Dica Literária
MARES E CAMPOS

Poucos livros me dão mais prazer de divulgar aqui do que este de Virgílio Várzea. Acho leitura obrigatória pra quem ama o mar, sua cultura, sua vida simples. Pra quem é de Florianópolis então, é um mergulho na sua própria história. Veja a resenha:
“Virgílio Várzea soube colher com feliz precisão essa alma do povo, com seu otimismo, sua visão positiva da realidade, sua juventude abrindo-se em expansividade, não obstante a penúria ou os percalços sofridos. Entretanto, a nota dominante na maior parte das narrativas é a presença do mar, tanto na produção do sustento da família e na sua energia saudável sobre as pessoas, como também no seu aspecto trágico, ao sofrer as interferências dos ventos e das tempestades e conduzindo à implacável morte. Virgílio é o marinhista primeiro e mais sistemático da literatura brasileira e latino-americana. Esta reedição da obra tem o mérito de restituir à sociedade o direito de ler e conhecer uma obra fundamental da nossa literatura e de confrontar-se com a vivência popular de época distante há mais de cem anos. Sua leitura representará ameno prazer”.
Segue ainda um breve relato sobre o autor, que por sinal dava nome à rua onde eu morava:

“Virgílio Várzea (1863-1941) nasceu na freguesia de Canasvieiras, na Ilha de Santa Catarina. Do pai, português minhoto, marinheiro de profissão, e da mãe açoriana de origem herdou a paixão pelo mar. Fez do mar seu companheiro de aventuras. Navegou, singrando oceanos, percorrendo os caminhos marítimos do mundo afora e voltou à sua Ilha e à sua gente. Voltou trazendo o mar na alma, e a maresia dos oceanos impregnada na pele. Foi contista e cronista, novelista e poeta. Prolífico escritor, enriqueceria a narrativa brasileira com uma esmerada produção literária regionalista.
Desenvolveu sua vida literária na antiga Desterro (hoje, Florianópolis) e na cidade do Rio de Janeiro, onde trabalhou e conviveu com a elite literária brasileira (Rui Barbosa, Olavo Bilac, entre outros). Chefiou, entre os anos de 1882-1887, a chamada Guerrilha Literária, grupo formado pela intelectualidade ilhoa que se opunha ao Romantismo e defendia as novas idéias do Parnasianismo e Simbolismo recém-chegadas da Europa. Desse grupo fez parte o poeta Cruz e Sousa, expoente do Simbolismo no Brasil, amigo e companheiro de letras (em Tropos e fantasias).
Reputado como o nosso primeiro marinhista, o nosso Herman Melville tropical, Virgílio Várzea consolidou, num estilo incomparável, a ficção descritiva paisagística. Sua literatura é a mais espacial, a mais visual prosa escrita. Integram a sua bibliografia os livros Traços azuis (poesia); Tropos e fantasias (em parceria com Cruz e Sousa); George Marcial, O brigue flibusteiro (romance); Rose-Castle (novela); Contos de amor, Histórias rústicas, Nas ondas, Mares e campos (contos) e o ensaio descritivo Santa Catarina – a Ilha, obra laureada pela Comissão Comemorativa do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil.
Virgílio Várzea soube como poucos retratar os tipos humanos, a paisagem, o folclore, os usos e costumes derivados de uma cultura açoriana do século XVIII. Na vasta obra ficcional, a reprodução fiel do modo de viver ilhéu, em seu próprio ritmo, nuances e rusticidade, realça a dimensão relevante do registro documental, como depositário de um tempo passado e da memória salvaguardada para as futuras gerações. Soube trabalhar com muita propriedade e talento, deixando fluir a história, a geografia e a vida “...Os habitantes são tão bons lavradores, como marinheiros: têm um físico robusto, um caráter decidido e valente. Arrostar o mar em todo tempo, superpondo-se ao perigo, é coisa que lhes anda no sangue e nos nervos. Cantam sobre as ondas revoltas com um meio às culturas tranqüilas onde não há nada a temer.” (“Canavieiras” in Santa Catarina – a Ilha).
A seu respeito escreveu com entusiasmo Olavo Bilac em artigo do jornal “A Gazeta de Notícias” (Rio de Janeiro, 1985): “Virgílio Várzea é um dos mais fecundos dos nossos escritores moços … As suas marinhas – telas vastíssimas … – têm uma vida intensa sentida, apanhada em flagrante por quem sabe observar … Vê-se bem que o autor dos Mares e campos não é um contador de casos sonhados, mas um historiador da sua terra, dos usos e costumes do seu povo”. ”
Lélia Pereira da Silva Nunes
