Violência contra a mulher

November 27, 2005

“Uma em cada três mulheres do planeta (cerca de 1 bilhão de mulheres) já foi espancada ou submetida a algum tipo de abuso, inclusive sexual.”
Anistia Internacional

Fermento Cínico defende que lutemos incessantemente contra qualquer sentimento de superioridade, que negue a crença fundamental que todo ser humano é igual e tem o mesmo valor. Esta é a crença fundamental deste Blog e de seu dono.

Esta é uma blogagem coletiva incentivada pelo blog Síndrome de Estocolmo

Pra você Kita.

November 26, 2005


Estes dias Kita deixou um comentário por aqui. Sempre me lembro dela, quando o assunto é a época de colégio.
Estudamos juntos uns dois anos, eu acho, e ela me chamava a atenção. Não por nenhum interesse especial meu não. Mas ela era do tipo de pessoa que a gente acha que vale a pena conhecer. Era muito bonita, talvez não a mais bonita, mas chamava a atenção. Não era fútil, tinha um papo interessante, e sabia ser simpática. Eu tinha muitos amigos na época, mas não era “popular”(qualquer pessoa que passou pelo segundo grau sabe a diferença entre ser popular e ter muitos amigos) e tinha uma admiração especial por ela e por algumas outras meninas da turma. Sempre quis ser mais amigo dela e das meninas mas como eu tinha uma centena de outras atividades, acabei saindo do colégio sem fortalecer essa amizade. Fui líder de turma e com elas tudo sempre era fácil de resolver. E bem agradável. Mas os dias se passaram e eu perdi as oportunidades de conhecê-la melhor. É que eu ainda não sabia naquela época que aquela turma era responsável por alguns dos anos mais maravilhosos da minha vida e que sentiria muita falta dela.
Na faculdade encontrei a Kita de novo uma única vez, na escada do Básico, e ela me disse que estava fazendo letras. Fiquei tão feliz por encontrá-la que até hoje não esqueci daqueles 10 minutos.

Assim os anos voaram no calendário e não nos encontramos mais.

Agora ela me pergunta se eu já tinha reparado quantas pessoas especiais já passaram pela nossa vida e a gente nem se dá conta. Pois é Kita, já reparei sim. Você foi uma delas.

Luciano Queiroz

Dama de preto

November 24, 2005


Chegou em casa arrasada. Chorou até não ter mais lágrimas. Normalmente não se entregava assim, mas hoje não tinha conseguido resistir. Tinha sido mais do que podia aguentar. Sua solidão lhe era entregue de volta, toda de uma vez. Tinha se deixado levar por uma paixonite. Lhe entregara seu fardo, acreditando que ele lhe ajudaria a carregá-lo pra sempre. Tinha estado leve, como se tivesse chegado ao fim de uma jornada extenuante. O paraíso todo à sua frente e… decepção. Sua recompensa tomava a forma de uma dor no peito insuportável, refletida no vazio de seu quarto, onde chorava só. Não sabia o que fazer. No fundo perguntava se estava condenada à viver sozinha para sempre, se sua vida seria melancólica, eternamente fingindo uma felicidade vazia. Uma casca. Podia encher a cara, mas achou que se sentiria mais só. Embriagar-se seria o fundo do poço e ela já estava suficientemente mal.
Foi ao banheiro, banhou-se. Fez uma maquiagem pesada e vestiu-se de preto. Estava de volta. Ligou pras amigas e saiu. Sorriso no rosto e olhar sem brilho. Ofuscado pelo coração que sangrava.

Luciano Queiroz

Recomece


Peça demissão às vezes. Recomeçe! Faz bem mesmo. Nada como o prazer de sentar na frente de uma folha de papel em branco, com um jogo de lápis com 64 cores….
Eu que achava que era coisa de livro de auto-ajuda…. não é!

Luciano Queiroz

Dica de viagem

November 23, 2005

Leve um casaco guri, senão vai pegar solidão. Leve um mate pras horas frias e pra lembrar o que realmente é amargo na vida. Suba no telhado de vez quando pra ver as coisas do alto. Perspectiva é sempre bom. Dê uns sorrisos pra desenferrujar a boca. Leva o farnel com o gosto de casa, pra não perder a identidade… Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar.

hummm….

Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar…
Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar…
Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar…

Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar.

Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar!!

Quanto maior a bagagem, mais difícil é sair do lugar!!

É isso

Só tenho duas malas na vida A vida é portátil

Oriente

Muito adequado ao meu momento de vida atual. Adoro esta música, mas na versão cantada pelo Boca Livre.
Luciano Queiroz

Oriente

(Gilberto Gil)

Se oriente, rapaz
Pela constelação do Cruzeiro do Sul
Se oriente, rapaz
Pela constatação de que a aranha
Vive do que tece
Vê se não se esquece
Pela simples razão de que tudo merece
Consideração

Considere, rapaz
A possibilidade de ir pro Japão
Num cargueiro do Lloyd lavando o porão
Pela curiosidade de ver
Onde o sol se esconde
Vê se compreende
Pela simples razão de que tudo depende
De determinação

Determine, rapaz
Onde vai ser seu curso de pós-graduação
Se oriente, rapaz
Pela rotação da Terra em torno do Sol
Sorridente, rapaz
Pela continuidade do sonho de Adão

Lamento do pai operário

November 20, 2005

Abençoa Deus, esta menina
de sono tão leve
na noite preocupada
acalenta este momento.

Abençoa Deus, este pai
que sai para trabalhar
no vento frio cortante
deste novo dia derradeiro
espremido entre os iguais
que trabalham nos umbrais
das fábricas, vilas, do cais.
Ele sai para trabalhar
com esperança de patrão
voltar ao destino ditador
de comprar nova sorte, de encontrar novo amor,
carrega como que aço, destila fardo, cansaço….

Luciano Queiroz

Há que se ser generoso

November 19, 2005


Há que se ser generoso. Não economizar jamais os ouvidos. Quando os olhos perceberem defeitos, o coração deve transformá-los em charme. A paciência deve ser o molho de todas as horas, acompanhando o prato principal que é o carinho. Carinho sim, pois paixão passa e o amor vacila. Só o carinho pode ser eterno e constante. Não sei se ainda consigo ser assim pois o tempo resseca a pele. A do coração inclusive. Entenda por favor: brigas e crises virão com insistente constância. Mas se não perdermos o essencial de vista elas passarão, não sem dor, mas passarão. Nosso sorriso de cumplicidade, aquele que tanto queremos alcançar, nascerá da superação destes momentos. Desistir não será uma opção. Desistir será a falta de opção. Desiste quem perdeu o carinho e o respeito. Caso não os encontre no seu par, verifique se não foi você que os perdeu primeiro. Carinho e respeito por você mesmo são igualmente importantes, e aquecerão o fogo de seu par. Viva em paz e seja feliz por dentro, mesmo quando o conflito e a tristeza forem moda.

Ninguém nos ajudará, nem meus conselhos. O fogo queima porque tem que queimar: ele vive o presente, com todas as forças de sua natureza. Mesmo quando se apaga…

Luciano Queiroz

Partida

November 13, 2005

Pra quem gosta de passar por aqui e dar uma lida, desculpe-me o tempo sem escrever. É que estou visitando minha mãe e nem sei mais o que está se passando neste país. O tempo para grandes reflexões está curto. A novidade é que pedi demissão de meu emprego e estou indo morar no Japão. Vocês podem imaginar a quantidade de coisas que terei que resolver neste último mês que me resta antes da partida.
Nessas horas de grandes decisões, é incrível como a intuição acaba sendo nossa maior guia. Tomara que a minha esteja bem calibrada…

Conselho…

November 10, 2005

É impossível para um homem aprender aquilo que ele acha que já sabe.

(Epíteto)

O PT real

Existe um PT que eu gostava. Este PT era o do Prefeito Toninho de Campinas, pelo que vi do bonito depoimento de sua viúva. Um PT ético, que lutaria para acabar com privilégios, enfrentaria quadrilhas organizadas, reduziria o peso do estado, aumentando a eficiência, etc. Este é o PT que queríamos eleito. Este é o partido que a população quis que governasse o Brasil.
Mas fomos enganados. O PT que existe e sempre existiu é outro. Nós fomos enganados, e o Toninho e sua viúva também foram enganados. Hélio Bicudo foi enganado. O PT que existe é outro. A cara é a mesma, mesmo discurso, mesmos símbolos… mas a prática, nossa, a prática… quanta diferença! Este PT real que estamos conhecendo agora, como em uma ficção científica, feriu e abandonou o PT sonhado à sua própria sorte. Usou a utopia e agora mostrou suas garras. Os que representavam o ideal foram sendo assassinados, banidos, punidos, aposentados. O câncer dominou o paciente. Lula não quis receber das mãos da viúva de Toninho um abaixo-assinado pedindo a entrada da PF no caso pois ela desconfiava que não havia sido crime comum. Ele aceitaria no máximo lhe dar um abraço. Aceitaria continuar o teatro, como sempre, mas nada de cobranças, nada de explicações, nada de atitudes. É o ingênuo, que te deixa com pena, mas vai te roubando a casa.
Este é o PT verdadeiro. Há de tudo neste partido real: dissimulação, sonegação de impostos, desvio de dinheiro público, financiamento ilegal de campanha, compra de deputados, tráfico de influência, etc… É como o câncer mesmo. Se disfarça, se esconde na paisagem, mas vai te matando aos poucos. Nossos anticorpos são enganados e quando você vê, já não há mais cura.
Luciano Queiroz

Congelamento Instantâneo

November 9, 2005

Uma coisa está clara: Lula está comprometido. Está comprometido com uma versão e vai com ela até o final. Se a realidade divergir da ladainha, a situação vai deixar de beirar o ridículo, passando ao surrealismo total.
As pesquisas apontam uma população conformada, que dá à Lula a proteção necessária para terminar o mandato. É inexplicável, para quem conhece minimamente o quadro da crise, os ainda razoáveis níveis de popularidade de Lula. Mas acontece que a água, quando deixada no congelador em repouso, resfria-se a temperaturas inferiores a zero sem no entanto congelar. É que as moléculas ficam “preguiçosas”, bastando uma sacudidela para que se congele instantaneamente. Este fenômeno bastante conhecido aos chegados numa cervejinha, pode ser a explicação ao que está acontecendo hoje com o eleitorado. Dá pra sentir uma tensão no ar. A temperatura está ficando abaixo de zero. Mas ninguém parece ainda estar disposto à dar uma “gelada” em Lula. O perigo é que as sacudidelas comecem a aparecer em breve, ou na pior das hipóteses, na campanha eleitoral. Existe o risco de que haja um fenômeno instantâneo de revolta e desaprovação, acordado por uma fagulha. Pode sim acontecer. E o opositor que souber produzir esta fagulha, ou surfar muito bem esta onda, tem grandes chances de ser o próximo presidente.
A oposição hoje pode estar cometendo um erro histórico, de esperar demais o congelamento, e no entanto ser surpreendida por sua velocidade.

Luciano Queiroz

Revoltas Brasileiras

November 8, 2005

Vejam como a maioria das revoltas brasileiras é limitada a interesses menores. Ainda que justos, menores. É a nossa identidade, que só vence a barreira da passividade quando oprimida ao extremo. Ainda assim, só se revolta contra o mal pontual, se entregando docilmente de volta ao jugo opressor quando se aliviam as tensões. Ideais utópicos de liberdade, igualdade e fraternidade não habitam nessas terras…
Luciano Queiroz

A REVOLTA DA VACINA

Ocorreu no Rio de Janeiro em 1906, contra a política de vacinação forçada adotada pelo governo de Rodrigues Alves no combate à epidemia de varíola.
No início do século, a capital do país foi assolda por algumas epidemias, como a peste bubônica e a varíola, e contra esta última, o governo promoveu a vacinação da população.

Vários fatores contribuíram para a rebelião popular:
1) A vacinação foi decretada obrigatória, e o governo formou então as brigadas sanitárias, grupos encarregados de promover a vacinação nos bairros e que utilizou-se de grande violência.
2) A propaganda contrária realizada por grupos monarquistas, aproveitando-se do desconhecimento da situação por parte da população, estimulando-a à rebelião. Notem que nos dois casos há um profundo desprezo pelas camadas populares. As elites, no poder ou na oposição, não possuíam a mínima preocupação em esclarecer a sociedade em relação aos procedimentos adotados.
A rebelião ocorreu nos bairros, onde a população ergueu barricadas e com pau e pedras enfrentou a polícia. Após intensa repressão e a prisão de várias pessoas, a vacinação foi completada, eliminando-se a varíola da cidade.

A REVOLTA DA CHIBATA

O movimento iniciou-se em 22 de novembro de 1910 no navio Minas Gerais. Os marinheiros rebelaram-se contra os maus tratos, comuns na marinha brasileira, em especial, o costume de chicotear os marinheiros considerados faltosos.
Apesar de ocorrer contra os castigos determinados ao marinheiro Marcelino Menezes, a revolta já vinha sendo preparada há meses, e os marinheiros estavam bem organizados, dominando com rapidez outras embarcações.
Apontando os canhões para a cidade do Rio de Janeiro, os marinheiros exigiam o fim dos castigos corporais e a melhoria na alimentação, e o governo de Hermes da Fonseca, foi obrigado a atender às reivindicações e a conceder anistia aos líderes do movimento.
Apesar de eliminada a chibata, os líderes acabaram presos e muitos morreram torturados. O principal líder, o marinheiro João Candido, conhecido como “Almirante Negro” acabou sendo absolvido em 1912.

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Retratos da Cidade - 2

November 7, 2005

Ainda sobre as minhas andanças na última ida à Florianópolis, a cidade onde fui criado.
Tive a grata oportunidade de encontrar no centro da cidade, no que chamamos de calçadão (ruas fechadas aos pedestres), uma apresentação do boi-de-mamão. O boi-de-mamão pra quem não sabe, tem a mesma origem do boi-bumbá do nordeste que, se eu não estou enganado, vem de Portugal, da Ilha dos Açores.
Fiquei muito emocionado, lágrimas aos olhos, tentando me posicionar discretamente pra disfarçar minha comoção. Lembrei-me de quando era pequeno e de quando em algumas oportunidades presenciei o boi-de-mamão em sua forma tradicional, autêntica, e não aquele tentativa que ali estava de manter viva a memória de uma época. Naqueles tempos de moleque, o boi-de mamão era brincado assim: o grupo organizador se reunia com todos os personagens em um lugar marcado. O boi (que tinha a cabeça tradicionalmente feita de mamão, daí o nome) era o personagem principal. Então a música começava, bem marcada, com o puxador chamando e o povo respondendo: “Ô dono da caaasa, a sua licença, pro meu boi dançaaá, na sua presença…”. Assim iam pedindo autorização pra ir entrando nas casas chamando o povo pra rua. Iam de casa em casa. A cada família, a multidão crescia e a cantoria ficava mais forte: “Ô meu cavalinhooooo, ele já chegooou, e o dono da caaasa, já cumprimentou….”. No final, todos se reuniam numa praça, num largo ou algo assim, e a história do boi se desenrolava. O boi ficava doente, vinha o médico, os urubus, as cabras, a maricota, a bernuça… A bernuça era a que mais assustava pois era uma tripa de pessoas debaixo de um lençol e uma bocarra de dragão. Ela vinha e engolia a pessoa pela boca grande e esta passava a ser parte da bernuça. Era o máximo Quando tinha gente suficiente nascia um filhote da bernuça.
Resumindo era uma grande festa, que fazia com que as pessoas viessem pra rua, se conhecer. Vizinhos falavam com vizinhos. Riam juntos, dançavam juntos. Surgia ali uma consciência de comunidade, de pessoas que têm algo em comum, uma identidade.
Assim é que nasce um povo. Um povo que se coloca como povo, unido, pronto pra batalhar e se ajudar. O boi-de-mamão pra mim era tudo isso. Era um grito de protesto, contra a sociedade que individualiza, que acredita nos muros, nas distâncias, no consumo. O boi travava a cada festa sua luta particular, convidando as pessoas a se amarem, a partilharem, a acreditar que uma comunidade unida pode vencer seus desafios.
Infelizmente o boi já quase desapareceu. Perdeu sua luta contra o progresso, que nos faz melancólicos com a saudade do que não conhecemos. Um sentimento de solidão que nos assola, órfãos que somos de um tempo mais humano.
Mas eu vou botar meu boi na rua. Quero ver meu boi brincar….

Luciano Queiroz

Post da Amanda!

November 4, 2005

Minha amiga amanda, aquela do Sorvete de Café, pediu pra eu postar este comentário dela aqui no blog:

“Gostei muito do Blog do Lu, reflete bem o que ele é e pensa.. só achei que pelo fato dele escrever MUITO bem, poderia nos premiar com mais textos de sua própria autoria…
Aí Lu, esse é o comentário e vai lá rapaz: usa mais esses dotes que vc tem!
Bjos”

Tá legal Amanda (risos). Eu sei que tenho que escrever mais e este foi o objetivo deste espaço. Prometo me esforçar mais e resolver alguns problemas que me dificultam a atividade, como por exemplo, comprar uma escrivaninha melhor. A minha é péssima e dá sono.
Se um dia você quiser escrever algo pra colocar aqui, seja minha convidada! Um beijo pra voce!
Luciano Queiroz

Retratos da Cidade - 1

November 1, 2005

Ontem eu caminhei pela minha cidade. Fiquei meio triste ao ver que alguns lugares tradicionais estão desfigurados. Um bar tradicional virou uma financeira, uma confeitaria da época de criança hoje se transformou em loja de roupa feminina e muitos outros casos. Somos mesmo um povo sem memória, que não reconhece sua cidade como um referencial permanente. Por isso é que não nos importamos com o coletivo, com o meio ambiente, com nada além da individualidade. Porque nossos elos emocionais com o comunitário são abandonados, são varridos pelo capitalismo sem regras. A cidade deixa de ser aquele lugar aconchegante para ser um espaço frio, que não respeita memórias, que não pede respeito. É por isso que somos um povo individualista. Que pena, que tristeza…

Luciano Queiroz