Retratos da Cidade - 2
Ainda sobre as minhas andanças na última ida à Florianópolis, a cidade onde fui criado.
Tive a grata oportunidade de encontrar no centro da cidade, no que chamamos de calçadão (ruas fechadas aos pedestres), uma apresentação do boi-de-mamão. O boi-de-mamão pra quem não sabe, tem a mesma origem do boi-bumbá do nordeste que, se eu não estou enganado, vem de Portugal, da Ilha dos Açores.
Fiquei muito emocionado, lágrimas aos olhos, tentando me posicionar discretamente pra disfarçar minha comoção. Lembrei-me de quando era pequeno e de quando em algumas oportunidades presenciei o boi-de-mamão em sua forma tradicional, autêntica, e não aquele tentativa que ali estava de manter viva a memória de uma época. Naqueles tempos de moleque, o boi-de mamão era brincado assim: o grupo organizador se reunia com todos os personagens em um lugar marcado. O boi (que tinha a cabeça tradicionalmente feita de mamão, daí o nome) era o personagem principal. Então a música começava, bem marcada, com o puxador chamando e o povo respondendo: “Ô dono da caaasa, a sua licença, pro meu boi dançaaá, na sua presença…”. Assim iam pedindo autorização pra ir entrando nas casas chamando o povo pra rua. Iam de casa em casa. A cada família, a multidão crescia e a cantoria ficava mais forte: “Ô meu cavalinhooooo, ele já chegooou, e o dono da caaasa, já cumprimentou….”. No final, todos se reuniam numa praça, num largo ou algo assim, e a história do boi se desenrolava. O boi ficava doente, vinha o médico, os urubus, as cabras, a maricota, a bernuça… A bernuça era a que mais assustava pois era uma tripa de pessoas debaixo de um lençol e uma bocarra de dragão. Ela vinha e engolia a pessoa pela boca grande e esta passava a ser parte da bernuça. Era o máximo Quando tinha gente suficiente nascia um filhote da bernuça.
Resumindo era uma grande festa, que fazia com que as pessoas viessem pra rua, se conhecer. Vizinhos falavam com vizinhos. Riam juntos, dançavam juntos. Surgia ali uma consciência de comunidade, de pessoas que têm algo em comum, uma identidade.
Assim é que nasce um povo. Um povo que se coloca como povo, unido, pronto pra batalhar e se ajudar. O boi-de-mamão pra mim era tudo isso. Era um grito de protesto, contra a sociedade que individualiza, que acredita nos muros, nas distâncias, no consumo. O boi travava a cada festa sua luta particular, convidando as pessoas a se amarem, a partilharem, a acreditar que uma comunidade unida pode vencer seus desafios.
Infelizmente o boi já quase desapareceu. Perdeu sua luta contra o progresso, que nos faz melancólicos com a saudade do que não conhecemos. Um sentimento de solidão que nos assola, órfãos que somos de um tempo mais humano.
Mas eu vou botar meu boi na rua. Quero ver meu boi brincar….
Luciano Queiroz
