chegou ao poder, e ao poder democrático. Mas como a Democracia lhe cobra o preço da negociação, da não imposição unilateral de sua vontade, o partido nao abre mão de ser também o anti-stablishment. Numa situação surreal, o PT é oposição de si mesmo, financiado pelo dinheiro público. Enquanto uma parte da sociedade se cala com medo de ser taxada de preconceituosa e insensível, a outra segue acreditando que a cura está logo ali na frente, enquanto bebe os venenos dos curandeiros.

É a hora do aperfeiçoamento da Democracia. Precisamos de mais poder de controle sobre os políticos, leis ágeis, menos níveis de apelação, leis anti-corrupção severas, isonomia de penas, fidelidade partidária, voto distrital. Um governo que não cobre impostos como a Alemanha e que ofereça serviços como o Haiti. Precisamos investir em tecnologia, em ciência. Foi o caminho Chileno, que hoje reduziu drasticamente sua miséria. Singapura deixou o Brasil pra trás e erradicou a pobreza. A Coréia do Sul também.

Podemos optar pelo outro caminho, o tal do pré-helenistico que citei. Não estaremos sozinhos. Mas é bom começarmos a praticar tiro ao alvo….

Luciano Queiroz

12 de Junho

June 11, 2006



There’s such a sad love
Deep in your eyes.
A kind of pale jewel
Open and closed
Within your eyes.
I’ll place the sky
Within your eyes.

There’s such a fooled heart
Beatin’ so fast
In search of new dreams.
A love that will last
Within your heart.
I’ll place the moon
Within your heart.

As the pain sweeps through,
Makes no sense for you.
Every thrill has gone.
Wasn’t too much fun at all,
But I’ll be there for you
As the world falls down.

Falling.
Falling.
Falling in love.

I’ll paint you mornings of gold.
I’ll spin you Valentine evenings.
Though we’re strangers ‘til now,
We’re choosing the path
Between the stars.
I’ll leave my love
Between the stars.

As the pain sweeps through,
Makes no sense for you.
Every thrill has gone.
Wasn’t too much fun at all,
But I’ll be there for you
As the world falls down. “

David Bowie, no filme Labirinto, na cena que eu pedi pra você ver…

Tirando a poeira

O lindo papel da Filosofia é tirar as teias de aranha dos depósitos mentais, onde colocamos nossas mais profundas verdades sem, de fato, termos nos realmente questionado à respeito delas.

Neste trecho do livro “A Rebelião das Massas”, Ortega y Gasset comenta a definição de linguagem, na qual ela é a maneira como o ser humano expressa seus pensamentos.

Veja que provocante:

“Não; o mais perigoso daquela definição é o acréscimo otimista com que costumamos escutá-la.
Porque ela mesma não nos assegura que mediante a linguagem possamos manifestar, com suficiente justeza, todos os nossos pensamentos. Não se arrisca a tanto, mas tampouco nos faz ver francamente a verdade estrita: que sendo ao homem impossível entender-se com seus semelhantes, estando condenado à radical solidão, esgota-se em esforços para chegar ao próximo. Desses esforços é a linguagem que
consegue às vezes declarar com maior aproximação algumas das coisas que acontecem dentro de nós.
Apenas. Mas, habitualmente, não usamos estas reservas. Ao contrário, quando o homem se põe a falar, isto faz porque crê que vai poder dizer tudo que pensa.
Pois bem, isso é o ilusório. A linguagem não dá para tanto. Diz, mais ou menos, uma parte do que pensamos e põe uma barreira infranqueável à transfusão do resto. Serve bastantemente para enunciados e provas matemáticas; já ao falar de física começa a ser equívoco e insuficiente. Porém quanto mais a conversação se ocupa de temas mais importantes que esses, mais humanos, mais “reais”, tanto mais aumenta sua imprecisão, sua inépcia e seu confusionismo. Dóceis ao prejuízo inveterado de que falando nos entendemos, dizemos e ouvimos com tão boa fé que acabamos muitas vezes por não nos entendermos, muito mais do que se, mudos, procurássemos adivinhar-nos.”

E deixo aqui um puxão de orelha à alguns amigos avessos à leitura. Às vezes, outros já trilharam os caminhos que tentamos percorrer, e nos deixaram boas pistas. Não seremos maiores do que eles, se ficarmos sempre tentando reinventar a roda. Portanto, mãos à obra.

Luciano Queiroz

Reforma forçada

June 10, 2006

Acho que o pessoal notou que a figura que caracterizava meu blog, a da latinha de fermento cínico em pó, está coberta por uma tarja vermelha. Parece que existe um produto muito parecido no mercado e os caras cismaram que eu tava usando a imagem deles. Não sei de onde tiraram isso.

Mas até que meus advogados possam provar que coincidências acontecem, acho melhor eu achar outra figura pra colocar.

Importante ressaltar que eu repilo insinuações de que isso não passa de uma campanha de marketing pra valorizar meu blog. Meus parcos leitores esporádicos são parcos mas são fiéis, não precisam disso! E como diz o presidente: – Eu não sabia de nada Alguém invadiu meu blog e colocou a figura lá, em conluio com a elite branca!!

Luciano Queiroz