Beijocas na balzaca

September 12, 2005

Beijocas na balzaca

“Antes de qualquer coisa vamos esclarecer: por “trinta” entenda-se aqui a longa faixa que se estende dos vinte-e-seis aos quarenta-e-poucos anos (com margens de erro à vontade), durante a qual a mulher atinge, em algum momento, a plenitude em beleza, sensualidade, inteligência, serenidade, tudo ao mesmo tempo agora, equidistância exata entre o verde e o maduro.


É como aquele momento da contemplação do céu (poente ou nascente) em que as cores e tonalidades equilibram-se num panorama irretocável que, alguns segundos antes, era ainda incompleto, e alguns segundos depois terá passado, por falta ou excesso de luz.


Nada contra as lurdinhas . São uns bijus. Fazem titio reviver seus vinte anos e até sua adolescência. Enchem de vigor titio temeroso da marcha do tempo. Sorte de titio quando conquista coração de lurdinha. E ai de titio se Lurdinha descobrir, lá adiante, que o velhuco careca era só uma projeção paterna.


Mas titio sabe também de outras coisas, e é bem possível que seja ele a abandonar o jovem pitéu em benefício da primeira trintona que lhe mire os olhos com aqueles outros olhos trintões derramados de sábia esperteza, de quem já viu e viveu coisa (quando não viveu ao menos viu, ouviu), com o corpo amaciado pelo tempero da vida, a cabeça muito cheia de tudo que é rock e shop e chope e joke , com um quê na expressão de alma companheira e amiga plena de gás, ao mesmo tempo capaz de apreciar o frescor da tarde sem pressa de partir para a próxima parada .


Vou contar uma coisa. Essa semana titio passava por uma banca de jornal quando viu uma revistinha feminina com a foto da Cléo Pires na capa e a manchete: “É das lolitas que eles gostam mais”. Podem dizer que envelheci (o que é verdade num certo aspecto), mas titio ficou meio incomodado. Ora, a Lurdinha de Glória Perez tem 18. A Cléo de Glória Pires tem uns vinte e poucos (não demora a balzaquiar ). Mas Lolita? Pô! A ninfa de Nabokov tinha 12 anos! Mó chave de cadeia! Dimenor !


As balzacas, creio, estão evoluindo. Em outras épocas, a personagem de Cléo provocaria ondas de protestos nas ruas e passeatas caseiras, mas não: vejo que os frutos da emancipação já perfumam casas e ruas. Verdade que à base de muito fitness , bike, shiatsu, Lacan e terapias alternativas como liberdade e alegria, injetadas pela.. errr. .. inteligência emocional, ó, pá!


Pensando bem… que condição abençoada essa do titio! Outro dia vi uma dessas pesquisas sobre a novela, em que juveníssimas brasileiras respondiam o que achavam da relação entre o Glauco e a Lurdinha. Uma dizia: “tenho pena dos tios”. Outra soprava: “adoro um tio”. Ou seja, fazendo o balanço, titio fica com metade das lurdinhas e com as balzacas todas (menos as que dão para cair de amores por garotões, se bem que essas acabam voltando para colo de titio). Sem falar nas pós-balzacas que, mais dia, menos dia, terminam por pintar no pedaço batendo um bolão. Tudo adicionado aos benefícios que, chez titio, a experiência e a maior tranqüilidade trazem ao motor semi-novo que faz girar corpo e alma de todo cowboy . E viva Clint Eastwood!”

Arnaldo Bloch

Leia a matéria em O Globo

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