Oklahoma
Estive semana retrasada em Oklahoma – USA. Basicamente fazendo um curso e tentando encontrar as diversas encomendas que, acredito eu, todo brasileiro em viagem aos Estados Unidos recebe. Mas, no intervalo destas atividades pude visitar o memorial do atentado ocorrido em 1995 contra um prédio federal no centro da cidade. Se trata de um museu e um singelo parque ao lado, muito bonito e cheio de significados. Eu não tinha muita certeza se queria entrar no museu mas como todos se dispuseram, fui sem grandes resistências.
O museu é de um capricho impressionante. Traz muitas imagens, relatos, simulações que tentam nos fazer sentir como as vítimas se sentiram. Um sem fim de depoimentos, objetos pessoais, jornais da época, repercussões, as investigações, tudo. Está tudo lá. Me emocionei mesmo.
Mas durante a visita um sentimento começou a me incomodar. Já no final da visita, na lojinha (detalhe: lojinha?!? pra que?!? pra comprar uma lembrancinha do atentado?!?) um colega me perguntou se eu já tinha estado em um lugar mais deprimente que aquele e eu disse que sim: nos porões de tortura da Gestapo. Mas essa pergunta despretensiosa me trouxe esta reflexão que agora vou transcrever e que conseguiu me mostrar o que estava me incomodando.
Em todas as ações de reação ao atentado, é possível notar uma dose forte de nacionalismo por parte dos americanos. Frases como: – Eles não vão nos derrotar! – e uma profusão exagerada de bandeiras americanas dão a tônica do sentimento de pátria daquele povo. E por isso eu entendi como os americanos estão longe da verdade. E digo mais, como o mundo está longe da verdade. Entendi porque Berlin me emocionou mais.
Os autores daquele atentado são americanos. Sim, americanos médios sem nenhum grande destaque nem positivo e pasmem, nem negativo. Os motivos alegados para o atentado nada têm de religioso ou de ataque ao imperialismo selvagem. Seus motivos foram baseados em alienação pura.
Contra o que então os americanos estão revoltados e porque motivo revolvem até os milímetros de destroços para poder mostrar a morte trágica de mais de cem de seus cidadãos, provocada por dois destes mesmos cidadãos? Não é por acaso o próprio atentado, a mostra de que algo de podre existe no reino da Dinamarca?
E agora, indo no centro do meu raciocínio: porque que a reação das pessoas não é pela vida em si? Porque não há tristeza nos Estados Unidos pelos muitos milhares de mortos japoneses assassinados instantaneamente pelas bombas nucleares? Pelos que morrem de fome a cada minuto? Pelo massacre da candelária? Alemães? Africanos? Civis iraquianos? Vítimas do tsunami? Qual a razão das bandeiras americanas, quando o inimigo é a própria irracionalidade, a própria selvageria da alma humana?
Hoje há somente espaço no mundo para uma solidariedades sem fronteiras. É hora dos justos se levantarem pra defender a vida independente da cor de sua bandeira. É hora de igualar o valor da vida. É hora de olhar para o lado. É hora da humanidade emergir e lutar contra as sombras que habitam todos os países. Não existem países bons nem países maus, existem homens bons e homens maus.
É isso que entristece meu coração. Vi a tristeza nos olhos dos Judeus, vi o desespero dos Palestinos, vi a desesperança das crianças subnutridas africanas, vejo a vida sem valor dos garotos de rua no Brasil, as favelas na Colombia, a dor dos estudantes russos, a revolta Iuguslava. Tudo porque o ser humano é capaz destas coisas. É capaz de atrocidades ainda impensáveis.
Em Berlin o nacionalismo está ausente. Paira no ar a tristeza do passado, do que o ser humano é capaz. Cada cela coloca em confronto dois seres humanos e tudo se torna um memorial de que a intolerância, a irracionalidade jamais deve prevalecer. Não há desculpas, não existem defesas. Somos todos culpados, sem hipocrisias.
Já é hora da humanidade reagir, vencer o mal e não o inimigo. O inimigo não é cidadão do outro lado da fronteira. O inimigo está dentro de cada um e é lá onde deve ser travada a verdadeira batalha. Todo este sofrimento tem origem na incompreensão, no egoísmo, no ódio. Este é o inimigo.
Luciano Queiroz
