Que mania de Príncipe herdeiro
Valéria Grassi – Blog do Noblat
O calor está insuportável, o seu carro não tem ar condicionado e, no entanto, você está ali, agüentando firme um engarrafamento que vai acabar lhe atrasando para coisas urgentes, urgentíssimas. Todo congestionamento de trânsito é igual: não está nem aí para as suas urgências e, democraticamente, atropela todas elas. É quando você percebe que precisa entrar em contato com o seu lado zen para enfrentar o atraso com paciência. Você respira fundo e nada do carro andar. Você tenta cantarolar e nada do trânsito fluir. O seu lado zen começa a querer enfraquecer quando eis que de repente, não mais que de repente, surge ele, todo serelepe, todo ligeirinho. Ele quem? Aquele que vai sumir com o seu lado zen de uma vez por todas: o carro que, espertamente, ultrapassa você pelo acostamento. Câmera lenta, por favor, para essa ultrapassagem pela direita, e zoom no seu queixo, que cai lentamente, não acreditando no inusitado da cena.
Os 30 Km que ele consegue desenvolver no acostamento são para você, que está um tempão parado, velocidade de fórmula um. Você começa a calcular o quanto as suas coisas urgentes poderiam se beneficiar com os minutos ganhos se você tivesse a mesma atitude. 2 minutos? 3? Você se dá conta de que lá na frente o espertinho não só fica engarrafado também como consegue aumentar ainda mais a confusão do trânsito porque é claro que depois que um tem a idéia, sempre aparece quem acompanhe. Dá vontade de sair atrás do sujeito para fazer com que ele volte, respeite a fila, respeite os outros, considere a gota de suor que ensaia cair do seu rosto e preste atenção em todos os outros mortais com coisas urgentes para fazer que estão exatamente no lugar que lhes coube na fila e não cortando pelo acostamento.
Parece que foi outro dia que o velho guerreiro estava por aqui perguntando: – Vai para o trono ou não vai?
O calouro precisava fazer bonito para ir para o trono.
Na vida que a gente vive agora o que tem de gente fazendo feio, cortando pelo acostamento, fazendo um papelão danado e mesmo assim achando que tem condições de ir para o trono, não tá brincadeira.
Encontramos, cá por estas bandas, pessoas que ainda se comportam como se fossem da família real, verdadeiros príncipes herdeiros. Pessoas que acham que o trono já está garantido, mesmo que façam as maiores besteiras do mundo. A pessoa que pensa que é um príncipe herdeiro quer ir para o trono sem mérito nenhum porque acredita que só o fato de ter nascido já fará dele um dia, rei.
Precisamos avisar a essas pessoas que a República já foi proclamada. Cá por estas bandas, agora, o trono é de quem merece, de quem faz por onde, de quem mostra ao que veio e de quem, acima de tudo, nos respeita. Ou pelo menos não é assim que deveria ser?
Valéria Grassi é escritora e livreira
