Sombras na Caverna
Esta semana tive uma oportunidade incrível. Visitei o mercado de peixes de Toquio. Se você é daqueles que pensa que já viu de tudo um pouco, recomendo essa visita para lhe devolver a humildade. É um lugar sensacional e há muito para escrever sobre ele. Prometo voltar ao tema mais pra frente.
A razão para este texto apareceu na volta para casa. Sentado no trem, bastante cansado, pensava eu na maravilha do lugar, e em tudo que poderia escrever sobre ele. A maneira como todos os sentidos são estimulados de forma intensa, a variedade que nunca havia visto, a provável tragédia ambiental… Foi quando meu senso crítico entrou em ação e me alertou para um fato que me intriga bastante: lugares maravilhos para uns, são bastante sem graça para outros.
Platão acreditava que a realidade é nada mais do que sombras projetadas na parede no fundo de uma caverna. Ele defendia que algumas pessoas mais iluminadas (os filósofos) são capazes de olhar o mundo real e voltar para tentar alertar aos demais que eles só enxergam um mundo distorcido.
O pensamento de Platão me conforta. Ele nao privilegia. A boca da caverna está ao alcance de todos, mas alguns se recusam à virar a cabeca. Quando fico sabendo de algum crime, quando vejo descasos, quando observo o comportamento de pessoas em zoológicos, enfim, a pequenez humana em todas as suas dimensões, entendo Platão. Infelizmente nao dá pra virar a cabeca de ninguém na marra. Muitos, senão a maioria, morrerão sem admirar a maravilha do mundo real.
Voltando ao mercado, tenho certeza que a maioria das pessoas nao aproveitará a chance para aprimorar sua alma, diante de tudo o que lhes é mostrado lá. E com isso resolvi ajustar minha empolgação para um padrao mais “fundo da caverna”.
Mas a realidade é sutil e inexorável. Mais cedo ou mais tarde o ser humano percebe que é o passageiro mais recente deste mundo e finalmente se cala. Às vezes, talvez, tarde demais.
Luciano Queiroz
Luciano Queiroz