As the world falls down

September 30, 2005


There’s such a sad love
Deep in your eyes, a kind of pale jewel
Open and closed within your eyes
I’ll place the sky within your eyes

There’s such a fooled heart
Beating so fast in search of new dreams
A love that will last within your heart
I’ll place the moon within your heart

As the pain sweeps through
Makes no sense for you
Every thrill has gone
Wasn’t too much fun at all
But I’ll be there for you
As the world falls down…

David Bowie

O coração

O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um — tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro — voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças —,
Vive do aroma — que se diz — amor. —

Castro Alves

Castro Alves


Antônio de Castro Alves nasceu a 14 de março de 1847 na comarca de Cachoeira, na Bahia, e faleceu a 6 de julho de 1871, em Salvador, no mesmo estado brasileiro. Fez o curso primário no Ginásio Baiano. Em 1862 ingressou na Faculdade de Direito de Recife. Datam desse tempo os seus amores com a atriz portuguesa Eugênia Câmara e a composição dos primeiros poemas abolicionistas : Os Escravos e A Cachoeira de Paulo Afonso, declamando-os em comícios cívicos.
Em 1867 deixa Recife, indo para a Bahia, onde faz representar seu drama : Gonzaga. Segue depois para o Rio de Janeiro, recebendo aí incentivos promissores de José de Alencar, Francisco Otaviano e Machado de Assis.
Em São Paulo, encontra nas Arcadas a mais brilhante das gerações, na qual se contavam Rui Barbosa, Joaquim Nabuco, Rodrigues Alves, Afonso Pena, Bias Fortes e tantos outros. Vive, então, os seus dias de maior glória.
A 11 de novembro de 1868, em caçada nos arredores de São Paulo, feriu o calcanhar esquerdo com um tiro de espingarda, resultando-lhe a amputação do pé. Sobreveio, em seguida, a tuberculose, sendo obrigado a voltar à Bahia, onde veio a falecer.
Castro Alves pertenceu à Terceira Geração da Poesia Romântica (Social ou Condoreira), caracterizada pelos ideais abolicionistas e republicanos, sendo considerado a maior expressão da época. Sobre o grande poeta, Ronald de Carvalho diz : “- mais perto andou da alma nacional e o que mais tem influído em nossa poesia, ainda que, por todos os modos, tentem disfarçar essa influência, na verdade sensível e profunda”.
Suas obras : Espumas Flutuantes, Gonzaga ou A Revolução de Minas, Cachoeira de Paulo Afonso, Vozes D’África, O Navio Negreiro, etc.
Fonte

Sossego

September 29, 2005


Tardes compridas, vira-latas, pra se curtir à dois…
Este é o meu espírito nestes dias.

O Jantar

September 28, 2005


As horas seguiam lentamente, enquanto Laura repassava o plano. Hoje o homem a qual desejava iria jantar em sua casa. – Qual era o tempero mesmo? Açafrão? Orégano? Acho que era orégano… – Repassava cada detalhe, ansiosa para que tudo desse certo. A faxineira em casa, arrumando a casa de maneira que ela mesma não seria capaz, e ela na frente do trabalho diário, traçando o plano de ação. Devia ser simpática, mas sem ser atirada. Descontraída, mas não desleixada. Já não havia espaço em sua mente para os detalhes do dia, apenas uma sensação interna, um calafrio constante, típico da expectativa extrema. No fundo sabia que nada sairia como planejado, mas seu íntimo se alimentava mais de expectativas que de realizações, como quem salta de um barco ao outro. E as horas, mesmo lentamente, acabam passando e assim Laura se foi. Pronta pra cozinhar como nunca, torcendo para que o prazer do paladar fosse o início de algo maior que a dura realidade.

Luciano Queiroz

Dicas Domésticas

September 26, 2005

Eu estava procurando uma maneira de recuperar uns sapatos de “nobuck” que tenho e descobri este site. Tem dicas domésticas interessantes.

“SAPATOS:

  • Camurça: limpe com uma escova de cerdas de aço ou náilon no sentido dos pelos, sempre a seco. Esfregue a sujeira mais difícil com uma escova molhada em água morna e sabão. Em peças mais velhas você pode passar uma lixa de unha, pelo lado mais fino – isso fará com que os sapatos aguentem por mais um tempinho.”

Luciano Queiroz

“Receita para se fazer um herói”

September 22, 2005

“Pega-se um homem
Feito de nada como nós
Em tamanho natural
Embebece-lhe a carne
De um jeito irracional
Como a fome, como ódio.

Depois, perto do fim
Levanta-se o pendão
E toca-se o clarim
E toca-se o clarim

Serve-se morto!
Serve-se morto!”

Banda IRA!

Porque vou votar sim para o desarmamento

September 20, 2005

“No início de 2003, quando tomava corpo o debate sobre o desarmamento, duas posições radicais e antagônicas estavam presentes. Uma defendia a pura, simples e integral proibição do comércio de armas, porque isso provocaria redução substancial da criminalidade, e a outra patrocinava o comércio completamente livre, sem amarras legais, porque andar armado seria um direito do cidadão sobre o qual o Estado não deveria intervir e, em defesa dessa sua tese, apontava-se um absurdo argumento da possibilidade de aumento da criminalidade no caso da proibição.

Chamada ao debate, em maio daquele ano (2003), preparei um artigo que ganhou o título “Os danos da proibição”, no qual defendi a regulamentação do porte de armas e falei do risco de se proibir sua comercialização de maneira integral e completa. Elogiei a legislação que melhorava o controle e limitava o porte de armas de fogo e alertei a população para a necessidade de cobrar a adoção de medidas complementares, porque a simples proibição ou regulamentação, sem outras medidas, não produziria os reflexos esperados sobre os números da criminalidade.

Depois de apresentar dados do mercado clandestino de armas e falar das experiências da Lei Seca e da reserva de mercado de informática, que estimularam o mercado negro de bebidas e computadores, afirmei: “(...) é bom retirar do debate a idéia equivocada de que os que são contra a mera proibição estão no pólo oposto da argumentação, propondo ‘às armas, cidadãos’. Não é assim. Acredito na eficiência da regulamentação e no controle rigoroso da fabricação, do porte e da importação de armas. Acredito na responsabilização direta e penal de todo aquele que, mesmo não portando armas, estimule o porte ilegal. Venho defendendo publicamente esses pontos de vista desde o começo dos anos 90. O caminho do controle foi tomado em fevereiro de 1997, com a edição da lei 9.437(...). Recentemente o Senado melhorou ainda mais a lei, aprovando um projeto que, entre outras medidas, torna o porte ilegal de armas um crime inafiançável. A proposta do Senado será submetida à Câmara, onde terá o meu apoio.”

Quem reler o artigo “Os danos da proibição”, comparando-o com o Estatuto do Desarmamento, que nasceu sete meses depois, encontrará coincidências evidentes, porque, em maio, eu pedia a regulamentação e a limitação do porte de armas de fogo, o que aconteceu, em dezembro, com o Estatuto do Desarmamento.

O Estatuto do Desarmamento, o referendo, a lei 10.867, de 12 de maio de 2004, e o decreto 5.123, de 1 de julho do mesmo ano, surgiram na direção do bom senso que sempre defendi, um sentimento que percebi quando escrevi, no término do artigo “Os danos da proibição”: “A proposta do Senado será submetida à Câmara, onde terá o meu apoio.”

Sinto-me obrigada a retornar ao assunto, porque, na internet, claramente com o objetivo de confundir, numa atitude de baixa política e de leviano comportamento, circula o artigo publicado em maio de 2003, que está disponível em minha página na internet. Circula com um tom que não lhe dei e com um sentido que não tinha e não tem, para atribuir a mim, a partir do título, “Os danos da proibição”, a preferência pelo “não”, na resposta ao referendo. Com as mesmas intenções, um jornal do Rio de Janeiro, sem previamente me ouvir, resolveu, há poucos dias, republicar o artigo. Sei quem o fez, porque mandei apurar.

Perdem tempo com este jogo bobo, porque a minha opção pelo desarmamento é clara, indiscutível, e está demonstrada até pela minha decisão pessoal de nunca andar armada, mesmo tendo porte legal e passado por momentos na vida em que muitos aconselhavam o contrário.

De maneira definitiva: votarei “sim” no referendo, e com o meu voto estarei confirmando a minha opção pelos dispositivos do Estatuto do Desarmamento e das leis que limitam e regulamentam o porte de armas de fogo.”

DENISE FROSSARD é deputada federal (PPS-RJ).


Fonte: Site de Denise Frossard

Sou bom em quê?

Quando pequeno, eu tinha boas notas mas não eram as melhores da sala. Era esforçado no futebol, mas francamente era uma negação com a bola nos pés. Tentei aulas de volei e, fracasso total. Na natação fui mais longe, disputando até competições. Mas quando não era algum desastre como um óculos de natação que parava no pescoço na hora do salto de largada, eu não conseguia chegar em primeiro. Fiz travessias à nado e gostava até. Mas não enxergo direito e acabava fazendo um passeio curvo em vez de uma linha reta, comprometendo completamente minhas chances. Na corrida eu era promissor. Até que na minha primeira competição o cara do carro que vem acompanhando o último lugar ficou atrás de mim o tempo todo. Desisti.
Resolvi apelar pras competições não físicas. Disputava torneio intelectual e xadrez nas olimpíadas do colégio. Acho que fui pior do que na natação. Depois veio a faculdade e não sabia colar direito, não conseguia estudar e acabei levando muito mais tempo pra me formar. Agora gosto de cozinhar, mas só algumas coisas ficam boas. Fotografia é uma paixão e por isso espero que um dia eu fique bom nisso. Toco violão e flauta mas esta última mais sofrivelmente do que o primeiro.
Pensei que talvez eu tivesse vocação pra ficar rico então e apliquei na bolsa. Se você quiser ganhar dinheiro faça o oposto de qualquer coisa que eu faça. Perdi um bocado.
Bem, mas se apesar disso tudo eu fui um exímio conquistador então compensaria uma coisa pela outra, não é mesmo? É, mas não fui. Não posso me queixar demais mas tive que gaguejar muito pra ter êxito em minhas paqueras.
Gosto de computador mas não entendo muito, gosto de mecânica mas não entendo muito, gosto de arte mas entendo pouco. Trabalhei com Logística, Qualidade, Aviação… o suficiente pra não conseguir ser muito bom em nenhuma delas. Treino Aikido à cinco anos… mas tô na terceira faixa ainda.
Bem, é isso. Não consigo lembrar algo em que seja bom. Tá difícil de deixar uma marca, um feito pra ser lembrado neste mundo.
Mas não sou infeliz, frustrado ou coisa que o valha. Por não ser bom em nada, fiz de tudo. Experimentei tudo. Nada foi muito fácil e nem insuportavelmente difícil. Descobri com o tempo que ser ótimo pode não ser tão importante. Sou bom sim em muitas coisas. Coisas que me são muito úteis hoje, mais do que seria ter ganhado todos os campeonatos de xadrez do colégio. Tenho ainda que aprender mais a rir das coisas em que não sou um fenômeno, e descobrir algo pra me dedicar um pouco mais. Tenho que me levar menos à sério e colocar mais paixão nos meus projetos. Tenho que tentar ser um ser humano melhor. E eu sou bom nisso.

Luciano Queiroz

Porque escrevo?

September 19, 2005

Bom, andei me questionando se escrevo muito por aqui sobre política. Se coloco textos demais, longos demais, se insisto em um tema talvez de menor interesse, comparado à outros de outros blogs. Após muito ruminar, cheguei à algumas conclusões:
A primeira diz que devo ser sincero comigo mesmo, para ter algum crédito neste espaço. Acho fundamental que se estimule o debate elevado de idéias. Navegue pela internet e você verá toneladas de material superficial, inútil e divertido. Ótimo. Eu os adoro para passar o tempo. Mas creio que é importante tomar emprestado dos livros a densidade, a reflexão profunda, os questionamentos, e somar à isso a interatividade que só a web é capaz de proporcionar.
E mais: como não falar de política? Minha conta no banco no negativo, impostos pesados, uma aposentadoria incerta, o sistema de saúde público falido, violência, pobreza, miséria. Tudo isso nasce da política, ou pelo menos existe por conivência desta. É inútil apontar e exclamar: – Isso é chato!. É verdade, pode ser chato sim, mas não se pode ser omisso e deixar que outros cuidem do que é nosso. É necessário saber tudo, para escolher melhor nossos próximos representantes. (droga, como escrever isso sem soar como aqueles professores do segundo grau?!?)
Eu não tenho muitos dons, mas escrever talvez seja um deles. É minha obrigação, mais do que uma opção, tentar usar o que tenho em mãos pra tentar espalhar sementes. Ter um blog pra escrever piadas ou mensagens bonitas está fora dos meus planos.

Luciano Queiroz

Bolo pra homem fazer!

September 17, 2005

Este bolo é bem fácil de fazer. Já cometi os maiores erros e ele sempre fica bom.
Homens, mãos à obra!

Ingredientes:
4 xícaras de farinha (de trigo, hein?)
3 xícaras de Nescau (um achocolatado em pó doce, para o pessoal de Portugal)
2 xícaras de açucar (esse não dá pra errar!)
1 1/2 xícaras de óleo (uma xícara e meia, mas eu sempre faço com uma xícara só pra ficar mais saudável) (Pode admitir que voce se preocupa com isso…)
4 ovos (dos grandes. Os pequenos são de codorna)
2 colheres de sopa de fermento químico (peça pra uma mulher te ajudar…)
1 pitada de sal (meus caros, pitada é um punhadinho, uma colher de chá. E sal não é sal grosso não!)

O grande segredo da receita é: mistura tudo!! Eu junto todos os ingredientes secos antes e misturo bem, e depois acrescento os ovos e o óleo, misturando bem de novo. Depois (preste atenção!) coloque duas xícaras de água fervendo em cima e misture de novo. Sempre na mão, com uma colher de pau, sei lá. A forma precisa ser untada e farinhada, calma que eu explico: passe margarina (óleo ou manteiga também servem) na forma toda e depois jogue farinha em cima pra grudar um pouco. Retire o excesso de farinha. Jogue a massa na forma e leve ao forno (aquela parte de baixo do fogão). Eu aconselho que o forno esteja pré-aquecido em temperatura baixa por uns dez minutos pelo menos. Aqui em casa, em meia hora fica pronto. Eu tiro o bolo um pouco antes do ponto normal pra ele ficar mais molhado. O ponto certo você descobre espetando um palito no bolo. Se ele voltar sem pedacinhos grudados é porque está bom.

É legal colocar uma calda por cima. Eu faço uma com leite, Nescau e maizena, mas não me lembro direito as quantidades… Mas é só misturar tudo e colocar no fogo até dar o ponto.

Seu bolo vai fazer sucesso! Se ficar bom, escreva aqui depois.

Luciano Queiroz

Lá fora…

September 16, 2005

Este era eu… sempre inquieto, sempre olhando pela janela. Queria conversar, brincar, pisar na grama, pegar sol. Brincar no sofá, inventar brincadeiras na caixa de areia, perseguir o cachorro.
Hoje sou mais disciplinado, mas ainda guardo um pouco da mesma alegria quando saio do trabalho e vou pra casa. Pena que já não há tantos jogos e brincadeiras como haviam antes. Ficamos adultos e exigentes, e caixas de areia não nos satisfazem mais, o gramado não nos satisfaz mais… Eis aí um grande desafio!

Luciano Queiroz

Lógica Infantil

September 15, 2005

(Que saudades da minha sobrinha! Vejam o que a minha irmã me contou por e-mail hoje de manhã)

“Estávamos no supermercado e uma das demonstradoras chamou a Marina (3 anos) e deu à ela uma cartela com adesivos e disse: – Toma estes adesivos, querida, e cole no seu caderno.
Ela toda contente respondeu: – Obrigada moça!
Olhou prá mim toda animada e disse: – Mamãe olha que legal. Adesivos! É para eu colar no meu caderno. Oba!
Saltitou pelo supermercado, mostrando a todos a cartela com os adesivos.
Depois, parou, pensou por alguns segundos, olhou para mim e perguntou: – Mamãe, o que é caderno?”

Dias nublados (mas sem chuva!!)

September 14, 2005


Em dias assim como hoje, muito nublados e frios, sinto muita vontade de escrever. De escrever poesia, histórias melancólicas, reflexões vadias… Não sei muito bem porque. Me lembro bem de um dia no intervalo das aulas de meu cursinho pré-vestibular, quando estavam eu e mais alguns amigos a caminhar pelo centro de Florianópolis bastante sem rumo. Já naquela época, com 16 anos, sentenciei: – Gosto de dias assim, nublados e sem chuva… Até hoje tenho amigos que sorriem e me apontam o dia, dizendo que está como eu gosto!
Tenho pensado em qual o motivo para gostar assim de dias tão negativos para a maioria das pessoas. Já concluí que existem motivos práticos. Por exemplo, trabalhar ou estudar em dias assim é muito menos penoso do que com aquele sol escaldante fritando sua epiderme. Então, levando isso em conta, dias bem cinzas me agradam tanto quanto um bom ar-condicionado.
Só que não é só isso. Não tenho tanto envolvimento com aparelhos de ar-condicionado quanto como tenho com dias nublados (sem chuva, por favor!). É que talvez nestes dias, as pessoas estejam mais quietas, menos propensas à escutar pagodes, sertanejos e afins. Dias cinzas são embalados à chorinho e à jazz. E as roupas? Nada de batas, camisetas com estampas de surf, de “tomara-que-caia” com gosto duvidoso… Entram em cena as blusas de lã, os lenços, cachecóis, casacos. É o momento das pessoas interessantes. Ninguém preocupado em emagrecer, em cores ou reflexos capilares. Somem os odores desagradáveis, entram os perfumes. O cinza estabelece o império do olhar, subjugando o recurso fácil e sem graça da fala. As boas reflexões, lembranças do passado, uma cama aconchegante, têm o seu melhor cenário sob um céu cheio de nuvens. De preferência com um ventinho leve mas bem gelado. Um chimarrão então, nem se fala! Tudo a ver!!
Podia ser assim seis dias por semana. E um domingo bem ensolarado pra ir pra praia que ninguém é de ferro!

Luciano Queiroz

Fazer o que, né?

September 13, 2005

Palavras

Sinto saudade. Saudade do que nunca foi, saudade da promessa. Como num livro não lido, a qual a capa achamos linda, nós não acontecemos. A primeira vez que nos vimos, nem olhamos o preço. A ansiedade em aprender coisas novas nos fizeram levar para casa aquele presente. Mas os dias passaram e as palavras ficaram adormecidas, esperando para nos dar vida, enquanto fomos chamados para outros cantos. Fiquei esperando o melhor momento que, com certeza, passou sem que o visse. Pela janela do impossível vi fragmentos de felicidade, em duas vidas que queriam ser uma, mas que a vida não soube como ligar. E assim aquele livro não lido continua lá, sobre a mesa. A promessa, que volta e meia fitamos, sem saber se o momento de folheá-lo já chegou. Amo amar você.

Luciano Queiroz

Beijocas na balzaca

September 12, 2005

Beijocas na balzaca

“Antes de qualquer coisa vamos esclarecer: por “trinta” entenda-se aqui a longa faixa que se estende dos vinte-e-seis aos quarenta-e-poucos anos (com margens de erro à vontade), durante a qual a mulher atinge, em algum momento, a plenitude em beleza, sensualidade, inteligência, serenidade, tudo ao mesmo tempo agora, equidistância exata entre o verde e o maduro.


É como aquele momento da contemplação do céu (poente ou nascente) em que as cores e tonalidades equilibram-se num panorama irretocável que, alguns segundos antes, era ainda incompleto, e alguns segundos depois terá passado, por falta ou excesso de luz.


Nada contra as lurdinhas . São uns bijus. Fazem titio reviver seus vinte anos e até sua adolescência. Enchem de vigor titio temeroso da marcha do tempo. Sorte de titio quando conquista coração de lurdinha. E ai de titio se Lurdinha descobrir, lá adiante, que o velhuco careca era só uma projeção paterna.


Mas titio sabe também de outras coisas, e é bem possível que seja ele a abandonar o jovem pitéu em benefício da primeira trintona que lhe mire os olhos com aqueles outros olhos trintões derramados de sábia esperteza, de quem já viu e viveu coisa (quando não viveu ao menos viu, ouviu), com o corpo amaciado pelo tempero da vida, a cabeça muito cheia de tudo que é rock e shop e chope e joke , com um quê na expressão de alma companheira e amiga plena de gás, ao mesmo tempo capaz de apreciar o frescor da tarde sem pressa de partir para a próxima parada .


Vou contar uma coisa. Essa semana titio passava por uma banca de jornal quando viu uma revistinha feminina com a foto da Cléo Pires na capa e a manchete: “É das lolitas que eles gostam mais”. Podem dizer que envelheci (o que é verdade num certo aspecto), mas titio ficou meio incomodado. Ora, a Lurdinha de Glória Perez tem 18. A Cléo de Glória Pires tem uns vinte e poucos (não demora a balzaquiar ). Mas Lolita? Pô! A ninfa de Nabokov tinha 12 anos! Mó chave de cadeia! Dimenor !


As balzacas, creio, estão evoluindo. Em outras épocas, a personagem de Cléo provocaria ondas de protestos nas ruas e passeatas caseiras, mas não: vejo que os frutos da emancipação já perfumam casas e ruas. Verdade que à base de muito fitness , bike, shiatsu, Lacan e terapias alternativas como liberdade e alegria, injetadas pela.. errr. .. inteligência emocional, ó, pá!


Pensando bem… que condição abençoada essa do titio! Outro dia vi uma dessas pesquisas sobre a novela, em que juveníssimas brasileiras respondiam o que achavam da relação entre o Glauco e a Lurdinha. Uma dizia: “tenho pena dos tios”. Outra soprava: “adoro um tio”. Ou seja, fazendo o balanço, titio fica com metade das lurdinhas e com as balzacas todas (menos as que dão para cair de amores por garotões, se bem que essas acabam voltando para colo de titio). Sem falar nas pós-balzacas que, mais dia, menos dia, terminam por pintar no pedaço batendo um bolão. Tudo adicionado aos benefícios que, chez titio, a experiência e a maior tranqüilidade trazem ao motor semi-novo que faz girar corpo e alma de todo cowboy . E viva Clint Eastwood!”

Arnaldo Bloch

Leia a matéria em O Globo

Até a volta!

September 9, 2005

Vou pro Rio de Janeiro hoje. Acho que só escreverei por aqui de novo na segunda, portanto bom final de semana pra voces.
Deixo a pérola:

“Se o amor é cego, o negocio é apalpar.”

Até a volta!!

Luciano Queiroz

Luís Vaz de Camões

Doces águas e claras do Mondego

Doces águas e claras do Mondego,
doce repouso de minha lembrança,
onde a comprida e pérfida esperança
longo tempo após si me trouxe cego;
de vós me aparto; mas, porém, não nego
que inda a memória longa, que me alcança,
me não deixa de vós fazer mudança,
mas quanto mais me alongo, mais me achego.

Bem pudera Fortuna este instrumento
d’alma levar por terra nova e estranha,
oferecido ao mar remoto e vento;

mas alma, que de cá vos acompanha,
nas asas do ligeiro pensamento,
para vós, águas, voa, e em vós se banha.

Luís Vaz de Camões

Armário Estúpido

Esta tira do Calvin explica bem o conceito de arrumação que eu tinha quando criança e que tento mudar sem muito sucesso agora que moro sozinho…

Gabeira

September 8, 2005

Gabeira é o homem do momento. Não se deve endeusar ninguém, mas acho que enaltecer bons políticos faz bem, para estabelecer referências para os demais. Vejam esta entrevista que ele concedeu ao Jornal do Brasil e que o Noblat publicou no blog dele. Muito boa.

Entrevista do Gabeira

Luciano Queiroz

07 de Setembro

O feriado foi e não apareci por aqui. Preciso arranjar um jeito de ganhar dinheiro com este blog. Assim eu largaria o emprego e viveria de dar palpite sobre tudo. Não ia ser nada mal…

Bom, vamos ao balanço deste 07 de setembro.

Não sei quanto à vocês mas eu achei bem morno. Até porque é um dia um tanto estranho. Eu vi na televisão os desfiles (uns pedaços, óbvio) em um monte de cidades. Dá uma pena… Vai dizer que não é deprimente ver um monte de criançinhas desfilando paramentadas, escoteiros, velhinhos veteranos, bombeiros raquíticos, numas ruas empoeiradas expressando seu orgulho enquanto o Presidente do Câmara dos Deputados achaca o dono da quitanda? E aquelas velhinhas todas de verde-amarelo com a bandeirinha do Brasil, enquanto o dinheiro da previdência, dos remédios, da saúde pública é roubado à luz do dia, debaixo da saia dela? Ela que aproveite o clima do desfile e já vá fazendo uma aeróbica. Vai precisar estar em forma pra ficar nas filas.

Em São Paulo voce podia escolher a passeata. Tinha os pró-governo e contra a política econômica, os contra a corrupção e pró-Lula, os do fora-Lula, os à favor da política economica, etc. Ainda tinham os contra “tudo o que está aí”. Muito prático. Nesta sociedade de consumo, até o protesto é customizado e você pode escolher no cardápio. Um amigo ensaiou um Viva-Palocci num grupo e foi vaiado. Alguém o orientou: – Amizade, tu chegou cedo! O pessoal do Pró-palocci tá marcado pras 15:30…

Nem comento o Presidente e sua fala em cadeia () nacional. Tudo cresceu! Incrível! O emprego cresceu, PIB cresceu… corrupção cresceu, cara de pau cresceu, corporativismo cresceu, incompetência cresceu… até meu saquinho cresceu, de tão cheio.

No esporte bretão: o Figueirense abandonou sua regularidade e venceu uma!! Mas seguimos firmes na vice-liderança negativa do campeonato.

Severino Cavalcanti, o carcará de xique-xique, está em novaiorqui… parece que ele tá ensaiando um xote pra terminar o discurso na ONU. Se Gilberto Gil que é maconheiro canta na ONU, ele vai cantar também. É BIU nos Estaites! Como ele não decide se assinou ou não o documento que a Veja diz que ele assinou (e que praticamente o livra de seu mandato) nem se o documento existe ou não, nós decidiremos por ele. Derruba ele da cadeira e a gente assina em baixo. E a gente lê quando assina!
Este BIU é um barato. É mais ou menos assim: se o documento existe ele não assinou mas ele suspeita que o documento não existe o que o leva a crer que possa ter assinado. Sem ler! Começo a entender como ele foi eleito sete vezes. O sertanejo não entende o que ele diz! Ninguem entende

O pessoal do PT não está muito revoltado com a ausência de Azeredo na lista dos cassáveis produzida pela CPI, como era de se esperar. É porque o PSDB passou o recado sutil que se o Azeredo for incluído vai sobrar pro Mercadante também. Afinal pesa sob os dois a mesma acusação.

Boa quinta feira com cara de segunda pra vcs!

Luciano Queiroz

Menina Polonesa

September 6, 2005

Menina que com seus azuis me fez enfim abrir os olhos.
Menina que dizendo não, como ninguém me disse sim.
Poesia escondida sob o lixo das cidades;
mais que Londres, mais que o mundo que trago dentro de mim.

Menina que quanto mais perto mais distante se encontrava.
Menina que agora chora uma tristeza que é sem fim.
Reza comigo diferente do outro lado do mundo,
esta noite sentirei teu vento entrando em meu jardim.

Luciano Queiroz
(esta poesia é na verdade uma musiquinha, que compus numa noite mal dormida no aeroporto de Amsterdan…)

Grupo Comboio

September 5, 2005


Outra dica musical valiosa: Grupo Comboio. Já apreciei alguns shows da banda e recomendo. Música de primeira, com arranjos muito elaborados e refinados. Este pessoal já escreve hoje a nova história da música brasileira e aconselho você a ficar esperto e ir acompanhando os caminhos da banda. Daqui a alguns anos voce poderá contar vantagem desta época onde ainda é fácil de encontrá-los por aí.
Este trecho tirei do site da banda:

“O Comboio foi criado por um grupo de ex-alunos do curso de Música Popular da UNICAMP cujos objetivos eram a prática da improvisação, composição e arranjo. Após várias investigações e experimentações musicais, o grupo finalmente encontra uma identidade sonora e musical, e define a fórmula para o seu desenvolvimento. Em pouco tempo, a produção do grupo iria superar as expectativas iniciais, os arranjos e composições surpreenderiam na qualidade, criatividade e sofisticação, e a iniciativa de ser apenas um grupo de estudos teve de ser repensada.

O grupo passou por diversas formações instrumentais. O formato atual conta com 12 integrantes, o que torna o Comboio um grupo híbrido, diferente das outras formações instrumentais característicos na música popular como as Big Bands, que possuem em média 18 integrantes, e dos Combos Instrumentais, grupos de médio porte que possuem cerca de 5 a 8 integrantes. A identidade sonora do Grupo Comboio, referência constante de elogios por parte dos músicos e da crítica especializada, é reflexo da filosofia do grupo desde a sua formação: o estudo e a pesquisa em busca de novos horizontes musicais. “

No site, muito bom de navegar, você vai pegar intimidade com a banda. Informações não faltam.


http://www.grupocomboio.com/novosite/home.php

Matador!

Tempestades

September 2, 2005


A casa ficava em um bairro mais afastado, distante de Centro. Saindo da rodovia principal, que leva em direção as praias do norte, chegava-se à um bairro humilde de pescadores e manezinhos de muitas gerações. A rua ampla seguia tortuosa pela encosta dos morros do local que, se deixassem, terminariam n’água. As lajotas mal alinhadas, que chegaram no mês de nascimento de minha irmã mais nova, davam um ar de progresso, nesta comunidade tão pouco acostumada às modernidades. Pra cima da rua, na inclinação ainda muito verde, casas simples de quintais amplos com aparência rural, em pouco lembrando o mar ali tão perto. A exceção ficava na reta principal, onde casas mais apertadas ladeavam, emoldurando a padaria e o “mini-mercado”, além de servir de ponto de encontro para os habitantes nas noites quentes e sem vento. Completava-se a vila, a escola e a igreja, solitária no alto de um morrote, impondo uma ladeira curta aos fiéis da missa de domingo. No lado que descia para o mar, não era raro observar-se as redes, os barcos, e um ou outro transeunte carregando algum cesto com o fruto da pescaria do nascer do dia. Nossa casa se distinguia das demais, ficando já para o final do bairro, com seu muro de pedra imponente e um telhadinho sobre o portão sempre aberto, o que acabara tornado-o ponto de referência para alguns. Ficava logo ali, seguindo em frente após à singela igrejinha da Assembléia de Deus e da “tendinha”, que se tratava de um barzinho de madeira em que mal cabiam três pessoas dentro.
Aquele dia seguia lânguido, embalado pelo sol forte e a brisa nordeste que começava a soprar incômoda, trazendo o cheiro da chuva que se sabia não ia demorar a chegar. O dia, que mal passara do seu meio, eu já sentia comprido depois da manhã inteira na escola, e da espera infindável por meu pai, que nos buscava na pracinha quando conseguia sair do trabalho. Geralmente isso significava quase uma hora de espera, o que servia para transformar o momento da chegada em casa em sinônimo de liberdade. A porta do fusca se abrindo, nos mostrava sempre o rosto feliz de minha mãe, às vezes escondendo alguma preocupação cotidiana, e a mesa posta, num momento só interrompido pelas brigas insistentes entre eu e minha irmã. Ali, na mesa da copa, a luz do dia entrava trazendo consigo o brilho do mar; um convite às brincadeiras e provavelmente um desafio para meu pai, que tinha que retornar ao trabalho. Ali, os momentos de silêncio eram sempre preenchidos pelo morrer das pequenas marolas da baía, que raras vezes silenciavam e que, quando faziam, deixavam profunda impressão de mansidão em minha alma.
Minha tarde invariavelmente começava com uma “expedição” pelo terreno, facão na mão que minha mãe não sei porque me deixava portar, inspecionando cada canto ansioso por alguma descoberta. O quintal era enorme. Perto do portão que dava para a rua, ficava a caixa d’água. Era uma construção parecendo um tijolo em pé, lembrando uma pequeno forte. Perto dele, à uns quinze metros, se equilibrava em pé a “casa velha”, que era a casa original do terreno e onde eu tinha medo de entrar sozinho. Meu pai a transformou em oficina e em casa de caseiro, mas a sua idade avançada, o piso de tábuas que rangia e que revelava o espaço entre a casa e o solo, a poeira e as teias de aranha, a pouca luz, davam um ar bem assustador ao recinto. Mas até lá eu tinha que fiscalizar na volta inicial. Fora isso, o quintal era cheio de recantos: um pequeno laguinho com peixes e sapos, incontáveis bananeiras, jaboticabeiras bem generosas, árvores de inúmeras espécies, sem contar a horta de meu avô, que já ficava na parte de baixo do terreno, perto da praia, onde vez ou outra eu roubava uma cenoura sob o olhar de aprovação do “Seo” Manuel. Por fim, ia para o portão de baixo, que se abria para a areia a menos de dois metros da água em dia de maré cheia.
Mas aquele dia prometia ser mais um dos meus prediletos. A natureza sabe, assim como os pescadores, quando algo está para acontecer. O silêncio pouco usual revelando a calmaria que prenuncia a tormenta já se fazia sentir. Como eu gostava daquilo! Corri pela praia para chegar ao trapiche e fui até o seu final. De lá se podia ver além da ponta da praia, onde havia uma enseada enorme totalmente tomada pelo mangue numa visão difícil de se esquecer. Não pude ver se os meninos da praia, meus colegas, estavam por ali mas em dias assim, eles geralmente tinham outros afazeres que eu nunca soube quais eram.
E foi assim, no barulho silencioso do vento que já soprava forte, que o céu adquiriu uma cor metálica, profunda. As ondas se avolumaram e ao longe, bem longe, lá pelos morros de Biguaçu do outro lado da baía, já se podia ver o céu ainda mais escuro, escondendo aos poucos o sol e finalizando o dia mais cedo que o normal. Fiquei mais uns instantes ali, sozinho, observando algumas baleeiras que eram apressadamente fundeadas e o revoar dos biguás no mangue, como se preparando para aceitar mais uma provação.
Quando a primeira rajada de vento se desenhou na água, eu sabia que era hora de correr. Não por medo, até porque um banho de chuva era sempre uma diversão mesmo em caso de tempestade. Isso me rendera alguns olhares repreendedores de minha mãe em outras ocasiões, sem contar minha avó, que morria de medo de raios. Eu não. Achava que raios não caiam em gente, muito menos em crianças como eu. Naquela hora corri pois era hora de voar para meu posto de observação avançado. Como um foguete subi os mais de cem metros que separavam a praia da nossa casa e passei por minha mãe zelosa em fechar todas as portas, discutindo agoniada com o vento que insistia em jogar folhas e mais folhas para dentro. Subi as escadas pulando, como era de meu costume pois achava perda de tempo usar todos os degraus, e corri para a varanda de cima, de onde se via, do canto direito, todo o espetáculo. De camarote, observava atentamente as ondas pra fora de nossa enseada, que criavam espumas brancas como ovelhas, mostrando todo o poder daquele tempo. O cinza, que já tomara conta da paisagem, abria espaço para as nuvens gigantescas, com sua sombra negra. – Oba, hoje haverão muitos raios! Pensava eu, entretido com aquela transformação repentina do meu mundo morno de tardes compridas. Observava a marca das rajadas na água e ficava esperando que me atingissem, sem entender como gaivotas teimosas insistiam em voar com um tempo assim. E desta forma eu ficava, impressionado pela força daquela natureza que eu não compreendia. Cada raio, cada trovão, a chuva que se fechava como uma cortina celeste e envolvia meu reino, limpando as folhas, as plantas minhas companheiras de todos os dias. Tudo me ensinava a entender o ritmo das coisas, o ritmo inexorável da vida. Os pequenos córregos que se formavam eram uma novidade sem fim e um convite à imaginação. E assim ia eu, brincar lá fora de “represa” sob as asas da compreensão carinhosa de minha mãe.
Assim a vida veio e me levou, mas as lições ficaram, daqueles momentos de excitação com a simplicidade infinita.

Luciano Queiroz