Arma de guerra
Escrever é um ofício penoso. Nunca traduz a profusão de pensamentos que tenho e sempre simplifica demais a complexidade com que vejo o mundo. Quando escrevo, desenrolo um novelo mental, onde uma idéia leva à outra, à outra, e mais outra. Tenho dificuldades em oferecer partes limitadas, da reflexão maior que é a minha própria vida.
De tanto ler artigos, me faltam os clássicos da literatura. Sinto falta, para o livro, de densidade, nuances, ritmo e riqueza. Tragédia das tragédias eu penso será empobrecer o que é naturalmente complexo ou ao contrário, carregar nas tintas destruindo a simplicidade que tanto prezo.
Pra não perder o hábito, ao escrever os parágrafos acima, me vi descrevendo o que vai pela minha própria vida, em outras dimensões. Sempre lutei contra o universo binário, dos julgamentos simplórios e analises míopes. E quando eu mesmo corro o risco de sossegar no campo da auto unanimidade, me vejo lançado no desafio de investigar novamente, de compreender, de explicar. (o que é uma maravilha!)
Idéias não são bandeiras. O ser humano que as carrega como tatuagens, está fadado ao atraso. Atraso evolutivo.
Faço de minha pena minha arma. Arma de guerra. Guerra para afastar dos arredores os arrogantes, os que se querem donos das verdades universais. Fora de minha propriedade, fariseus! Aqui em minha seara, que os anos me deram, quero os que sabem mudar de idéia. E quero os que, de quebra, mudam um pouco das minhas.
Luciano Queiroz

Li e pensei neste verso:
“Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina.
As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contem. Não faças poesias com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica. Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes.
Nem me reveles teus sentimentos, que prevalecem do equívovo e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.”
Drummond, Procura da poesia.
Comment by Cilene — August 9, 2007 @ 7:50 pm