O que perdemos?

(Pierre Verger)
Tenho um sentimento recorrente toda a vez que vejo fotos do Brasil de 100 anos atras. O mais perto que consigo descrever esta sensacao eh que estou diante de um povo altivo. Sensacoes nao se explicam e pode ser que nada mais seja que a habilidade do fotografo. Ou uma coincidencia do acaso. Mas estes dias, quando via as fotos do carnaval brasileiro feitas por Pierre Verger, este sentimento se repetiu forte e resolvi dedicar mais minutos a entender do que se trata.
Como e porque conseguiria a populacao deste pais, à décadas atrás ter alguma identidade, algum sentimento que hoje nao temos? Do que havia de se orgulhar o habitante de um pais mais atrasado que o nosso. Não evoluimos, não progredimos?
Mesmo que muito, muito longe do pais dos nossos sonhos, é inegável que caminhamos. E para onde foi este sentimento? Importante dizer que nao é exatamente orgulho a que me refiro. É dignidade. Acho que já vi este sentimento outras vezes, em alguns negros na Bahia, alguns catarinenses de Blumenau, alguns pescadores, alguns gauchos. É identidade. Sentimento de pertencer à uma nacao, à um povo, de uma identidade coletiva duradoura. Nao é nacionalismo, por favor.
De forma geral, as fotografias de hoje, me parecem mostrar um povo sem sustentação. Nao somos tristes, mas estamos acuados. Nossa auto estima foi contaminada por camadas de desilusao. A violência urbana matou qualquer romantismo que pudessemos ter. Diante da barbarie, nao ha malandragem possivel. Nao ha altivez em quem desconfia de tudo e de todos. Temos medo da policia, do vizinho, de qualquer um. Nao há roda de samba, gafieira, forro, que resista a isso. Nao existem belezas naturais, nao ha riqueza, nao sobra nada. A crueldade leva tudo, pois diante da morte o importante é a sobrevivencia, não a poesia. A vida continua: saímos, nos divertimos, mas sabemos que a sociedade está desmoronando. Sabemos que as regras que regem a convivencia estao frouxas, esgaçadas pelo poder corrupto. A vida não continua, a vida está sempre em risco. O importante é o agora. Há que se curtir o momento. Mas algumas noções de cidadania, de ética, não sobrevivem à esta constatação. É preciso perspectiva, sentimento de futuro, para que uma sociedade se estabeleça. Relações sociais necessitam conter uma noção de longo prazo, de continuidade. Parece que estamos sobrevivendo ao agora, e seja o que Deus quiser.
Nao sou sociólogo, nem filósofo e de novo, nao sei se realmente as coisas eram diferentes. Mas as fotos me revelam isso, e me concedem este entendimento. Mesmo estando errado quanto ao passado, acho que acerto quanto ao presente.
Luciano Queiroz
