
A casa ficava em um bairro mais afastado, distante de Centro. Saindo da rodovia principal, que leva em direção as praias do norte, chegava-se à um bairro humilde de pescadores e manezinhos de muitas gerações. A rua ampla seguia tortuosa pela encosta dos morros do local que, se deixassem, terminariam n’água. As lajotas mal alinhadas, que chegaram no mês de nascimento de minha irmã mais nova, davam um ar de progresso, nesta comunidade tão pouco acostumada às modernidades. Pra cima da rua, na inclinação ainda muito verde, casas simples de quintais amplos com aparência rural, em pouco lembrando o mar ali tão perto. A exceção ficava na reta principal, onde casas mais apertadas ladeavam, emoldurando a padaria e o “mini-mercado”, além de servir de ponto de encontro para os habitantes nas noites quentes e sem vento. Completava-se a vila, a escola e a igreja, solitária no alto de um morrote, impondo uma ladeira curta aos fiéis da missa de domingo. No lado que descia para o mar, não era raro observar-se as redes, os barcos, e um ou outro transeunte carregando algum cesto com o fruto da pescaria do nascer do dia. Nossa casa se distinguia das demais, ficando já para o final do bairro, com seu muro de pedra imponente e um telhadinho sobre o portão sempre aberto, o que acabara tornado-o ponto de referência para alguns. Ficava logo ali, seguindo em frente após à singela igrejinha da Assembléia de Deus e da “tendinha”, que se tratava de um barzinho de madeira em que mal cabiam três pessoas dentro.
Aquele dia seguia lânguido, embalado pelo sol forte e a brisa nordeste que começava a soprar incômoda, trazendo o cheiro da chuva que se sabia não ia demorar a chegar. O dia, que mal passara do seu meio, eu já sentia comprido depois da manhã inteira na escola, e da espera infindável por meu pai, que nos buscava na pracinha quando conseguia sair do trabalho. Geralmente isso significava quase uma hora de espera, o que servia para transformar o momento da chegada em casa em sinônimo de liberdade. A porta do fusca se abrindo, nos mostrava sempre o rosto feliz de minha mãe, às vezes escondendo alguma preocupação cotidiana, e a mesa posta, num momento só interrompido pelas brigas insistentes entre eu e minha irmã. Ali, na mesa da copa, a luz do dia entrava trazendo consigo o brilho do mar; um convite às brincadeiras e provavelmente um desafio para meu pai, que tinha que retornar ao trabalho. Ali, os momentos de silêncio eram sempre preenchidos pelo morrer das pequenas marolas da baía, que raras vezes silenciavam e que, quando faziam, deixavam profunda impressão de mansidão em minha alma.
Minha tarde invariavelmente começava com uma “expedição” pelo terreno, facão na mão que minha mãe não sei porque me deixava portar, inspecionando cada canto ansioso por alguma descoberta. O quintal era enorme. Perto do portão que dava para a rua, ficava a caixa d’água. Era uma construção parecendo um tijolo em pé, lembrando uma pequeno forte. Perto dele, à uns quinze metros, se equilibrava em pé a “casa velha”, que era a casa original do terreno e onde eu tinha medo de entrar sozinho. Meu pai a transformou em oficina e em casa de caseiro, mas a sua idade avançada, o piso de tábuas que rangia e que revelava o espaço entre a casa e o solo, a poeira e as teias de aranha, a pouca luz, davam um ar bem assustador ao recinto. Mas até lá eu tinha que fiscalizar na volta inicial. Fora isso, o quintal era cheio de recantos: um pequeno laguinho com peixes e sapos, incontáveis bananeiras, jaboticabeiras bem generosas, árvores de inúmeras espécies, sem contar a horta de meu avô, que já ficava na parte de baixo do terreno, perto da praia, onde vez ou outra eu roubava uma cenoura sob o olhar de aprovação do “Seo” Manuel. Por fim, ia para o portão de baixo, que se abria para a areia a menos de dois metros da água em dia de maré cheia.
Mas aquele dia prometia ser mais um dos meus prediletos. A natureza sabe, assim como os pescadores, quando algo está para acontecer. O silêncio pouco usual revelando a calmaria que prenuncia a tormenta já se fazia sentir. Como eu gostava daquilo! Corri pela praia para chegar ao trapiche e fui até o seu final. De lá se podia ver além da ponta da praia, onde havia uma enseada enorme totalmente tomada pelo mangue numa visão difícil de se esquecer. Não pude ver se os meninos da praia, meus colegas, estavam por ali mas em dias assim, eles geralmente tinham outros afazeres que eu nunca soube quais eram.
E foi assim, no barulho silencioso do vento que já soprava forte, que o céu adquiriu uma cor metálica, profunda. As ondas se avolumaram e ao longe, bem longe, lá pelos morros de Biguaçu do outro lado da baía, já se podia ver o céu ainda mais escuro, escondendo aos poucos o sol e finalizando o dia mais cedo que o normal. Fiquei mais uns instantes ali, sozinho, observando algumas baleeiras que eram apressadamente fundeadas e o revoar dos biguás no mangue, como se preparando para aceitar mais uma provação.
Quando a primeira rajada de vento se desenhou na água, eu sabia que era hora de correr. Não por medo, até porque um banho de chuva era sempre uma diversão mesmo em caso de tempestade. Isso me rendera alguns olhares repreendedores de minha mãe em outras ocasiões, sem contar minha avó, que morria de medo de raios. Eu não. Achava que raios não caiam em gente, muito menos em crianças como eu. Naquela hora corri pois era hora de voar para meu posto de observação avançado. Como um foguete subi os mais de cem metros que separavam a praia da nossa casa e passei por minha mãe zelosa em fechar todas as portas, discutindo agoniada com o vento que insistia em jogar folhas e mais folhas para dentro. Subi as escadas pulando, como era de meu costume pois achava perda de tempo usar todos os degraus, e corri para a varanda de cima, de onde se via, do canto direito, todo o espetáculo. De camarote, observava atentamente as ondas pra fora de nossa enseada, que criavam espumas brancas como ovelhas, mostrando todo o poder daquele tempo. O cinza, que já tomara conta da paisagem, abria espaço para as nuvens gigantescas, com sua sombra negra. – Oba, hoje haverão muitos raios! Pensava eu, entretido com aquela transformação repentina do meu mundo morno de tardes compridas. Observava a marca das rajadas na água e ficava esperando que me atingissem, sem entender como gaivotas teimosas insistiam em voar com um tempo assim. E desta forma eu ficava, impressionado pela força daquela natureza que eu não compreendia. Cada raio, cada trovão, a chuva que se fechava como uma cortina celeste e envolvia meu reino, limpando as folhas, as plantas minhas companheiras de todos os dias. Tudo me ensinava a entender o ritmo das coisas, o ritmo inexorável da vida. Os pequenos córregos que se formavam eram uma novidade sem fim e um convite à imaginação. E assim ia eu, brincar lá fora de “represa” sob as asas da compreensão carinhosa de minha mãe.
Assim a vida veio e me levou, mas as lições ficaram, daqueles momentos de excitação com a simplicidade infinita.
Luciano Queiroz