Yoani em Berlin

November 4, 2009

Cuba é a ilha mental onde vive a MAIORIA (não todos) dos esquerdistas latino americanos. Soube por um amigo cubano que os jovens cubanos já não querem nem estudar para serem médicos, engenheiros… Querem trabalhar para o turismo, que é o único campo onde podem ter algo mais do que o salário miserável que recebem do Governo. Para aqueles que pensam que pelo menos crianças não morrem em Cuba, lamento. Morrem sim, de fome inclusive. Mas você não fica sabendo. E as que sobrevivem e não morrem nos paredões, morrerão lentamente, como condenados vivendo em uma prisão. Cuba é a ditadura de estimação de gente que só não gosta da ditadura dos outros.

Yoani em Berlim
Convidado – Demétrio Magnoli

  • Você ainda não está autorizada a viajar.


  • E por qual razão?


  • A razão desconheço.


  • Não tenho nenhuma causa legal pendente, não estou sendo processada perante um tribunal.


  • No momento, você não pode viajar.”


  • Você sabe que esta é uma violação de meus direitos constitucionais. É como o direito à educação e à comida: o direito de poder se mover.


  • No momento, você não pode viajar.


  • Esta instituição que você representa, um dia acabará. Meus netos não viverão nessas condições. Este país é um grande cárcere, com uma fronteira ideológica, uma fronteira partidária. Os cidadãos aqui são julgados por cores políticas. Mas isso um dia acabará. Porque esta nação nada tem que ver com uma ideologia, nem com um partido. Esta nação existiu e existirá antes e depois de vocês.”


Esse diálogo, cuja íntegra está no blog Generación Y (http://www.desdecuba.com/generaciony), foi travado em 12 de outubro entre a blogueira cubana Yoani Sánchez e uma funcionária do Escritório de Imigração de Havana. A proibição de viajar, reiterada há mais de ano, impediu Yoani de receber o Prêmio Maria Moors Cabot, concedido pela Universidade de Colúmbia, e de comparecer aos eventos de lançamento de seu livro De Cuba, com Carinho, publicado pela Editora Contexto, que se realizam nestes dias no Brasil.

Yoani faz um dos blogs mais acessados do mundo, que é bloqueado na restrita internet cubana. Ela não se enquadra no jogo bipolar da política de seu país. Por erguer a bandeira da liberdade de expressão, é acusada pelo regime castrista de servir a “interesses contrarrevolucionários estrangeiros”. Por registrar que o embargo econômico americano funciona como pretexto útil para a ditadura dos Castros, é acusada pelo núcleo duro da oposição cubano-americana de Miami de operar para o serviço de inteligência de Cuba. A resposta encontra-se no seu livro, na forma de uma citação do compositor antifranquista espanhol Joaquín Sabina: Siempre que lucha la KGB contra la CIA, gana al final la policía.

O Muro de Berlim, ícone desmoralizante do “socialismo real”, caiu há 20 anos, mas uma réplica anacrônica subsiste ao redor da Ilha de Cuba, sob a forma da “fronteira partidária” denunciada por Yoani. Cuba não tem relevância econômica ou estratégica, mas possui colossal importância simbólica: o “grande cárcere” do Caribe representa, ainda hoje, a pátria ideológica da esquerda latino-americana. O episódio do lançamento do livro de Yoani no Brasil é uma aula inteira sobre o tema.

O consulado cubano de São Paulo recusou-se até mesmo a protocolar um convite da editora à autora para os eventos de lançamento do livro. Eduardo Suplicy (PT-SP), desafiando a ortodoxia de seu partido, pronunciou discurso no Senado solicitando a concessão da autorização de viagem. Por iniciativa de Demóstenes Torres (DEM-GO), o Senado dirigiu à Embaixada de Cuba um convite para Yoani debater o livro em audiência pública. Fernando Henrique Cardoso somou-se ao convite, por meio de carta ao governo cubano em que solicitava pessoalmente a permissão de viagem. Mas Havana nem sequer ofereceu uma resposta aos variados apelos – que não incluíram nenhuma voz do governo brasileiro.

Cuba e Brasil são signatários do Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos da ONU, que consagra o direito de todos de sair de seu país e retornar a ele. A Constituição determina que o Brasil rege suas relações internacionais pelo princípio do respeito aos direitos humanos. Nada disso importa para Lula, que qualifica Fidel Castro como o “único mito vivo da história da humanidade”, nem para Celso Amorim, que sempre escolhe a palavra “democracia” para se referir a Honduras e a palavra “soberania” para se referir a Cuba. Nenhum dos dois emitiu uma mísera nota de apoio ao convite dirigido pelo Senado à escritora cubana.

O silêncio é amplo e sólido. Tarso Genro, o ministro do Arbítrio, deportou ilegalmente boxeadores cubanos ameaçados de perseguição, mas não moveu um dedo pelo direito legal de uma escritora independente falar ao público brasileiro. Paulo Vanucchi, chefe de um Ministério que ostenta no seu nome os direitos humanos, loquaz na defesa do estatuto de refugiado político do italiano Cesare Battisti, não pronunciou uma única palavra sobre o direito de viajar da cubana cujo “crime” é expressar suas opiniões. Eles não têm vergonha?

Yoani não vem ao Brasil porque o regime castrista pratica um abominável intercâmbio de direitos por fidelidade ideológica. A submissão ativa ao Partido é recompensada por um emprego cobiçado no setor turístico, pela almejada licença para comprar um automóvel ou pela preciosa autorização de viagem ao exterior. A coragem de dissentir é punida com a cassação tácita, jamais justificada, dos direitos inscritos na lei.

Num país que julga seu cidadãos “por cores políticas”, ninguém é verdadeiramente cidadão. Foi isso que Yoani disse no Escritório de Imigração, ao evidenciar o caráter totalitário de um regime que faz a nação se identificar com uma ideologia e um partido.

Os intelectuais de esquerda brasileiros, com honrosas exceções, pensam o mesmo que a ditadura castrista sobre a opinião independente. Anos atrás, num abaixo-assinado, solicitaram a demissão de um articulista que ousara criticar as ideias do palestino-americano Edward Said e há pouco fizeram um escarcéu coletivo em torno de uma palavra fora de lugar no editorial de um jornal. No caso de Yoani, porém, acompanharam o eloquente silêncio de Lula e seus ministros.

A sangrenta consolidação do stalinismo na URSS foi amparada por manifestos emanados da pena de intelectuais “humanistas” como Louis Aragon, Romain Rolland e Paul Sweezy. Nossos intelectuais de esquerda são os herdeiros legítimos deles. A régua com que medem direitos e liberdades é feita do mesmo maleável material ideológico que sustenta o Muro de Cuba.

Michael Moore, com o dinheiro do diabo

October 3, 2009

Carlos Alberto Sardenberg

Lá pelas tantas de seu documentário Capitalismo: uma história de amor, lançado na semana passada, Michael Moore aparece na frente do banco Goldman Sachs em Manhattan dirigindo um blindado de transporte de dinheiro. E anuncia nos alto-falantes que está ali “para pegar de volta o dinheiro do povo americano”.Pois se Moore procurasse no próprio bolso encontraria alguma parte desse dinheiro, comentou, divertido, um editorial do site Futureofcapitalism.com. Mas é isso mesmo. O Goldman Sachs colocou dinheiro próprio e ainda montou a operação que levantou US$ 1 bilhão para a produtora de Moore, a Weinstein Company. Na ocasião da entrega dos recursos, o banco, que é a cara e o coração de Wall Street, divulgou nota oficial dizendo: “Estamos muito satisfeitos em ser parte desta excitante nova associação.”No filme, Moore diz que o capitalismo é o próprio “diabo”. Entrevista padres católicos que classificam o regime como “pecador e imoral”. Apresenta algumas ideias sobre como superar o capitalismo, mas não parece convincente. Como derrotar um regime que se sente satisfeito e excitado em financiar seus críticos?O pedágio do PT pede reajuste – Há dois anos, o presidente Lula e a ministra Dilma comemoraram o pedágio de R$ 0,99 oferecido por uma das concessionárias vencedoras na licitação de sete lotes de rodovias federais. Era o modo petista de privatizar, oposto ao modo tucano, dos pedágios caros. Na ocasião, comentamos aqui mesmo que esse barato poderia sair caro, mas não imaginávamos que seria tão depressa. Pois agora todas as concessionárias que operam aquelas rodovias já estão pedindo um reajuste no preço das tarifas ou uma redução nos investimentos previstos, ou seja, menos melhorias para as estradas.Especialistas na área já diziam que isso seria inevitável. Ocorre que os pedágios mais baratos (de R$ 0,99 – “menos de um real”, como comemorou a ministra em telefonema ao presidente – a R$ 3,86) não poderiam sair do nada, mas de um modelo de concessão diferente.Em primeiro lugar, o governo Lula não cobrou nada pela entrega das estradas (ou pela outorga), ao contrário do que se fazia no governo anterior e do que o governador Serra fez em São Paulo mais recentemente. Cobrar pela outorga significa que a concessionária tem de remunerar o Estado pelo direito de usar a rodovia. Com esses recursos, o governo pode, por exemplo, construir estradas em áreas menos rentáveis, sem interesse para a iniciativa privada. Mas é claro que, nesse modelo, o pedágio necessariamente sai mais caro, pois vence a concorrência quem paga mais pela outorga e, ao mesmo tempo, se compromete com carga maior de investimentos e aperfeiçoamentos nas estradas.Quando se entrega de graça a estrada (privataria!) e se decide o leilão pelo pedágio mais barato, é claro que as concessionárias vão fazer de tudo para “martelar” os custos. E martelaram. Nos leilões do governo Lula, as tarifas oferecidas (e vencedoras) chegaram 65% abaixo do piso determinado. Martelar custos significa minimizar ou desprezar riscos e valorizar ao extremo as ações propostas.O risco geral é esse mesmo que está ocorrendo. O faturamento já não dá conta das obrigações. Dizem as concessionárias que a culpa é do governo, que teria atrasado os papéis liberando as obras e, assim, atrasando o início da cobrança dos pedágios. Os órgãos do governo dizem que fizeram tudo certo e em dia.A ministra Dilma até agora não se manifestou. Compreende-se: o governo está no córner. Se admitir o reajuste extra das tarifas, estará confessando um erro de modelo. Se não admitir, vai comprometer as estradas, aliás, com obras já atrasadas, o que também desmoraliza o modelo dos pedágios baratinhos, tão alardeado dois anos atrás.Quanto ao modelo tucano, continua assim: as estradas estão excelentes, mas todo mundo reclama dos pedágios.Isso poderia gerar um debate técnico, não tivesse o atual governo politizado tanto os leilões de dois anos atrás.Dilma x Serra – Mas os pré-candidatos presidenciais travaram uma disputa técnica em São Paulo na semana passada. Apareceram juntos numa feira de imóveis e discursaram – uma falando do milhão de casas do Minha Casa, Minha Vida; outro, de como seus gastos em habitação, R$ 1,9 bilhão, eram mais eficientes.Interessante prévia da disputa presidencial. No governo há oito anos, Dilma não pode retomar o discurso petista do “contra isso tudo que está aí”, por “um novo Brasil”. Ela vai tentar mostrar que o governo Lula já está construindo esse “novo Brasil” e que ela é a melhor pessoa para continuar a obra.Serra, que foi ministro na gestão FHC e que governa o maior Estado do País, também só pode se apresentar como administrador capaz de fazer melhor que o atual.Menos politizada, pode ser uma disputa em torno de temas econômicos, administrativos e técnicos. Uma eleição mais aborrecida, sem empolgação, adequada aos estilos de Dilma e Serra, mas quem sabe melhor para o País.Gastando por conta – Não sei se repararam, mas a semana foi de aumento de gastos públicos. O Congresso aprovou a criação de mais 8 mil vagas de vereadores e um reajuste para os salários dos ministros do Supremo Tribunal Federal, que vai repercutir em todo o Judiciário. E em outros setores da administração federal, pois todo mundo vai pedir equiparação (como os parlamentares) e/ou reajustes semelhantes.Saiu também o déficit da Previdência até agosto, que aumentou nada menos que 15% em relação ao ano passado, por causa do reajuste real do salário mínimo, num momento de queda da arrecadação de impostos. E o governo já aceitou dar aumentos reais para as aposentadorias acima do mínimo, o que vai elevar ainda mais o déficit previdenciário.E daí? O presidente Lula está convencido de que tirou o País da crise aumentando o gasto público e que, por isso, tem licença para gastar mais. E isso significa que você, caro leitor, cara leitora, vai pagar mais impostos.

Quem gosta de cota racial é racista!

September 18, 2009

Quando começaram a falar sobre este tal sistema de cotas raciais, fui radicalmente contra e discuti com várias pessoas que achavam que eu estava negando que existe racismo no Brasil. Passei por insensível pois, como branco, obviamente não estava preocupado com a situação. Ou ainda, eu deveria provavelmente estar defendendo o sistema que me permitiu estudar em universidade federal – o meu “privilégio, em outras palavras.
Tolice.
As cotas raciais são erradas por que são racistas. Quem entende a origem do sentimento racista sabe que um privilégio instituído em função da cor da pele é gasolina na fogueira. O racismo não se anula com mais racismo, de cor trocada. Se alguem pensa (eu não penso) que o racismo da sociedade institui um privilégio “natural” aos brancos, não pode por isso querer combatê-lo criando um privilégio oficial para os negros. Isso não é combate, é estímulo…
As portas não se fechavam aos negros no Brasil por causa do racismo. Se fechavam porque o ensino público é ruim. E vão continuar se fechando, só que desta vez para brancos. Mas não parece que se queira resolver o problema. Quer-se apenas mudar-lhe a cor.

De Nixon a Vicentinho
Convidado – Demétrio Magnoli
Com Yvonne Maggie

O deputado Vicentinho (PT-SP) celebrou como um “momento histórico” a aprovação do chamado Estatuto da Igualdade Racial na Câmara dos Deputados. De certo modo, ele tem razão. Se o Senado confirmar a decisão, ficará suprimido o princípio da igualdade perante a lei, pilar central da Constituição, e o Brasil ganhará um lugar na lista de Estados que um dia dividiram os cidadãos segundo raças oficiais: os EUA das Leis Jim Crow, a Alemanha das Leis de Nuremberg, a África do Sul do apartheid, a Ruanda belga, a Malásia da “supremacia malaia”…

O Estatuto Racial aprovado é um destilado do projeto original e um fruto do conluio entre todos os interesses organizados. Triunfaram as ONGs racialistas, representadas essencialmente pelo PT, mas foram atendidas as demandas (legítimas, aliás) das empresas de comunicação e publicidade e dos proprietários urbanos e rurais. As primeiras obtiveram a exclusão de um item que estabelecia cotas para atores “negros” na TV, no cinema e nas peças de marketing. Os segundos conseguiram eliminar um item que legalizava a fabricação de quilombolas imaginários.

O tema dos quilombolas evidencia o caráter francamente regressivo do racialismo, que é hostil por definição aos direitos universalistas. A fim de dividir os pobres do campo segundo a cor da pele, propunha-se uma legislação especial voltada para quilombos inventados pelas próprias ONGs, enquanto se afastava da cena a necessária simplificação dos processos de reconhecimento da propriedade pela via do usucapião.

O “povo desorganizado”, na expressão certeira empregada por Ruth Cardoso, é o grande derrotado na Câmara. O Estatuto Racial atinge, devastadoramente, os direitos dos jovens estudantes, dos usuários do sistema público de saúde e dos trabalhadores assalariados em geral.

Nas escolas, segundo a nova lei, a História do Brasil e da África sofrerá uma revisão fundamental, adaptando-se ao mito da raça. Os professores devem explicar a escravidão moderna como uma fábula sobre a dominação da “raça negra” pela “raça branca”, não como um nexo do sistema mercantil-colonial que articulou as elites da Europa, da América e da África. Eles passam a cumprir a missão doutrinária de apresentar o Brasil como um território habitado por duas “raças” polares: os “eurodescendentes” e os “afrodescendentes”, separados uns dos outros pelos abismos intransponíveis do sangue e da cultura.

No sistema público de saúde, a nova lei determina a substituição da ciência pelo dogma. A genética explica que a cor da pele não é um indicador confiável para a medicina. O Estatuto Racial institui, oficialmente, a existência de “doenças de negros” e direciona os investimentos e os recursos humanos da saúde pública para a edificação de um sistema paralelo de “saúde da população negra”. A norma adventícia orienta-se pelo discurso de antropólogos que não se envergonham em difundir a crença em cromossomos raciais. Os geneticistas são relegados à condição de incômodos dissidentes.

No cerne do Estatuto Racial encontra-se a provisão de concessão de incentivos fiscais às empresas que mantiverem um piso de 20% de “negros” na sua folha salarial. A decorrência disso é a classificação racial da massa dos trabalhadores assalariados e o uso de um critério de raça nos processos de contratação e demissão de mão de obra. A racialização oficial do País sempre foi fantasiada com as roupagens da redenção social – e a resistência a ela, como uma operação diabólica da “elite branca”. A mentira encontra-se exposta e nua: pela nova lei, uma fronteira dividirá trabalhadores da mesma faixa de renda e provocará uma competição racial entre eles. Eis a face mais perigosa do ovo da serpente chocado na Câmara.

A inspiração histórica da iniciativa é o Plano Filadélfia, anunciado por Richard Nixon em 1969, que inaugurou os programas de preferências raciais no mercado de trabalho nos EUA. Tais programas perpetuaram a divisão dos trabalhadores americanos nascida no início do século 20, com as Leis Jim Crow, de segregação racial. De Nixon para cá, eles contribuíram para o enfraquecimento dos sindicatos e provocaram incontáveis disputas judiciais contrapondo assalariados brancos e negros. Não é fortuito que, nas primárias democratas, a candidatura de Barack Obama tenha sofrido forte rejeição nos cinturões industriais dos Apalaches. Num passado ainda recente, desempenhando os papéis de líder sindical dos metalúrgicos do ABC e de presidente da CUT, Vicentinho clamou pela unidade dos trabalhadores. Hoje, na condição de representante de uma burocracia sindical sustentada pelo Estado, comemora a lei que fará operários definirem como rivais os colegas da cor “errada”.

O Estatuto Racial nasceu há uma década da pena de José Sarney e, antes do acordo atual, ganhou versões elaboradas pelos senadores Rodolpho Tourinho, do antigo PFL baiano, e Paulo Paim, do PT. A sua lógica não pode ser compreendida na moldura conceitual da disputa ideológica entre “esquerda” e “direita”, mas do confronto entre duas visões do Brasil e da democracia. O programa que ele encarna é o da edificação de um Estado racial que administra as relações entre uma “nação branca” e uma “nação afrodescendente”.

Não houve uma votação em plenário do Estatuto Racial. A lei que virtualmente revoga a Constituição e delineia o embrião de um Estado racial foi aprovada por um acordo entre lideranças. Os parlamentares viraram as costas para o “povo desorganizado”, uns por convicções racialistas, muitos outros apenas pelo temor que lhes infunde o discurso odiento de ONGs financiadas por fundações bilionárias. Os partidos de oposição, mais uma vez, sacrificaram a realidade dos princípios no altar de um princípio de realidade que os converte em serviçais dos mais diversos interesses organizados. A conta da covardia eles deixam para a próxima geração.

Vietnam

September 15, 2009

Lindo artigo sobre o Vietnam e sua guerra.

Vietnam: Ho-Chi-Minh virou hambúrguer.

NO MAS CHAVEZ!

September 4, 2009

04 de Setembro de 2009: Dia Internacional de protestos contra o “General” Hugo Chavez. NO MAS CHAVEZ!

O Desmonte

August 31, 2009

O desmonte
Miriam Leitão
O Globo

A carta dos demissionários toca na ferida que será a marca da atual administração: a confusão entre o Estado e o governo. Isso nunca havia ocorrido na Receita. Nunca havia acontecido no Ipea, no BNDES, no Itamaraty. É um tempo em que há perseguição política e quebra de regras de ouro, como a de que os funcionários servem ao país, os governos passam.

Esta semana o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou mais um dos seus “Comunicados da Presidência”, que o órgão inventou na atual gestão. O texto comete um erro crasso na opinião dos economistas José Roberto Afonso e Samuel Pessoa, que analisaram o estudo. O documento sustenta que a produtividade do setor público cresceu mais do que a do setor privado, mas compara alhos e bugalhos. É muito diferente o cálculo da produtividade do setor privado, que tem o que contabilizar como produção, e o mesmo cálculo do setor público.

Afonso e Pessoa explicam que o conceito de valor agregado usado pelas Contas Nacionais do IBGE, seguindo padrões internacionais, estabelece que a produção no setor público é calculada pelo aumento dos salários e das despesas. A metodologia não permite a comparação com o setor privado. E dão um exemplo: se uma empresa contrata empregados e os deixa em casa dormindo, perde produtividade; se o setor público fizer isso, a produtividade não cai. O estudo da presidência do Ipea tem conclusões esquisitas como a de que a produtividade de Roraima, por exemplo, aumentou 136%; a de São Paulo, 0,7%; e a do Espírito Santo caiu 7,4%. Os estados que fizeram choque de eficiência e gestão não tiveram ganhos de produtividade.

Ou até perderam.

O estudo feito de encomenda para justificar o crescimento dos gastos de pessoal e de custeio, e para sustentar o discurso estatista é um exemplo, mais um, do que foi feito no Ipea.

No começo, uma caça às bruxas, depois um concurso público viciado e dirigido, e por fim, o uso da marca Ipea para apresentar estudos de critérios técnicos duvidosos e endereço certo. Os bons funcionários do órgão, os que estão lá servindo ao Estado, são postos na geladeira.

O Ipea foi criado para fazer avaliações críticas e independentes das políticas públicas, e assim ajudar os governos a corrigir rumos e evitar erros.

O governo Lula interferiu nas carreiras de Estado de forma sistemática. Fez isso tantas vezes que ao longo de sete anos o país foi achando natural o que não se pode aceitar. A carta dos superintendentes e funcionários da Receita Federal serviu como um grito de alerta contra o desmonte que deixará sequelas nas próximas administrações.

Foi assim também no BNDES no começo do governo.

Tem sido assim no Itamaraty.

Da patética lista de livros obrigatórios que lembrava os regimes fascistas, passou-se para uma política seletiva de promoção e envio para postos relevantes.

Os leais ao atual grupo no poder foram nomeados para as principais embaixadas mesmo que não tivessem acumulado experiência para tal. O Brasil tem perdido com a subutilização de brilhantes diplomatas encostados em “exílios”.

O governo Lula ficará na história como o que mais aumentou o gasto de pessoal, o que mais contratou funcionários, e o que mais profundamente feriu a ideia de que os funcionários de carreira servem ao Estado e não a governos. O que aconteceu na Receita Federal não foi uma briga de um grupo, uma rebelião liderada pela ex-secretária Lina Vieira. Funcionários de carreira, com anos de serviço público divulgaram uma carta séria sobre a qual o país deve refletir. A ingerência política na Receita é inaceitável, por isso o protesto dos superintendentes é tão valioso. Eles recusaram a postura passiva de “deixa como está porque eles logo vão embora”, em troca de uma atitude altiva de denúncia de destruição de critérios básicos. A impessoalidade por exemplo.

A Receita não pode escolher processos para “apressar”.

No caso da Petrobras, a nota inicial da Receita foi clara: a empresa podia mudar o regime contábil desde que isso fosse feito previamente, e não a posteriori. O entendimento foi mudado sob encomenda.

Agora, as outras empresas estão usando essa mudança dos critérios da Receita para ter crédito tributário.

Na época da nota da Receita, que se seguiu à publicação sobre a mudança contábil da Petrobras no jornal O GLOBO, a imprensa registrou que o ministro da Fazenda, Guido Mantega, ficou irritado por saber pelos jornais, já que é do conselho de administração da empresa.

Espero sinceramente que os jornais tenham errado porque essa reação mostra um conflito de interesse. Uma empresa não pode ter privilégios fiscais e tributários porque o ministro que chefia a Receita faz também parte do seu conselho.

O desmonte de vários órgãos através do aparelhamento é sério, é perigoso. Já o caso do conflito Lina versus Dilma é patético. Um Palácio do Planalto que apaga fitas de visitantes, uma Casa Civil que embaralha compromissos na agenda da ministra, um governo que persegue uma exchefe de gabinete da ex-secretária da Receita está, por atos, confessando o que tenta desmentir por palavras.

Lula e o diabo.

August 4, 2009

Fico muito triste e revoltado quando amigos esclarecidos caem na esparrela deste Governo. Caíam na esparrela do PT ser um partido ético, caem na esparrela do Lula bonzinho que foi dominado pela máquina, e acreditam que tudo antes era pior, contra todas as evidências. É aquele pessoal que quer um mundo melhor, que acredita que Chavez quer propor mesmo uma nova lógica mundial, que Cuba é pobre por causa do embargo americano e que as grandes corporações são o mal do mundo.

Uma das coisas que mais me impressionou quando criança foi quando me disseram que o diabo, se viesse ao mundo, não viria com cara de diabo. Provavelmente viria com cara de criança. A partir daí comecei a desconfiar do que vejo, do óbvio, do consenso. O diabo não falaria o que voce precisa ouvir, mas o que voce QUER ouvir. Voce quer ouvir que o homem é bom? Nem Jesus disse isso, mas o diabo diz se voce quiser. Voce quer ouvir que o Capitalismo é o mal do mundo? Tem muita gente pra lhe dizer isso. Pouca gente no entanto vai enfrentar o risco da impopularidade pra lhe dizer a verdade.

Vou escrever um livro pregando uma nova ordem mundial, pregando a fraternidade e a solidariedade humana. Direi que o Capitalismo corrompe o cidadão e que devemos estabelecer uma nova lógica nas trocas comerciais (eu conheço bem a terminologia a ser empregada). Meu livro será um sucesso, espalhando que a pobreza é fruto da ganancia dos países ricos, do Consenso de Washington, do liberalismo economico. Tem muita gente querendo ler isso, entende? Se eu fosse o diabo, era um livro assim que eu escreveria.

Difícil seria dizer a verdade. Difícil seria explicar que a história humana é complexa e que todo o homem é capaz tanto do bem quanto do mal. Difícil seria convencer que o capital permitiu o homem sair da idade da pedra, e que resolver os problemas deste milênio nada tem a ver com ditaduras e totalitarismos. Enfim, dizer a verdade implicaria em uma longa jornada pela história dos países, pela natureza de seus governantes, pelas decisões tomadas no passado que refletem no hoje. Mas a sedução diabólica sabe que horas de estudo não são uma boa estratégia. Os slogans curtos e fáceis são melhores para angariar os inocentes.

Veja abaixo o texto do Sardenberg, que mostra o método dessa gente. Gente que quer o atraso, para faturar com ele. Gente que não toma UMA medida impopular, pois não quer parar de seduzir. Isso não é governar, isso é diabólico.

Agit-prop
Carlos Alberto Sardenberg

Alguns dizem que é só a intuição do presidente Lula. Mas, além disso, certamente há uma ciência da propaganda nas ações do governo. Tome-se o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) 2, a ser lançado em 2010, em pleno período eleitoral. Críticos já dizem: Como lançar o 2 se o PAC 1 está enrolado em burocracias, projetos duvidosos, contas erradas e problemas com a legislação ambiental? (Sim, sabemos que, de tempos em tempos, a ministra Dilma faz um balanço para mostrar que as obras vão bem. Mas só anda o que andaria de qualquer modo e frequentemente fora de prazo. Não parece, porque o governo espicha os cronogramas quando não consegue cumpri-los.) Ainda assim, o PAC 1 é de longuíssimo prazo. Para que, então, uma segunda versão?

Por isso mesmo. É uma estratégia de propaganda política ou do que antigamente se chamava agitação e propaganda. A base é a seguinte: muita atividade vale mais que a realização. São coisas bem diferentes. Atividade é o que fazem Lula e Dilma. Viajam muito para tudo quanto é lado, inauguram várias vezes a mesma coisa (o lançamento do projeto, a pedra fundamental, o primeiro trator da terraplenagem, o canteiro de obras nos dois lados da ponte ou dos trilhos ou da estrada, não importa o estágio em que estejam). A refinaria de petróleo de Pernambuco, por exemplo, está enrolada com problemas de superfaturamento e dificuldades na associação entre a Petrobrás e a venezuelana PDVSA, mas já deu uns dez eventos para o presidente, a ministra, mais o Chávez.

Também integra esse ativismo o lançamento de muitos planos, um atrás do outro. O projeto do trem-bala, por exemplo. Era Rio-São Paulo, mas estava enrolado? Pois agora é Rio-São Paulo-Campinas. Custava uns R$ 15 bilhões, já deve ter dobrado.

E aí entra o PAC 2. Nesse ritmo, nem se checou o passado e já há novos anúncios na praça.

Eis o ponto: muita atividade, não importa a eficácia. Tome-se o petróleo. O presidente Lula já se banhou no óleo em dois grandes eventos, para celebrar a autonomia brasileira na produção e o pré-sal. O Brasil ainda importa mais óleo e combustíveis do que exporta e o pré-sal, com modelo atrasado em mais de ano, está longe da exploração comercial em escala razoável. E daí?

Outro ponto é a maciça propaganda, que depende, na partida, da escolha de bons nomes e slogans. O PAC não é um programa propriamente dito, mas a reunião, sob um nome comum, de projetos que estavam ou estariam ocorrendo de qualquer modo. Hidrelétricas que estão planejadas há anos, estradas, etc., são empacotadas no PAC, mas não ganham com isso um procedimento diferente. Analistas já sugeriram, por exemplo, que obras do PAC tivessem um regime especial de licenciamento ambiental, mais rápido, numa única instância, ou um sistema de financiamento especial. Mas não, é só o pacote. E até o pessoal descobrir que a maior parte é jogo de cena, a popularidade de Lula já foi lá em cima e a eleição já passou.

Claro que o Bolsa-Família não é enganação. Aliás, é o programa de maior eficácia do presidente Lula, nos dois sentidos: distribui renda aos mais pobres e votos para o presidente e, espera ele, seus aliados. Mas mesmo o Bolsa-Família está no esquema do ativismo. Tem sempre uma novidade, troca de cartões, ampliação do universo de beneficiados, reajuste forte. O tema interessa ao governo porque atordoa uma oposição já desnorteada. Qualquer restrição que a oposição venha a fazer já serve para carimbá-la como elites ricas que não ligam para os pobres.

E assim vai: bons slogans, um plano atrás do outro, muitas viagens, eventos e discursos martelando as mensagens. E escondendo tudo o que não interessa. Outro dia o Plano Real completou 15 anos e o governo não deu um pio, embora tenha sido o grande beneficiário dele. Mas Lula ainda não conseguiu se apropriar do real. Está quase. Já é o dono da inflação controlada.

Estado assistencial – O Bolsa-Família deve chegar ao final do ano atendendo 12,5 milhões de famílias. Considerando quatro pessoas por família, serão 50 milhões de pessoas dependendo direta e exclusivamente, na maioria dos casos, do dinheiro do governo. Trata-se de 30% da população nacional.

Esse tipo de programa, em tese, teria prazo limitado. A assistência seria concedida enquanto os membros da família não encontram empregos que lhes permitam uma vida digna. Ora, a geração de empregos depende do crescimento econômico.

Ocorre que a economia nacional, nas atuais circunstâncias, dificilmente será dinâmica. Há uma opção pelo Estado assistencial, não pelo Estado investidor.

Considerados os programas sociais, aqueles pelos quais o governo faz pagamento direto a pessoas, incluindo aí as aposentadorias rurais e a política de reajuste real do salário mínimo, chegaremos perto de 50% da população dependendo do dinheiro do Estado. Mesmo sendo justiça social, não sai de graça. O governo precisa recolher muitos impostos para pagar tudo isso. Sobra pouco para investimentos.

Pode-se dizer que a renda distribuída cria um mercado interno, que vai estimular a produção de bens. Com o setor privado investindo para produzir tais bens, a coisa se fecharia.

Fecharia? Começa que pesada carga tributária incide sobre os investimentos e retira competitividade das empresas. E não há um ambiente de negócios favorável. A carga tributária não há como resolver. Na medida em que os programas sociais se ampliam e se tornam perenes – isso junto com a expansão de todos os demais gastos públicos -, não há como o governo deixar de recolher impostos. Mas uma grande reforma para melhorar a vida de quem quer fazer negócios e empreender já ajudaria muito.

De todo modo, com esse modelo, o Brasil não cresce mais 5% nos anos bons. Sobra pouco dinheiro para investimentos. É o contrário da China, que tem quase nada de assistência social e tudo de investimentos. A situação dos chineses hoje é pior, mas eles ganham renda mais rapidamente todos os anos.

(O Estado de S. Paulo – 03/08/2009)

O Irã que Lula não vê

July 11, 2009

Uma janela para a sociedade iraniana e para os eventos das últimas semanas. Quando encontro textos bons assim, não resisto e copio aqui.

O Irã que Lula não vê
Autor(es): Cyrus Irani
Valor Econômico – 10/07/2009

O reconhecimento imediato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de Mahmoud Ahmadinejad como presidente reeleito do Irã, a declaração de “não haver evidências de fraude” no processo eleitoral e os repetidos convites para o presidente iraniano visitar o Brasil vêm criando desconforto entre alguns iranianos. Será essa demonstração de apoio um caso de compreensão muito equivocada do que é o Irã e da política iraniana, uma exibição inflexível e mal-conduzida de solidariedade terceiro-mundista, ou um caso de interesse comercial que se opõe à justiça e à democracia? O presidente Lula surgiu como líder sindical sob uma ditadura militar, e deveria ter uma sensibilidade maior para as atuais realidades de um movimento democrático que está renascendo.

Antes de olhar para os resultados , é preciso decifrar o sistema político da República Islâmica. O regime foi caracterizado, após a revolução de 1979, de forma a criar uma república que concedeu poder absoluto ao aiatolá Khomeini. É seu fundamento o conceito de “velayat faqih”, líder religioso e político não eleito que tem a palavra final sobre a maioria dos aspectos da vida executiva, judiciária, militar e parlamentar, incluindo a nomeação e supervisão dos conselhos que examinam os candidatos quanto ao seu comprometimento com o regime. Também supervisiona as eleições e confirma os candidatos eleitos.

Khamenei, “velayat faqih” desde a morte de Khomeini: chefe religioso e político, não eleito, tem a palavra final na maioria das questões de governo, judiciais, militares e parlamentares. É como se o papa tivesse poderes políticos, religiosos, judiciários e militares, e nomeasse pessoas de sua confiança como sábios que iriam destruir as liberdades e os processos judiciários. Sob a cobertura do Islã, uma variedade de teocracia foi instalada para servir aos pequenos grupos de interesses pós-revolucionários. Mas por que se preocupar com eleições, se um homem toma a decisão final? O destruidor do reinado déspota de Reza Pahlavi reconheceu a necessidade de ganhar legitimidade popular regular através das eleições presidenciais e parlamentares.

Mas, mesmo na gênese do regime, os resultados das eleições nem sempre foram respeitados – o primeiro presidente, Bani-Sadr, foi deposto por Khomeini por ter uma mentalidade muito independente. O cenário político atual é composto de três facções. Há os radicais, representados por Khamenei, velayat faqih desde a morte de Khomeini em 1989, os guardas revolucionários, o judiciário, baseado nas leis islâmicas, toda a mídia governamental e o executivo desde a eleição de Ahmadinejad; os conservadores, que são os clérigos e facções socialmente conservadoras, comandadas por Hachemi Rafsanjani; e os reformistas, que têm como principal representante Mohammad Khatami.

Entre os radicais, predominam os guardas revolucionários, que participaram ativamente da guerra do Irã contra o Iraque entre 1980 e 1988. Representam uma geração mais nova, que frequentemente se opõe aos velhos guardas revolucionários. Seu líder é Ahmadinejad (ele próprio um ex-integrante das milícias “basiji”).

A história dos 30 anos da República Islâmica está cheia de períodos em que dissidentes e oposicionistas foram presos, torturados e assassinados, e a elite política está convencida de que sua sobrevivência justifica todos os meios repressivos. Essa mesma elite tem sido incompetente na gestão da economia. Durante os quatro anos do governo Ahmadinejad, US$ 250 bilhões em receitas obtidas com o petróleo transformaram-se em uma inflação de 30% e uma taxa de desemprego de 15% a 30% (não há estatísticas confiáveis disponíveis). Oitenta por cento da economia estão nas mãos do governo e 90% das exportações vêm do petróleo (60% do orçamento do governo).

E há o alto nivel de corrupção, outro motivo pelo qual a elite é tão apegada ao poder, o que lhe dá licença para tratar mal a riqueza nacional, alimentando monopólios camaradas. Enquanto isso, uma parcela das receitas do petróleo é distribuída via subsídios e salários para grande parcela da população, como forma de garantir sua lealdade. O problema do Irã é a maldição que recai sobre a maioria das economias dependentes do petróleo. A incompetência não está sendo punida por um colapso econômico, não há necessidade de criar legitimidade para se recolher impostos e administrar bem o país.

A análise do presidente Lula de que “não há evidências de fraude” deriva da grande porcentagem de votos supostamente a favor de Ahmadinejad (63%). Se tivesse havido fraude, teria que ser algo organizado em grande escala. Esse modo de ver não reconhece a incompetência de alguns elementos do regime ou o desrespeito à vontade das pessoas.

Para entender como tudo começou, é preciso voltar a 1997, com a eleição de Khatami, o primeiro presidente reformista. Ele é um clérigo de maneiras gentis, que surpreendeu a todos ao ser eleito com 70% dos votos em um pleito que teve a participação maciça da população. Os radicais foram pegos de surpresa.

Quatro anos depois, Khatami foi reeleito, com 78% dos votos, e continua sendo um político popular. Cada mudança proposta por seu governo ou pelo parlamento, dominado pelos reformistas, encontrou oposição nos radicais, com vetos sistemáticos pelos diferentes conselhos não eleitos, que impediram, por exemplo, a passagem de uma nova lei sobre liberdade de imprensa, ou através do judiciário, com o fechamento de jornais e prisão de reformistas.

Nesse jogo de gato e rato, os radicais, tendo sempre a última palavra, ficavam sempre em vantagem e passaram a ser vistos pelos iranianos como inúteis. Tendo aprendido as lições, o Conselho dos Guardiões, no comando das eleições, eliminou todos os candidatos parlamentares e presidenciais que representassem um risco, por temer o surgimento de representantes eleitos que não pudessem controlar.

Assim, o parlamento de 2004 foi eleito com baixa participação e apenas os conservadores e os radicais tiveram permissão para enfrentar o eleitorado. Nas eleições de 2005, com baixa participação dos eleitores, Ahmadinejad teve menos de 25% dos votos no primeiro turno, e um dos candidatos alegou que os militares fraudaram o pleito para levá-lo ao segundo turno. Ele então foi eleito na disputa contra Rafsanjani (duas vezes eleito), que é visto hoje como um velho revolucionário corrupto. A taxa de participação do povo nas eleições continuou baixa (54%), indicando que uma grande parcela do eleitorado perdeu as esperanças nas promessas de mudanças.

A geração do “baby-boom” pós-1979, aqueles que têm menos de 30 anos (que representam 60% da população, que passou de 38 milhões de habitantes em 1979 para 72 milhões em 2009) e a geração de seus pais, têm poucas exigências:

  • Melhores oportunidades econômicas e melhor administração do país: o desemprego e o subemprego são um problema muito grande, e sempre mais importante. O PIB do Irã caiu dez vezes nos últimos 30 anos, ao mesmo tempo em que a receita do petróleo tem sido enorme. A politização opressiva e o controle da economia pelo governo, a posição agressiva contra o conhecimento vindo de fora e os investimentos estrangeiros, e a falta de competência econômica são fatores desse fracasso contínuo.


  • Liberdade social, política e individual: os fanáticos radicais oprimem a juventude, especialmente as mulheres, que são obrigadas a usar o código de vestimenta islâmico, impedem o relacionamento entre homens e mulheres e eliminam a liberdade social e política.


  • Um Irã menos beligerante: as pessoas se ressentem do fato de que o dinheiro do país está sendo empregado no bem-estar e gastos militares com os xiitas libaneses, o Hamas na Faixa de Gaza e outras causas, enquanto a economia do país está em frangalhos. A retórica agressiva e até mesmo ofensiva de Ahmadinejad não é bem vista por grande parcela de iranianos.


Contra esse cenário, Khatami decidiu disputar as eleições de 2009. Os radicais e os conservadores fizeram um grande lobby de bastidores para tirá-lo da disputa, preferindo um reformista/conservador desconhecido, Mir-Hossein Moussavi, na esperança de vencer facilmente um oponente fraco. Alguns erros táticos, incluindo o primeiro debate entre candidatos transmitido pela televisão, eletrizaram o eleitorado nas duas últimas semanas antes das eleições, com comícios enormes do candidato reformista por todo o país. Houve uma convergência inegável por trás da “ideia de progresso e liberdade” nas semanas e dias que precederam as eleições, cuja existência não foi reconhecida pelo “establishment”.

A participação de 84% dos eleitores aponta para o fato de que todas as parcelas insatisfeitas da população apostaram nessa oportunidade para votar. A taxa de comparecimento às urnas, assim como o resultado provável, foi uma surpresa para o “establishment”, que precisava urgentemente de uma resposta irrevogável. Os 62,6% dos votos obtidos por Ahmadinejad foram analisados, sem o acesso direto de observadores independentes, e a provável troca de urnas. Mas é improvável que se encontrem elementos diretos que demonstrem ter havido fraude. É preciso, então, recorrer a análises estatísticas dos números dos dois turnos e também a comparações com o padrão de eleições anteriores, para ver se os números não são bons demais para ser verdadeiros.

O professor Ali Ansari, da St. Andrews University, fez uma análise estatística inicial, que indica a probabilidade muito grande de ter havido fraude, para impedir que Moussavi vencesse no primeiro turno, ou mesmo para que não conseguisse votos suficientes para disputar o segundo turno com Ahmadinejad. As mudanças brutas dos números em favor de Ahmadinejad certamente escondem o fato de que os radicais não esperavam o resultado e se engajaram para preparar o que está agora sendo chamado de “golpe brando” contra o campo reformista.

Mais do que nunca, outra interpretação das eleições é que os votos não foram unicamente a favor de um candidato contra outro, e sim um voto de protesto contra o atraso da economia, a política externa equivocada e a falta de liberdade social e política.

O levante popular após as eleições e a previsível repressão sangrenta pela Basiji (milícia) e a polícia correram o mundo. Esta fase é agora lembrada pelo rosto de uma jovem chamada Neda. Mas os números são ainda mais assustadores, de algumas centenas de mortos nos protestos de rua comparadas à contagem oficial de apenas 20 mortos. Além disso, milhares foram presos, estão sendo torturados e provavelmente alguns morrerão sob tortura ou executados.

Enquanto isso, os radicais invocam, como sempre fazem quando se sentem ameaçados, supostas tramas externas, para pintar o descontentamento público como sendo organizado pelo Reino Unido e os Estados Unidos. Ao invocar tal intervencionismo estrangeiro, eles querem apelar para a lógica da grandeza iraniana do passado e para o nacionalismo, e servem-se das queixas contra a interferência semicolonial não tão antiga no país. O que não veem é que é impossível acreditar nessas alegações fantasiosas.

O Irã não é o primeiro regime tirânico a oprimir seu próprio povo. A falta de partidos públicos, de uma oposição de credibilidade e de veículos para o povo se organizar garantem que o regime preserve seu poder. Portanto, as perspectivas de curto prazo parecem ruins. A esperança será enterrada, os que foram presos serão torturados e mortos e uma geração se tornará passiva e desiludida. O regime perderá legitimidade diante dos olhos de seu próprio povo. Ficará mais isolado no cenário internacional; com a abertura para a Europa e a tentativa de diálogo com o presidente Barack Obama adiados para um estágio posterior.

A incompetência e corrupção do regime também garantirão que a vida continuará tão miserável quanto antes. Mas o Irã possui algumas condições únicas, que poderão proporcionar esperanças no longo prazo: uma população jovem e relativamente educada, consciente do subdesenvolvimento de que tem sido vítima, uma grande diáspora que mantém seus laços com o país, uma classe média que é grande, e um apetite por acesso à informação que torna impossível mentir em grande escala para os iranianos (como acontece com os norte-coreanos). É também nossa responsabilidade moral mostrar a verdade.

Portanto, eu diria ao presidente Lula que, no auge da represssão do regime militar brasileiro, os brasileiros sentiram o mesmo desespero e ficariam consternados se outro país aplaudisse com tanto entusiasmo um regime tirânico e falido. Não somos diferentes em nossas aspirações e esperamos que o presidente Lula fique, afinal, do lado certo da história.

Este artigo é assinado sob pseudônimo, para preservar a identidade do autor, iraniano que vive em Londres, onde é CEO de uma empresa de software

Capitalismo + urna

July 9, 2009

Artigo muito bom, que eu gostaria de ter escrito, e que deveria ser distribuído nas escolas…

Capitalismo + urna
Folha de S. Paulo – 08/07/2009

FREQUENTEMENTE as pessoas tendem a juntar um ideal utópico generoso à ingenuidade de que poderiam facilmente realizá-lo, desde que houvesse “vontade política”. Não é raro se atribuir ao que confusamente se chama de “capitalismo” a essência dos males sociais e a corrupção do homem. Em lugar da competição desenfreada e do egoísmo exacerbado produzido pela forma de organização social que se chama de capitalismo, poderíamos apenas, com uma adequada, poderosa, inteligente e misteriosa “vontade política”, substituí-la.
Nesta, a convivência entre os homens seria harmônica e cada um poderia realizar livremente suas potencialidades. Na falta de um nome melhor e também confusamente, ela é chamada de “socialismo”. Constroem-se, assim, dois conceitos platônicos opostos, igualmente confusos: “capitalismo” e “socialismo”. Por construção, o primeiro é a essência do mal, e o segundo, a essência do bem…
O fundamento dessa crença é um axioma duvidoso: a cooperação e o altruísmo são as tendências naturais do homem quando não corrompido pelo capitalismo. O problema é que este não é uma coisa, mas um processo. É uma organização flexível (sempre provisória porque evolui), a que o homem chegou por uma seleção histórica “quase” natural para atender à sua eterna busca de uma forma de convivência compatível com a liberdade individual, mas que, ao mesmo tempo, tenha eficácia produtiva capaz de libertá-lo para gozá-la.
A história mostra que, cada vez que um fino cérebro peregrino “inventou” uma fórmula para apressar o processo, algum brutamontes empolgando a tal “vontade política” tentou implementá-la. As aventuras sempre terminaram na ineficácia produtiva e na subtração da liberdade, ou seja, no retrocesso histórico. O capitalismo, isto é, a forma de organização evolutiva do sistema produtivo vigente, só pode existir com um Estado constitucionalmente forte, que garanta a propriedade privada, a apropriação dos benefícios da atividade individual, o cumprimento dos contratos e o funcionamento dos mercados.
Quando ele é combinado com um regime político competitivo, que garante (realmente) a livre manifestação da vontade dos indivíduos com o sufrágio universal periódico, acelera-se a sua evolução na direção correta. O “capitalismo” e a “urna” são os polos de uma dialética que parece ser capaz de construir uma organização social que acompanhe, assintóticamente, as aspirações sempre crescentes do homem.

Adeus açaí!!!

July 3, 2009

PARABÉNS, DIPLOMATA RAFAEL!!

Estou muito feliz, brother. A perseverança foi recompensada!

Abraço!

Nunca antes!

June 16, 2009

E viva o progressismo dessa gente! Fazendo a alegria de toda e qualquer ditadura mundo afora!

Brasil protege países que violam direitos humanos, diz ONG
Para Human Rights Watch, Brasil usa voto para proteger violadores.
Na ONU, Lula defendeu o diálogo para que direitos sejam respeitados.

Do G1, com informações do Jornal da Globo

Na ONU, em Genebra, o presidente Lula defendeu o diálogo como a melhor maneira de fazer com que os direitos humanos sejam respeitados. “Os países do conselho deveriam procurar o diálogo e não impor o caminho para proteger os direitos humanos. O exemplo é a melhor maneira de persuadir”, disse.

Mas, de acordo com ONGs de defesa dos direitos humanos, o exemplo que o Brasil tem dado nas reuniões do conselho da ONU é outro. Um relatório da respeitada ONU Human Rights Watch acusa o Brasil de usar seu voto para proteger países que violam os direitos humanos.

Quarenta e sete países têm direito a voto no conselho a cada ano, um terço deles é renovado.
No atual conselho, por exemplo, os Estados Unidos estão fora. Já França e Alemanha estão presentes.

Posições polêmicas

Quando o Conselho de Direitos Humanos da ONU se reuniu para condenar a Coreia do Norte por denúncias de tortura e trabalhos forçados para presos políticos, o Brasil se absteve. China, Rússia e Cuba, notariamente acusados de abusos contra seus cidadãos, votaram contra.
Mas a medida foi aprovada com 26 votos, entre eles os de Argentina, Japão e Inglaterra.

No caso do Sudão, destruído por uma guerra civil, o Brasil se absteve de novo quando o conselho propôs aumentar a presença de inspetores internacionais no país africano, desta vez junto com China e Rússia. A medida acabou derrotada por 22 votos a 12.

Diante dos crimes de guerra cometidos no Sri Lanka tanto pelo governo quanto pelos rebeldes que lutavam pelo poder o Brasil votou a favor de uma resolução que, segundo a Humans Rights Watch, não trazia nenhuma condenação ao massacre de civis.

O Brasil se alinhou à China, Cuba, Paquistão e Arábia Saudita. E ficou contra França, Reino Unido, Alemanha, Chile e México.

“Nós queríamos que o Brasil usasse sua influência regional para mostrar um exemplo mais positivo para a promoção e proteção dos direitos humanos. E, para fazer isso, o Brasil tem que acabar com essa ideia de que a situação de direitos humanos é uma questão interna porque não é. Nós queremos que o Brasil reconheça que por mais que diálogo seja importante, também haja necessidade de palavras mais forte e mais críticas contra quem viola os direitos humanos”, declara o diretor da Human Rights Watch, Iaian Levine.

O governo diz que não apoia nenhuma violação aos direitos humanos. E que o Itamaraty decidiu se abster na maioria das votações na ONU porque não considera eficiente dar atestado de mau comportamento a um país. Nas palavras de um integrante do governo, o melhor caminho é continuar negociando e não partir para o confronto. Para ele, uma sanção da ONU muitas vezes deixa o país isolado, aumenta o radicalismo interno e só piora a situação.

“Eu sei que há algumas restrições ao fato de o Brasil não assumir uma posição de ficar distribuindo certificados de bom comportamento ou de mau comportamento pelo mundo afora. Não é essa a tradição da política externa brasileira. Nós achamos que é muito mais importante uma ação de caráter positivo, que conduza o país a, b ou c a uma melhoria da situação interna a uma situação de caráter restritivo. Os bloqueios, as sanções econômicas, em geral, elas tem um efeito contrário”, diz o assessor especial da presidência, Marco Aurélio Garcia.

Na próxima semana, o conselho se reúne para discutir novamente a situação dos refugiados de Darfur, no Sudão. E o Brasil terá que decidir se é a favorável ou não à manutenção da presença de inspetores da ONU no país.

Estudantes daqui

June 10, 2009

Tem muito policial ruim e corrupto no Brasil. Mas muitos, e diria a maioria, são pais de família trabalhando. Sabe o que eles tiveram que enfrentar quando foram na USP cumprir uma DECISÃO JUDICIAL? Veja abaixo:

Vou evitar desqualificar todo e qualquer movimento estudantil. Mas um bando de alunos costuma gerar uma multidão com a inteligência de uma ameba. Se fosse um bando de pessoas qualquer, a inteligência seria ainda menor. A massa costuma emburrecer os inteligentes e empolgar os celerados.

Viram o vídeo do post abaixo? Pois é, no Brasil os tanques são os chamados “movimentos populares”.

Se um bando de PMs fizesse o que esses bocós acabaram de fazer, qual voce acha que seria a reação da sociedade? O humanismo dessa gente serve só para alguns humanos…

Nojo!

Tiananmen - 20 anos!

June 6, 2009

Uma homenagem aos jovens que morreram tentando desfazer o que, em nome de uma ideologia, jovens menos espertos fizeram antes deles…

Velho Ditado

June 5, 2009

“É fácil montar num tigre. Difícil é desmontar dele.”

Li este ditado hoje e me peguei pensando como é importante validar os pensamentos, as idéias, no longo prazo. Tal coisa vale agora? Mas e depois? Faz-se uma revolucão socialista e a vida melhora – fica provado que o Socialismo funciona. Depois, quando toda a estrutura produzida pelo Capitalismo vai inexoravelmente pras cucuias (por fenômenos que não dá pra descrever rapidamente), não entende-se como é que tudo chegou onde chegou. Houve quem pensou: no Socialismo, a vida melhora! Houve quem disse: – Pelo menos ninguém morre de fome! Depois da melhora momentânea, vem o inexorável fracasso de quem não tem intimidade com análises de causa e efeito.
Um dos aspectos de longo prazo neste caso é que a fome, apesar de ser sim uma das necessidades mais imediatas do ser humano, está longe de ser a única. Os milhares de estudantes que protestavam em Tiananmen e que deram suas vidas por algo mais do que alimento são a prova que quem vive pra comer são as vacas. A ausência de famintos querendo embarcar para Cuba também grita que há algo errado com o argumento. Mas Luciano, se todo mundo come, está dada a condição para a felicidade. Sim, verdade. Desde que se consiga continuamente manter a população saciada e que se esteja preparado para suprir as outras necessidades básicas do ser humano (a liberdade entre elas). Mas vamos adiante.
Sou engenheiro e como tal não costumo refutar dados científicos. Camisinhas realmente evitam a transmissão do vírus da AIDS. Se quiser ficar 99% protegido (acho que não chega a 100%), use a dita cuja sempre. Recomendo! Mas como política estatal de combate à epidemia de HIV simplesmente não funciona. Como assim? Não acabei de dizer que é 99% eficaz? É... mas evitemos montar no tigre sem pensar no amanhã...
Ora, a distribuição de camisinha em escolas e ambientes públicos tem aumentado a sensação de segurança das pessoas e reduzido a idade de iniciação sexual de muitos jovens. E especialistas (não eu) apontam para o comportamento do jovem que, sentindo-se seguro, usa a camisinha QUASE sempre. Aí é que o caldo desanda.
Pra quem duvida, olhem a tuberculose, para ficar em só um exemplo. Remédios existem em qualquer farmácia, mas a sensação de melhora faz com que pacientes abandonem o tratamento. Até hoje ninguém conseguiu combater este fato. Se me perguntarem se o remédio para tuberculose funciona, eu respondo que sim. Já salvou muita gente? E como! Se me perguntarem então se devemos distribuir nas esquinas o remédio, respondo que é inócuo. Não é a falta do remédio o problema.
O paralelo com o HIV é óbvio. No Brasil tem professor levando pênis de borracha para ensinar às crianças como usar o preservativo. Um show de horror e o vírus agradece!
Olhar adiante. Pensar nos efeitos colaterais. Entender a cadeia de relações que cada atitude encerra. Enfim, entender que, mesmo fácil, talvez seja melhor não montar no tigre.

Af-Paq

May 29, 2009

Está em curso uma tragédia humanitária de grandes proporções. No Paquistão, o conflito entre o Exército e o grupos radicais islâmicos (Talibãs, Al Qaeda, etc) já deixa 2 milhões e meio de refugiados e mil mortos.
Aos que gostam de posar de humanistas, progressistas e coisas “fashion” da mesma espécie, lembro que esses grupos estavam já a cem quilômetros da capital do país. País este que tem armas nucleares.
Mais um exemplo de como os milhares de dilemas que uma guerra – qualquer guerra – apresenta não aceitam maniqueísmos.

Eu acho inadimissível que radicais controlem armamento atômico. Assim como acho inadimissível que forcem pessoas a seguir esta ou aquela religião, usar véus pretos, e toda essa parafernália opressora. Mas também não dá pra ficar insensível a dois milhões e meio de refugiados. Numa época onde o mais parvo dos homens pratica a Realpolitik em nome de valores morais – numa contradição esmagadora – é preciso ser claro quanto a que mundo se quer.

As revoluções e grupos ideológicos se perpetuam porque seu objetivo de mundo é etéreo como uma névoa grossa. Todos acreditam que lá dentro da nuvem existe algo melhor. Quando são bem sucedidos, chegando ao poder e tendo que colocar no papel o que querem, começam a ver que cada um tem uma idéia diferente do que o mundo deve ser. Aï começa o fracasso inerente a qualquer revolução.

Então aconselho menos revolução, menos progressismo, menos “luta por um mundo melhor” e um pouco mais de realismo. No caso do Af-Paq (Afeganistão e Paquistão), que é como o assunto tem sido chamado, quem não sabe muito bem que mundo quer acaba ficando perdido. Por mais que eu considere a causa Palestina, o problema do Af-Paq tem dimensões maiores. Assim como teve Ruanda, mas já falei disso aqui. Um conselho: fujam das questões onde as torcidas se posicionam muito facilmente. Normalmente os dois lados estão errados.

Raramente as verdadeiras questões são de fácil compreensão das torcidas…

A pedagogia do cinismo

May 5, 2009

A pedagogia do cinismo
O Estado de S. Paulo – 05/05/2009

Ao desdenhar do noticiário sobre a farra das passagens áreas na Câmara dos Deputados – apenas uma de uma sequência ainda inesgotada de denúncias envolvendo parlamentares e altos funcionários do Legislativo -, o presidente Lula fez mais do que atender a uma presumível cobrança recebida dos presidentes das duas Casas do Congresso, o deputado Michel Temer e o senador José Sarney. Os dois hierarcas do PMDB queixaram-se a Lula de não ter ele dito em três meses uma única palavra que se contrapusesse aos efeitos junto à população da sequência de escândalos levantados pela imprensa. O presidente passou a cortejar com afã renovado o apoio do partido à candidatura Dilma Rousseff em 2010 desde que se tornou conhecido o problema de saúde da ministra.

A cobrança, em si, era já uma enormidade: nenhuma das revelações se comprovou infundada até agora e em nenhum momento a imprensa aproveitou os vexames destampados para acusar indistintamente os membros do Congresso e muito menos investir contra a instituição legislativa. Não tivesse Lula sacrificado na pira do mensalão o senso ético de que fazia praça em tempos idos, teria moral para rejeitar a indigna demanda da dupla peemedebista com o argumento de que o Legislativo, até por missão constitucional, pode se pronunciar sobre assuntos do Executivo, mas a recíproca não é verdadeira. Ou, não tivesse ele de há muito passado a acreditar no que viria a dizer sobre a exposição dos malfeitos parlamentares, poderia aplacar os aliados afirmando, por exemplo, que o Congresso, como instituição e por sua história, é maior do que a soma de suas partes e estas são predominantemente boas.

Mas isso seria pedir demais a quem, mandando às favas escrúpulos passados, aprendeu a juntar no mesmo saco a primazia dos seus interesses políticos e conveniências pessoais com uma visão cínica do sistema pelo qual se elegeu – o mensalão descende das contas da campanha de 2002 – e com o qual governa. Assim, quando declara que as denúncias dos abusos com as passagens aéreas dos deputados tratam “como se fosse uma novidade uma coisa que é mais velha do que a história do Brasil” (sic) e quando acrescenta que “temos coisas mais importantes para discutir”, ele afaga aqueles que outrora incluiria no rol dos “300 picaretas” do Legislativo e deixa à mostra o imitigado pragmatismo com que espera ver realizadas as suas prioridades. É a velha teoria de que os fins justificam os meios.

Se o crescimento econômico, a geração de empregos e a redução da desigualdade social são metas justas, Lula parece raciocinar, justo também se torna tirar o proveito possível dos piores vícios da política brasileira. Foi com esse espírito que ele chegou ao Planalto, reelegeu-se e trabalha para eleger a sua candidata à sucessão. Claro que as metas são indissociáveis da sua presença no poder e da perpetuação do lulismo. Por isso também, quando conta que usava passagens de sua cota como deputado para “convocar dirigentes da CUT e outras centrais sindicais” e quando comenta que, se o mal do Brasil fosse essa clamorosa apropriação indevida de dinheiro público, “o Brasil não tinha mal”, Lula deixa clara a perversão a que submeteu os valores políticos com os quais se identificava e que fizeram do sindicalista renovador transformado em líder partidário uma figura ímpar na cena nacional.

No passado, ele apregoava que as mudanças sociais no País dependiam de “acabar com isso que está aí”. Presidente, ele recorre com a maior naturalidade ao que está aí para mudar o País – decerto sob o seu mando ou patrocínio. Dirigente sindical, Lula denunciava o peleguismo, a submissão dos sindicatos aos governos de turno. Presidente, comprou a adesão entusiástica das centrais sindicais ao seu governo com os milhões do Imposto Sindical livres de fiscalização e premiando o pelegato com pencas de cargos federais. Pouco se lhe dá que o seu manejo indecente do poder e a pedagogia do cinismo que transborda de seus pronunciamentos desmoralizem as instituições. A degradação dos costumes políticos na era Lula não é um acaso: é a face mais ostensiva desse achincalhe que será a sua herança maldita.

Adorei!

May 4, 2009

Cristofobia

O Novo Estado de Lula

Vez ou outra eu encontro um artigo que gostaria de ter escrito. Este é um deles. Principalmente porque, ao criticar sistematicamente este governo, já recebi o “carinhoso” apelido de neo-liberal pelos meus amigos mais irreverentes. Respondo-lhes sempre que contrapor Lula não é ser contra a esquerda. É ser contra a indecência.

O Novo Estado de Lula
Autor(es): Fernando De Barros e Silva
Folha de S. Paulo – 04/05/2009

Para um governo que se empenha em misturar pão e circo, as comemorações do 1º de Maio cumpriram a sua parte: entre shows e sorteios, sobraram palavras de elogio ao Estado nos eventos das centrais sindicais. Justo.
Em 2008, elas receberam só de imposto sindical quase R$ 150 milhões livres de qualquer fiscalização (10% do que foi descontado de forma compulsória do trabalhador) uma inovação do lulogetulismo.
Foi-se o tempo em que a CUT brigava para libertar o sindicalismo da tutela estatal e a Força pregava contra ideologização da pauta trabalhista pelo PT. Hoje estão unidas e satisfeitas sob o mesmo guarda-chuva, usufruindo o peleguismo de resultados. Reclamar do quê?
Quem aproveitou para reclamar no 1º de Maio foi Lula, mas da “hipocrisia” dos que se levantam contra o descalabro do Legislativo. E por que decidiu comprar essa briga, desqualificando a justa indignação do público? Defesa da democracia?
Antes fosse. Lula ouviu um apelo dos amigos José Sarney e Michel Temer, segundo quem a pressão popular por compostura está deixando muita gente insatisfeita no Congresso e isso cria riscos para o Planalto. Afinal, quem quer uma CPI da Petrobras, por exemplo?
Uma mão suja a outra, por assim dizer. Os eventos do 1º de Maio nos dão um retrato polaroid do lulismo.
Não se trata só de cooptação e aliciamento. Este é o governo do arrastão. De Sarney a Paulinho, do Congresso aos sindicatos, dos usineiros (“heróis nacionais”) ao MST, dos banqueiros à massa miserável do Bolsa Família, dos empreiteiros (que ressuscitaram) às ONGs que beliscam as bordas do Estado -todos parecem participar da nova comunhão nacional, uma espécie de “CarnaLula” que prescinde de regras claras e tripudia da moral.
Pai dos pobres, mãe dos ricos. Só por preguiça mental ou má-fé alguém ainda chama isso de esquerda. Reinvenção do patrimonialismo com ganhos sociais, esse arremedo do getulismo tem data de vencimento e alto custo institucional. Quem é que vai pagar a conta?

Bolsa Família atingirá 1 em cada 3 brasileiros em 2010

May 3, 2009

Deu em O Globo:

Bolsa Família atingirá 1 em cada 3 brasileiros em 2010

O Bolsa Família, maior programa social do governo Lula, atingirá em 2010, ano eleitoral, um em cada três brasileiros. Hoje o benefício já chega, direta ou indiretamente, a 29% da população – sendo que, em seis estados do Nordeste, mais da metade dos moradores vive do programa, segundo levantamento do GLOBO com base em dados oficiais. É o que mostra reportagem de Leila Suwwan, publicada na edição deste domingo de O GLOBO.

No Maranhão, no Piauí e em Alagoas, de 58% a 59% da população dependem do Bolsa Família. Na cidade de Junco do Maranhão, 95,7% das famílias vivem do programa. De acordo com o governador do Piauí, Wellington Dias, o alto número de beneficiários no estado reflete uma “situação dramática”.(...)

Meus caros, sem brincadeira, é uma palhaçada. Quer dizer que um terço da população brasileira vivia abaixo da linha da miséria? Por mais que sejamos preocupados com justiça social, não está na hora de desconfiar desses números não? E depois de 6 anos de um Governo que supostamente ia governar para os pobres, já não estava na hora deste número diminuir, ao invés de aumentar? Não é a própria declaração de incompetência?

Mas é óbvio que Lula não quer isso. Ele quer é dar mesada mesmo para o maior número possível de gente, pra mantê-los no cabresto. É um coronelzinho, daqueles a moda antiga. Alguém quer apostar que faltando dois meses para a eleição o PT vai espalhar aos quatro ventos que seu adversário vai acabar com o programa? Em 2006 foi o boato da privatização da Petrobras. O pior é que tem gente escolarizada que acredita nessa balela (escolarizada sim, inteligente?... talvez)

O Brasil virou uma grande fazenda, a do Nhô Lula, com os nhôzinhos e o resto da criadagem.

Fusquinha 68

May 1, 2009

Contei para um amigo que trabalha comigo, filho de cubano, que eu tive um fusca 69. Ele riu e disse que seu tio, em Cuba, comprou um fusca 68 ano passado. Sabe quanto ele pagou pelo carro? Dez mil dólares.
Perguntei como é que se compra carro em Cuba e ele me explicou que apenas pessoas autorizadas pelo Governo podem comprar um carro, e que geralmente quem é da alta hierarquia do exército ou do governo pode. Ele me explicou que seu tio pôde comprar pois seu avô era militar de alta patente. De posse da autorização, ele conseguiu comprar o tal fusca.
Eu adorava meu fusca, mas ele dava problemas a todo momento, pois era muito velho. Imagino como ama a revolução quem tem que usar influência para ter o direito pagar 10.000 pela fubica.
Pelo que um outro amigo me disse, Fidel quando anda de carro, passa em comboio, cheio de carrões de vidro fumê.

O povo que enxerga mas não vê.

April 30, 2009

Adianta a demagogia das cotas? Adianta proclamar a “Democratização da Universidade” quando, o resultado do ENEM nos mostra:

  • das mil escolas com as piores notas, 965 são públicas;

  • entre as mil melhores, apenas 36 são públicas.

E 85% dos estudantes matriculados no ensino de nível médio estão em estabelecimentos públicos.

Caminho sem volta.

April 27, 2009

Continuando sobre o tema abaixo, penso que quem aprova a separação de cotas acha que negro precisa de esmola. E passa a ter a consciência tranquila da mesma forma daquele que dá a esmola, achando que ajudou. Desconhece que a cota, assim como a esmola, não ajuda, não resolve o problema, e até o agrava.
O brasileiro precisa ter seus direitos respeitados e o Estado não faz distinção neste ponto: ignora a maioria dos cidadãos independente de cor.

Inventou-se até o termo “afro-brasileiro” ou “afro-descendente”. E eu que pensava que éramos brasileiros… Talvez eu devesse me intitular luso-descendente. Outros ainda seriam germano-descendentes. É questão de tempo, se seguirmos por este caminho, para um grupo se achar superior ao outro. E aí teremos retrocedido 500 anos.

Nunca antes neste país…

Estado racista.

Quando o assunto “Cotas para negros em Universidades Públicas” entrou em pauta, tive discussões acaloradas sobre o tema. Acontece que eu estava certo e que se faz hoje é um espetáculo de racismo oficial, patrocinado pelo Estado e pelas ONGs racialistas que inventaram a solução para um problema inexistente. Não que o racismo seja uma miragem. Mas não é ele o responsável pela miséria brasileira. Para o racismo já existia lei, inafiançável.
A razão é muito óbvia: uma pessoa mulata, filha de um pai negro e uma mãe branca, por exemplo, pode ter várias tonalidades de pele. QUEM É QUE ACHA JUSTO QUE UM IRMÃO TENHA ACESSO ÀS COTAS E OUTRO NÃO? QUEM?

Segue editorial da Folha sobre o tema.

Tribunais da raça
Folha de S. Paulo – 27/04/2009

Critérios raciais para ampliar acesso a escolas públicas produzem situações absurdas e devem ser abandonados

MULTIPLICAM-SE os exemplos de distorções geradas pela adoção de critérios raciais para o ingresso nas universidades públicas.
Na sexta-feira, esta Folha noticiou que 25% das matrículas de alunos que passaram no vestibular da Universidade Federal de São Carlos por meio dessa política foram canceladas, após questionamentos. O critério adotado para concorrer às vagas na instituição utilizando cotas raciais é a autodeclaração -o candidato precisa se declarar negro, pardo ou descendente direto de negros (pai ou mãe). Aprovado, o aluno faz a matrícula automaticamente. Se surgir contestação, porém, precisa “provar” o que declarou.
Foi o que aconteceu com uma caloura do curso de imagem e som da UFSCar. A universidade não aceitou documentos apresentados pela aluna, que deveriam ter indicação de cor e ser reconhecidos pela Justiça. Não bastou registro em cartório com uma autodeclaração de que é parda. Mesmo com a apresentação de documentos e fotos de parentes, a estudante não conseguiu reverter a decisão, que, segundo a universidade, será discutida judicialmente.
Já na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), no Rio Grande do Sul, uma aluna disse que foi vítima de preconceito. A instituição, que destina parte de suas vagas para alunos cotistas, não considerou a estudante parda e retirou-lhe a vaga. A UFSM adotou um modelo de checagem para a reserva racial. O controle se baseia em entrevista feita por uma comissão que inclui professores, técnicos da universidade, estudantes e ativistas de organizações pró-direito dos negros: um autêntico e estapafúrdio tribunal racial.
Nas entrevistas, são feitas perguntas, como se a pessoa já se declarou negra ou parda em ocasiões anteriores ou se já foi vítima de preconceito. Segundo a caloura, como afirmou que nunca havia sofrido discriminação, foi excluída. Então a discriminamos nós, foi o sentido da resposta da banca racialista.
Outro vexame semelhante, talvez mais emblemático, ocorreu em 2007, na Universidade de Brasília (UnB). Dois gêmeos univitelinos tentaram ingressar na faculdade pelo sistema de cotas raciais. O comitê racial da instituição considerou um deles negro. O outro, não.
Todos esses casos são exemplos cristalinos da impossibilidade de categorizar pessoas segundo o parâmetro de raças -diferenciação que não encontra fundamento científico. Mais que isso: revelam a assombrosa banalização, em instituições de ensino superior, de tribunais raciais, uma prática segregacionista, ofensiva à democracia e estranha à história brasileira desde o fim da escravidão.
É possível ampliar o acesso de estratos tradicionalmente excluídos ao ensino superior de qualidade sem atropelar direitos fundamentais -e sem alimentar o monstro racialista. Para tanto, é preciso adotar, como único critério nacionalmente válido nas políticas de ação afirmativa, o fato, objetivo, de o vestibulando ser egresso de escola pública.

April 26, 2009

Dói, mas dói demais…

E eu sei que posso fazer algo. Eu posso.

De que somos feitos?

Estou vendo o filme “Shake hands with the Devil”, canadense, de 2007. Relata o massacre de Ruanda sob a ótica de um general canadense da ONU.

É muito, mas muito doloroso, triste e revoltante. Mas é obrigatório olhar o mundo de frente, nos olhos, como ele é, para não ter ilusões.

Estou chocado. Mesmo já sabendo o roteiro, vê-lo é expor a miséria humana em sua menor face.

A ditadura do pensamento engajado.

April 25, 2009

Tenho dois blogs. Esse e um outro, pra manter a família e os amigos por dentro dos últimos acontecimentos. O último tem seu endereço colocado em muitas páginas de amigos, mas este aqui não… O Fermento Cínico tem sim é alguns links vindos de blogs desconhecidos, de gente que está acostumada a nadar contra a maré.

O que dizer?

Todo mundo acha maneiro dizer que quer um mundo mais justo. Quer comer salada e salvar o planeta.
Todo mundo acha Obama “O cara”. Mas todo mundo finge que não acha…
Pra galera, Lula era o povo no poder. Agora, todo mundo se diz desapontado, mas detestam FHC.
Todo mundo acha que Daniel Dantas é o dragão e que Protógenes é São Jorge.
Todo mundo acha que o mensalão foi coisa normal, de sempre.
Todo blogueiro adora a Palestina, e no íntimo quer ver Israel na fogueira.
Todo mundo tem pena da África, mas não sabe onde fica Ruanda.
Todo mundo acha que o mundo é ruim porque o Capitalismo estimula a cobiça.
O bom agora é respeitar as diferenças culturais.
Todo mundo acha que a polícia tá sempre errada. Todo mundo acha que em nome do povo tudo se justifica.
Esquerda é boa e a Direita é malvada. O rico é o inimigo.

E assim vai, nesta época de ativismo embalado à vácuo.

To fora!
Pelejei muito pra entender que a realidade é uma teia infinita de relações, de causas e consequencias. Pelejei pra entender que valores não são artigos de circunstância, de aplicabilidade variada e variável. Pelejei também pra entender que a vida é curta pra abdicar de pensar.

Quando Lula levou uma vaia no Maracanã, escutei de gente inteligente a justificativa de que a vaia vinha de gente rica. Foi quando entendi a profundidade do poço. Se continuarmos neste caminho, terminamos na guilhotina. Mas a sutileza é por demais leve para os dias atuais…

O assunto Cuba dominou o encontro da Cúpula das Américas. Então, comento aqui…

April 21, 2009

Cuba é um pequeno país no Caribe como tantos outros que não costumam ocupar as páginas dos jornais, a não ser as de Turismo. No entanto, desde que Fidel Castro conseguiu reunir um pequeno exército e derrubou a ditadura de Fulgêncio Baptista, o país passou a receber uma atenção só explicável pelo entendimento do que um país socialista na América representava, em plena Guerra Fria.

A vitória foi comemorada pelo povo no princípio, mas, como a história não cansa de ensinar, o apego ao poder faz com que todo governo revolucionário se torne tirano. Os agentes revolucionários passaram logo a procurar os “inimigos da revolução” e, num passo lógico, encontraram no Socialismo uma teoria política para justificar o horror. A revolução cubana não foi socialista como muitos acreditam. Foi se tornando socialista tão logo a Liberdade foi considerada artigo reacionário.

E Cuba virou notícia, cumprindo seu papel de componente ativo da guerra fria. Da irrelevância, passou a modelo de socialismo das Américas, farol para grupos armados e para a esquerda retrógrada. Fidel matou seus opositores, transformou a ilha em uma prisão, e, criou uma rede de proteção social que mantém os habitantes vivos. Seus defensores afirmam que a educação é de qualidade e que pelo menos ninguém morre de fome. Educação de qualidade é piada de mau gosto, num ambiente onde não existe debate, diferenças de opinião, acesso livre a livros nem internet. Isso não é educação, é treino. Quanto à ninguém morrer de fome, bem, tenho a dizer que, para uma prisão, nenhuma surpresa. Zoológicos também conseguem este feito e lá os animais também não morrem de fome. Todos os dias esperam sua ração, como zumbis despidos de dignidade. Não desejo isso nem ao sapinho azul da amazônia, muito menos aos cubanos.

Alguns diriam que é culpa do embargo americano. Por mais que o embargo há muito tempo não impeça Cuba de negociar com qualquer outro país do mundo, e que graças a ele Cuba tenha recebido uma generosa mesada da então URSS, pode-se supor que prejudique em certa extensão. Ora, se este embargo maléfico mantém o povo na miséria, bastaria ao Regime Castrista soltar seus prisioneiros e realizar eleições. O embargo cessaria no mês seguinte. Isso se fosse vontade sincera de Fidel deixar a população decidir o seu destino. Mas porque abandonar este emprego vitalício, cheio de privilégios, e correr o risco de descobrir que a população não pensa como o resto dos militantes latino-americanos? Édem socialista no país dos outros é refresco… Ou bastava ainda deixar sair quem assim quisesse. Ficaria alguém?

Teóricos socialistas pensam que é preciso proteger o “povo” de si mesmo. Não sei se Fidel é um teórico socialista. Pode ser que seja apenas um ditador comum.

Seguem dois blogs de jovens cubanos, tentando mostrar o que é viver em Cuba. Mas já aviso que o acesso é difícil, como se poderia imaginar…

Generacion Y

Desde aqui

Termino colocando aqui um texto extraído do portal Desde Cuba, sobre os 50 anos da Revolução:

“Las conmemoraciones obligan al balance, al inventario de lo alcanzado, al cómputo de lo que falta. Si buscáramos una expresión que sintetice un arqueo del 50 aniversario del triunfo de la revolución cubana diríamos, si somos optimistas, una sola palabra: insatisfacción.

Los medios oficiales han puesto su énfasis en la historia, en el relato heroico del calvario transitado por los mártires, el sacrificio de todo un pueblo que resiste, las agresiones sufridas, el acoso del imperio. En segundo plano, escenas de niños que nacen, escolares de uniforme saludando la bandera, jóvenes médicos salvando vidas en los sitios más apartados del mundo.

Los críticos hacen su fiesta mostrando la cara fea de la realidad: las ciudades destruidas, las industrias obsoletas, las cárceles multiplicadas, los campos sin cultivar, la gente haciendo largas colas o colgada de un ómnibus repleto, jóvenes persiguiendo turistas, policías persiguiendo jóvenes y el mar salpicado de balsas atestadas de cubanos que escapan.

Si no somos optimistas tenemos que usar otra palabra: frustración.

¿Dónde están los extensos pastizales ocupados por las vacas más productivas del mundo? ¿Dónde, la nueva arquitectura resistente al clima; el vergel de frutas, viandas y vegetales; el eficiente y puntual transporte público, los sitios donde el obrero lleva a su familia a recrearse.
¿Dónde está el hombre nuevo, libre y pleno, dueño de su destino?

Un balance serio estaría obligado a responder con claridad la pregunta de si hay una relación favorable entre el costo y la gratificación, si ha valido la pena recorrer el largo y tortuoso camino elegido para arribar al sitio donde estamos. Cincuenta años después deberíamos estar en la posibilidad de, evocando a Camilo Cienfuegos, preguntarnos si hemos llegado ya al día en que podamos decirle a los caídos: “Hermanos, la revolución está hecha, vuestra sangre no se derramó en vano”.

La historia deja cicatrices en los pueblos, pero deja también enseñanzas. Por suerte, estos no serán los últimos cincuenta años de la existencia de Cuba como nación, por suerte no somos pesimistas y no tenemos que elegir, para expresar la síntesis de nuestro balance, la peor de las palabras: naufragio.”

Não me considero vítima… Será que não sou latino-americano?!?

Tinha que vir de Hugo Chavez! Não esperava outro livro de cabeceira para um louco de pedra como nosso Chapolin venezuelano. Esse livro pega o complexo de inferioridade latino e lhe dá base teórica. Ou seja, joga cimento na areia movediça onde está empacado este povo.
Reinaldo Azevedo, parece que pensa como eu. Veja trecho:

As “véias” abertas da América Latina

“(...)

Pois bem: mesmo quando eu era menino, esquerdista, esse livro de Galeano, que era leitura obrigatória para todo perfeito idiota latino-americano, não me convencia. E a razão era (e é) simples: trata-se de uma coleção de lamúrias evidenciando como a América Latina foi vítima de sucessivos vilões, desde os espanhóis e portugueses (estes merecem menos atenção) até o imperialismo americano. Uma suposta vontade legítima do povo latino-americano (que estrovenga será essa?) teria sido continuamente fraudada.

Acho até que foi Galeano o primeiro a plantar em mim a semente da desconfiança — pelo que eu lhe deveria ser grato. “Ora diabos” — pensava nos meus 15, 16 anos, ainda menino, ainda esquerdista e ainda idiota — “mas por que a gente (os latino-americanos…) é assim tão banana, então? O que é que fez com que os opressores se tornassem opressores, e os oprimido, oprimidos? E por que a gente é sempre o oprimido?”

Vim a entender um pouco mais tarde, já na transição para a vida adulta, que esse vitimismo era uma fraude intelectual, que abria as portas para todo tipo de vigarista e demagogo. Olhem quem exibe o livro agora… Fazia pilhéria com o troço: chamava-o “As véias abertas da América Latina”.

Que esse livro tenha sido ressuscitado — e pelas mãos de Hugo Chávez, num presente a Obama —, eis uma prova da miséria intelectual que toma conta do nosso tempo e que não vai passar assim tão rapidamente. Sem contar que Galeano, que nem é historiador, tem ambições literárias, e isso o faz abusar de todas as metáforas e antíteses vagabundas de quem viaja nas “veias” da luta do “opressor” de manual contra o “oprimido” de manual. E o homem escreve pra chuchu. É uma espécie de Paulo Coelho da autocomiseração. Seus heróis da resistência costumam dizer frases de efeito para humilhar a prepotência do colonizador mesmo à beira da morte. Trata-se de uma daquelas fantasias que enchem de alegria e de espírito de vingança os impotentes.

Não duvido: Chávez deve sentir-se uma espécie de novo Túpac Amaru… Torço para que a escritura se cumpra até o fim.”

Reinaldo Azevedo

Quer algo do Brasil? Diga que Lula é o cara!

April 20, 2009

Abaixo vai um exemplo prático de como a Diplomacia Brasileira, despida de pragmatismo, alegra os salões mundo afora sem, no entanto, render nenhum fruto ao país. Essa gente é muito aborrecida. Previsível demais.

Afagos diplomáticos e oba-obamismos
Autor(es): Marcelo de Paiva Abreu
O Estado de S. Paulo – 20/04/2009

O que revela a autópsia da reunião do G-20 em Londres? Numa ótica global, dadas as expectativas modestas, houve avanço em alguns temas cruciais. Em torno deste núcleo duro de compromissos, ainda que meio nebulosos e envolvendo superposição com promessas anteriores, foram arrolados outros temas cuja menção é politicamente de rigueur em reuniões similares: comércio, clima e tratamento justo das economias menos desenvolvidas. Mais uma vez, foi reafirmado que são temas importantes e merecedores de grande atenção dos governos do G-20…

As duas questões mais importantes abordadas a sério na cúpula foram o aporte adicional de recursos a instituições multilaterais e o esforço coordenado para aprimorar o marco regulatório do sistema financeiro, incluindo disciplinas de abrangência global.

O sucesso quanto à mobilização de recursos adicionais para enfrentar a crise parece indiscutível: aportes adicionais ao Fundo Monetário Internacional (FMI), mobilização de Direitos Especiais de Saque, aportes a bancos multilaterais de desenvolvimento e agências de financiamento de comércio exterior somam US$ 1,1 trilhão. É claro que a operacionalização de tais compromissos envolverá dificuldades substanciais, mas o balizamento para ações de sustentação da demanda está delineado.

Em relação à construção de um marco regulatório multilateral, os circunlóquios no texto de declaração foram insuficientes para ocultar as grandes diferenças entre big players, como Estados Unidos, China e França, tanto em relação à conciliação de interesses nacionais e globais no novo marco regulatório quanto à aceitação de critérios de aplicação não controvertida para caracterizar “jurisdições não cooperativas”, ou seja, paraísos fiscais.

Para o Brasil os resultados da reunião de 2 de abril foram desapontadores, não obstante o oba-obamismo que caracterizou boa parte das avaliações que tenderam a confundir espuma com resultados concretos. Na fotografia oficial dos chefes de Estado que compareceram ao jantar oferecido pela rainha, o presidente Lula foi colocado pelo protocolo imediatamente à esquerda de Elisabeth II, com Gordon Brown à direita. Barack Obama efetivamente disse: “Este é o cara…, é o político mais popular do planeta.” Depois continuou: “É por ser boa pinta.” O vídeo da BBC mostra que Lula, espertamente, não responde e parece suspeitar de que “esse cara está de brincadeira…”

A posição protocolar nas fotografias oficiais e os comentários simpáticos e brincalhões de Obama deram margem a comentários não muito ponderados sobre a importância crescente do Brasil no cenário mundial. Mesmo em arraiais de esquerda radical as referências de Obama, presidente da potência imperial, foram de algum modo interpretadas positivamente. Elogio, até do diabo vale. Desde a reunião, incontáveis matérias e caricaturas especularam sobre quão enciumado estaria Fernando Henrique Cardoso com a proeminência de Lula.

O vezo nacional por plumas e espumas – um travo de vaidade misturada com ingenuidade – é algo percebido pelos nossos parceiros que tentam explorá-lo em seu benefício. Tal fraqueza era percebida até mesmo no caso de estadistas mais circunspectos. Em 1941, por exemplo, o primeiro-ministro britânico Winston Churchill instruiu o Foreign Office a adotar como pilar da política britânica para o Brasil: “Acariciar Vargas”, “petting Vargas” (minuta de 27/10/41, Arquivos do Foreign Office, FO 371, General Correspondence: Political, A8705/190/6). Barack Obama é certamente mais simpático e habilidoso, mas a tecla parece familiar.

Há abordagens analíticas menos dependentes de, literalmente, “ficar bem na foto”, para avaliar o Brasil no G-20. Não cabe qualquer dúvida quanto à posição de Lula como representante destacado das economias emergentes no foro do G-20. É fruto da combinação do sucesso de sua carreira política – misturando pertinácia, argúcia e capacidade de negociação – com, ironicamente, boa gestão da herança de políticas macroeconômicas prudentes que lhe foi legada pelo governo anterior.

Mas o que mais interessa não é simplesmente constatar o crescente peso de Lula no cenário internacional. É avaliar em que medida essa influência está sendo utilizada para alcançar os objetivos da política externa brasileira.

Antes de Londres, o discurso presidencial recente concentrou-se na denúncia do protecionismo. O G-20, na declaração após a reunião de Washington, em novembro de 2008, havia explicitado que faria os melhores esforços para viabilizar a Rodada Doha até o final de 2008. Compromisso renegado. Em Londres, a ênfase brasileira centrou-se, de novo, em assegurar a conclusão da Rodada Doha. Mas a declaração final não foi além da repetição de que haverá esforço para não aumentar a proteção e que concluir a rodada “em bases ambiciosas e equilibradas” permanece um objetivo central. Não é convincente a justificativa de que o avanço foi possível porque a administração Obama não preencheu cargos cruciais para viabilizar a negociação. A demora em preencher cargos pode ser interpretada como explicitação da baixa prioridade do tema na agenda atual dos Estados Unidos.

A ótica substantiva que poderia levar a uma avaliação otimista da reunião de Londres estaria relacionada às pretensões do Brasil em relação ao Conselho de Segurança da ONU - teimosa reivindicação do Itamaraty, cuja racionalidade continua discutível. No mais, espuma e afagos. No ego do presidente e no País.

As the time goes by…

April 19, 2009

A vida de estudante secundarista pode parecer bastante vulgar para quem tem mais de 30 anos. E realmente, a não ser para os próprios adolescentes, não há muito do que se orgulhar nesta fase da vida, onde estamos mais preocupados em entender todas as mudanças pelas quais passamos, em decifrar o que as garotas pensam, e, enfim, nos divertir com qualquer coisa.

Ter participado do Grêmio Estudantil do meu colégio foi minha tentativa de fazer algo realmente memorável. Claro que outras motivações (a saber: autorizações especiais para deixar a classe) também tinham peso, mas nossa chapa caracterizava-se justamente por sermos os mais intelectuais, nerds mesmo. Eramos progressistas realistas, numa salada ideológica que fazíamos, sem resultado prático nenhum. Tinha de Paulo Freire, passando por Marx e chegando em MDB. Até um fã do Brizola tínhamos. Nesta época, em meu colégio, o simples fato de se ter ALGUMA opinião sobre política significava ser realmente “cabeça”. Passando longe de títulos, como socialistas ou liberais, nos orgulhávamos antes de tudo, secretamente, de nossa inteligência. Sim, éramos rápidos no gatilho. Não à toa, “vencemos” os debates patrocinados pelo colégio. Concorremos com uma chapa de alunos em grande parte repetentes e populares, chamada de “Restos do Nada” (que hoje, ironicamente, acho um nome sensacional). E confesso, não me lembro mais de muita coisa. Acho que por fim não fiz nada digno de memória, a não ser um jornalzinho politizado que não teve mais do que duas edições.

Me lembro bem, no entanto, que como órgão representante dos alunos do meu colégio, fomos convidados para a Assembléia dos Estudantes Secundaristas de Florianópolis. Nunca ninguém do riquinho e alienado Colégio Catarinense tinha dado as caras por lá. O convite era mera formalidade. Não havia a menor expectativa de comparecimento dos “filhinhos de papai”. Pois qual não foi a surpresa da tal assembléia quando entramos no salão com uma delegação muito numerosa pois, pela proporcionalidade, tínhamos de longe o maior número de representantes – éramos o maior colégio da cidade. E me lembro bem de ver as caras espantadas, de alunos “profissionais”, que tinham mais de 20 anos com certeza, vendo ali um risco iminente aos seus planos políticos. Na época, não existia PSTU e o PT era a sigla radical, acolhendo inclusive a UJS (União da Juventude Socialista), espécie de Al Qaeda jovem, querendo destruir a civilização judáico-cristã ocidental.

O que aconteceu depois foi um despertar da minha consciência, vislumbrando um mundo onde a razão pode predominar sobre a ignorância. A cada item em votação da pauta de posicionamentos da entidade, nós nos comunicávamos por sinais, chegávamos em segundos a um denominador comum e votávamos em bloco, impondo uma das raras derrotas aos manipuladores ideológicos de plantão. “Pelo não pagamento da Dívida Externa”- CONTRA!. “Pela expulsão do FMI” – CONTRA! “Impedir a internacionalização da Amazônia” – CONTRA! O riso me volta ainda hoje…

Não éramos necessariamente contra todas estas posições políticas, pelo menos não unanimemente. Mas tínhamos bom senso para saber que uma entidade daquelas tinha que ocupar seu tempo em exigir qualidade de ensino ao invés de servir de massa de manobra para grupelhos de esquerda. Por fim, elegemos uma diretoria que parecia ser mais sensata e fomos embora, rindo espetáculo de manipulação que tínhamos presenciado e em grande parte conseguido evitar.

E assim consegui finalmente meu feito memorável, aquele do qual não esqueço. É claro que hoje vejo que muitas outras coisas foram tão ou mais importantes naquela época para minha vida. Mas olhar o inimigo na face e vencer não tem preço.

Prelúdio

A África do Sul segue o caminho do “político bom é aquele ignorante como a gente”, em moda na América Latina. Já descrevi esse risco há alguns dias. Quando troca-se Churchill e Lincoln pelo rei Shaka Zulu, já declara-se de que lado da civilização se está. Creio que aproxima-se do fim a existência de um país de primeiro mundo na África. Leia abaixo:

O guerreiro zulu que conduzirá a África do Sul
Zuma nunca foi à escola, é defensor da poligamia e tem 22 filhos de 6 mulheres diferentes
por Cristiano Dias

A ascensão de Jacob Zuma é uma ruptura na política sul-africana. Até então, o Congresso Nacional Africano (CNA), partido governista, pinçava seus líderes de uma elite ocidentalizada e piamente cristã. Zuma passa longe desse perfil. O senhor de 67 anos, cabeça raspada e careca cuidadosamente lustrada, nunca frequentou a escola e foi criado para ser um guerreiro zulu. Quando criança, corria descalço, caçava passarinho, nadava em rio e brincava com pedaços de pau.

Seus heróis não são Winston Churchill nem Abraham Lincoln. Recentemente, ele disse que admira o rei Shaka Zulu, cruento patriarca da nação zulu que esmagava o crânio de seus inimigos e aterrorizou os colonizadores britânicos no século 19. Como sumo representante da raça, ele defende a poligamia: os relatos mais puritanos dizem que ele tem 22 filhos de 6 mulheres diferentes – atualmente é casado com 2.

Zuma é carismático e popular, ao contrário de seu predecessor, Thabo Mbeki, um intelectual frio e orador sonolento. Enquanto Mbeki se esforçava para bancar o negro educado em universidade britânica, Zuma tem orgulho de sua origem modesta. Apesar de tropeçar às vezes no inglês, ele se tornou um líder capaz de falar aos miseráveis dos bairros pobres de Soweto e agradar a classe média branca. Carreirista do partido, Zuma é um populista de esquerda do tipo chavista.

Seu governo terá duas bases de sustentação, o Partido Comunista sul-africano e os sindicatos, as duas mãos que enxotaram Mbeki do palácio presidencial. Muitos analistas temem que Zuma siga à risca a cartilha tribal e se apoie em um conselho formado apenas por companheiros de luta.

Sindicalistas e comunistas sonham com o fim do liberalismo da era Mbeki e uma gigantesca política de inclusão social que passa pelo aumento inevitável do Estado. O economista Moeletsi Mbeki, irmão do ex-presidente, alerta para o risco que corre o país. Segundo ele, o governo é uma mãe: são 13 milhões de funcionários públicos – 30% da população. “Em um momento de crise, isso é uma bomba-relógio”, disse.

Diplomacia e Postura

April 14, 2009

A Diplomacia, e toda sua complexidade, não é muito diferente do esforço que cada um fez, em sua infância, durante os anos de estudos secundaristas. Os países, assim como alunos em uma sala de aula, procuram proteção, amizades, se unem com colegas com os quais nutrem afinidades. As vezes se aproximam com o único intuito de obter alguma vantagem específica – um convite para uma festa, ou a participação em algum fórum, dependendo do exemplo. Outras vezes, a aproximação é definida pelos interesses comuns, o que chamamos normalmente de amizade.

De qualquer forma, tanto na escola quanto na política internacional, mesmo que na maioria das vezes isso aconteça de forma difusa, as relações são sempre baseadas em benefícios angariados. Mesmo nas amizades que consideramos as mais puras, procuramos sempre um ganho, seja ele segurança, divertimento, aceitação.

Seria fácil se fosse só isso. Entretanto, cada um tem sua prioridade, seu entendimento do que seja este ganho, do que seja capaz de lhe proporcionar satisfação. As diferentes escalas de valores, trazidas de casa, turvam e complicam os relacionamentos, estabelecendo que não basta um esforço de conquista de aliados simplesmente, mas que é preciso também a identificação de valores alheios, compatíveis com os nossos. Esta necessidade faz com que a união de esforços seja sempre um processo complexo e pontual. E faz também que a amizade seja uma construção, um processo de estabelecimento de confiança. A diferença entre a escala de valores de cada “aluno” torna difícil a compatibilidade total entre dois entes, fazendo a sobrevivência depender de uma infinidade de pequenas e constantes negociações. Por isso é importante que, no caso ampliado, a chancelaria de um país não siga os ventos das marés políticas internas, mas que tente estabelecer uma personalidade coerente que se mantenha com o tempo. Tanto para permitir que outros nos identifiquem como parceiros, tanto para permitir que conquistemos aqueles que nos interessam. Coerência é um dos componentes principais da amizade, seja na ONU, seja na escolinha.

O Governo Lula tem pervertido este princípio. Ao estabelecer a nova ênfase de nossa política externa, não se limitou apenas à trocar de estratégia. Agiu como se houvesse conquistado o poder e estabeleceu uma mudança na própria personalidade diplomática nacional. No colégio, quem se comportava assim, erraticamente, era considerado “traíra”. Quando estabelecemos a confiança, sedimentamos os fundamentos da amizade. Amigos que não respeitam estes fundamentos são tratados sem perdão. É por esse paralelo singelo que é possível entender a fabulosa coleção de derrotas da diplomacia atual. Mesmo quando logramos alguma vitória, não fica muito claro o que se ganhou, pois não sendo mais confiáveis, não podemos mais oferecer confiança, restando-nos ceder para manter relacionamentos. Estes por sua vez são cada vez mais atraídos unicamente pela perspectiva de ganho.

Como um bom fingido, que procura vantagens sem o ônus da coerência, falamos sem parar. Nunca se ouviu tanto a voz de nosso Chanceler. Fala muito, canta suas próprias glórias, mas sempre há uma falta de conteúdo, uma falta de verdade, que foi jogada fora junto a um século de história.
Muito tempo passará até que reconquistemos a confiança da turma, restando-nos o papel de presença peculiar, de animadores de festa. Somos “os caras”, afinal. Ainda bem que somos bonitos…

Sobre opiniões e princípios.

April 13, 2009

A Mariana e eu temos trocado algumas idéias ultimamente, no espaço reservado aos comentários do post “Ainda o tema do momento.”. Seu último comentário, sobre princípios e exemplos, despertou-me vários pensamentos e achei que ele merecia um post novo, só sobre o assunto.

Apesar de alguns dicionários o definirem como opinião, entendo que um princípio deva ser uma lei pessoal, uma espécie de Carta Magna de escala de valores. Alguns livros o definem: “regras fundamentais admitidas como base de uma ciência, de uma arte etc.” Outros ainda: “norma, preceito moral”. Se não for assim, não é princípio. Pode ser uma idéia, uma preferência. Mas princípio não é.

Assim definido, uma opinião, uma tese, só se torna princípio quando testada pela realidade, ou formulada a partir dela. Afinal, é para a própria vida a que são destinados tais preceitos, caso contrário tornando-se estéril exercício de intelectualidade. Não existe moral teórica. Se em determinada situação específica, única em suas particularidades – que redundância! os específicos são sempre únicos – não somos capazes de agir de acordo com nossos princípios, temos então uma prova que nosso pensar precisa de uma nova constituição. E é maravilhoso que seja assim, em um processo de lapidação contínua, próprio de quem é capaz de ir construindo sua personalidade.

Alguém diria: – ah Luciano, mas um princípio é apenas um ponto de partida teórico, que deve ser adaptado para cada caso. Sim, é verdade. Só que, no momento seguinte o ponto de partida já será outro, uma vez acumulada a mais nova experiência. Não deixou de existir uma mudança de conceitos e um reconhecimento de que o ponto de partida não era adequado.

No meu caso particular, ser contra ou a favor do aborto não é um princípio, é apenas uma opinião. No entanto penso que toda a vida vale a pena. Isto é para mim um valor fundante de minha intelectualidade, um verdadeiro princípio! Nem sempre foi assim, é só é assim porque, em todos os casos particulares que encontrei pelo caminho, ele aplicou-se inteiramente.

Raízes da Decadência

April 8, 2009

Um dos grandes males do populismo é referendar como verdade algumas visões simplórias e comumente erradas da realidade de um país. O populista quer sempre simplificar, quer reduzir o raciocínio a uma ou duas escolhas para que, invariavelmente, seja ele o santo redentor. Este foi o caminho percorrido por muitos países em diferentes épocas, e por nós mesmos, antes e agora.
Uma visão que se encaixa neste cenário é aquela que atribui às elites a culpa por todos os males do Brasil. Expediente adotado ao extremo pelo Presidente da República, esta mentira é também fermento da degradação moral da nação e “tampa de caixão” que impede qualquer lampejo de reação.
Culpar a elite por todos os males nacionais é tão falso como uma nota de três reais. Este pensamento, profundamente enraizado na pseudo-ideologia socialista universitária, santifica o povo, de onde apenas viria o bem e a justiça, e demoniza a elite, de onde só se espera exploração e dominação. É uma idéia compreensível aos alunos do pré-primário e seus equivalentes mais adultos, mas reduz a complexidade da teia social à meia dúzia de leis simplórias que nem de longe fazem justiça à história brasileira e de sua sociedade. Efetivamente, a elite brasileira foi protagonista de muitos lances maléficos ao desenvolvimento nacional. No entanto, foi também de seu meio que surgiram a quase totalidade das iniciativas engrandecedoras da nação. É dela que devemos esperar a defesa dos ideais mais altos, da justiça mais digna. Veja o que dizia Rui Barbosa:

    “[...] creio no governo do povo pelo povo; creio, porém, que o governo do povo pelo povo tem a base da sua legitimidade na cultura da inteligência nacional pelo desenvolvimento nacional do ensino, para o qual as maiores liberalidades do Tesouro constituirão sempre o mais reprodutivo emprego da riqueza pública; creio na tribuna sem fúrias e na imprensa sem restrições, porque creio no poder da razão e da verdade; creio na moderação e na tolerância, no progresso e na tradição, no respeito e na disciplina, na impotência fatal dos incompetentes e no valor insuprível das capacidades.”

    Escritos e discursos seletos – Página 227, de Ruy Barbosa, Virginia Cortes de Lacerda – Publicado por Companhia Aguilar Editôra, 1966 – 1095 páginas

E assim Rui Barbosa ajuda a mostrar, como incontáveis outros, o valor de nossos melhores homens.
É mandatório notar porém que o Brasil não estimula e, na verdade, dificulta, a formação desta classe de pessoas capazes de pensar. A educação que permite que nos EUA surjam grandes intelectuais em todas as classes, em nosso quintal só está acessível a quem pode pagar. Mais do que isso, vivemos mesmo uma desmoralização do saber, relegado à condição de luxo supérfluo. Neste ambiente o futuro do país é depositado nas mãos daqueles que não tem nada mais do que ambições imediatas, sem nenhum senso superior de civismo e sem a menor capacidade de abstração. Vivemos do circo, do show, da política tosca, dos conchavos, dos favores. E isso tudo porque deixamos a elite de fora e fomos buscar “gente como a gente”. Os ideais democráticos e humanistas, o pensamento superior enfim, no entanto, só conseguem se desenvolver em quem teve treino, em quem se acostumou ao desafio intelectual, ao lapidar diário da mente e da consciência. É de nosso meio que devem vir os governantes, os juízes, os parlamentares. Eu entendo que ao ler estas linhas, vozes se avolumem acusando o nosso suposto distanciamento dos problemas sociais que insistem em acompanhar o Brasil. Pois a resposta que dou, firme, é que a vida na miséria não é capaz de despertar, por si, esta consciência, restando ao decidido desejo daquele que tem as ferramentas intelectuais executar a tarefa de sintonia entre as duas realidades que são, ao fim e ao cabo, a mesma.
Nós, da elite, que estudamos em universidades, que temos oportunidades de leitura, de formação, de viagens, somos sim quem tem a obrigação de conduzir o país. É nosso dever também criar as condições para que o saber não seja exclusividade de uma classe social, assim como conduzir o país para um futuro melhor, o que só é capaz quem consegue ver além do amanhã. É importante que criemos um país onde o intelecto encontre incentivo em todas as classes. Sabemos que a associação mandatória do saber com o dinheiro não produz sociedades livres. Mas não dá pra botar a carroça na frente dos bois e esperar que “gente como a gente” dê conta do recado.

Magda

March 27, 2009

Lula andou dizendo que a crise foi culpa de gente loira e de olhos azuis, e que não conhece nenhum banqueiro negro. Se falasse isso na minha casa, não voltaria mais. Uma pessoa que se presta a esse papel bocó, de aposta nos sentimentos mais mesquinhos, não vale o chão que pisa. Deixo ele com o comentário, mais contido, do Sardenberg:

“Só para informar o presidente Lula, que disse não conhecer nenhum banqueiro negro.

No auge do sistema financeiro americano, um dos nomes mais influentes era Stanley O`Neal, presidente do Merryll Linch, negro. Perdeu o emprego quando o banco de investimento, em crise, foi vendido, no final do ano passado.

E hoje, o presidente do Citi é Vikram Pandit, indiano, que não é negro, mas está muito lone de ser branco.”

Fora MST!

March 13, 2009

Li o texto abaixo e gostei. Não tenho pudores em falar do MST por medo de incluir num mesmo pote coisas ruins e coisas boas, porque já passou o momento desta história mudar: o que dá certo no campo brasileiro continuará a dar certo sem MST. Inclusive acho que se fará mais justiça social se estancarmos o vazamento grotesco de verbas para proselitismo ideológico vagabundo. É grana pra ajudar muita cooperativa que precisa se modernizar e gerar lucro, melhorando a vida de seus cooperados.

Autor(es): João Mellão Neto
O Estado de S. Paulo – 13/03/2009

Nos meados da década de 80, quando o MST ainda se esboçava, ocorreu uma invasão. Uma entre centenas, dirão. Pois é, mas essa eu tive a oportunidade de acompanhar. Estava iniciando como jornalista e buscava conhecer em detalhes todos os temas palpitantes da época. Reforma agrária era um deles.

Como se dizia, o esbulho aconteceu. E logo depois a área foi desapropriada. Passaram-se alguns meses e aqueles quase 3 mil hectares foram entregues aos tais trabalhadores sem-terra. Um político de esquerda da região não perdeu a oportunidade. Com um grande alicate, compareceu ao local e, perante uma plateia atenta, solenemente cortou a cerca de arame farpado da fazenda. “Neste momento”, declarou, “entrego estas terras ao povo brasileiro”.

O “povo brasileiro” não se interessou em tomar posse de imediato. Para tanto era necessário que alguém fosse lá demarcar os lotes e sortear quem seriam os proprietários de cada um. Esse processo demandou uns 20 meses, mas ninguém se esquentou. Sem a menor cerimônia, os briosos manifestantes montaram acampamento à beira da cidadezinha mais próxima e, a partir de então, munidos de cupons para alimentação, fornecidos pelo governo federal, tornaram-se consumidores urbanos.

Quando os lotes ficaram prontos, ocorreu um fato que em nada contribuía para o sucesso da causa agrária. Os felizes contemplados não se mostraram dispostos a trocar a doce vida urbana que tinham pelas agruras da condição de novos proprietários rurais. Pudera, os lotes não tinham água nem luz. Os cupons para alimentação deixariam de ser fornecidos tão logo se configurasse a posse. Ninguém ali estava a fim de se tornar herói.

Com muito custo o assentamento se configurou. Após a posse, voltaram todos para a cidade e passaram a reivindicar, novamente, o fornecimento de água, luz e comida.

Dez anos depois, a situação era a seguinte: quatro ou cinco famílias se aventuraram a mudar para seus lotes e lá viviam em condições precárias. Mais de 20 trataram de vender os seus direitos de posse e seus lotes passaram por inúmeros donos. Especulação imobiliária da pior espécie, algo absolutamente condenável pelos ideólogos esquerdistas que chefiavam o movimento.

A maioria agiu de forma ainda pior. Como havia uma usina de álcool nas redondezas, trataram todos de arrendar seus lotes a ela e continuaram a viver na cidade. Tornaram-se, com isso, burgueses rentistas. E isso era deplorável e intolerável.

No Brasil inteiro situações como essa se repetiram e nada foi mostrado à opinião pública. Os padres e organizadores dos movimentos eram todos socialistas, mas os invasores, curiosamente, não. Entregavam-se a práticas capitalistas as mais comezinhas e mesquinhas tão logo lhes surgisse uma oportunidade.

Paciência. Estava patente, para os ideólogos, que o povo brasileiro, em geral, era tacanho. Não tinha a largueza de visão e o desprendimento necessários para a condução de uma revolução vitoriosa. Essa tarefa, então, como sempre, teria de ficar por conta das vanguardas – as camadas mais instruídas e esclarecidas dos movimentos. E essas, na época, eram compostas pelos padres e intelectuais.

Foi dessa forma, ideologicamente cambaleante, que nasceram os movimentos agrários. Agora eles são muito mais organizados, lograram se estabelecer. E o dinheiro para tanto? Ora, obviamente vem do Estado. E este, assim, segundo as tais vanguardas, cumpre uma de suas funções mais básicas e edificantes: está subsidiando a reforma agrária. E não pode existir uma destinação de verbas mais nobre e meritória.

Os contribuintes não concordam. Foi-se o tempo em que a opinião pública se embevecia com a causa fundiária. Hoje em dia todos acompanham, contrariados, o noticiário que reporta o desperdício de recursos em tudo o que diz respeito ao tema.

Até mesmo a razão de ser dos movimentos sociais do campo deixou de existir. A causa original, todos se recordam, era o combate aos latifúndios improdutivos. Pois bem, esses não existem mais. Quem tinha terra, e não produzia, tratou de vendê-la para quem o fazia.

Adotou-se então a tese de que a função dos movimentos era a de combater as grandes plantações feitas com sementes geneticamente modificadas. Não colou. Ninguém se comoveu com a causa.

O inimigo, agora, é o agronegócio. Havia pudores no passado quanto a se atacar propriedades reconhecidamente produtivas. Agora não há mais. Não se discute mais a questão da produtividade da terra, mas sim a que essa produtividade serve.

Segundo esta ótica obtusa, 100 hectares de terra nas mãos de um microproprietário rural – mesmo que esse alcance patamares medíocres de produção – cumprem melhor a sua função social do que o mesmo quinhão de terra pertencendo a uma grande usina de açúcar ou a uma fábrica de papel e celulose.

Essa nova razão de ser dos movimentos “sem-terra” seria digna de debate não fosse ela a quinta ou a sexta evocada pelos seus líderes para justificarem a sua existência. Eles se dispõem até mesmo a contrariar os mais óbvios interesses nacionais, ajudando o novo governo populista do Paraguai a expulsar os fazendeiros brasileiros de lá.

Os padres e intelectuais socialistas que no passado recente ainda podiam dizer-se idealistas, tornaram-se todos velhacos e parasitas. Apelam, agora, para qualquer nova bandeira que mantenha os movimentos que dirigem existindo. Para, assim, continuar recebendo preciosas verbas do governo.

Moral da história: sem-terra, que nada! Não passam de uns sem-vergonha que vivem à nossa custa e desperdiçam o nosso dinheiro. Não precisamos mais dessa gente. Tchau! Fora! Abaixo o MST!

Que não fiquem por aí por falta de despedida. Adeus!

Os Sertões

Ando lendo "Os Sertões", de Euclides da Cunha. E ando embalado pela beleza, pelo ritmo, pelo encadeamento encantador das palavras, que me fazem viajar no que há de belo no ser humano. Somos isso, humanos, pois também somos capazes de capturar a poesia do mundo, mesmo em realidades duras e ressequidas. Um amostra, pra quem não leu, do trecho onde ele compara o gaúcho com o vaqueiro do norte:

"O vaqueiro do norte é sua antítese. Na postura, no gesto, na palavra, na índole e nos hábitos não há equipará-los. O primeiro, filho dos plainos sem fins, afeito às correrias fáceis nos pampas e adaptado a uma natureza carinhosa que o encanta, tem, certo, feição mais cavalheirosa e atraente. A luta pela vida não lhe assume o caráter selvagem da dos sertões do norte. Não conhece os horrores da seca e os combates cruentos com a terra árida e exsicada. Não o entristecem as cenas periódicas da devastação e da miséria, o quadro assombrador da absoluta pobreza do solo calcinado, exaurido pela adustão dos sóis bravios do equador. Não tem, no meio das horas tranqüilas da felicidade, a preocupação do futuro, que é sempre uma ameaça, tornando aquela instável e fugitiva. Desperta para a vida amando a natureza deslumbrante que o aviventa; e passa pela vida, aventureiro, jovial, disserto, valente e fanfarrão, despreocupado, tendo o trabalho como uma diversão que lhe permite as disparadas, domando distâncias, nas pastagens planas, tendo aos ombros, palpitando aos ventos, o pala inseparável, como uma flâmula festivamente desdobrada.”
Os Sertões, Euclides da Cunha

 

 

Ainda o tema do momento.

March 11, 2009

Queria deixar algo claro: o que defendo é que se entenda o que é o aborto. As pessoas só são livres para decidir, como querem as feministas, se conhecem todas as implicações de seus atos. O que gostaria é que os indivíduos, quando se deparassem com essas situações em suas vidas, pudessem entender a extensão de cada possibilidade em seu futuro.

Ninguém sabe como vai reagir ao se deparar com estas circunstâncias. Por isso rezamos para que em todas as situações possamos tomar as melhores atitudes. O que não muda, no entanto, são os instrumentos morais que construímos durante a vida e que vão ajudar nestes momentos. E aqui falo de moral, não de religião. A postura a favor ou contra o aborto é antes de mais nada uma postura moral e reduzi-la a um dilema religioso é uma simplificação inaceitável. Significaria dizer que todos os não-religiosos não possuem posições quanto ao assassinato, ou quanto o roubo, ou outros assuntos aos quais a moral religiosa também se manifesta. Portanto, ser contra ou a favor do aborto PODE ser uma postura religiosa, mas é antes de mais nada resultado da postura moral de cada um.

A minha moral, que no meu caso é também resultado de algumas escolhas religiosas, está preparada para aceitar o aborto como um procedimento normal. MAS, para tanto, alguém deve me provar em qual momento o feto deixa de ser feto e passa a ser criança. Como até agora ninguém foi capaz desta proeza, de me explicar que “até tantos meses é feto e de um dia pro outro vira criança”, eu continuo pensando que abortar é matar uma criança.

E a liberdade de escolha? Ora, todo mundo é livre pra fazer o que quiser na vida. Desde que disposto a enfrentar as consequencias de seus atos. Quem defende esta liberdade deve estar preparado para explicar as consequencias dos atos praticados. E no caso do aborto elas são muitas. Os grupos de defesa da “Liberdade de Escolha” da mulher, me parecem mais grupos que querem um mundo onde possamos eliminar os indesejáveis sem enfrentar as consequencias deste ato. Como se isto fosse possível fora da esfera legal. E que mundo terrível seria esse onde estas consequencias não existissem, não é mesmo?

O Estado teria muitas opções para acolher a mulher, sem o dilema tão falsamente expresso pelo nosso presidente (como Cristão sou contra mas como Presidente sou a favor). O Estado poderia assumir a guarda das crianças nascidas de estupros e, num programa de proteção de identidade, conseguir novos lares para estes inocentes. Me parece viável, não?

Se o assassinato for uma questão de escolha, onde é a próxima fronteira? Vamos em breve lutar pelo direito de abortar crianças que não atendam ao nosso padrão de beleza? Ou que, por não terem sido planejadas, atrapalhem um mestrado, ou uma viagem?

A vida humana vale tão pouco assim?

Alhos com bugalhos

March 10, 2009

Do blog Cartas de Estocolmo.

“Volta e meia, ouço ou leio comentários críticos à Igreja Católica, principalmente no que se refere às suas posições frente à sexualidade humana e ao direito à vida.

Tenho dificuldades sérias em entender por que razão não seguidores da religião católica se preocupam tanto com o que a Igreja Católica tem a dizer. Afinal, só aqueles que “sofrem” tentando seguir a Igreja Católica deveriam gastar seu tempo e energia criticando-a.

Se a Igreja é totalmente contrária ao aborto e você não é católico, qual o problema, então?

Ou se a Igreja é contrária ao uso de camisinha, como proteção contra a Aids, e você não concorda, como querer obrigar a Igreja a autorizar o uso de anticonceptivos? Deixe-a para lá e use o seu método preferido!

Que a Igreja faça lobby junto ao governo, no Judiciário e no Parlamento? Mas quem não faz? Por que à Igreja deveria ser vedado o direito de lutar, palmo a palmo, por suas crenças?

Aqui na Suécia, alguns políticos cristãos ainda tentam influenciar decisões, como a permissão para abortar até as 22 semanas de gravidez, ou para o casamento civil de pessoas do mesmo sexo. Só que não conseguem. O grau de secularização da sociedade é tão alto, que a influência da Igreja Católica não se sente, pelo menos não pelos não católicos. E, aqui, as demais igrejas cristãs costumam adotar posições menos conservadoras ou mais pragmáticas.

Ainda assim, surpreendem-me a energia e a força com que se debatem e se criticam as posições adotadas pela hierarquia da Igreja, ou pelo Papa.

Eu só posso entender as críticas, quando ocorrem fatos como os recentes acontecimentos em Recife. Se for mesmo verdade que o bispo tentou, junto ao hospital, impedir o aborto terapêutico, na menina vítima de violência, fica difícil, principalmente para quem não é católico, não criticar o religioso.

Mas eu duvido de algo assim acontecendo aqui na Suécia. Porque, acima da Igreja Católica e de todas as suas regras, há o respeito pelo ser humano, por sua integridade, sua individualidade, seu livre arbítrio.

Não se concebe, aqui na Suécia, um bispo telefonar para um hospital e solicitar a interrupção de um procedimento, em nome do Direito Canônico. Ninguém lhe daria ouvidos, sequer! Os direitos do cidadão, em um Estado laico, estão acima de qualquer religião.

Caberia, sim, um artigo de jornal para debate, criticando a legislação que autoriza o aborto, ou, mesmo, os hospitais que realizam interrupções de gravidez. Ou sermões recomendando aos fiéis não fazerem nem autorizarem abortos.

Mas as pessoas, todas elas, católicas, budistas, protestantes, hinduistas, atéias ou não, têm o direito de escolher o caminho a seguir em suas vidas.

Todos nós, cristãos, somos pecadores e sabemos disso. É isso o que nos ensina nossa religião. Nosso caminho na Terra é o de buscar não pecar e arrepender-nos e pedir perdão a Deus quando, sucumbindo à nossa fraqueza, não conseguimos nos livrar da tentação.

Mas, nenhuma religião, no sentido de busca da conexão com Deus, pode ser professada sob autoritarismo e sem liberdade. Seguir, ou não, os designios da Igreja Católica deve ser uma escolha pessoal de cada um, uma convicção profunda; do contrário a religião praticada não vale.

Não vale misturar alhos com bugalhos, Direito Canônico com Direito Civil, os Dez Mandamentos com ditames sobre moral e ética.

Que cada um possa deixar a Igreja e a religião ocupar, em sua vida, o espaço que acredita a ela caber. Ou nenhum espaço. Não cabe a nenhum de nós julgar os demais.

Essa é uma das coisas de que mais gosto, aqui na Suécia. “

Sandra Paulsen, casada, mãe de dois filhos, é baiana de Itabuna. Fez mestrado em Economia na UnB. Morou em Santiago do Chile nos anos 90. Vive há quase uma década em Estocolmo, onde concluiu doutorado em Economia Ambiental.

Ainda a UNE?

March 9, 2009

Aos que ainda achavam que a UNE valia alguma coisa, é extremamente educativo notar que não se ouviu um pio da instituição sobre o reaparecimento de Collor, alçado a Presidente de Comissão pela base parlamentar do Governo Lula. Para não jogar sua história mais uma vez na lata do lixo, era obrigação a manifestação pública de repúdio ao balcão de negócios rasteiros que propiciaram o retorno do ex-Presidente. Afinal, não foi a UNE que liderou o clamor popular pelo Impeachment?

O que mudou desde então? Collor ou a UNE?

A UNE hoje é um grupelho insignificante, comprado pelo Governo.

Quando defender a vida é mais doloroso…

Escrever sobre temas muito complexos e para uma platéia genérica exige habilidade. É preciso evitar que frases mal colocadas levem a conclusões prematuras e a uma condenação do pensamento antes mesmo de concluído. Afinal não é isso que as pessoas procuram: dividir tudo entre o bem e o mal? Se você se dispõe a argumentar que o universo não é tão maniqueísta assim, tem que ser hábil para não ser de pronto catalogado como mais um do lado negro.

Pois mesmo ciente que corro esse risco, hoje decidi tirar a poeira do teclado e escrever. E o assunto que me motiva é desses que insufla as torcidas. Aliás torcidas não, torcida – quando a Igreja Católica proclama sua doutrina, só se ouve um coro uníssono que cobra da Instituição a acomodação com os novos valores de nosso tempo. Quando o Arcebispo de Olinda e Recife comunicou, que no caso da menina de 9 anos estuprada, os envolvidos no aborto estavam excomungados, levantou-se o furor dos que entendem que a Igreja deve calar-se ou abandonar seus valores e modernizar-se.

Nessas horas, certo jornalismo apressado mais atrapalha do que ajuda. O Bispo não excomunhou ninguém, já que a excomunhão nesses casos é automática. Outra bobagem é gritar que a Igreja acha o aborto mais grave do que o estupro sem entender que a “escala de pecados” sim já foi abolida há muito tempo e que a avaliação da gravidade de um pecado é tarefa para os confessionários, onde duas almas se encontram com Deus e conversam.

É claro que o assunto é delicado e talvez o Bispo devesse ter medido mais as palavras, ou mesmo ter silenciado, como poderia. Teria sido provavelmente mais sensível para poupar a menina, inclusive. Mas a razão da histeria é uma só, não mais do que uma: nossa sociedade acha que uma vida de alguns meses vale menos do que uma vida que tem anos de duração. Matar dois de 4 meses para salvar uma de nove anos é uma opção que nem gera um momento de dúvida na maioria das pessoas. Fico chocado ao ver que pessoas defendem o aborto, mesmo em casos legais, sem um segundo de dúvida. Pois a Igreja não tem como negar sua doutrina onde todo o ser humano tem igual valor. E isso é base do Cristianismo. É a essência mesma da mensagem do Cristo. Nessa ótica a manchete seria: Igreja acha assassinato mais grave do que estupro. Como já disse, não existe tabela mas já fica mais aceitável, não? Pois se existem pessoas que não entendem o aborto como assassinato, a Igreja não pode parar de fazer sua defesa da vida para se adaptar aos novos tempos. Quando Jesus veio, o aborto era uma prática comum e mesmo o assassinato de meninas jovens. Um dos motivos do sucesso do Cristianismo entre as mulheres da época foi justamente essa defesa de quem era indefeso, foi a mensagem de que toda a vida vale.

Dito isto, entendamos que a Igreja fala para seus fiéis. Ela aponta a direção. Podemos dizer aos católicos que sejam menos católicos, ou aos muçulmanos, ou aos judeus, cada um na sua fé? Claro que não. Se a Igreja condena o divórcio, seremos menos amados se nos divorciarmos? Pra quem entendeu algo do que Cristo fez a resposta é clara. E a Igreja lembra a quem acredita que existe uma direção para caminhar. Existe um norte. Existe um modelo. O modelo se fez homem. Não ser perfeito é algo inerente ao homem e, logo, ao cristão. Tentar ser melhor é que devemos. Jesus ressuscitou Lázaro porque ele era bom? Não. O fez porque gostava dele… Todos somos pecadores, mas Jesus nos amou assim. Todos os pecados podem ser perdoados, até mesmo o aborto, até mesmo o estupro.

Aborto é assassinato e talvez essa chaga vá agravar ainda mais o sofrimento desta menina. Talvez ela estivesse correndo risco, mas suspeito que os fetos foram moeda barata, tratados como procedimento médico e não como pessoas. Passadas as manchetes, os dilemas permanecerão, mas ninguém vai mais estar lá para entender. Talvez só a Igreja…

Manifestante joga sapato em Premie Chines

February 3, 2009

Como era previsível, virou moda. O que vai acontecer? Provavelmente muitos deixarão de se expor a platéias por medo de levar uma sapatada. O diálogo perde para a patacoada.

Pode ser rebelde, pode ser um desabafo, mas quem acaba levando uma sapatada é a liberdade de expressão, justamente o princípio pelo qual alguns advogam que jogar sapatos é um direito. Não é não.

Podemos extraditar Tarso Genro? Please?

January 28, 2009

Battisti: sua folha-corrida antes do terror. Os novos capítulos

–1. A folha de antecedentes criminais de Cesare Battisti, antes de aderir ao grupo terrorista Proletários Armados para o Comunismo (PAC), é objeto de destaque na mídia européia, em especial na italiana.
Battisti estava preso quando, em 1977, aproximou-se do encarcerado Arrigo Cavallina, um terrorista. Então, interessou-se em fazer parte do grupo terrorista e se tornou, com Piero Mutti, um operário da mesma idade de Battisti, o executor e o mandante de crimes de homicídio.
Antes de ingressar no PAC, Cesare Battisti ostentava uma folha corrida criminal a corar Fred Vargas, Bernard-Henry Lévy, Daniel Pennac e demais intelectuais do Partido Verde da França, da chamada “gauche-caviar” (esquerda do caviar), que lhe dão apoio, afirmam a sua inocência e protestam contra a extradição.
Os mesmos intelectuais que forçaram o então presidente Mitterand a dar abrigo, por meio de uma doutrina não escrita, a terroristas que, apesar de delitos de sangue, se comprometessem a abdicar da luta armada.
Miterrand, sob vários aspectos um homem de direita como Lula (confira-se o relacionamento com os banqueiros e a entrega a Meirelles do Banco Central, por exemplo), tinha um calcanhar de Aquiles e precisava de apoio da chamada “esquerda dos salões, do caviar e da champagne”.
O calcanhar de Aquiles devia-se ao fato de Miterrand ter trabalhado em agência a serviço do governo de Vichy, colaboracionista do nazismo e de perseguição aos judeus, sob o comando do marechal Phillipe Pettain. Pelo governo de Vichy, uma das vergonhas da França, Mitterand foi condecorado. Fora isso, manteve relações de amizade com René Bousquet e Paul Touvier, famosos caçadores de hebreus.
Com efeito. Cesare Battisti, nascido em 1954, começou a sua carreira criminal em 13 de março de 1972 ao consumar um crime de furto qualificado, na cidade italiana de Frascati, próxima de Roma.
Depois de do furto qualificado, em 19 de junho de 1974, foi processado por crime de lesões corporais dolosas.
No verão de 1974 resolveu praticar roubo e seqüestro em local turístico. Assim, em 2 de agosto do mesmo ano de 1974, na balneária cidade de Sabaudia (Latina), realizou um roubo qualificado e seqüestrou uma pessoa.
Para fins sexuais, Battisti, em 25 de agosto de 1974, seqüestrou pessoa incapaz e com violência obrigou-a à prática de atos libidinosos.
Preso em flagrante delito por crime de furto em 16 de abril de 1977, Battisti resolveu virar terrorista.
Battisti acabou preso na célula-sede do PAC, com armas e explosivos, daí mentir que já estava desassociado do grupo terrorista quando ocorreram os quatro homicídios pelos quais, como executor e mandante, acabou definitivamente condenado, nas três instâncias, sendo a última a Corte de Cassação, equivalente ao STF italiano.
Piero Mutti cumpriu 8 anos de prisão. Isto por ter, como colaborador de Justiça, mostrado como atuava o PAC e os crimes cometidos. Vale lembrar que, na Itália, aquele que, candidato a colaborador, é pego em mentira não é aceito.
Mutti apontou todos os membros do PAC e Battisti como seu companheiro de ações violentas. Mais, Battisti pertencia à cúpula do PAC que deliberava sobre os assassinatos, roubos e tiros nas pernas de autoridades, como vingança.
A delação de Mutti impressionou quando ele assumiu a co-autoria de dois homicídios dos quais não era acusado em processos.
Além de Mutti, testemunharam contra Battisti sua namorada e companheira de luta armada Maria Cecília. Ela, já com pena cumprida, é professora universitária. Cecília contou, em juízo, ter Battisti, depois de pessoalmente matar Santoro, comentado com ela a sensação de tirar a vida de uma pessoa. Aliás, com animação e nenhum remorso.
Parêntese: Santoro era carcereiro e Battisti e Mutti resolveram matá-lo porque certa vez, no presídio e quando jogavam futebol, Cavallina caiu e quebrou o braço. O carcereiro Santoro demorou para chamar a ambulância: Santoro deixou mulher e três filhos menores quando assassinado.
A família Fantone, composta pelo terrorista Sante, a mulher Ana e a sobrinha Rita, testemunharam contra Battisti. Ana chegou a procurar o marido Sante em Paris, onde esava fugido. Battisti a ameaçou de morte, caso voltasse.
Cavallina, que no cárcere fez o primeiro contato com Battisti e que também foi delatado por Mutti, disse que o mesmo, a respeito dos crimes a que foi condenado como membro do PAC, contou toda a verdade. Cavallina já está em liberdade, como Mutti que cumpiu 8 anos de prisão. Ao contrário do que sustentam os lobistas de Battisti, ele não está desaparecido e com outra identidade. Depois de cumprir 8 anos de pena voltou para sua antiga casa e trabalha como operário. Na semana passada, deu entrevista à imprensa e confirmou as acusações contra ele próprio e Battisti.
Tudo se encontra nos autos, que Tarso Genro afirmou ter lido e, ontem no blog do jornalista Josias de Souza, sustentou que tais provas só serviam para condenar àquela época. Segundo Genro, nenhum juiz, hoje, condenaria Battisti, com tais provas.
Parêntese: Tarso Genro não me consultou a respeito de condenação de Battisti. Talvez por já estar aposentado ele apenas consultou todos os magistrados da ativa, para essa canhestra afirmação.
De se destacar, mais uma vez, que não cabe a Genro entrar no mérito do acerto ou erro das condenações pela Justiça italiana. Ainda, é ridícula sua afirmação, pois existia prova suficiente e induvidosa sobre a participação, ativa ou como mandante, de Battisti nos quatro homicídios.
–2. Os advogados de Cesare Battisti, –que antes de entrar para o grupo Proletários Armados para o Comunismo (PAC), era ladrão, abusou sexualmente de pessoa incapaz e seqüestrou uma pessoa–, defendem a tese da extinção imediata do processo de extradição, sem exame do merecimento do pedido do Estado italiano.
Pela tese jurídica apresentada pelos supracitados advogados, a concessão de status de refugiado político outorgada pelo ministro Tarso Genro impediria o exame, pelo Supremo Tribunal Federal, do merecimento (mérito) do pedido de extradição formulado pelo Estado italiano.
O procurador geral da República, Antonio Fernando Souza, que é o chefe do ministério público federal e atua junto ao STF, teve, ontem, o mesmo entendimento dos advogados de Battisti.
Em outras palavras, sobre o pedido de extradição formulado pelo Estado italiano, o procurador geral é favorável. Ou seja, entende ser caso de concessão de extradição. Mas, diante do fato novo representado pela concessão administrativa de refúgio a Battisti, entendeu o procurador geral da República, no seu parecer, não poder o STF apreciar o mérito do pedido de extradição. Até porque Battisti, com a decisão de Genro, recebeu um status que lhe protege contra toda e qualquer tentativa de retirá-lo do Brasil.
O parecer do procurador-geral da República é técnico-jurídico. Ele apreciou os efeitos da decisão concessiva de refúgio de Tarso Genro.
Com o parecer, duas questões legais aparecem.
Primeira, o exame da extinção do processo de extradição, sem exame do mérito, poderá ser feita pelo ministro que atende ao plantão Judiciário, nesta época de recesso ?
Se o ministro de plantão julgar extinto o processo, terá, necessariamente, de colocar Battisti em liberdade, expedindo alvará de soltura.
Na hipótese de encaminhar a decisão para o plenário (11 ministros), só em fevereiro, pós recesso de férias do STF, haverá solução. Cautelarmente, Battisti poderá ser colocado em prisão domiciliar. Na França, quando colocado em prisão domiciliar com obrigação de semanalmente comparecer à Justiça, Battisti fugiu, pois já imaginava que a extradição seria concedida pela Justiça francesa.
Como a nossa Constituição da República estabelece que nenhuma questão pode ser excluída da apreciação do Judiciário, há, no caso Battisti, uma controvérsia a ser solucionada. Ou seja, um conflito entre o pedido do Estado italiano (extradição) e uma posterior decisão administrativa do ministro da Justiça. Assim, penso que o STF poderá apreciar a legalidade e o mérito da decisão de Genro: risco de perda de vida por parte de Battisti em face de o Estado italiano não ter condições de lhe dar segurança, caso extraditado.
Deixo destacado que as duas soluções são defensáveis juridicamente, embora prefira a segunda, pela absoluta falta de suporte fático-real na decisão do ministro. Aliás, ele esqueceu que a lei que citou para fundamentar a sua absurda decisão estabelece, expressamente, a proibição de concessão refúgio político a terrorista.
O correto será o ministro de plantão encaminhar ao Plenário a decisão. Mas, desde que o ministro Gilmar Mendes soltou, por habeas-corpus que não era da competência do STF o banqueiro Daniel Dantas, não há segurança quanto a ausência de futuros atropelos. Tudo a transformar o STF, que é colegiado, em órgão monocrático, pela atuação do plantonista de turno.
Vale lembrar, também, que, depois de um juiz federal, do Tribunal Regional Federal e do Superior Tribunal de Justiça, terem negado habeas-corpus a Salvatore Cacciola, o ministro-plantonista, Marco Aurélio de Mello, por liminar, deu-lhe ordem de soltura. Dispensável dizer que Cacciola fugiu, como até a torcida do Flamengo imaginava, menos o ministro Marco Aurélio.
–3. A folha de antecedentes de Cesare Battisti foi estampada na mídia italiana.
–4. PANO RÁPIDO. Battisti luta contra o tempo. A indignação aumenta. Os factóides criados pelo ministro Tarso Genro são destruídos diariamente.
Apostar na patriotada, — da decisão soberana–, representa típico arroubo autoritário, de quem não percebe a importância da cooperação internacional e despreza valores humanitários.
A dor dos familiares das vítimas de Battisti não contam para Tarso Genro e, Lula, que não leu o processo e só conhece os fatos por embargos auriculares, só perde prestígio, infelizmente.
–Wálter Fanganiello Maierovitch–

Dois pensamentos, de graça

January 23, 2009

O pessimista se queixa do vento; o otimista espera que ele mude; o realista ajusta as velas.

William George Ward

É melhor acender uma vela do que amaldiçoar a escuridão.

Confúcio

Govermentium

January 22, 2009

Recebi por email, sem créditos…

Heaviest element known to science just discovered

A major research institution (MRI) has recently announced the discovery of the heaviest chemical element yet known to science. The new element has been tentatively named Governmentium. Govermentium (Gv) has one neutron, 25 assistant neutrons, 88 deputy neutrons, and 198 assistant deputy neutrons, giving it an atomic mass of 312. These 312 particles are held together by forces called morons, which are surrounded by vast quantities oflepton-like particles called peons.

Since Governmentium has no electrons, it is inert; however, it can be detected, because it impedes every reaction with which it comes into contact. A minute amount of Governmentium can cause a reaction that would normally take less than a second to take from four days to four years to complete.

Governmentium has a normal half-life of 2-6 years; It does not decay, but instead undergoes a reorganization in which a portion of the assistant neutrons and deputy neutrons exchange places. In fact, Governmentium’s mass will actually increase over time, since each reorganization will cause more morons to become neutrons, forming isodopes.

This characteristic of moron promotion leads some scientists to believe that Governmentium is formed whenever morons reach a critical concentration. This hypothetical quantity is referred to as critical morass. When catalyzed with money, Governmentium becomes Administratium, an element that radiates just as much energy as Governmentium since it has half as many peons but twice as many morons.

Na minha.

Quanto a Obama, prefiro ser discreto. Se, daqui há alguns anos, seu Governo for excelente, estarei eu comemorando na praça. Outros, no entanto, estarão tímidos, presos pelo tamanho de suas expectativas.

Se for ruim estarei na frente, pois já comecei desde agora a tentar entender o porque.

PS.: Mas nada que deva impedir a emoção de assistir a um momento que só se repetiu 44 vezes na história.

Políticos italianos iniciam greve de fome pela extradição de Battisti

January 20, 2009

Da Ansa, em Roma

Quatro expoentes da organização política conservadora MPI (Movimento pela Itália) iniciaram nesta terça-feira uma greve de fome para protestar contra a concessão de refúgio político por parte do Brasil ao ex-ativista italiano Cesare Battisti.
Segundo a direção do MPI em Roma, os políticos Fabio Sabbatani Schiuma, Paola Marraro, Massimo Larcinese e Michele Lunetta protestam pela extradição de Battisti, condenado em 1993 pela Justiça italiana à prisão perpétua.
O Movimento pela Itália também anunciou uma manifestação na próxima quinta-feira, às 14h, em frente à embaixada brasileira em Roma, “onde simbolicamente serão recordados quatro homicídios cometidos pelo terrorista vermelho”.

Tarso Genro que se vire pra explicar porque concedeu asilo a um assassino. Quem pariu Mateus que o embale. Mais uma piada de mau gosto da nossa República Bananeira.

A cotação das almas.

January 7, 2009

O mundo tenta me convencer que é hipócrita por natureza. Todos os que hoje se levantam pela defesa dos direitos humanos, se calaram para o que relato abaixo. E isto é só um capítulo. Tenho muito mais a contar.

O genocídio em Rwanda

No início dos anos noventa, Rwanda vivia uma guerra civil aberta. Expulsos em episódios anteriores, a população Tutsi retornava ao país e uma disputa com a etnia Hutu pelo poder começava. Entre vários grupos rivais, estavam entre eles o RPF (Rwandan Patriotic Front), da etnia Tutsi, e o CDR (Coalition for the Defence of the Republic) dos Hutus extremistas, que detinham o poder. Em 1993 um acordo de paz é assinado, criando as bases para um governo compartilhado do país, mantendo o CDR no comando do governo. No entanto a ideologia “Hutu Power” já tinha sido difundida pelos Hutus extremistas, em resposta ao desejo Tutsi de formar uma nação – tinha sido incluida nos programas escolares e evidenciada na criação de um exército exclusivamente Hutu. Rádios e jornais começam a pregar o extermínio dos Tutsi, incluindo o estupro e morte das mulheres e crianças.

Em Abril de 1994, Hutus extremistas começam colocar em prática o plano da solução final, em uma operação meticulosamente preparada. Imediatamente após o início do genocídio, as forças da RPF entram em ação e a guerra civil recomeça, em paralelo ao massacre. Depois de 100 dias a RPF, liderada por Paul Kagame (futuro presidente do país), toma o poder e controla a situação, mas aproximadamente 800 mil pessoas já tinham sido assassinadas. Os genocidas então se misturam aos dois milhões de Hutus civis que estavam fugindo do país, como resultado da guerra. No primeiro mês de caminhada em direção ao Zaire, a cólera e a desinteria matam pelo menos 50 mil refugiados. A ONU entra com ajuda humanitária e ajuda a manter campos no Zaire e na Tanzânia (perto da fronteira com Rwanda), ao custo de 1 milhão de dólares por dia, custeado pelos governos ocidentais.

Os genocidas logo começam a comandar os campos de refugiados e de lá, orquestrar ataques ao território de Rwanda e aos Tutsis. Os grupos de ajuda humanitária não tem como controlar a situação. Apenas Bangladesh aceita enviar uma força de capacetes azuis, de um total de 39 países requisitados. Sem saída, a UNHCR (UN High Commissioner for Refugees) paga ao governo do Zaire pelos serviços de seu exército para prover segurança nos acampamentos de refugiados.

A situação permanece instável até Agosto de 1996, quando o exército de Kagame invade o Zaire para fechar os campos e eliminar os Hutus de uma vez por todas. Eles se unem ao movimento rebelde do Zaire, comandado por Laurent-Désiré Kabila, um “warlord” marxista de 56 anos, desejoso de tomar o poder no Zaire, derrubando o presidente Mobutu. 250 mil pessoas fogem dos acampamentos atacados em direção aos ainda preservados. Mas estava claro que nenhum acampamento seria preservado. A UNHCR tenta de todas as formas preservar a integridade dos acampamentos remanescentes. De um lado lutam as tropas de Mobutu e os genocidas Hutus, e do outro perfilam-se o exército de Kagame e o movimento de Kabila.

Neste interim, mais de 500 mil refugiados que fugiram para a Tanzania, começam a ser obrigados a voltar para Rwanda da noite para o dia, sem saber o que lhes iria acontecer, numa operação conduzida com muita violência pelo governo daquele país.

Em Maio de 1997 Kabila assume o poder no Zaire e funda a Republica Democratica do Congo.

Acredita-se que mais de 213 mil refugiados devem ter morrido desde que fugiram de Rwanda, totalizando mais de um milhão de mortos no conflito.

Fontes:
The Economist Magazine
Wikipedia (http://en.wikipedia.org/wiki/Rwandan_Genocide),
Chasing the Flame, Samantha Power, 2008.

É isso aí. Nos anos noventa um milhão de africanos foram mortos e você nem ficou sabendo. Entre 2003 e 2004, mais 250 mil deles foram assassinados. Hoje, mais de 2 milhões são refugiados, em conflitos que ainda vou contar por aqui.

Enquanto escolhermos os seres humanos que queremos defender, como civilização estamos fadados ao fracasso.

China’s Charter 08

December 30, 2008

China’s Charter 08
The New York Review of Books, Volume 56, Number 1 · January 15, 2009
Translated from the Chinese by Perry Link

The document below, signed by more than two thousand Chinese citizens, was conceived and written in conscious admiration of the founding of Charter 77 in Czechoslovakia, where, in January 1977, more than two hundred Czech and Slovak intellectuals formed a loose, informal, and open association of people…united by the will to strive individually and collectively for respect for human and civil rights in our country and throughout the world.

The Chinese document calls not for ameliorative reform of the current political system but for an end to some of its essential features, including one-party rule, and their replacement with a system based on human rights and democracy.

The prominent citizens who have signed the document are from both outside and inside the government, and include not only well-known dissidents and intellectuals, but also middle-level officials and rural leaders. They chose December 10, the anniversary of the Universal Declaration of Human Rights, as the day on which to express their political ideas and to outline their vision of a constitutional, democratic China. They want Charter 08 to serve as a blueprint for fundamental political change in China in the years to come. The signers of the document will form an informal group, open-ended in size but united by a determination to promote democratization and protection of human rights in China and beyond.

Following the text is a postscript describing some of the regime’s recent reactions to it.
—Perry Link

I. FOREWORD
A hundred years have passed since the writing of China’s first constitution. 2008 also marks the sixtieth anniversary of the promulgation of the Universal Declaration of Human Rights, the thirtieth anniversary of the appearance of the Democracy Wall in Beijing, and the tenth of China’s signing of the International Covenant on Civil and Political Rights. We are approaching the twentieth anniversary of the 1989 Tiananmen massacre of pro-democracy student protesters. The Chinese people, who have endured human rights disasters and uncountable struggles across these same years, now include many who see clearly that freedom, equality, and human rights are universal values of humankind and that democracy and constitutional government are the fundamental framework for protecting these values. (more…)

Duas ou três coisas que sei sobre o Natal.

December 28, 2008

Eu acredito que o ser humano não existe desvinculado da história, tanto sua e de sua família, quanto da sociedade em que vive. É através do entendimento histórico que podemos entender por que motivo agimos desta ou daquela maneira. Talvez por isso as tradições de povos outros nos pareçam tão carentes de sentido. É que nos falta a linha do tempo pela qual estes povos são moldados, como água em pedra, durante séculos e séculos. Por conta deste mecanismo de identidade é que as respostas que queremos para o comportamento de nosso tempo devem ser buscadas no passado. E falo isso para explicar como entendo o Natal.

Houve um tempo no qual as tradições eram necessárias para unir as pessoas de uma mesma comunidade. Era a forma como identificávamos nosso grupo. Não é preciso ir muito longe: no Brasil existe a capoeira e seu ritual, o boi-de-mamão ou boi-bumbá, o reizado e muitas outras. Todas essas manifestações serviam de cola para determinados grupos. Um símbolo, antes de mais nada, de unidade. Hoje nossa identidade é determinada por uma infinidade de símbolos que vem e vão em grande velocidade, mas que não permanecem por tempo suficiente para merecer mais atenção das gerações futuras. As músicas e suas danças não duram muito, a tecnologia muda hábitos e necessidades, a Natureza nos impõe limites. Mesmo assim muita coisa ainda permanece. Todo o brasileiro tem orgulho do seu carnaval, pra ficar só em um exemplo. O carnaval ajuda a identificar o brasileiro. É nossa tradição. Mesmo o brasileiro que não gosta da festa, sabe que ela faz parte de sua identidade.

E as antigas tradições que recebemos de nossos avós? Muitas delas não parecem fazer sentido pois o tempo no século XX foi o primeiro talvez a não respeitar uma regra de ouro de tudo o que é relacionado à identidade: mudar lentamente. E aqui estamos nós com fragmentos de rituais de um mundo que não existe mais. Aí é que entra o Natal, uma festa um tanto estranha para muitos de nós. Mas a primeira coisa talvez a ser feita antes de etiquetarmos o Natal como festa esquizofrênica e consumista, pervertida pelo mundo moderno, é olhar de onde vem essa festa e porque a celebramos.

O primeiro passo é entender que o Natal existia antes de Cristo. Numa tentativa de fortalecer o Sol, aparentemente debilitado durante o inverno, diferentes culturas (Gregos, Mesopotâmios, Persas, Romanos…) celebravam uma festa para o Deus Sol na época do solstício. Foi só algum tempo após a morte de Cristo que os cristãos passaram a usar a festa do solstício para celebrar o “Natal”, ou festa da natividade, e adaptaram vários de seus símbolos que, afinal, tanto se encaixavam para celebrar o Deus que vem dar a vida. É daí que vem o hábito das luzes nas janelas (para “ajudar” o Sol) ou mesmo o hábito da troca de presentes. Dar presentes, em praticamente todas as culturas, significa generosidade e esta é frequentemente associada ao Sol (o ser generoso mor). Os paralelos com o astro celeste são inúmeros. E para a infelicidade dos povos do hemisfério sul, é por essa razão que as principais festas Cristãs são quando são: o Natal no solstício e a Páscoa no início da primavera no Norte.

Aqui insiro minha primeira reflexão: cristãos, o Natal não é, para todas as pessoas, a celebração do nascimento de Cristo. Não devemos ficar tristes pelo mundo ter desvirtuado o sentido da festa. Nós é que marcamos a nossa festa na mesma data de uma festa mais antiga. Segunda reflexão: símbolos tem um significado vago e elástico e estritamente pessoal. A cruz significava vergonha mas para os cristãos passou a ser caminho de salvação. Nós herdamos esses símbolos da história. História feita também por mãos cristãs. O que eles significam para os cristãos não deve ser afetado se o resto da humanidade resolver lhes dar outra tradução. Mais ainda quando fomos nós a mudar o significado. Natal é celebração de alegria pelo nascimento de Jesus, mas pode ter outra definição para o seu vizinho. Qualquer tentativa de condená-lo por não entender a festa como nós entendemos é a negação mesma do que é ser cristão.

E somos por isso obrigados a engolir esse velhinho encasacado? Claro que não. Podemos viver nossa vida como desejarmos. Mas entender que somos parte de um legado nos poupará bastante sofrimento. O Natal como ele é hoje, com troca de presentes, mesa farta, luzes, não é fruto do consumismo. Ele é resultado de nossa própria história, veio para o Brasil quando nossos antepassados vieram, resistiram a miscigenação que nos fez brasileiros, foi mudado por ela, e está aqui para ser vivido. Para algumas pessoas, a árvore de Natal, o Papai-Noel, as luzinhas, não significam nada, o que é perfeitamente normal. Mas para outras têm a ver com a sua identidade, assim como o carnaval para a maioria dos brasileiros. Para estas pessoas dar presentes no Natal, enfeitar a casa e ter uma bonita ceia é a sua definição mesma como indivíduos pertencentes a um grupo. Nesse ponto, sem pretender ser maior do que o nascimento de Cristo, o Natal tem outros significados até mesmo para nós cristãos. E não há nada de mal nisso.