Saio feliz do plebiscito
Este é um plebiscito que não tem jeito de terminar mal para mim. Vou votar no Sim. Não votarei em protesto ao Governo Lula. Não votarei à favor do Governo Lula. Não votarei interessado no resultado e nem sei se acredito que nossa sociedade amanhecerá diferente. Sei que para alguns o resultado será a diferença entre a vida e a morte e sei que meu sim é uma resposta solidária e solitária à esse fato. Eu voto por coerência. Voto por ética. Voto por compromisso.
Tenho um compromisso com a vida e uma posição pessoal contra tudo o que ameaçe esta vida. Por isso a Ecologia, por isso a Justiça Social, por isso a Saúde. Nós, os que sobramos votando no Sim, somos os mesmos que acreditamos que o direito à vida é uma noção comunitária e solidária. Porque direito não é mérito. No Brasil que vota no Não, pobre e bandido têm que morrer. Não merecem o mesmo tratamento que o resto. O senso de justiça que prevaleçe em nosso país, estabelece que a minoria privilegiada tem todos os direitos e nega cinicamente os mesmos direitos aos de baixo. A classe do Não, pensa que o pobre não tem desculpa pra não ser honesto. Julga com dureza até as crianças que moram na rua, cobrando delas o que não deveria ser cobrado e negando o que deveria ser dado. Reservam à si toda a compreensão com seus erros e julgam como tiranos os inimigos na guerra social. A classe do Não pensa que se virou bem até agora, então não deve nada pra ninguém e não quer que ninguém venha se meter nos seus negócios. Defende o que julga ser seu direito, pois do seu portão pra fora cada um se vira por si.
Eu sei que generalizo, mas vejo uma postura em jogo. A postura de nossa sociedade que há muito perdeu a sensibilidade. Uma sociedade de classes que querem apenas cobrar a sua parte, querem se defender uns dos outros, cegamente defendendo o direito de resolver por si mesmo e negando o caminho coletivo. É a reafirmação das Raízes do Brasil de Sérgio Buarque, nossa tese existencial individualista, que mata no ninho qualquer traço de comunidade que o horizonte possa nos trazer. – Não toque no indivíduo!, clama a massa, nem que pra isso se penalize a sociedade. “-Que se dane a sociedade!” Esta é a história de nosso povo. Este é o princípio que nos faz recusar o mutirão, a cooperativa, a comunidade, e que nos empurra para a idolatria dos bem-afortunados, dos heróis, dos políticos salvadores, das estrelas de sucesso. Negamos nossa luta como povo, para defendermos à nós mesmos em nossas trincheiras. Pobre povo sem ideais. Quando os nazistas ordenaram a todos os judeus da Dinamarca que usassem a estrela amarela de Davi no braço, o rei da Dinamarca andou de bicicleta por toda a cidade de Copenhagen usando uma estrela. Logo a maioria dos dinamarqueses usava uma estrela também, e os nazistas não conseguiam saber quem era judeu e quem cristão. Nós estamos provando que seríamos incapazes deste ato de nobreza. Ficaríamos lamentando a sorte dos Judeus e celebrando nossa sorte. Pode ser que eu esteja errado, mas não encontro na nossa história uma prova do contrário.
Por isso é que fico feliz por ver o tamanho dos que ainda acreditam num país comunitário. Acreditam num país que pode resolver seus problemas em conjunto, encarando suas verdadeiras mazelas, ao invés de acreditar que “alguém” deve fazer alguma coisa. Podemos não ser a maioria mas estamos presentes e faremos a diferença, hoje, amanhã, ou algum dia…
Luciano Queiroz

so sorry… discordo….
bju!
Comment by themis — November 4, 2005 @ 5:39 pm