Dama de preto
Chegou em casa arrasada. Chorou até não ter mais lágrimas. Normalmente não se entregava assim, mas hoje não tinha conseguido resistir. Tinha sido mais do que podia aguentar. Sua solidão lhe era entregue de volta, toda de uma vez. Tinha se deixado levar por uma paixonite. Lhe entregara seu fardo, acreditando que ele lhe ajudaria a carregá-lo pra sempre. Tinha estado leve, como se tivesse chegado ao fim de uma jornada extenuante. O paraíso todo à sua frente e… decepção. Sua recompensa tomava a forma de uma dor no peito insuportável, refletida no vazio de seu quarto, onde chorava só. Não sabia o que fazer. No fundo perguntava se estava condenada à viver sozinha para sempre, se sua vida seria melancólica, eternamente fingindo uma felicidade vazia. Uma casca. Podia encher a cara, mas achou que se sentiria mais só. Embriagar-se seria o fundo do poço e ela já estava suficientemente mal.
Foi ao banheiro, banhou-se. Fez uma maquiagem pesada e vestiu-se de preto. Estava de volta. Ligou pras amigas e saiu. Sorriso no rosto e olhar sem brilho. Ofuscado pelo coração que sangrava.
Luciano Queiroz

Seu texto ficou muito bom. Parabéns.
Comment by Carlos — November 25, 2005 @ 1:44 am