Sombras na Caverna

April 18, 2006

Esta semana tive uma oportunidade incrível. Visitei o mercado de peixes de Toquio. Se você é daqueles que pensa que já viu de tudo um pouco, recomendo essa visita para lhe devolver a humildade. É um lugar sensacional e há muito para escrever sobre ele. Prometo voltar ao tema mais pra frente.
A razão para este texto apareceu na volta para casa. Sentado no trem, bastante cansado, pensava eu na maravilha do lugar, e em tudo que poderia escrever sobre ele. A maneira como todos os sentidos são estimulados de forma intensa, a variedade que nunca havia visto, a provável tragédia ambiental… Foi quando meu senso crítico entrou em ação e me alertou para um fato que me intriga bastante: lugares maravilhos para uns, são bastante sem graça para outros.
Platão acreditava que a realidade é nada mais do que sombras projetadas na parede no fundo de uma caverna. Ele defendia que algumas pessoas mais iluminadas (os filósofos) são capazes de olhar o mundo real e voltar para tentar alertar aos demais que eles só enxergam um mundo distorcido.
O pensamento de Platão me conforta. Ele nao privilegia. A boca da caverna está ao alcance de todos, mas alguns se recusam à virar a cabeca. Quando fico sabendo de algum crime, quando vejo descasos, quando observo o comportamento de pessoas em zoológicos, enfim, a pequenez humana em todas as suas dimensões, entendo Platão. Infelizmente nao dá pra virar a cabeca de ninguém na marra. Muitos, senão a maioria, morrerão sem admirar a maravilha do mundo real.
Voltando ao mercado, tenho certeza que a maioria das pessoas nao aproveitará a chance para aprimorar sua alma, diante de tudo o que lhes é mostrado lá. E com isso resolvi ajustar minha empolgação para um padrao mais “fundo da caverna”.
Mas a realidade é sutil e inexorável. Mais cedo ou mais tarde o ser humano percebe que é o passageiro mais recente deste mundo e finalmente se cala. Às vezes, talvez, tarde demais.

Luciano Queiroz

Minha saudosa caixa de areia

April 3, 2006

Toda a criança tem um cantinho, um espaço, que ela elege como seu. Pode ser uma praça, um canto do colégio, seu próprio quarto, um brinquedo. Ali ela dá seus primeiros passos sociais, tentando dominar o seu mundo. Aprende neste espacinho a gerenciar sua vida: quem entra, quem é banido, as regras. Ali ela se sente segura pra criar suas fantasias, aprender a sonhar e imaginar o que está por vir, quando um dia for grande.
No meu caso e de um grupo de crianças que o tempo já levou pra longe, esse espaço era a caixa de areia do Colégio Menino Jesus.
Nosso dia era o recreio. As aulas eram apenas uma longa espera por aqueles parcos minutos de intervalo. Quando a “tia” liberava era todo mundo descendo correndo, para desespero das freiras que com medo que quebrássemos a cabeça, nos proibiam de descer daquele jeito. Um infinitésimo depois já estávamos lá, dominando nosso reino, delimitando espaços. Eu, um exímio arquiteto de pistas de corrida, começava a traçar o circuito com o pé de lado, puxando a areia. Deixava pro final os detalhes mais emocionantes como as pontes, túneis, fossos, “chinqueines”... Enquanto isso um abnegado ficava incumbido de esperar a “tia” abrir os refrigerantes para pegar as tampinhas que caiam no chão, nossos velozes “carros de corrida”.
Uma vez pronto o circuito e os devidos “carros” batizados com nomes de pilotos da época (eu sempre era o Chico Serra, pois também tenho este sobrenome. Piquet era disputado no grito) comecávamos a incrível corrida.
Quer saber as regras? Bem, conto assim mesmo…
Uma vez todos os “carros” alinhados na pista, cada um na sua vez dava um peteleco na sua tampinha. Pronto. Essas eram as regras. Quem chegasse primeiro ganhava. Na verdade tinha umas outras regrinhas sim que diziam que o carro que saísse da pista numa petelecada mais exagerada, voltava pro lugar de origem e o “piloto” perdia a vez. Se ficasse em cima da mureta o piloto gritava “-MURALHA!!” e tava valendo.
Ficávamos tão distraídos que o recreio passava piscando e às vezes interrompia corridas pelo meio. Enquanto dávamos nossos petelecos que deixavam os dedos doídos, conversávamos sobre muitas coisas, nossas visões do mundo dos adultos, nossos pais, o que iríamos fazer no futuro.
Aquele espacinho que compartilhou nossa infância era o que há de mais singelo no mundo: areia. Não tinha nenhum gigabite, nem HD, nem gráficos avançados. Mas era nossa e não a trocaria por computador nenhum do mundo.
Me lembro de todo dia chegar em casa, subir correndo as escadas e medir a quantidade de areia que tinha vindo em meus sapatos. Era sempre um punhado. Então guardava a tampinha do dia em uma caixa onde algumas outras centenas já repousavam e me jogava na cama, esperando o almoço e relembrando as coisas boas daquelas manhãs inesquecíveis.
Que saudades de passar alguns minutos com amigos, dando petelecos em simples tampinhas.
É preciso muito pouco pra se ser feliz.

Luciano Queiroz

Olhe pela janela…

April 1, 2006

– Venha ver! Venha rápido! As flores sorriem lá fora, esperando por nós…
E assim vem a recompensa pelo duro inverno. Os dedos ainda estão doídos do frio, o coração mais calejado da melancolia, e a alma ainda ressabiada. Foram tempos difíceis, tempos de apostar no imprevisível.
Não foi fácil, não é mesmo?
Abrir mão das folhas antigas, as velhas sombras, as mesmas paisagens. Por vezes pensar em desistir, por vezes não saber como seguir.
Mas a brisa suave traz a promessa de dias quentes, regados a sorrisos e novos sabores. Nós que viemos até aqui, agora deixamos pra trás o que em nós morreu.
- Ande, venha, não demore! Venha escutar o que as flores nos cantam dos campos: o frio acabou, já é hora de renascer!

Luciano Queiroz