Minha saudosa caixa de areia

April 3, 2006

Toda a criança tem um cantinho, um espaço, que ela elege como seu. Pode ser uma praça, um canto do colégio, seu próprio quarto, um brinquedo. Ali ela dá seus primeiros passos sociais, tentando dominar o seu mundo. Aprende neste espacinho a gerenciar sua vida: quem entra, quem é banido, as regras. Ali ela se sente segura pra criar suas fantasias, aprender a sonhar e imaginar o que está por vir, quando um dia for grande.
No meu caso e de um grupo de crianças que o tempo já levou pra longe, esse espaço era a caixa de areia do Colégio Menino Jesus.
Nosso dia era o recreio. As aulas eram apenas uma longa espera por aqueles parcos minutos de intervalo. Quando a “tia” liberava era todo mundo descendo correndo, para desespero das freiras que com medo que quebrássemos a cabeça, nos proibiam de descer daquele jeito. Um infinitésimo depois já estávamos lá, dominando nosso reino, delimitando espaços. Eu, um exímio arquiteto de pistas de corrida, começava a traçar o circuito com o pé de lado, puxando a areia. Deixava pro final os detalhes mais emocionantes como as pontes, túneis, fossos, “chinqueines”... Enquanto isso um abnegado ficava incumbido de esperar a “tia” abrir os refrigerantes para pegar as tampinhas que caiam no chão, nossos velozes “carros de corrida”.
Uma vez pronto o circuito e os devidos “carros” batizados com nomes de pilotos da época (eu sempre era o Chico Serra, pois também tenho este sobrenome. Piquet era disputado no grito) comecávamos a incrível corrida.
Quer saber as regras? Bem, conto assim mesmo…
Uma vez todos os “carros” alinhados na pista, cada um na sua vez dava um peteleco na sua tampinha. Pronto. Essas eram as regras. Quem chegasse primeiro ganhava. Na verdade tinha umas outras regrinhas sim que diziam que o carro que saísse da pista numa petelecada mais exagerada, voltava pro lugar de origem e o “piloto” perdia a vez. Se ficasse em cima da mureta o piloto gritava “-MURALHA!!” e tava valendo.
Ficávamos tão distraídos que o recreio passava piscando e às vezes interrompia corridas pelo meio. Enquanto dávamos nossos petelecos que deixavam os dedos doídos, conversávamos sobre muitas coisas, nossas visões do mundo dos adultos, nossos pais, o que iríamos fazer no futuro.
Aquele espacinho que compartilhou nossa infância era o que há de mais singelo no mundo: areia. Não tinha nenhum gigabite, nem HD, nem gráficos avançados. Mas era nossa e não a trocaria por computador nenhum do mundo.
Me lembro de todo dia chegar em casa, subir correndo as escadas e medir a quantidade de areia que tinha vindo em meus sapatos. Era sempre um punhado. Então guardava a tampinha do dia em uma caixa onde algumas outras centenas já repousavam e me jogava na cama, esperando o almoço e relembrando as coisas boas daquelas manhãs inesquecíveis.
Que saudades de passar alguns minutos com amigos, dando petelecos em simples tampinhas.
É preciso muito pouco pra se ser feliz.

Luciano Queiroz

2 Comments »

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  1. lindo como areia no tênis

    (FC: ??????)

    Comment by j — April 4, 2006 @ 4:24 am

  2. Sensacional
    Eu cheguei ao cúmulo de criar desenhos internos para as tampinhas, imitando os carros de F-1 do ano. A minha era claro, a Brabham do Nelson Piquet. O número era em “sete segmentos” como os relógios digitais da época.
    Será que vamos poder brincar de corrida de tampinha com os nossos filhos?
    A distância deixa a gente nostálgico né cara?
    Abração!

    Comment by Marcel — April 7, 2006 @ 8:18 am

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