SIM ou NÃO - A falsidade de um argumento

October 23, 2005

“Parei de fumar há dois anos. Minha mulher tentou, mas não conseguiu. A lei proibe o fumo em locais fechados. Nada deixa minha mulher mais irritada do que não poder fumar em restaurantes.
“Tenho o direito de fumar mesmo sabendo que me faz mal. Cassam meu direito ao fumo quando me impedem de fumar onde quero”, ela costuma se queixar.
Hoje, ela votará SIM no referendo que proibe a venda de armas. A maioria dos brasileiros votará NÃO.
Chico Santa Rita, o marqueteiro responsável pela campanha do NÃO, apontou em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo o argumento que melhor funcionou para convencer as pessoas a votarem NÃO: – Estão lhe cassando o direito de ter uma arma para se defender.
O mesmo marqueteiro fez a campanha do presidencialismo que derrotou o parlamentarismo no plebiscito de 1993. E usou o mesmo argumento: – Estão lhe cassando o direito de eleger o presidente da República.
Quando o Brasil estava prestes a abolir a escravatura, o direito de ter escravos foi invocado pelos antiabolicionistas, lembra o escritor Luiz Fernando Verissimo em sua crônica dominical.
O Brasil foi o último país a acabar com a escravatura.
Os cariocas foram vacinados na marra contra a varíola, e o cientista Oswaldo Cruz satanizado na época. Os cariocas se sentiram lesados no seu direito de dizer NÃO à vacina. Acreditavam que ela lhes faria mal.
O referendo de hoje não cassará o direito à posse de uma arma. Cercará esse direito de mais cuidados. Haverá mais exigências para que se possa ter uma arma.
As restrições ao fumo se tornam cada vez mais rigorosas por toda parte. Porque o fumo não ameaça apenas a vida do fumante – mas também a dos que não fumam.
Minha mulher sabe disso. E, no entanto, quer ter o direito de fumar onde bem deseje.
A posse de uma arma por quem não é exímio atirador ameaça a vida dele, a vida dos que cruzam com ele e faz a festa dos bandidos que podem tomá-la.
Alguns poucos milhares de brasileiros, em um país de 122 milhões de eleitores, têm armas em casa. É menor ainda o número daqueles que podem contratar seguranças armados.
É por tudo isso – mas não só – que votarei SIM daqui a pouco.”

Noblat

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