O Fogo no Mercado

August 19, 2005

Hoje o Mercado Público de Florianópolis pegou fogo. Eu aqui mesmo nesta lonjura me emocionei, com os olhos cheios d’água diante das imagens. Percebi como todo cidadão de Floripa tem uma ligação afetiva com o Mercado. É um símbolo da cidade talvez mais do que a ponte, porque enquanto esta é um monumento frio e esquelético, o outro é dinâmico, vivo, é o coração da cidade pulsando e mostrando o que é ser manezinho. Se nós ilhéus temos uma alma comum, que nasce do amor pela terra, a nossa terra, ela hoje está ferida.

Minha irmã, que é arquiteta da prefeitura há alguns meses, estava lá e me enviou este relato.

“Bom dia amigos,

Fui testemunha hoje de uma enorme desgraça na cidade de Florianópolis.
Por trabalhar no centro da cidade fui uma das primeiras pessoas a chegar no terrível incêndio do nosso Mercado.
A tristeza estampava o rosto de todas as pessoas que por ali passavam, ao constatar que não havia água nos hidrantes das proximidades.
A água dos caminhões acabava rápido demais e, enquanto isso, as labaredas atingiam 3 m de altura sobre a cobertura do Mercado.
O vento soprava na direção do centro comercial ARS levando uma assustadora fumaça preta de encontro a lojistas que dali tentavam desesperadamente despejar água sobre o fogo.
Ao olhar tudo aquilo fiquei desolada. Chorei. Eu e várias pessoas a minha volta.
Chorei ao ver o desespero dos bombeiros que não conseguiam apagar o fogo, ao ver os lojistas desesperados. Chorei ao ver meus colegas, arquitetos e engenheiros da Prefeitura de Florianópolis desolados vendo nosso objeto de trabalho, parte importante da história da cidade ser destruída aos poucos e sem cerimônia.
O fogo ainda era forte quando voltei ao trabalho com uma enorme sensação de impotência.
O quê sobrou?
O quê aprendemos depois disso tudo?
Já é o segundo incêndio no Mercado Público de Florianópolis. Existem vários laudos técnicos alertando quando ao risco de incêndios e outros acidentes no Mercado com data de cinco anos atrás. Os próprios lojistas do Mercado já foram notificados inúmeras vezes. Porque não foi tomada nenhuma providência quando ocorreu o primeiro incêndio?
O quê estamos esperando?
Quem já foi ao mercado já deve ter olhado para cima e visto aquele emaranhado de fios e cabos elétricos sob a estrutura do telhado em meio à infinidade de caixas e quinquilharias por lá depositadas.
E porque não havia água para apagar o fogo?
E se o incêndio fosse em outro prédio antigo do centro da cidade?
Quantas vítimas faria?
Se não temos estrutura na cidade para apagar o fogo de uma construção térrea, que dirá de uma com muitos andares.
E agora, de quem é a culpa?
Já que estamos sempre procurando culpados para as desgraças, de quem é a culpa desta vez?
Do coitado que deixou uma panela no fogo?
Do bombeiro que não tinha água para apagar?
Dos fiscais?
Da administração do Mercado?
Das autoridades?
De Deus?
Ou somos nós? Você e eu?
De quem é mesmo o Mercado? O Mercado Público?
É do público.
O que é ser do público?
Significa que é de Todos.
Ao contrário do que a maioria pensa, o patrimônio público não é o que não tem dono, mas sim o que é de uso comum. É seu, é meu é do cara que está aí do lado. É de nossa responsabilidade zelar por ele.
E se o incêndio fosse na minha casa ou na sua?
De quem seria a culpa?
Quanto tempo levará para tomarmos consciência das nossas responsabilidades sociais?
Quê desgraça ainda teremos de testemunhar até que alguém tome uma providência?
Espero que desta vez cada um assuma a sua responsabilidade e faça a sua parte para evitar esta ou outra desgraça anunciada.
Como os heróis anônimos nas janelas do ARS que assumiram as suas responsabilidades e com a pouca água que tinham, ajudaram a apagar o fogo no Mercado.
Abraço a todos,
Cíntia.”

fogo

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