O Lobo e o Cordeiro
Jean de La Fontaine
A razão do mais forte é a que vence no final
(nem sempre o Bem derrota o Mal).
Um cordeiro a sede matava
nas águas limpas de um regato.
Eis que se avista um lobo que por lá passava
em forçado jejum, aventureiro inato,
e lhe diz irritado: – “Que ousadia
a tua, de turvar, em pleno dia,
a água que bebo! Hei de castigar-te!” – “Majestade, permiti-me um aparte” – diz o cordeiro. – “Vede
que estou matando a sede
água a jusante,
bem uns vinte passos adiante
de onde vos encontrais. Assim, por conseguinte,
para mim seria impossível
cometer tão grosseiro acinte.” – “Mas turvas, e ainda mais horrível
foi que falaste mal de mim no ano passado. – “Mas como poderia” – pergunta assustado
o cordeiro -, “se eu não era nascido?” – “Ah, não? Então deve ter sido
teu irmão.” – “Peço-vos perdão
mais uma vez, mas deve ser engano,
pois eu não tenho mano.” – “Então, algum parente: teus tios, teus pais. . .
Cordeiros, cães, pastores, vós não me poupais;
por isso, hei de vingar-me” – e o leva até o recesso
da mata, onde o esquarteja e come sem processo.
(Comentário meu: estou cansado destas mensagens com final feliz que rodam por aí. Por isso me diverti com essa fábula. Ela é mais realista e, provavelmente mais útil do que as outras. Luciano Queiroz)
